Diário da Assembleia Geral do ISCF

“Tudo o que se fizer a bem da família, por pequeno que seja é grande”. (Mons. Brás)

A Família no centro das atenções

Encontra aqui os vários artigos do Dr. Juan Ambrósio sobre a Família...

Encontro Mundial das Famílias 2015

O Vaticano apresentou dia 24 de março em conferência de imprensa o 7.º Encontro Mundial da Família, que vai decorrer de 22 a 27 de setembro de 2015 na cidade norte-americana de Filadélfia.

A saúde mental dos portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...

O trabalho, dom e direito

A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...

Longe vão os tempos

Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...

Dar esperança em tempo de crise

Vivemos tempos difíceis. A família, como célula base da sociedade, é imediatamente afetada por esta crise generalizada e que promete perdurar. Neste contexto, exige-se um novo paradigma, uma nova forma de estar e de nos relacionarmos.

31 de dezembro de 2007

A economia, o poder e o cinismo

Toda a gente sabe que a economia é a força mais poderosa do mundo. O dinheiro manda e só a riqueza conta. Mas o que toda a gente sabe costuma ser um grão de verdade embrulhado em disparates.
No tempo da globalização e tecnologia, finanças e Internet, quem mais ordena é a economia. A explicação para divórcios e traições, esforços e carreiras, políticas e guerras são os interesses monetários e produtivos. Todos vivemos debaixo da lei da procura e oferta e o mundo está dominado por interesses, negociatas, multinacionais.
Esta tese é mais difícil de justificar do que parece. Um princípio básico da economia, a "lei da utilidade marginal decrescente", diz que quanto mais temos, menos o valorizamos. Só a escassez faz subir o valor. Como vivemos a maior prosperidade de sempre, a própria ciência económica ensina que seria de esperar menor preocupação com o dinheiro. Afinal, quem tem fome é que vive obcecado com isso. Como pode este tempo ser mais, e não menos, dirigido pela economia?
Há quem pense que o dinheiro está isento dessa lei. Aristóteles, por exemplo, dizia que o dinheiro tem algo de especial: "Uma vez inventada a moeda por causa das necessidades da troca, nasce uma outra forma de arte de adquirir, a forma comercial, (...) que procura o maior lucro possível" (Política 1257b.1-5). Essa nova "arte de adquirir" tem a característica de corromper todas as outras actividades: "A coragem (...) a estratégia ou a medicina, o seu fim não é fazer dinheiro mas dar a vitória ou a saúde. No entanto, essas pessoas tornam tudo isso objectos de especulação, na ideia de que essa é a finalidade e que é preciso dirigir tudo para esse fim" (1258a.13-14). Assim, a moeda cria uma acumulação sem limites (1257b.25), ligada ao "desejo de viver que não tem limite" (1257b.40).
Se o amor ao dinheiro é sem limite e não está sujeito às leis dos outros bens, confirma--se a explicação comum. Mas uma outra constatação gera muitas dúvidas. Quando alguém afirma que o dinheiro faz andar o mundo, vale a pena perguntar-lhe se ele próprio também é assim; se ele é tão mesquinho, interesseiro e ganancioso como diz ser o mundo. Em geral a resposta é negativa. Os outros são materialistas e ambiciosos, mas ele ama a sua família e amigos, pretende alegria e paz planetária, gosta de arte e meditação. Devemos sempre desconfiar de teorias sobre a natureza humana cujos próprios autores não aplicam ao único ser que conhecem bem: eles mesmos.
A verdade é que a amizade, a fé, orgulho, medo, curiosidade, patriotismo e tantas outras motivações contam hoje tanto ou mais que a simples riqueza. Afinal o nosso tempo não é muito diferente dos anteriores. A natureza humana evolui muito mais devagar que o desenvolvimento social. Claro que os interesses pecuniários têm grande poder, hoje como sempre. Mas o facto de serem em geral disfarçados, hoje como sempre, mostra não serem assim tão dominantes. Existem alguns sem-vergonha de apregoar que "a ganância é boa", como o especulador Ivan Boesky (discurso na escola de Gestão da UC Berkeley, 18 de Maio de 1986) ou o seu homólogo Gordon Gekko no filme Wall Street (Oliver Stone, 1987). Em geral acabam na cadeia.
Uma coisa mudou porém: hoje estamos mesmo convencidos de que a economia manda, coisa que os séculos anteriores não pensavam. De onde veio isto? Trata-se da única herança que resta de uma das teorias mais influentes no século passado. A "concepção materialista da História", chamando a atenção para a influência da infra-estrutura produtiva na evolução da sociedade, foi um dos maiores contributos do grande génio que foi Karl Marx. Mas, como tudo, a absolutização dessa explicação cai em erros enormes. A economia é relevante, mas não exclusiva.
Hoje, quando o materialismo dialéctico está na estante das teorias clássicas, ainda há muita gente que, mesmo abominando o comunismo, continua a aderir inconscientemente ao seu postulado mais básico. Cada vez que se diz que a economia manda no mundo está a ser-se marxista. A ideologia morreu; só ficou o cinismo.


