Diário da Assembleia Geral do ISCF

“Tudo o que se fizer a bem da família, por pequeno que seja é grande”. (Mons. Brás)

A Família no centro das atenções

Encontra aqui os vários artigos do Dr. Juan Ambrósio sobre a Família...

Encontro Mundial das Famílias 2015

O Vaticano apresentou dia 24 de março em conferência de imprensa o 7.º Encontro Mundial da Família, que vai decorrer de 22 a 27 de setembro de 2015 na cidade norte-americana de Filadélfia.

A saúde mental dos portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...

O trabalho, dom e direito

A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...

Longe vão os tempos

Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...

Dar esperança em tempo de crise

Vivemos tempos difíceis. A família, como célula base da sociedade, é imediatamente afetada por esta crise generalizada e que promete perdurar. Neste contexto, exige-se um novo paradigma, uma nova forma de estar e de nos relacionarmos.

18 de fevereiro de 2008

Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

e Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano

Os Grandes Santos
____________________________________

Dia 21 de Fevereiro, quinta feira, 21.30

Santo Inácio de Loyola

Pe. Miguel Gonçalves Ferreira sj.

(Padre Jesuita e Director do CUPAV))

No Salão Paroquial

(esquina da Av. Maria Helena Vieira da Silva com a R. Raul Mesnier du Ponsard) Metro da "Quinta das Conchas"

15 de fevereiro de 2008

14 de fevereiro de 2008

A Família, baluarte e sinal de Esperança

Consciencializamos diariamente que a sociedade é violenta, onde são evidentes os contrastes, as diferentes correntes de pensamento, os valores antagónicos que geram instabilidade, insegurança e promovem um clima de mal-estar, um ambiente hostil, desagregante...
Os meios de comunicação social falam por si!

Não existem em muitos sectores critérios seguros para distinguir o justo do injusto, o bem do mal, o belo do feio; é tudo relativo, subjectivo. Não existem verdadeiros valores. Tudo depende das circunstâncias e dos interesses de momento, em jogo... A partir destas posições, facilmente se conclui que os princípios e valores que tradicionalmente eram considerados imutáveis, ou foram postos em causa por muitos, ou abandonados. O que predomina actualmente, segundo muitos autores, são apenas posições relativistas ou niilistas. Mas a Família é e será sempre o baluarte da esperança, a base do equilíbrio da sociedade e o principal factor de estabilidade que nenhuma crise pode abalar. Nada poderá ofuscar a beleza das famílias estruturadas pela força sacramental do Matrimónio, alicerçadas na fidelidade e generosas no serviço da Vida. A Família, célula base da sociedade, regularmente constituída, não está em crise. Mas não se podem ignorar os problemas e perigos que a ameaçam provenientes de uma certa cultura contemporânea que tem provocado uma relevante crise “ambiental” da instituição familiar.
A época moderna difundiu a consciência da individualidade do ser humano que, embora por si seja positivo, foi conduzindo ao individualismo egocentrista, egoísta.
Assim, a cultura do nosso tempo, fortemente marcada por esta dimensão egoísmo/ egocentrismo, apresenta diversos sinais de preocupante degradação no que se refere a valores essenciais:
Uma cultura do provisório, que prefere o
caduco ao perene, com a marca da eternidade;
- Uma cultura do
prazer, que apresenta o amor e a sexualidade como objecto de consumo imediato e descomprometido;
- Uma cultura do consumo e do bem-estar material, criadora de falsas, inúteis e ilusórias necessidades;
- Uma cultura da facilidade, que evita tudo o que exige esforço e sacrifício, produzindo pessoas incapazes de lutarem por objectivos elevados e exigentes;
- Uma cultura da irresponsabilidade que até relativiza os princípios éticos;
- Uma cultura de morte, que desvaloriza a vida humana e se deixa levar, levianamente, por lógicas materialistas e utilitaristas que se sobrepõem aos direitos das crianças não nascidas, dos débeis, dos doentes e dos idosos;
- Uma cultura difundida pelos meios de comunicação social que lançam a confusão e abafam os discernimentos familiares.
O desemprego e o trabalho precário apresentam-se também como sérias ameaças à família. Geram instabilidade, insegurança e desconfiança em relação ao futuro, destroem a harmonia e paz familiar.
Por outro lado, o sistema fiscal que penaliza as famílias numerosas, também se revela agressivo e desfavorável à promoção da família, não fomentando a natalidade... mas sim ao contrário.
As agressões legislativas recentes e sua aplicação prática, a fictícia protecção à maternidade, traduzem-se na redução ao mínimo, do número de filhos...
Com tudo isto, deparamos com uma situação insustentável...
Os “valores” relativistas (particulares, subjectivos) que têm sido defendidos e promovidos, têm vindo a revelar-se demasiado funestos para a Humanidade no seu conjunto.
Em consequência, impõe-se a necessidade de mudar, de mudar de rumo, procurando fomentar novos consensos em torno de valores humanistas e cristãos que nos serviam de guia para o nosso fim último e para o relacionamento interpessoal e colectivo. Está em causa o nosso futuro comum.

Mª Helena H. Marques

12 de fevereiro de 2008

Retiro para Jovens

Se queres participar neste retiro contacta: tu.importas@hotmail.com

Local: Casa de Santa Zita
Rua Santo António à Estrela, nº35
1399-043 Lisboa

Telemóvel: 964219354

Workshop Protecção Psíquica

Criando energias positivas para pessoas e lugares.
Data: 23 a 24 de Fevereiro de 2008
Local: Espaço Maiana, Av. Duque de Loulé, 47, 7D
Horário: das 10h às 18h30
Preço: 110€

Este workshop é conduzido pelo Dr. Jaime Graça, psicólogo e psicoterapeuta. Visa criar bem estar, equilíbrio, alegria e segurança na vida pessoal. São ensinadas técnicas básicas de protecção que podem ser utilizadas por qualquer pessoa em qualquer lugar: lidar com personalidades agressivas, manter barreiras e limites emocionais saudáveis, estar presente no aqui e agora, enraizamento, estar no corpo, intenção e afirmações positivas, sorriso interior, energização, protecção do campo energético, limpeza energética, técnicas rituais, símbolos e arquétipos de protecção

Inscrição: através do site http://www.jaimegrace.com/inscricao.htm ou do telefone 963453137

Mais informações ver video em YouTube http://www.youtube.com/watch?v=nNdNiY_vzUA
Jaime Graça Machado - Psicólogo e Psicoterapeuta

