Cebolais de Cima, ridente povoação que se ergue a 12 quilómetros de Castelo Branco, há uma década atrás, era uma progressiva freguesia, onde matraqueavam, sem cessar, 30 fábricas de lanifícios. Até há poucos anos era considerada o maior empório da indústria de lanifícios, no Sul da província da Beira Baixa, onde coexistia uma próspera “indústria caseira”, ao lado de bem apetrechados centros fabris, equipados com moderna maquinaria de ponta e sofisticada engenharia têxtil, que deslumbrava quem a visitasse, com as inovações mecânicas, inéditas no nosso país, onde encontravam ocupação laboral, cerca de 1.500 trabalhadores.
Porém, nada disto impediu que todas as fábricas, de “cardados” e de “penteados”, fossem arrastadas para a absorvente crise de lanifícios, que se instalou por toda a Europa, com a entrada, a esmo, no mercado dos produtos têxteis, dos tecidos produzidos, a baixos preços, nos países do Leste Europeu, nomeadamente na China, onde a mão de obra é de reduzida remuneração.
No transacto mês, praticamente encerrou os seus portões, a moderna e credenciada Fábrica dos Lanifícios do Pereirinho, de Cebolais de Cima. Não ficou a dever um cêntimo a quem quer que seja, pois saldou todas as dívidas aos fornecedores, ao fisco, à Segurança Social e indemnizou os cerca de 40 operários, que ainda ali laboravam, com as compensações estabelecidas na lei laboral, pelo transtorno que este encerramento lhes iria provocar.
Com este compulsivo fecho de mais uma fábrica, mais quatro dezenas de trabalhadores e seus agregados familiares, ficam sem posto de trabalho e a respectiva remuneração mensal.
Cebolais de Cima, que era uma florescente freguesia onde chegaram a viver perto de três mil pessoas, está, neste momento, reduzida a umas centenas de habitantes, que se obstinam em ali residir, por todas as fábricas de lanifícios, que ali se encontravam instaladas, terem encerrado.
É uma profunda tristeza, mas é uma bem palpável realidade. E os cebolenses que ali tinham o seu modo de vida e que possuíam um nível de vida superior aos parisienses, agora começam a debandar e a acordar para a realidade que se vive, despertando da profunda letargia em que estiveram a hibernar. Só agora começam a ver e a avaliar a dimensão que esta crise está a tomar e os caliginosos efeitos que daí advêm, tal como a comunicação social há muito vinha alertando, embora houvesse quem tomasse estas informações como “bombásticas notícias”, nomeadamente quando se falava do desemprego que estava alastrado no nosso país e que estava subindo, em flecha, sem que nada se fizesse para obstar a esta situação. Resultado, hoje o desemprego, em Portugal, já ultrapassa os índices da nossa vizinha Espanha.
É uma situação que era inacreditável, há 20 anos atrás. A Espanha que tem uma extensão territorial de 504.880 quilómetros quadrados, isto é, é cinco vezes maior que Portugal. Que tem 39.187.000 habitantes, quando Portugal tem apenas 91.630 quilómetros quadrados e é habitado por apenas 9.868.000 residentes, consegue ter uma taxa de desemprego inferior à nossa, segunda nos informa a Eurostat.
O próprio primeiro-ministro já reconheceu esta penosa realidade, contrariando a argumentação de muitos “palradores” que já se apressavam na desvalorização desta situação. José Sócrates, honra lhe seja feita, foi peremptório, asseverando que estamos a viver um momento crítico e altamente preocupante, com esta inesperada subida do desemprego.
Honesto e consciente como é, José Sócrates, neste momento, já deve estar bastante arrependido de ter anunciado, em plena campanha eleitoral, que iria criar os tais redentores 150 mil postos de trabalho...
Afinal, razão tinha alguém quando dizia que para certos políticos, prometer era fácil e que era tão fácil ser governo e tão difícil governar...
Segundo os dados estatísticos do INE, neste momento, em Portugal os desempregados já ultrapassam os 500 mil, embora estejamos na sazonalidade do verão, quando o turismo costuma criar muitos postos de trabalho, o que faz baixar as taxas de desemprego. Ora, com tantas empresas a irem para a insolvência e outras a fecharem, como os Lanifícios do Pereirinho, em Cebolais de Cima, que encerrou por escassez de encomendas, o número de desempregados já será muito maior e o panorama de muitas famílias, cada vez mais sombrio e deveras aflitivo. Por este caminho, não virá longe o dia em que as famílias passem à indigência a espreitar as casas dos poucos remediados, para apanharem a pestana de bacalhau, à sorrelfa, que eles deitem fora...
Segundo consta, mais de vinte por cento das famílias portuguesas estão a viver endividadas. De acordo com o que há dias revelou a emissora de Rádio Difusão “Antena 1”, em cada dez casas à venda, nove pertencem a pessoas que estão insolventes devido às constantes subidas das taxas de juro dos créditos para compra de habitação; da permanente elevação do custo de vida e da congelação dos salários, quando não são lançados no desemprego, através de sofisticadas formas de “flexissegurança” e da eufemística acção de “mobilidade” ou dos temíveis “quadros de excedentários”, o que obriga a que muitos cidadãos deixem de poder cumprir com os seus compromissos com a banca, que está a ficar como sendo a proprietária de muitos imóveis, para a aquisição dos quais concedeu créditos monetários.
Com estas novas políticas salariais, com subida constante dos impostos o que ocasionou que muitos dos reformados passassem a receber menos que auferiam o ano passado, com as taxas de juros a treparem desmesuradamente, com o Banco Central Europeu, que é quem tudo comanda, a obrigar que o défice se situe nos três por cento, com a despesa pública a aumentar, como está previsto no próximo Orçamento do Estado, as famílias portuguesas estão a ficar cada vez mais arruinadas e a viver em aflição permanente.
Consta que neste momento, já há quem se disponibilize a vender um dos seus rins para poder saldar compromissos financeiros que de outro modo não consegue resolver. Se isto é verdade, é o cúmulo...
Tudo isto tem também muito a ver com a nossa adesão à moeda única da Europa, ao Euro, o que fez desvalorizar imenso o escudo e o poder de compra. UM café, que dantes custava 50 escudos passou a ser vendido a um Euro, o que representa duzentos escudos e assim sucessivamente.
Portugal, no pretérito mês de Agosto, tinha a terceira maior taxa do desemprego, dos países da União Europeia, 8,3%, segundo o EUROSTAR. A França, situava-se nos 8,6% e a Grécia registava 8,4%. Só que segundo os últimos dados estatísticos, nestes dois países a taxa de desemprego está a decrescer, enquanto que em Portugal continua a aumentar e o Governo sem nada fazer para contrariar esta calamitosa situação.
Não haverá nenhum Governo que seja capaz de fazer regredir a despesa do Estado, quando isso seria tão fácil se reduzissem os Ministérios, se diminuíssem o número de Deputados na Assembleia da República. Se suprimissem muitos carros da luxuosa frota ao serviço dos membros do Governo?...
Era preciso que houvesse vontade política, não existissem complexos cromatológicos e os políticos pensassem mais no Povo, nesse Povo que nem sabe o que é isso do défice e só vê diminuir o seu poder de compra...
Mas estou crente que o Povo não dorme.
Por Fabião Baptista - colaborador do Jornal da Família