por João César das Neves

25 de dezembro de 2007

Conto de Natal

Um dia olhei à volta e vi o mundo como nunca vira. A realidade é uma floresta. Eu parecia estar em cima de uma árvore, no meio de muitos ramos grossos e frondosos, folhas, rebentos e frutos. Toda a minha actividade desenrola-se por entre esta folhagem. O meu trabalho e azáfama, os meus desejos e frustrações, todas as minhas viagens, correrias, tarefas e divertimentos têm lugar nas copas de um denso bosque. Vi as ruas e casas, salas e corredores formados do material vegetal da selva. Reencontrei todos os meus colegas e conhecidos, amigos e familiares, cada um na sua labuta, todos fazendo tudo equilibrados nos troncos, ramos, folhas e caules daquele espesso arvoredo. Tornou-se então clara a natureza da minha existência, que antes sempre me tinha perturbado. A permanente insegurança da realidade humana fica compreensível se soubermos que vivemos no topo ondulante de um bosque batido pelo vento. Os obstáculos que sentimos no quotidiano, a confusão e incerteza do nosso destino, ficam subitamente claros. É difícil ver através das hastes e folhas. É penoso mover-se por entre caules, lianas e trepadeiras. Vivendo no topo de uma floresta, é evidente a razão por que as coisas não andam como queremos.Então, olhando para baixo, tive um sobressalto. Os ramos onde vivo estão suspensos muitos metros acima de um nevoeiro cerrado que parece cobrir um pântano. O cheiro nauseabundo, o chapinhar e os roncos medonhos que de lá sobem são apavorantes. Entrevêem-se cristas escamosas, focinhos monstruosos. A nossa vida precária baloiça-se por cima de um atoleiro repugnante e sangrento. A vida humana titubeia sobre o abismo. Ninguém parece dar-se conta da situação. Alguns filósofos meditam sobre isto, ouvem-se muitas histórias de incautos engolidos pelo lamaçal. Mas sente-se um esforço colectivo para ignorar a realidade e esquecer a ameaça. Todos se agarram com força aos ramos e contentam-se com a vidinha, intensa ou pacata, no meio das folhas. De olhos finalmente abertos, senti que não conseguia mais permanecer naquele lugar. Como podia deixar escoar a minha vida num matagal frágil por cima da catástrofe? Como achar isso normal, corrente, tolerável?Foi então que reparei numa grande luz que vinha do Oriente. Por entre a folhagem entrevi um clarão que não parecia apagar-se. Corri pelo meio dos troncos e cheguei à margem do pântano onde, de uma enorme muralha dourada e brilhante, partia a luz. Não consegui ver o topo daquela parede imponente, feita de grandes blocos de pedra. De ambos os lados não se vislumbravam os extremos . Era imensa.Vi então que entre a muralha e o arvoredo do pântano havia uma estreita faixa de areia onde se encontrava uma pequena multidão. Desci da árvore e perguntei o que era aquilo. Disseram-me que era o muro da cidade das delícias, onde se vive feliz para sempre. Julguei que a muralha era para manter longe os invasores, mas um velho explicou: "Não foram os habitantes da cidade que fizeram o muro. Fomos nós, forçados pelo dragão que vive no meio do pântano." Este paradoxo era o tema de conversa de toda aquela gente, que queria passar sobre a muralha luminosa. Alguns diziam ter recebido mensagens do Senhor da cidade e saber como fazer uma escada. Asseguravam que a subida viria do esforço e sacrifício. Outros falavam de meditação ou repetiam leis e cultos para saltar o obstáculo.Eu perguntei: "Já se lembraram de procurar uma porta?" Olharam para mim com desprezo e um respondeu: "Se és dos que acreditam que há uma porta, vai para ali ter com os teus amigos." Então reparei que, um pouco mais adiante, havia na praia um grande grupo que parecia olhar todo para um mesmo local. Aproximei-me e notei uma outra multidão, semelhante à primeira. Mas esta estava a cantar. Naquela zona a base da muralha escurecia e parecia abrir uma espécie de caverna. Era para ali que toda aquela gente olhava. De dentro vinha uma luz ainda mais forte que a que saía das pedras do muro. Pareceu-me ouvir, vindo da gruta, o som de uma criança a chorar.
por João César das Neves