11 de fevereiro de 2008

Um ano de aborto livre

09.02.2008, José Paulo Areia de Carvalho

Perante tanto fervor abortista, mais cedo do que seria de esperar o país se dará conta do enorme erro que cometeu

Faz agora um ano que, com a vitória do "sim" no referendo, se liberalizou o aborto em Portugal. Os defensores do aborto - agora penso que já assumem que o são - tiveram, finalmente, o que tanto desejavam. Julgo que esta data devia impor-nos a todos uma reflexão serena.
Antes de mais, cumpre esclarecer que continuo a defender que o aborto, porque põe fim a uma vida humana, deveria manter-se como um acto genericamente proibido por lei (salvo os casos excepcionais que consubstanciam exclusão da ilicitude da sua prática). Não faço nenhum juízo de valor, menos ainda de condenação, sobre quem já abortou, mas isso não me impede de considerar o recurso ao aborto como um gravíssimo erro. Estou convencido de que, com um pouco de ajuda, teria sido possível encontrar uma solução que poupasse a vida do filho e, simultaneamente, fosse bem mais eficaz para a vida da mãe.
Não quero reproduzir aqui o velho argumentário pró-aborto, mas apelo à memória de todos: seguramente que sentimos que entre o discurso pré-referendo e a prática pós-referendo vai uma enorme diferença... Destaco somente dois argumentos antes usados: o aborto livre era necessário para, por um lado, acabar com a humilhação e o abandono das mulheres e, por outro, para pôr fim ao negócio do aborto clandestino.
O que nos revelou a prática pós-liberalização total do aborto? Que as mulheres, alvo preferencial da preocupação propagandística dos defensores do aborto, foram por estes completamente abandonadas depois do dia em que abortar passou a ser um acto livre. É lamentável, mas era expectável e até coerente; no fundo, a solução já fora encontrada: basta a grávida que sofre recorrer ao aborto, que aliás é livre e oferecido pelo Estado. Mais ajuda para quê?
É sintomático que, ainda hoje, quando se fala de apoios a grávidas que atravessam dificuldades, só sejam conhecidos aqueles que são prestados pelos movimentos pró-vida. Exactamente os mesmos que, por ocasião do referendo de 1998, começaram a trabalhar, quase sempre em regime de puro voluntariado, e que ainda agora, mesmo após a mudança da lei, se mantêm ao serviço das mães e das grávidas que atravessam dificuldades. Não têm soluções milagrosas para todas as situações, mas tentam ajudar na construção de um projecto de futuro, que dê sentido à vida daquela mulher e à vida dos seus filhos.
Com os defeitos que tem qualquer generalização, a verdade é que as circunstâncias, agora, permitem concluir que o que distingue os defensores do "sim" dos defensores do "não" é o facto de os primeiros serem mesmo a favor do aborto e os segundo serem mesmo a favor da vida. Por isso, perante a liberalização do aborto, aqueles acomodaram-se por já terem o que desejavam, enquanto estes, bem cientes que a defesa da vida é um combate de sempre, continuaram a trabalhar da mesma maneira, apesar da mudança radical do sentido da lei.
Acresce que o actual regime, ao impedir a grávida que equaciona abortar de ser recebida por um médico objector de consciência ou de realizar uma simples ecografia, antes da tomada de decisão, está a promover um consentimento que não é informado e, precisamente por isso, é tudo menos verdadeiramente livre. Ou seja, abortar passou a ser verdadeiramente um direito cuja prática não pode, sequer, ser dissuadida.
Por isso, os números da prática do aborto têm vindo a aumentar nestes poucos meses e o negócio abortista está florescente, com clínicas privadas a terem elevadas taxas de sucesso. Tudo isto perante o silêncio cúmplice daqueles que se diziam contra o aborto e contra o negócio que este, segundo garantiam, antes envolvia. O aborto deve ser mesmo o único negócio privado que a esquerda radical vê com muito bons olhos e cujos lucros não lhe causam incómodo absolutamente nenhum!
Estou certo de que, perante tanto fervor abortista e tanta incoerência, mais cedo do que seria de esperar, o país se dará conta do enorme erro que cometeu.

Deputado do CDS

8 de fevereiro de 2008



Estado «não está a fiscalizar» prática do aborto

Associação Juntos pela Vida considera que a questão não está fechada e contesta falta de preocupação com a maternidade

Um ano depois do referendo ter mudado a legislação sobre a prática do aborto em Portugal, a Associação Juntos pela Vida considera que esta questão ainda não está fechada.
Esta Sexta-feira, a Associação vai encontrar-se com Francisco George, director geral de saúde. A falta de informação e fiscalização estão na base das falhas que António Pinheiro Torres, secretário geral da Associação Juntos pela Vida aponta ao Estado e à Direcção Geral de Saúde.
“O consentimento informado não está a ser efectivo porque não está a ser fornecida informação actual à mulher que vai realizar o aborto”, explica o secretário geral à Agência ECCLESIA.
A Associação dá conta que a informação que a DGS faz circular sobre este assunto reporta-se a bibliografia com mais de 15 anos, “quando existem mais de 500 estudos com novas informações sobre as consequências do aborto na saúde física e psíquica da mulher”.
António Pinheiro Torres afirma haver uma “insistência do Ministério da Saúde na promoção do aborto legal”. Durante o período de discussão que antecedeu o referendo, eram indicados os estabelecimentos hospitalares para a prática do aborto: “Nunca se colocou a hipótese de o aborto ser praticado em Centros de Saúde, mas há três que o fazem”.
Esta “insistência da DGS não encontra equiparação com a preocupação com a maternidade”. António Pinheiro Torres lembra não só o encerramento de maternidades por todo o país mas “a falta de esforço da DGS para que as mulheres tenham condições para ter os seus filhos”.
Outra preocupação que a Associação vai levar à DGS é a publicidade que as clínicas privadas de aborto têm feito nos meios de comunicação social. “Não é legal fazer estes anúncios em virtude das leis que regem os actos médicos”, indica o secretário-geral.
A Associação Juntos pela Vida desconhece a forma como os hospitais públicos estão a encaminhar os abortos para clínicas privadas e quer saber em que medida o Ministério da Saúde está a controlar esses estabelecimentos privados, “que na prática, são quem ganha com este negócio do aborto”.
António Pinheiro Torres aponta que, após sete meses de a lei entrar em vigor, falta informação.
“Só se conhecem números dos três primeiros meses”, aponta o secretário-geral da associação. “Esta falta de conhecimento revela ou uma situação dramática ou o desconhecimento de uma situação que deveriam acompanhar de perto”.
As informações publicadas pela DGS mostram um crescimento da prática do aborto. António Pinheiro Torres lamenta que a DGS não manifeste pesar pelo número de abortos aumentar. “Apenas ouvimos manifestações de contentamento”.
A Associação Juntos pela Vida quer perceber a posição do director geral de saúde e “em que medida está disposto a ser fiel à posição que tomou em relação ao Sim, quando dizia que esta lei ia ser feita para diminuir a prática de abortos em Portugal”.
O secretário-geral chama também a atenção para a continuação da prática do aborto clandestino, relembrando casos denunciados pelos media, até e depois das 10 semanas e “não se vê da parte dos poderes públicos nenhuma acção para vigiar esta situação”.
António Pinheiro Torres assegura que a realidade vigente mostra que as preocupações da Associação estavam correctas e por isso “vale a pena continuar a discutir o assunto”, até porque a alteração da lei “está nos nossos objectivos”.

