Mostrar o que é próprio do modo de ser e de estar cristão no mundo é tarefa proposta pelo magistério de Bento XVI nas suas cartas encíclicas.
Uma encíclica é um documento de carácter doutrinal dirigido pelo Papa a toda a Igreja – dos Bispos aos fiéis leigos – sobre questões de fé e prática cristã. Nas encíclicas de carácter social os Papas começaram a incluir também os “homens e mulheres do mundo inteiro”, mostrando a perspectiva humanista e universal do seu conteúdo. Uma encíclica reflecte normalmente a actualidade da
Igreja e do mundo, as circunstâncias relacionadas com a fé e a sociedade em que os cristãos vivem e também personalidade e as preocupações do Papa que a publica. Na encíclica “Deus é amor” Bento XVI fez uma leitura da mensagem e do modo de estar cristão no mundo a partir da realidade do amor, dom de Deus e chave das relações humanas. Clarifica o sentido do amor cristão nas suas várias dimensões e tira as consequências práticas para as relações humanas e sociais e reforma das estruturas políticas. Em “Salvos na esperança”, Bento XVI toma como tema outra virtude teologal: a esperança.
A esperança cristã não é a fuga para a frente perante as injustiças, sofrimentos ou dificuldades do presente, nem conformismo resignado e impotente dos fracos. A esperança apoia-se na fé no Deus presente na história, é a convicção de que com Ele a vida do homem tem sentido, tem um futuro, um futuro absoluto.
É o compromisso de acção para que o reino de Deus e a sua justiça aconteça neste mundo, torne mais fecunda a vida de cada um e mais solidárias e fraternas as relações entre todos.
Servindo-se de duas noções da moderna teoria da linguagem, o Papa esclarece que a mensagem cristã não é apenas “informativa”, transmissão de conteúdos, de uma doutrina, é “performativa”, realiza o que significa. O Evangelho é “comunicação que gera factos e muda a vida”. A esperança cristã é o começo daquele futuro absoluto em que se crê, é uma vida nova orientada para Deus cuja presença lhe dá sentido e conteúdo. O encontro com o Deus de Jesus Cristo é “performativo”. Pela fé acredito não só que Deus existe como acredito na existência de uma estrela longínqua, mas que
Deus me mostrou em Cristo o seu amor único e me abre o caminho da vida eterna. Essa vida eu a tenho já em começo, em esperança. “Quem tem esperança vive diferentemente, foi-lhe dado uma vida nova” (2) O homem não está apenas sob o domínio da natureza e das suas leis, mas também da graça, do Deus que o criou, que o redimiu, que o ama e que é o seu fim último.
A esperança abre os horizontes para a “vida eterna”, a plenitude da vida, resposta perfeita às aspirações humanas. Não a podemos explicar adequadamente em termos do conhecimento humano que é limitado, mas está presente e transforma a nossa maneira de ver e de estar com os outros no mundo. O testemunho dos santos e dos mártires mostra-nos que é um bem que supera de tal forma os bens do mundo que vale a pena por ela deixá-los ou arriscar a vida (9).
O Papa faz uma análise do processo de secularização da esperança transmutada em fé no progresso das ciências e das estruturas políticas e da deslocação da fé religiosa para o domínio do privado e do ultraterrestre.
Nem a ciência nem as revoluções comunistas ou burguesas vieram instaurar o paraíso na terra que prometiam, nem satisfizeram a busca de sentido do homem. Demonstraram sim que a felicidade, a paz e a justiça não dependem apenas da transformação das estruturas, mas da liberdade humana, do esforço moral por respeitar a dignidade de cada homem e de construir um mundo solidário. Essa é tarefa a prosseguir permanentemente tanto no plano individual como no social.
A crítica de algumas “crenças”, expressões culturais e práticas rituais relacionadas com a esperança, impõe à Igreja uma reflexão que lhes restitua a autenticidade.