21 de dezembro de 2007

Uma prenda de Natal


Vale a pena voltar à esperança. Tenho alguma dificuldade em chamar-lhe documento papal. Mas é mais que a meditação ascética, dissertação teológica ou resto de sebenta duma aula longínqua. Penso que esta escrita é como uma tenda onde todos nos podemos albergar, fatigados de caminhos percorridos e temerosos pelos que há a percorrer. Raramente um documento pontifício tem uma dimensão tão profunda, humana, próxima, interessante, sem deixar de ser teológica, ascética, subtil e fraterna. O Papa envolve-se na nossa aventura de fé recheada de perguntas mas com uma saída muito para além dos trilhos convencionais da doutrina, e das exortações. Parece que uma plêiade de homens e mulheres, crentes ou não, foi evocada com textos profundos e próximos, mitológicos e reais, divinos e humanos.

Não é tarefa fácil viajar no meio desta espécie de labirinto onde nunca se perde o sentido do homem, da história, da fé e de Deus. Sempre com a espada da palavra no corte certeiro de cada indecisão. Estranhos autores, exemplos raros, citações surpreendentes, poemas, fragmentos de sermões, filósofos, teólogos, ascetas, numa aparente complexidade reservada à leitura de poucos. Mas um texto que merece ser lido por todos mesmo que à primeira se não entenda tudo. Há de permeio chaves da vida, da morte, da fé, tudo por causa duma esperança que ilumina os fios da história que parece em rotura.

Atrevo-me a propor, como desafio e provocação, esta segunda encíclica de Bento XVI como oferta privilegiada de Natal. Acessível no preço, simples na apresentação, leve de transportar, sem exigir embalagem especial. Dá direito a saltar duas, três, dez linhas. E a seu tempo voltar atrás para as compreender e cada qual compreender melhor a vida. E que venham, no Ano novo, comentários, esclarecimentos, críticas, aplicações, retiros, palestras, teses, mestrados. Ninguém fica de fora porque não há nada lá que não diga respeito à vida de cada um de nós. E à morte. É à luz perpétua como estrela de Natal sobre as nossas frontes. Exacto. É uma luz plural. Ninguém possui, só, nem virtude nem pecado. Posso citar um pouco?: “Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Continuamente entra na minha existência a vida dos outros: naquilo que penso, digo, faço, realizo. E, vice-versa, a minha vida entra na dos outros: tanto para o mal como para o bem… A nossa esperança é sempre essencialmente também esperança para os outros; só assim é verdadeiramente esperança também para mim. Como cristãos não basta perguntarmos: como posso salvar-me a mim mesmo? Devemos antes perguntar-nos: o que posso fazer a fim de que os outros sejam salvos e nasça também para eles a estrela da esperança?” (Spe Salvi n.48)

A ler. Sem pressa. E a oferecer.