Lígia Silveira

7 de fevereiro de 2008

Padre António Vieira, 400 anos

Jesuíta nascido a 6 de Fevereiro de 1608 ficou na história da literatura, da política e da Igreja Portuguesa.


I - Padre António Vieira (1608-1697), nome grande da cultura, da literatura, da política e da Igreja Portuguesa. Teria bem merecido ficar entre os 10 maiores portugueses de sempre no controverso programa da RTP. Um desses 10 grandes portugueses eleitos pelos telespectadores, Fernando Pessoa, elevou Vieira ao estatuto de "Imperador da Língua Portuguesa" nas suas simbólicas biografias poéticas que consagrou na sua Mensagem:


"O céu estrela o azul e tem grandeza

Este, que teve a fama e a glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também".


A sua vida dava uma longa metragem de Hollywood, um fascinante filme de acção rodado em vários cenários: casas e ruas de Lisboa, cortes, ambientes de viagens marítimas em frotas navais a atravessar o atlântico, colégios, igrejas, floresta amazónica, palcos de guerras, naufrágios e aventuras, viagens por terra e por mar pela Europa Central,…

António Vieira nasceu em Lisboa junto da Sé. Aos 6 anos teve que se transferir para o Brasil. Acompanhou com a família o seu pai que tinha sido destacado para desempenhar funções na Alfândega de Salvador da Baía, então capital daquela colónia portuguesa. Entrou para o colégio da Companhia de Jesus daquela cidade, desejando ser missionário e dedicar a vida à conversão dos ameríndios. Tornou-se jesuíta e evidenciou-se rapidamente como um mestre da palavra: um ardente evangelizador e defensor dos índios, nomeadamente lutando contra a voragem esclavagista que grassava então nas terras de Vera Cruz.

Brilha no Brasil como pregador de palavra competente, firme e incisiva. Os seus sermões de crítica social acusam a consciência dos poderosos, convertem populações indígenas, animam as tropas portuguesas contra as investidas da pirataria, particularmente das frotas holandeses e apelam para uma igreja mais evangélica.

Mas em 1641, proclamada a Restauração da Independência de Portugal, foi convidado a acompanhar a delegação enviada pelo vice-rei, Marquês de Montalvão, a fim de jurar fidelidade e reconhecimento ao monarca português, D. João IV. Em Lisboa teve a oportunidade de revelar os seus dotes oratórios como pregador e logo conquistou a admiração não só do povo, mas também do rei que o convidou para ser seu pregador pessoal. Foi então nomeado para o importante cargo de Pregador Régio, a fim de pregar regularmente à família real e à corte.
Instituído neste papel tão influente, desempenhou um papel decisivo no aconselha-mento político do governo do reino. A pertinência e inteligência das suas propostas causaram a admiração de muitos, mas também as hostilidades de alguns quantos instalados nos seus interesses. O rei, que o admirou sempre e lhe devotou uma amizade incondicional desde a primeira hora, incumbiu-o de missões diplomáticas extraordinárias nos chamados Países Baixos, na Holanda, para defender os interesses do Portugal restaurado e angariar meios para garantir a protecção dos territórios ultramarinos, com especial atenção para o grande território do Brasil.

Na sequência das suas viagens diplomáticas propôs uma série de projectos reformistas no plano económico e social. Merecem especial menção os seus projectos de criação de companhias comerciais monopolistas, à luz do modelo das companhias holandeses e inglesas. Estas propostas vieirianas anteciparam um século os projectos pombalinos de reforma da economia portuguesa.
Mais ousada e avançada para a época foram as suas propostas de reforma da Inquisição, particularmente visavam o fim das denúncias anónimas e do confisco de bens, a abolição da discriminatória distinção social entre cristãos-velhos e cristãos-novos e a concomitante apologia do regresso a Portugal dos judeus expulsos no século anterior. Acreditava que o nosso país tinha erradamente perseguido e dispensado um grupo social empreendedor que fez a grandeza do Portugal dos Descobrimentos. Os descendentes de judeus estavam então na Holanda com a sua conhecida capacidade de empreendimento económico a sustentar a expansão do emergente império holandês, enquanto Portugal jazia em dificuldades enormes para garantir a sobrevivência do seu império ultramarino agora à mercê de piratas e da cobiça conquistadora dos novos impérios europeus.


II - Aliando o seu idealismo evangélico ao pragmatismo político, Vieira criticou fortemente o poder e os métodos do Santo Ofício português que tinha excluído os descendentes de judeus e mouros, entretanto convertidos sob a designação de cristãos-novos. Aquele tribunal impedia aqueles grupos étnicos de contribuir para a afirmação do país. Desejava uma inquisição mais pedagógica e menos persecutória.

Em favor dos índios brasileiros apresentou propostas de reforma administrativa das aldeias missionárias, mais conhecidas por reduções ou aldeamentos missionários, de modo a conceder aos padres missionários poder não só espiritual mas também temporal sobre os missionandos. Pretendia assim proteger de forma mais eficaz as populações indígenas das frequentes incursões esclavagistas dos colonos.

Todavia, este jesuíta genial, que enchia as igrejas a abarrotar e esvaziava os teatros quando pregava, não foi compreendido por muitos dos seus contemporâneos, devido às suas propostas e à sua visão crítica da sociedade, da Igreja e do exercício do poder.

