
“Desde criança conheces a Sagrada Escritura…” (2 Tim 3,15) -
recorda S. Paulo a Timóteo, reconhecendo a influência do ambiente familiar no desabrochar da sua fé.
Sempre a família foi pólo fundamental da vida cristã e tanto mais quanto em ambiente hostil ou indiferente. Assim aconteceu na Igreja primitiva, reunida pelas casas (Act 2,46), em comunidades longamente isoladas, no Oriente, e modernamente, nos países dominados pelo comunismo ou islamismo, sem liberdade de culto. A principal tradição de Natal dos cristãos do Iraque é a leitura da Bíblia em família.
A Palavra de Deus está no centro da vida cristã e constrói a comunidade como “Palavra anunciada e escutada” que conduz à conversão e alimenta a fé, como “Palavra celebrada” na liturgia e na vida sacramental da Igreja especialmente na Eucaristia, como Palavra vivida na “experiência da comunhão, da caridade e da missão” para aperfeiçoamento da vida pessoal, fortalecimento da união familiar e actuação transformadora da sociedade de acordo com os valores do Evangelho.
A dupla mesa da Palavra e do Pão fazem da Eucaristia a celebração comunitária que congrega e edifica a Igreja local. Também a igreja doméstica, a família, precisa de ter o seu encontro comunitário com a Palavra de Deus. A Sagrada Escritura lida e escutada em família pode estar no centro quer da celebração da liturgia familiar, quer do diálogo que fortalece e aprofunda as relações, purifica o olhar, esclarece e dinamiza a fé no testemunho de vida. “As pequenas comunidades na Igreja doméstica, em torno da Sagrada Escritura, reúnem os pais e os filhos. Juntos ouvem admiráveis lições de grande valor e utilidade na superação dos conflitos domésticos e na identificação do caminho a seguir. A conse-quência é a paz e a concórdia, que nascem dos ensina-mentos que emanam das páginas sagradas”(D. Eugénio Sales, Jornal do Brasil 15.09.2001).
A partilha da Palavra de Deus pode começar pelas formas mais simples de leitura comentada e aplicada num breve encontro regular da família e chegar até à reflexão profunda e metódica da “leitura orante” ou “lectio divina”. Nos tempos que correm não faltam elementos disponíveis. Há boas traduções da Bíblia, livros de iniciação e comentários acessíveis. Na Internet distribuem-se diariamente os textos bíblicos da liturgia e reflexões complementares. O importante é decidir o que fazer e pô-lo em prática.
A Liturgia da Palavra foi elaborada de tal forma que, cada dois anos, à semana, e três, ao domingo, se percorrem os principais textos da Bíblia. Segui-los diariamente tem a vantagem de cumprir esse plano e estabelecer alguma ligação com a celebração eucarística e os tempos litúrgicos, acompanhando o ritmo da vida da Igreja.
Há muitas outras formas de ler a Bíblia: sequencialmente por livros, por temas, por escolha de acordo com a situação que se vive ou deseja aclarar. A partir da Bíblia podemos viver as nossas experiências e entregar-nos confiantemente nas mãos de Deus com as palavras e os sentimentos dos seus grandes servidores a começar por Jesus.
Na leitura da Bíblia em família devem ser envolvidos todos os membros, de acordo com as suas capacidades e dons. A família pode ser a primeira escola de proclamação da Palavra de Deus, estimulando a leitura clara, articulada e reverente e a escuta atenta e reflectida. É momento de diálogo propício à reflexão e ao entendimento do sentido prático da Palavra na sua aplicação à vida. Algumas passagens serão difíceis, outras levantarão perplexidades. Há que enfrentá-las com serenidade à luz da fé, procurando o sentido justo. Alguns problemas estarão na deficiência de informação, do vocabulário, da adequação ao contexto e intencionalidade do texto bíblico.
Não se tenha medo de defrontar os problemas postos. Evite-se o simplismo dos artigos das revistas de sensação ou o zurzir de frase contra frase em polémicas estéreis. Procurem-se os apoios e referências seguras e fundamentadas que ajudem a progredir no conhecimento, no sentido e na intuição espiritual das coisas de Deus. A Bíblia não é um livro de enigmas, de histórias mágicas ou receitas morais prontas a usar. É a revelação do mistério de Deus. É também a história das respostas do homem a Deus. É para ser lida com seriedade e avidez espiritual. A Palavra de Deus é exercício e alimento da fé.
A leitura da Palavra de Deus apela para uma atitude orante. Muitos dos textos bíblicos são expressamente oração: louvor, adoração, agradecimento, súplica, pedido de perdão, escuta atenta, reverente e pronta da mensagem de Deus, diálogo amoroso ou polémico do homem com Deus. Toda a Palavra de Deus tende a suscitar a resposta do homem. Responder a Deus é oração.
A “lectio divina” é um método de leitura crente e orante da Bíblia desenvolvido e praticado pelos monges da Idade Média. Começa pela
leitura atenta da palavra de Deus para entender o seu sentido e responder à questão: “que diz o texto?”. Passa em seguida à
meditação que actualiza o texto às circunstâncias dos que o lêem: “que diz o texto para mim?”. A
oração é a resposta à proposta de Deus contida no texto: “que me sugere esta Palavra que eu diga a Deus?”. A
contemplação é o ponto de chegada da leitura da Palavra de Deus para ver o mundo e as pessoas com o olhar de Deus.
Este método que pode parecer complexo pode ser praticado a diversos níveis de profundidade, mas sempre com o mesmo objectivo: ler e aplicar a Palavra de Deus numa atitude de fé (1). Exige alguma disponibilidade de espírito e de tempo e não haverá condições para o utilizar em família, todos os dias, mas deve ser praticado periódica e regularmente para educar a sensibilidade e dar profundidade às outras modalidades de leitura.