António Rego

17 de dezembro de 2007

Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

e Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano

Os Grandes Santos
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Dia 20 de Dezembro, Quinta-feira, 21.30

São Bernardo

com
João César das Neves

No Salão Paroquial

(esquina da Av. Maria Helena Vieira da Silva com a R. Raul Mesnier du Ponsard)
Metro da "Quinta das Conchas"


São Bernardo tem uma história impressionante e de enorme actualidade. Um jovem que descobriu que acreditar em Deus implicava um "tudo ou nada", entrou no Mosteiro de Cister com mais de 30 amigos e parentes que ele conseguiu atrair, tornou-se o grande impulsionador da difusão da Reforma de Cister, de onde vieram dezenas de Mosteiros (por ex. Alcobaça). Grande Místico, com meditações de uma profundidade ímpar, mas muito realista e consciente da importância duma organização social e política cristã, e da existência duma Europa chamada a defender a fé Católica.
Nestes dias antes do Natal conhecer este Santo é escolher a sua companhia para viver bem estes dias.

14 de dezembro de 2007

13 de dezembro de 2007


Projecto integrado na ONGD – Leigos para o Desenvolvimento

ABRACE ESTE PROJECTO

SEJA VOLUNTÁRIO

Apoiamos alunos imigrantes nas disciplinas do ensino secundário (10º/11º/12º) e ensino superior através de explicações em regime de voluntariado.

1 hora do seu tempo por semana é uma grande

ajuda para estes alunos…

Entre em contacto connosco 21 757 91 38

96 849 23 80





10 de dezembro de 2007

Retiro para Jovens (clica aqui para fazeres a tua inscrição)

No próximo fim de semana, dias 15 e 16 de Dezembro, realizar-se-á um retiro de Jovens, em Fátima.
É uma experiência única que não deve ser deixada de se vivenciar. Marca na tua agenda...
Inscreve-te já!!!

5 de dezembro de 2007

Projecto FIDE - OYÉ - Cabinda

As Cooperadoras da Família, residentes em Malembo/Cabinda no intuito de melhor responder às necessidades das Famílias pretendem implementar o Projecto FIDE (Formação, Integração, Desenvolvimento, Evangelização). Este Projecto tem como objectivo a Formação em ordem à Integração, Desenvolvimento e Evangelização das famílias de Cabinda. Mas a viabilidade e a execução deste projecto – FIDE – reclamam a construção de uma sede própria, com o mínimo de condições adequadas às actividades a realizar, o mais próximo possível das pessoas, que se concentram nos subúrbios da cidade. No Local onde trabalhamos presentemente as pessoas estão todas muito dispersas, Malembo, é demasiado pequeno e dista da cidade cerca de 35 km, embora haja uma série de aldeias para o interior, só que não há transportes, nem outros meios de que as pessoas possam dispor para virem até nós, ou nós irmos até elas. Graças a Deus possuímos já um “bom” terreno, cerca de 4/5 km da cidade, num local que julgámos ser ideal para implementarmos aí a Escola de Formação Familiar Profissional, voltada para as Artes e Ciências de Serviço à Família, bem como um espaço de apoio social, às jovens, em regime temporário e/ou em discernimento vocacional, porque o ambiente social e familiar não ajuda nada este aspecto importante da vida das pessoas e das instituições.

3 de dezembro de 2007

Spe salvi • Salvos na esperança. Segunda Carta Encíclica de S.S. Bento XVI

A “redenção”, a salvação, segundo a fé cristã, não é um simples dado de facto. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho.

1 de dezembro de 2007

Abuso de poder corporativo ou abuso de poder ministerial?