A Inquisição acabou por prendê-lo e condená-lo, depois da morte do seu protector D. João IV, nos anos 60 do século XVI. As razões alegadas para a sua condenação não só tiveram a ver com a sua defesa dos Judeus, mas também com o facto de ter concebido uma utopia universalista que sonhava uma nova era ecuménica de fraternidade e compreensão entre todos os povos, culturas e sensibilidades religiosas. Esta utopia ficou conhecida pelo nome de Quinto Império.
Com base na mensagem de Cristo idealizou para o mundo a construção de uma espécie de civilização do amor, onde o respeito e a fraternidade para com os outros, para com o diferente, assim como a relação harmónica com a natureza fossem as formas de estar quotidianas. A sua utopia cristã de reunião de todos os homens num abraço universal de paz é considerada a mais generosa utopia sonhada na Europa do seu tempo. Era uma utopia que propunha uma solução para os conflitos que se agudizavam em vários pontos do globo naquele tempo da emergente era da protoglobalização.

No entanto, a sua condenação pelo Santo Ofício português acabou por ser anulada pelo Papa, na sequência de uma viagem de peregrinação que Vieira fez a Roma no final da década de 60 e onde permaneceu depois até 1675. Durante a sua estadia em Roma, depois de ter aprendido rapidamente italiano, voltou a destacar-se como um pregador brilhante, de tal modo que conquistou a admiração do Papa e até da Rainha Cristina da Suécia então exilada com a sua corte na Cidade Eterna. O Sumo Pontífice convidou-o para pregar à corte papal, a Rainha Cristina quis insistentemente nomeá-lo seu pregador pessoal. Mas o desejo do grande pregador português não era ficar longe de Portugal por maior que fosse o prestígio dos convites de tão poderosos senhores europeus para permanência longe do seu país.

O Papa deixou-o regressar e fez mais do que Vieira poderia esperar: usou da sua autoridade para moderar os excessos da inquisição portuguesa. Reconhecendo as injustiças e erros praticados nos processos judiciais do tribunal, o Sumo Pontífice chegou a suspender a inquisição durante 7 anos (1675-1681), na sequência da apresentação provada dos relatórios críticos de António Vieira sobre os modos de procedimentos da Inquisição. Foi de facto Vieira quem pioneiramente contribuiu para que a inquisição fechasse as portas pela primeira vez em Portugal.
De
regresso às terras lusas, Vieira desejava cumprir, nos últimos anos da sua vida, aquele que era o seu ideal de juventude: dedicar-se à evangelização dos índios. Volta então para o Brasil e volta a realizar expedições missionárias na Amazónia e a criar aldeias missionárias nos sertões brasileiros. Por fim será nomeado pelo Superior Geral para exercer as funções de Visitador das Missões do Norte do Brasil.

Vieira além de ter elevado a língua portuguesa a uma perfeição nunca vista, explorando ao máximo as suas capacidades de expressão, de polissemia, de subtileza, contribuiu para sonhar um futuro melhor para Portugal e para a humanidade, de tal modo que o historiador francês Raymond Cantel considerou-o, nos anos 60 do século XX, precursor dos projectos contemporâneos de criação de organismos internacionais para o entendimento entre os povos do mundo, como é o caso da ONU.

Vieira, figura maior da missionação, das relações entre Portugal e o Brasil e com a Europa, cantado pelos Brasileiros e considerado um luminar da literatura portuguesa e europeia do tempo do Barroco, é um português e um homem de igreja de coração universal cuja vida e obra ainda muito pode inspirar os nossos contemporâneos que desejam um mundo mais justo e fraterno.

José Eduardo Franco - Historiador

31 de janeiro de 2008

30 de janeiro de 2008

Voz que clama

Desde há 48 anos que o Jornal da Família, seguindo as pegadas do seu Fundador, Mons. Brás, é essa voz que clama, mesmo em tempos de deserto e ameaças, a defesa da Instituição Familiar.
O passar dos anos não fragilizou as suas convicções, mas antes as agudiza. Quarenta e oito anos depois, pretende, gritar ainda com mais força: "Salvemos a Família, salvaremos o mundo".
Como é evidente, aos olhos de todos, o Jornal da Família continua vivo e com vigor e na sua vida estão intrincadas muitas outras vidas, a quem sentimos o dever de manifestar a nossa gratidão.
Aos Assinantes e Leitores que assiduamente nos seguem e permitem manter de pé este projecto, o nosso bem-haja.
A todos os colaboradores que, voluntariamente, nos enviam os seus artigos, defendendo e cuidando, connosco, a Causa da Família, a nossa admiração, estima e profunda gratidão.
A todas as pessoas envolvidas na divulgação do jornal, a nossa gratidão e incentivo a que continuem.
Estamos todos de parabéns e podemos orgulhar-nos porque é nobre e de grande utilidade social a causa que defendemos: a Família.
Juntemos voz, força e esforço, todos os que acreditamos no valor insubstituível da família, mais ainda, apelamos a todas as pessoas, de boa vontade, que se comprometam na divulgação desta publicação.


Conceição Vieira

28 de janeiro de 2008

24 de janeiro de 2008

Viver e testemunhar a esperança no séc. XXI

Mostrar o que é próprio do modo de ser e de estar cristão no mundo é tarefa proposta pelo magistério de Bento XVI nas suas cartas encíclicas.

Uma encíclica é um documento de carácter doutrinal dirigido pelo Papa a toda a Igreja – dos Bispos aos fiéis leigos – sobre questões de fé e prática cristã. Nas encíclicas de carácter social os Papas começaram a incluir também os “homens e mulheres do mundo inteiro”, mostrando a perspectiva humanista e universal do seu conteúdo. Uma encíclica reflecte normalmente a actualidade da

Igreja e do mundo, as circunstâncias relacionadas com a fé e a sociedade em que os cristãos vivem e também personalidade e as preocupações do Papa que a publica. Na encíclica “Deus é amor” Bento XVI fez uma leitura da mensagem e do modo de estar cristão no mundo a partir da realidade do amor, dom de Deus e chave das relações humanas. Clarifica o sentido do amor cristão nas suas várias dimensões e tira as consequências práticas para as relações humanas e sociais e reforma das estruturas políticas. Em “Salvos na esperança”, Bento XVI toma como tema outra virtude teologal: a esperança.

A esperança cristã não é a fuga para a frente perante as injustiças, sofrimentos ou dificuldades do presente, nem conformismo resignado e impotente dos fracos. A esperança apoia-se na fé no Deus presente na história, é a convicção de que com Ele a vida do homem tem sentido, tem um futuro, um futuro absoluto.

É o compromisso de acção para que o reino de Deus e a sua justiça aconteça neste mundo, torne mais fecunda a vida de cada um e mais solidárias e fraternas as relações entre todos.