À “autocrítica da idade moderna,” deve corresponder “uma autocrítica do cristianismo moderno” para “aprender sempre de novo a compreender-se a si mesmo a partir das próprias raízes” (23). O nosso conhecimento e linguagem referente às realidades espirituais e sobrenaturais serão sempre deficientes. Por isso, é preciso esclarecer e corrigir algumas visões e práticas de espiritualidade tradicionais marcadas por coordenadas culturais individualistas, intimistas e uma visão pessimista do Juízo de Deus e dos “novíssimos”. A salvação não é relação egoísta e competitiva de cada um com Deus e com os outros, nem o Juízo a vingança de Deus. Há, sem dúvida, uma aspiração de justiça e uma dimensão pessoal da esperança que tem o lastro da experiência única de cada um. Mas essa experiência processa-se numa comunidade, da qual brota, na qual se alimenta e purifica, dentro da qual se vive e compartilha. A esperança tem uma dimensão comunitária na sua origem, a comunhão com Deus e com os outros, e nas expressões em que se manifesta e testemunha ao intervir no mundo. A esperança é activa “no sentido de mantermos o mundo aberto a Deus”. É “sempre esperança também para os outros” (34). A esperança também se exercita, também se aprende. A encíclica aponta “três “lugares” de aprendizagem e de exercício da esperança”: a oração (32-34), a acção e o sofrimento (35-39), o Juízo (41-44).
“Orar não significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade” (33). Pelo contrário, é compartilhar na comunhão com Deus as alegrias e tristezas, as aspirações e fracassos dos homens concretos. É abrir-nos a Deus e aos outros, sujeitando os nossos pedidos ao critério de
Deus e ao bem do próximo. A oração é prova de autenticidade, confronto com a verdade de nós mesmos. É encontro único com o Deus vivo na intimidade da própria consciência, é pessoal.
No “entrelaçamento de oração pública e oração pessoal” pelo qual Deus fala em nós e nós falamos a Deus (34) une-nos à Igreja, assembleia local e mistério da comunhão dos santos. A acção é exercício e fonte de esperança. Pela acção o cristão, rectamente orientado e dentro dos limites da sua falibilidade e circunstâncias, concretiza aquilo em que acredita, contribuindo para a construção deste mundo de acordo com os valores do mundo novo que espera. A acção fortalece a própria esperança e leva a esperança aos outros (35). A finitude da existência humana inclui o sofrimento como componente inevitável. Podemos limitá-lo, evitando as causas do sofrimento moral e de algum sofrimento físico, mas não está na nossa mão acabar com ele.
Haverá sempre sofrimento pela disparidade entre os nossos desejos e limites, por causa dos outros e com os outros, sofrimento como testemunho de valores maiores e inalienáveis. “Nas provações verdadeiramente graves, quando tenho de assumir a decisão definitiva de antepor a verdade ao bem-estar, à carreira e à propriedade, a certeza da verdadeira grande esperança faz-se necessária.” (39)
O triunfo dos mais fortes, a opressão dos fracos e inocentes, a violência institucionalizada, a banalidade do mal, a negação do mínimo de vida de tantos, a promoção da humilhação, da tortura e do sofrimento, mostram a injustiça das relações humanas e das estruturas que as regem. A injustiça da história apela para um juízo imparcial, para uma ordem que reponha a justiça. Nesta exigência se enxerta a aspiração a uma outra justiça, ao justo juízo de Deus, à esperança cristã. “Deus existe, e Deus sabe criar a justiça de um modo que nós não somos capazes de conceber mas que, pela fé, podemos intuir. Sim, existe a ressurreição da carne. Existe uma justiça. Existe a «revogação» do sofrimento passado, a reparação que restabelece o direito. Por isso, a fé no Juízo final é, primariamente, e sobretudo esperança – aquela esperança, cuja necessidade se tornou evidente justamente nas convulsões dos últimos séculos” (43) A esperança é confiança no Deus que vem ao nosso encontro e caminha connosco na história e que constitui a plenitude da vida, a vida eterna. Abre-nos a Deus e aos outros, promove activamente essa vida qualitativamente superior na nossa condição terrena, estimula-nos a tornar realidade a ordem justa que aspiramos e que pelo exemplo, palavra e mistério de Jesus podemos intuir. A encíclica “Salvos na esperança” ajudarnos-á a viver e a testemunhar a esperança neste tempo que é o nosso.
Por Octávio Gil Morgadinho - colaborador do Jornal da Família