Por Luís Brito Correia

Não queremos que os nossos netos nos condenem pelo holocausto dos fetos

O prof. Vital Moreira, conhecido defensor da despenalização do aborto, veio defender, no PÚBLICO de 20/11/2007, que os médicos que consideram eticamente inaceitável a prática do aborto não podem "impor oficialmente os seus padrões de ética profissional aos demais profissionais que não compartilham desses valores e não desejam deixar de cumprir as suas obrigações profissionais"; que "nenhuma ordem profissional pode considerar infracção disciplinar a prática de actos profissionais não só lícitos mas mesmo profissionalmente devidos (salvo objecção de consciência)"; que a recusa da Ordem dos Médicos a adaptar o seu código deontológico à lei "é inaceitável", é um "intolerável desafio à primazia da lei e do Estado de direito", é um "abuso de poder corporativo".
Com este discurso, esquece o ilustre constitucionalista que a Constituição continua a dispor que "a vida humana é inviolável" (art. 24.º). Obviamente, a vida humana deve ser protegida desde que existe vida humana. Há alguns (poucos) médicos que dizem que têm dúvidas sobre se o embrião (até às 8 semanas) é um ser humano; mas nenhum médico conseguiu provar que o ser resultante da fecundação (ou concepção) não tem vida (como poderia, se as células se multiplicam a uma velocidade espantosa?) nem que esse ser vivo não é humano: como poderia, se passadas poucas semanas o é, inequivocamente? Mudou de natureza? Em que momento e porquê? Ou seja, todos os médicos sabem, hoje, que o aborto equivale a matar um ser humano.
E todos os médicos sabem, hoje, que a chamada "interrupção voluntária da gravidez" causa, frequentemente, sofrimentos à mulher: aumenta em 30% o risco de cancro da mama, gera depressões, disfunção sexual, esterilidade, tendência para aborto espontâneo, etc. - males que os médicos têm o dever de tratar e prevenir.
Esquece o ilustre constitucionalista que, no referendo, se perguntava "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez (...)". Ou seja, pretendeu-se tornar não punível e, portanto, lícito para a mulher (e, por arrastamento, para o médico e a parteira) abortar voluntariamente. Isso, pretendendo, alegadamente, acabar com o aborto clandestino e defender a "dignidade" da mulher. Não se perguntou se passaria a ser obrigatório para todos os médicos fazer abortos voluntários (salvo objecção de consciência - entre parênteses, como se esta fosse rara...) nem para todos os contribuintes pagá-los.
Esquece o ilustre constitucionalista que o resultado do referendo de 2007 não foi juridicamente vinculativo (porque votaram apenas 43,57% dos eleitores, tendo votado "sim" apenas 25,8% dos eleitores), embora seja politicamente relevante (como foi o de 28/6/1998).
Nega o ilustre constitucionalista que, acima da lei (aprovada pela maioria dos deputados ou pelos governantes), há valores de justiça e de consciência que merecem mais respeito do que as normas criadas pelos homens. Com tal atitude, manifesta um juspositivismo semelhante ao que esteve na origem do holocausto nazi e dos gulags comunistas de tão má memória. E declara uma intolerância que é tudo menos democrática.
Aliás, o recurso para o Tribunal Constitucional de impugnação da constitucionalidade da Lei n.º 16/2007, de 17/4, ainda não foi julgado.
Não é o código deontológico aprovado pela Ordem dos Médicos (isto é, pela esmagadora maioria dos profissionais) que é abusivo, mas a tentativa de imposição ministerial de uma orientação ética que fere profundamente a consciência e a dignidade da maioria
dos médicos.
Quando a lei é gravemente injusta, todos temos o direito constitucional (art. 21.º) e natural de resistência. Não queremos que os nossos netos nos condenem pelo holocausto dos fetos, a que estamos a assistir (e já lá vão mais de 3000, que Deus tenha em descanso) - como, hoje, muitos condenam os nossos pais e avós pelos males do fascismo e do comunismo. Todos nós precisamos que os médicos nos tratem da saúde, não que matem os nossos filhos.