Servindo-se de duas noções da moderna teoria da linguagem, o Papa esclarece que a mensagem cristã não é apenas “informativa”, transmissão de conteúdos, de uma doutrina, é “performativa”, realiza o que significa. O Evangelho é “comunicação que gera factos e muda a vida”. A esperança cristã é o começo daquele futuro absoluto em que se crê, é uma vida nova orientada para Deus cuja presença lhe dá sentido e conteúdo. O encontro com o Deus de Jesus Cristo é “performativo”. Pela fé acredito não só que Deus existe como acredito na existência de uma estrela longínqua, mas que

Deus me mostrou em Cristo o seu amor único e me abre o caminho da vida eterna. Essa vida eu a tenho já em começo, em esperança. “Quem tem esperança vive diferentemente, foi-lhe dado uma vida nova” (2) O homem não está apenas sob o domínio da natureza e das suas leis, mas também da graça, do Deus que o criou, que o redimiu, que o ama e que é o seu fim último.

A esperança abre os horizontes para a “vida eterna”, a plenitude da vida, resposta perfeita às aspirações humanas. Não a podemos explicar adequadamente em termos do conhecimento humano que é limitado, mas está presente e transforma a nossa maneira de ver e de estar com os outros no mundo. O testemunho dos santos e dos mártires mostra-nos que é um bem que supera de tal forma os bens do mundo que vale a pena por ela deixá-los ou arriscar a vida (9).

O Papa faz uma análise do processo de secularização da esperança transmutada em fé no progresso das ciências e das estruturas políticas e da deslocação da fé religiosa para o domínio do privado e do ultraterrestre.

Nem a ciência nem as revoluções comunistas ou burguesas vieram instaurar o paraíso na terra que prometiam, nem satisfizeram a busca de sentido do homem. Demonstraram sim que a felicidade, a paz e a justiça não dependem apenas da transformação das estruturas, mas da liberdade humana, do esforço moral por respeitar a dignidade de cada homem e de construir um mundo solidário. Essa é tarefa a prosseguir permanentemente tanto no plano individual como no social.

A crítica de algumas “crenças”, expressões culturais e práticas rituais relacionadas com a esperança, impõe à Igreja uma reflexão que lhes restitua a autenticidade.

À “autocrítica da idade moderna,” deve corresponder “uma autocrítica do cristianismo moderno” para “aprender sempre de novo a compreender-se a si mesmo a partir das próprias raízes” (23). O nosso conhecimento e linguagem referente às realidades espirituais e sobrenaturais serão sempre deficientes. Por isso, é preciso esclarecer e corrigir algumas visões e práticas de espiritualidade tradicionais marcadas por coordenadas culturais individualistas, intimistas e uma visão pessimista do Juízo de Deus e dos “novíssimos”. A salvação não é relação egoísta e competitiva de cada um com Deus e com os outros, nem o Juízo a vingança de Deus. Há, sem dúvida, uma aspiração de justiça e uma dimensão pessoal da esperança que tem o lastro da experiência única de cada um. Mas essa experiência processa-se numa comunidade, da qual brota, na qual se alimenta e purifica, dentro da qual se vive e compartilha. A esperança tem uma dimensão comunitária na sua origem, a comunhão com Deus e com os outros, e nas expressões em que se manifesta e testemunha ao intervir no mundo. A esperança é activa “no sentido de mantermos o mundo aberto a Deus”. É “sempre esperança também para os outros” (34). A esperança também se exercita, também se aprende. A encíclica aponta “três “lugares” de aprendizagem e de exercício da esperança”: a oração (32-34), a acção e o sofrimento (35-39), o Juízo (41-44).

“Orar não significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade” (33). Pelo contrário, é compartilhar na comunhão com Deus as alegrias e tristezas, as aspirações e fracassos dos homens concretos. É abrir-nos a Deus e aos outros, sujeitando os nossos pedidos ao critério de

Deus e ao bem do próximo. A oração é prova de autenticidade, confronto com a verdade de nós mesmos. É encontro único com o Deus vivo na intimidade da própria consciência, é pessoal.

No “entrelaçamento de oração pública e oração pessoal” pelo qual Deus fala em nós e nós falamos a Deus (34) une-nos à Igreja, assembleia local e mistério da comunhão dos santos. A acção é exercício e fonte de esperança. Pela acção o cristão, rectamente orientado e dentro dos limites da sua falibilidade e circunstâncias, concretiza aquilo em que acredita, contribuindo para a construção deste mundo de acordo com os valores do mundo novo que espera. A acção fortalece a própria esperança e leva a esperança aos outros (35). A finitude da existência humana inclui o sofrimento como componente inevitável. Podemos limitá-lo, evitando as causas do sofrimento moral e de algum sofrimento físico, mas não está na nossa mão acabar com ele.

Haverá sempre sofrimento pela disparidade entre os nossos desejos e limites, por causa dos outros e com os outros, sofrimento como testemunho de valores maiores e inalienáveis. “Nas provações verdadeiramente graves, quando tenho de assumir a decisão definitiva de antepor a verdade ao bem-estar, à carreira e à propriedade, a certeza da verdadeira grande esperança faz-se necessária.” (39)

O triunfo dos mais fortes, a opressão dos fracos e inocentes, a violência institucionalizada, a banalidade do mal, a negação do mínimo de vida de tantos, a promoção da humilhação, da tortura e do sofrimento, mostram a injustiça das relações humanas e das estruturas que as regem. A injustiça da história apela para um juízo imparcial, para uma ordem que reponha a justiça. Nesta exigência se enxerta a aspiração a uma outra justiça, ao justo juízo de Deus, à esperança cristã. “Deus existe, e Deus sabe criar a justiça de um modo que nós não somos capazes de conceber mas que, pela fé, podemos intuir. Sim, existe a ressurreição da carne. Existe uma justiça. Existe a «revogação» do sofrimento passado, a reparação que restabelece o direito. Por isso, a fé no Juízo final é, primariamente, e sobretudo esperança – aquela esperança, cuja necessidade se tornou evidente justamente nas convulsões dos últimos séculos” (43) A esperança é confiança no Deus que vem ao nosso encontro e caminha connosco na história e que constitui a plenitude da vida, a vida eterna. Abre-nos a Deus e aos outros, promove activamente essa vida qualitativamente superior na nossa condição terrena, estimula-nos a tornar realidade a ordem justa que aspiramos e que pelo exemplo, palavra e mistério de Jesus podemos intuir. A encíclica “Salvos na esperança” ajudarnos-á a viver e a testemunhar a esperança neste tempo que é o nosso.