Advogado e ex-mandatário da Plataforma Não Obrigada

30 de novembro de 2007

A poucos passos do Jubileu

“Salvemos a Família, Salvaremos o Mundo”.

Esta intuição ecoou e inquietou profundamente o coração do Pe. Brás e levou-o a perceber que a família necessitava de um "cuidado especial". A degradação moral da família de então (década 30) e a 'magreza económica' dos seus recursos, deram origem a um movimento migratório das aldeias para as cidades. Uma multidão de jovens raparigas, chegavam aos meios urbanos, desprovidas de tudo, tornando-se, nessas condições “presa fácil” para quem as olhava como “meros instrumentos de trabalho e ou de prazer”. O seu abandono e desprotecção – eram a ovelha perdida das 99 – mas também a sua carência de formação humana, moral, religiosa e profissional reclamavam, a urgência de uma acção concertada. Mas quem poderia dar resposta a tão urgente necessidade? O Pe. Brás reuniu, no dia 4 de Junho de 1933, um grupo de 6 jovens das mais comprometidas, sugerindo-lhes a entrega total da sua vida a Deus, para uma dedicação plena ao acolhimento e à formação destas jovens. De rasgados horizontes, como sempre foi sua característica, o Pe. Brás, iluminado por Deus, entendia que a preparação, aos vários níveis, destas jovens era um “tiro certeiro“ em três famílias, em simultâneo: a que serviria, a de origem e aquela que viria a constituir. Tratava-se de um investimento a longo prazo. A semente estava lançada, nascia assim o Instituto Secular das Cooperadoras da Família que no dia 1 de Janeiro de 2008, no 8º Aniversário da Aprovação de Direito Pontifício, dará início às celebrações dos 75 anos de existência. Desde sempre, e deitando mão às mais diversas actividades, a nota dominante do seu Carisma e Missão foi e continua a ser o cuidado da santificação da Família”, concebido como: “Fonte de Vida humana e principal agente de transformação do mundo”. Foram muitas e continuam hoje a ser algumas, as jovens que tocadas por Deus e seduzidas por Jesus Cristo, se propuseram seguir as pegadas do Pe. Brás, dando continuidade às suas obras, encontrando neste carisma e respectiva missão o sentido da sua vida. Uma vida toda oferecida à família. O Instituto foi-se consolidando e afirmando ao longo dos anos. Em 1955 a 10 de Janeiro, dentro da oitava da Festa da Sagrada Família, foi elevado o Obra Pia das Cooperadoras da Família. A 18 de Fevereiro de 1961 foi promulgado o Decreto de erecção Canónica que o eleva à categoria de Instituto Secular de Direito Diocesano. A 28 de Dezembro de 1999, vésperas do grande Jubileu, o Instituto recebe o reconhecimento de Direito Pontifício. Em Decreto de 1 de Janeiro de 2000, que assinala o evento, a Igreja deseja que «através do seu carisma, possa o Instituto irradiar na Igreja e no mundo a sua espiritualidade para que a exemplo da Sagrada Família de Nazaré, cada família humana seja lugar e espaço da humanização da pessoa humana e da sociedade”. Actualmente, o Instituto está presente em Portugal, (o maior número de membros), em Espanha (Madrid), em França; na Itália (Roma); no Brasil e há sete anos chegou a Cabinda (Angola). Como Instituto Secular o seu primeiro dever de apostolado é o apostolado de presença, donde cada membro, no desempenho da sua profissão. É chamado “ a impregnar” todas as coisas do Espírito do Evangelho. De acordo com o cânone 714, o Instituto, mesmo sendo de natureza Secular, possui obras próprias, herança recebida do Seu Fundador e hoje confiado ao dinamismo apostólico dos seus membros. Estas obras, enquanto meios, ao serviço da realização do carisma, assumem como prioridade o cuidado da santificação da família: Obra de Santa Zita; Movimento por um Lar Cristão; Centros de Cooperação Familiar; Jovens Focos Esperança, Jornal da Família, etc. Para conhecimento do Leitor e como “oferta de serviços à Família” nos próximos meses, apresentaremos uma breve síntese de cada Obra e Movimento. Nesta publicação, será dado particular destaque aos Centros de Acolhimento e Apoio à Família; aos retiros para as famílias e a uma campanha lançada pelo Instituto Secular das Cooperadoras da Família, orientada para a sua missão em Cabinda.