Por Octávio Gil Morgadinho - colaborador do Jornal da Família

22 de janeiro de 2008

O tempo da política às avessas

A política portuguesa anda ao contrário. O Governo é atacado por medidas sérias e importantes, enquanto os seus erros passam despercebidos ou até são tratados como sucessos. Como já aconteceu no passado, estamos presos numa rede de mal-entendidos.
A redução do défice, realização magna da legislatura, foi em boa medida uma triste oportunidade perdida. O efémero êxito deveu-se sobretudo à opressão da economia com impostos e dos funcionários com congelamentos de salário e carreira, quase sem mudar a estrutura. Quando estes expedientes forem levantados, como têm de ser, o buraco regressa.
O pior do Governo é um traço autoritário com razões higiénico-legalistas, escondido na apatia geral da população. Da "tolerância zero" à lei do tabaco, passando pela ASAE, DGCI e videovigilância, vivemos numa sociedade cada vez mais controlada. A obsessão regulamentar, ânsia inspectiva e corporativismo clientelar criam um clima sufocante a que poucas vozes reagem. Troca-se a liberdade pelo conforto. Que seja um Executivo socialista a administrar esta passividade burguesa é outro aspecto da política às avessas.
Ao mesmo tempo, porém, os piores ataques ao Governo vêm não de erros mas de medidas essenciais. São dois os mal-entendidos que ensombram decisões difíceis, corajosas e importantes.
O primeiro nasce da geografia e do inevitável conflito entre a visão local e nacional. Nem sempre de perto se vê melhor. É assim a co-incineração. O fecho dos centros de saúde é outro exemplo recente. Governos anteriores, por demagogia e populismo, abriram serviços sem olhar a custos ou até benefícios reais das populações. Qual o ganho de ter um centro de saúde na aldeia, aberto 24 horas por dia, só para enviar doentes ao hospital regional? Se o custo dessa miríade de centros impedir um conjunto adequado de especialistas nos tais hospitais regionais, todos perdem.
A rede de cuidados de saúde, para servir o interesse local, tem de ser planeada a nível nacional e distribuir bem os recursos pelo território. É verdade que essa decisão é sempre inquinada por bairrismos e corporações. Como se viu no aeroporto de Lisboa, estudos técnicos dão resultados conforme a encomenda. Assim, muitos fechos de unidades podem ser errados ou, pelo menos, discutíveis. Mas o elemento central do debate vem, sem dúvida, do confronto entre a miopia paroquial e a visão global. Uma vez aberto um centro de saúde, fechá-lo constitui uma afronta. Por isso se deve louvar o Governo pela coragem de tentar.
A segunda confusão vem da História. É inevitável que a mudança do mundo seja mais rápida que a das nossas ideias e teorias. Aqui o exemplo determinante é a reforma da Segurança Social. Esta geração anda muito indignada com a enorme injustiça de receber menos pensões que os pais. Mas ninguém fala na injustiça muito maior de todos morrermos muito mais tarde que eles. Porque foi esse colossal benefício que impôs a mudança nas regras das pensões. É incrível que pessoas que vão viver muito mais tempo fiquem furiosas por não as deixarem reformar mais cedo. Ainda mais tolo é, temendo pelas pensões futuras, contestar as medidas que permitirão tê-las. A maioria acreditou nos políticos quando eles dramatizaram a falência da Segurança Social, mas agora não acredita quando a mudança assegurou o futuro. Mexer nas pensões é uma medida corajosa que se deve louvar.
Estas duas políticas incompreendidas são motivos de justo orgulho do Governo. Mas, ao mesmo tempo, elas conduziram a uma das suas piores feições. Quando um ministro precisa de tomar medidas difíceis e por isso é muito contestado, acaba por se convencer de que a contestação é um sinal de sabedoria e actividade. O critério da boa governação passa a ser a dureza, não a eficácia. Assim, começando no bom caminho, entra em autismo, sem perceber que, a partir de certa altura, já são os seus erros, e não a incompreensão pública, o motivo das críticas. É essa tentação terrível que tem conduzido à obsessão regulamentar, ânsia inspectiva e corporativismo clientelar.


João César das Neves
professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

21 de janeiro de 2008

Pais maus


Um dia, quando os meus filhos forem crescidos o suficiente para entenderem a lógica que motiva um Pai, eu hei-de dizer-lhes:
- Eu amei-vos o suficiente para ter perguntado: onde vão, com quem vão, e a que horas regressam a casa.
- Eu amei-vos o suficiente para ter insistido que juntassem o vosso dinheiro e comprassem uma bicicleta, mesmo que eu tivesse possibilidade de a comprar.
-Eu amei-vos suficiente para ter ficado em silêncio, para vos deixar descobrir que o vosso novo amigo não era boa companhia.
- Eu amei-vos o suficiente para vos obrigar a pagar a pastilha que “tiraram” da mercearia e dizerem ao dono: “ Eu roubei isto ontem e queria pagar”.
- Eu amei-vos o suficiente para ter ficado em pé, junto de vós, 2 horas, enquanto limpavam o vosso quarto (tarefa que eu teria realizado em 15 minutos).
- Eu amei-vos o suficiente para vos deixar ver: fúria, desapontamento e lágrimas nos meus olhos.
- Eu amei-vos o suficiente para vos deixar assumir a responsabilidade das vossas acções, mesmo quando as penalizações eram tão duras que me partiam o coração.
- Mais do que tudo, eu amei-vos o suficiente para vos dizer NÃO quando eu sabia que me iriam odiar por isso.
- Estou contente, venci. Porque no final, vocês venceram também. E, qualquer dia, quando os vossos filhos forem crescidos o suficiente para entenderem a lógica que motiva os Pais, irão dizer-lhes, quando eles vos perguntarem se vossos Pais eram maus... “que sim, eram maus, eram os Pais piores do mundo”.

Deus abençoe os Pais maus!

18 de janeiro de 2008

Quem nos acode?

Cebolais de Cima, ridente povoação que se ergue a 12 quilómetros de Castelo Branco, há uma década atrás, era uma progressiva freguesia, onde matraqueavam, sem cessar, 30 fábricas de lanifícios. Até há poucos anos era considerada o maior empório da indústria de lanifícios, no Sul da província da Beira Baixa, onde coexistia uma próspera “indústria caseira”, ao lado de bem apetrechados centros fabris, equipados com moderna maquinaria de ponta e sofisticada engenharia têxtil, que deslumbrava quem a visitasse, com as inovações mecânicas, inéditas no nosso país, onde encontravam ocupação laboral, cerca de 1.500 trabalhadores.

Porém, nada disto impediu que todas as fábricas, de “cardados” e de “penteados”, fossem arrastadas para a absorvente crise de lanifícios, que se instalou por toda a Europa, com a entrada, a esmo, no mercado dos produtos têxteis, dos tecidos produzidos, a baixos preços, nos países do Leste Europeu, nomeadamente na China, onde a mão de obra é de reduzida remuneração.

No transacto mês, praticamente encerrou os seus portões, a moderna e credenciada Fábrica dos Lanifícios do Pereirinho, de Cebolais de Cima. Não ficou a dever um cêntimo a quem quer que seja, pois saldou todas as dívidas aos fornecedores, ao fisco, à Segurança Social e indemnizou os cerca de 40 operários, que ainda ali laboravam, com as compensações estabelecidas na lei laboral, pelo transtorno que este encerramento lhes iria provocar.

Com este compulsivo fecho de mais uma fábrica, mais quatro dezenas de trabalhadores e seus agregados familiares, ficam sem posto de trabalho e a respectiva remuneração mensal.

Cebolais de Cima, que era uma florescente freguesia onde chegaram a viver perto de três mil pessoas, está, neste momento, reduzida a umas centenas de habitantes, que se obstinam em ali residir, por todas as fábricas de lanifícios, que ali se encontravam instaladas, terem encerrado.

É uma profunda tristeza, mas é uma bem palpável realidade. E os cebolenses que ali tinham o seu modo de vida e que possuíam um nível de vida superior aos parisienses, agora começam a debandar e a acordar para a realidade que se vive, despertando da profunda letargia em que estiveram a hibernar. Só agora começam a ver e a avaliar a dimensão que esta crise está a tomar e os caliginosos efeitos que daí advêm, tal como a comunicação social há muito vinha alertando, embora houvesse quem tomasse estas informações como “bombásticas notícias”, nomeadamente quando se falava do desemprego que estava alastrado no nosso país e que estava subindo, em flecha, sem que nada se fizesse para obstar a esta situação. Resultado, hoje o desemprego, em Portugal, já ultrapassa os índices da nossa vizinha Espanha.

É uma situação que era inacreditável, há 20 anos atrás. A Espanha que tem uma extensão territorial de 504.880 quilómetros quadrados, isto é, é cinco vezes maior que Portugal. Que tem 39.187.000 habitantes, quando Portugal tem apenas 91.630 quilómetros quadrados e é habitado por apenas 9.868.000 residentes, consegue ter uma taxa de desemprego inferior à nossa, segunda nos informa a Eurostat.

O próprio primeiro-ministro já reconheceu esta penosa realidade, contrariando a argumentação de muitos “palradores” que já se apressavam na desvalorização desta situação. José Sócrates, honra lhe seja feita, foi peremptório, asseverando que estamos a viver um momento crítico e altamente preocupante, com esta inesperada subida do desemprego.

Honesto e consciente como é, José Sócrates, neste momento, já deve estar bastante arrependido de ter anunciado, em plena campanha eleitoral, que iria criar os tais redentores 150 mil postos de trabalho...

Afinal, razão tinha alguém quando dizia que para certos políticos, prometer era fácil e que era tão fácil ser governo e tão difícil governar...

Segundo os dados estatísticos do INE, neste momento, em Portugal os desempregados já ultrapassam os 500 mil, embora estejamos na sazonalidade do verão, quando o turismo costuma criar muitos postos de trabalho, o que faz baixar as taxas de desemprego. Ora, com tantas empresas a irem para a insolvência e outras a fecharem, como os Lanifícios do Pereirinho, em Cebolais de Cima, que encerrou por escassez de encomendas, o número de desempregados já será muito maior e o panorama de muitas famílias, cada vez mais sombrio e deveras aflitivo. Por este caminho, não virá longe o dia em que as famílias passem à indigência a espreitar as casas dos poucos remediados, para apanharem a pestana de bacalhau, à sorrelfa, que eles deitem fora...

Segundo consta, mais de vinte por cento das famílias portuguesas estão a viver endividadas. De acordo com o que há dias revelou a emissora de Rádio Difusão “Antena 1”, em cada dez casas à venda, nove pertencem a pessoas que estão insolventes devido às constantes subidas das taxas de juro dos créditos para compra de habitação; da permanente elevação do custo de vida e da congelação dos salários, quando não são lançados no desemprego, através de sofisticadas formas de “flexissegurança” e da eufemística acção de “mobilidade” ou dos temíveis “quadros de excedentários”, o que obriga a que muitos cidadãos deixem de poder cumprir com os seus compromissos com a banca, que está a ficar como sendo a proprietária de muitos imóveis, para a aquisição dos quais concedeu créditos monetários.

Com estas novas políticas salariais, com subida constante dos impostos o que ocasionou que muitos dos reformados passassem a receber menos que auferiam o ano passado, com as taxas de juros a treparem desmesuradamente, com o Banco Central Europeu, que é quem tudo comanda, a obrigar que o défice se situe nos três por cento, com a despesa pública a aumentar, como está previsto no próximo Orçamento do Estado, as famílias portuguesas estão a ficar cada vez mais arruinadas e a viver em aflição permanente.

Consta que neste momento, já há quem se disponibilize a vender um dos seus rins para poder saldar compromissos financeiros que de outro modo não consegue resolver. Se isto é verdade, é o cúmulo...

Tudo isto tem também muito a ver com a nossa adesão à moeda única da Europa, ao Euro, o que fez desvalorizar imenso o escudo e o poder de compra. UM café, que dantes custava 50 escudos passou a ser vendido a um Euro, o que representa duzentos escudos e assim sucessivamente.

Portugal, no pretérito mês de Agosto, tinha a terceira maior taxa do desemprego, dos países da União Europeia, 8,3%, segundo o EUROSTAR. A França, situava-se nos 8,6% e a Grécia registava 8,4%. Só que segundo os últimos dados estatísticos, nestes dois países a taxa de desemprego está a decrescer, enquanto que em Portugal continua a aumentar e o Governo sem nada fazer para contrariar esta calamitosa situação.

Não haverá nenhum Governo que seja capaz de fazer regredir a despesa do Estado, quando isso seria tão fácil se reduzissem os Ministérios, se diminuíssem o número de Deputados na Assembleia da República. Se suprimissem muitos carros da luxuosa frota ao serviço dos membros do Governo?...

Era preciso que houvesse vontade política, não existissem complexos cromatológicos e os políticos pensassem mais no Povo, nesse Povo que nem sabe o que é isso do défice e só vê diminuir o seu poder de compra...

Mas estou crente que o Povo não dorme.


Por Fabião Baptista - colaborador do Jornal da Família

15 de janeiro de 2008

Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

e Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano

Grandes Santos
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Dia 17 de Janeiro, quinta feira, 21.30

São Tomás de Aquino

Pe. Duarte da Cunha

No Salão Paroquial de Nossa Senhora do Carmo

(esquina da Av. Maria Helena Vieira da Silva com a R. Raul Mesnier du Ponsard)

Metro da "Quinta das Conchas"

São Tomás de Aquino viveu com desejo enorme de conhecer e ensinar a verdade. Não mais uma opinião, mas a Verdade revelada, Jesus Cristo. Com capacidades excepcionais para o estudo, mas sobretudo com um coração verdadeiramente apaixonado por Deus, este grande santo tornou-se para a Igreja a referência fundamental no que se refere à tentativa de aprofundar a doutrina e dar razões da fé. Não se limitou a repetir, ele aceitou verdadeiramente o diálogo e, por vezes o combate, com uma cultura que nem sempre era favorável. Uma maneira de estar na vida que ainda hoje entusiasma, porque não é passiva e não é rebelde.

14 de janeiro de 2008

A hora de todos


Nos últimos tempos, muito (ou)vi eu falar dos leigos. O Congresso Europeu de Paróquias descobriu (finalmente!) o lugar dos leigos; alguns bispos em intervenções públicas insistiram na promoção dos leigos; o Pe. Vítor Arantes, na revista Bíblica de Julho/Agosto fala do “desafio do laicado”, desta forma tipicamente franciscana (simples, directa e incisiva): “O Vaticano II apressou a ‘hora dos leigos’. Mas, eles serão decisivos para renovação das paróquias, se não reduzirmos a sua presença e acção a ‘paus mandados’ do clero.

Urge tornar efectiva a corresponsabilidade laical, se apostamos na renovação evangélica das comunidades cristãs” (p. 21). Por sua vez, o missionário comboniano Lorenzo Car-raro, na revista Além-Mar de Março de 2007, diz o seguinte: “Se o estatuto das mulheres precisa de ser promovido na Igreja (e precisa!), não é porque sejam mulheres mas porque são laicado. É o sacerdócio baptismal dos fiéis que tem de ser redescoberto na prática da vida da Igreja. Só desta maneira ultrapassaremos o clericalismo lento e veremos que o laicado assume as suas responsabilidades e tem o seu espaço na vida da comunidade cristã” (p. 21). Nesta mesma revista, o seu director escreve que “os ministros ordenados, os sacerdotes, vieram a faltar dramaticamente, sem que se tenha respondido com outros não ordenados” (p.3). Entretanto, o nosso Papa fala da necessidade de se procurarem “espaços novos e funções novas”, explorando as possibilidades que os ministérios não ordenados oferecem, em resposta às necessidades das comunidades cristãs. Curiosamente, por esta amostra devidamente seleccionada, quem está a fazer mais apelo aos leigos é o clero.
No essencial concordo com estas opiniões. Mas há mais. Os sinais dos tempos - que julgo muito evidentes - avisam-nos que precisamos de todos. A hora não é só dos leigos. É de todos! Dos padres, dos bispos, dos diáconos, dos religiosos, dos leigos consagrados, dos leigos “com pelouros ministeriais”, dos leigos “mais responsáveis” e “dos outros” (sem discriminação de sexo): do povo simples, com fé, mas sem responsabilidades pastorais, dos católicos não praticantes, dos sem religião, dos ateus…
É chegada a hora de acabarmos com as horas disto e daquilo: a “hora do clero” – que excedeu largamente (muito largamente mesmo) os sessenta minutos… – a “hora dos leigos”, a “hora das mulheres”, etc, etc. É chegada a hora de transformarmos todas estas horas em dias diferentes. Com mais comunhão, com mais participação, com mais convicção, com mais alegria, porque a nossa Boa Nova é fantástica e é a única que nos pode fazer progressivamente felizes (será que acreditamos mesmo nisto ou é só poesia?).
Temos todos de nos sentir mais livres, mais libertos de muitas normas, preceitos, tradições, cerimoniais protocolares, níveis hierárquicos muito estanques, obediências, submissões, reverências e irre-verências, medos.
Insistir em manter a mesma organização de antigamente, à custa da importação de padres e da acumulação de paróquias é enfiarmos a cabeça na areia e não querermos enfrentar a (nova) realidade.
E não se pense que são os leigos que vão “salvar” a Igreja. Depois de tantos séculos de submissão, de dependência, de letargia, de “paus mandados”, como poderão estar preparados para
assumir adequadamente a sua “admirável vocação” (como nos diz o Concílio, há quarenta e tal anos), a par dos ministros ordenados? Como é que se tem promovido a sua corresponsa-bilidade? Tem-se levado a sério as suas sugestões, ou estas são (quase) sempre abafadas, subestimadas (pois são “leigos” nestas matérias…)? Os leigos estão presentes no órgão máximo decisor da diocese, o Conselho Episcopal? E a nível nacional, os leigos estão representados na Conferência Episcopal, a par dos bispos, de alguns padres e dos provinciais das congregações? Dois pequenos exemplos que expressam como a nossa Igreja tem alimentado (continua a alimentar) esta cultura da dependência e da submissão, quando a Igreja somos todos nós e o Baptismo nos projecta a todos para a (comum) missão de evan-gelizar.
É evidente que Igreja tem medo da(s) mudança(s), das “revoluções”, das (muitas) participações. E quando muda é muito lentamente, cheia de cautelas, não se vá de encontro a um dos 1752 cânones do Código de Direito Canónico. Sempre com medo dos excessos, das cisões, das heresias, dos escândalos. Como se a sua história, plena de clericalismo, não carregasse tudo
isto…
É chegada a hora (já atrasada) de dialogarmos, rompendo com amarras que só nos afastam mais da ovelha perdida e – pior-do Evangelho.

Oxalá vejamos, este ano, sinais (bem) visíveis deste respeito igualzinho por todos, sem receios, sem atropelos, tendo em conta o espaço próprio de cada vocação.

Por Jorge Cotovio - colaborador do Jornal da Família

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