Projecto FIDE - OYÉ - Cabinda

As Cooperadoras da Família, residentes em Malembo/Cabinda no intuito de melhor responder às necessidades das Famílias pretendem implementar o Projecto FIDE (Formação, Integração, Desenvolvimento, Evangelização). Este Projecto tem como objectivo a Formação em ordem à Integração, Desenvolvimento e Evangelização das famílias de Cabinda. Mas a viabilidade e a execução deste projecto – FIDE – reclamam a construção de uma sede própria, com o mínimo de condições adequadas às actividades a realizar, o mais próximo possível das pessoas, que se concentram nos subúrbios da cidade. No Local onde trabalhamos presentemente as pessoas estão todas muito dispersas, Malembo, é demasiado pequeno e dista da cidade cerca de 35 km, embora haja uma série de aldeias para o interior, só que não há transportes, nem outros meios de que as pessoas possam dispor para virem até nós, ou nós irmos até elas. Graças a Deus possuímos já um “bom” terreno, cerca de 4/5 km da cidade, num local que julgámos ser ideal para implementarmos aí a Escola de Formação Familiar Profissional, voltada para as Artes e Ciências de Serviço à Família, bem como um espaço de apoio social, às jovens, em regime temporário e/ou em discernimento vocacional, porque o ambiente social e familiar não ajuda nada este aspecto importante da vida das pessoas e das instituições.
Assim:

Por um futuro mais promissor/ Para a nossa família “Binda”.
Vamos todos colaborar/ Na nova casa em Cabinda
Juntos e de mãos dadas/ Com o coração bem aberto
Este projecto do Instituto/ Seguirá no rumo certo
A
Formação é a base/ De uma vida bem definida
Pela
Integração e Desenvolvimento / A Evangelização será assumida
Este é o Projecto
FIDE / Que estamos a implementar
Por estas terras de África / Para a Família dignificar.
Só com gente bem preparada / A sociedade pode avançar
Pelo caminhos do progresso / Para a todos reintegrar
Cooperantes todos juntos / Com amor e muita fé
Somos o grupo dos Amigos / Do Projecto FIDE, oyé!

Lídia Pranchas (Cooperadora da Família em Cabinda)


Matrimónio. Uma opção difinitiva?!

9. Futuro da condição humana

Quero hoje começar a minha colaboração fazendo uma afirmação taxativa: O futuro da condição humana passa também pela maneira como sejamos capazes de viver e testemunhar a realidade do matrimónio. Sei que para alguns esta afirmação pode parecer exagerada, contudo estou cada vez mais convencido de que o futuro da nossa espécie passa também verdadeiramente pela maneira como sejamos capazes de viver esta realidade. Claro que ao afirmar isto não me estou a referir simplesmente, nem principalmente, às questões relacionadas com a natalidade. A esse nível todos sabemos como é importante adoptar medidas que verdadeiramente a incentivem, sobretudo numa Europa que envelhece a olhos vistos. Parece-me óbvio o cuidado que devemos ter e implementar no sentido de favorecer a maternidade. Mas também todos sabemos, ainda que muitas vezes teimosamente não o queiramos admitir, o futuro da nossa espécie não passa simplesmente pela sua preservação biológica. A maneira como encaramos e olhamos a condição humana e, portanto, como educamos as novas gerações nessa linha, influenciará certamente o nosso futuro. Pois bem, é exactamente aqui que descubro o papel fundamental que o matrimónio é chamado a desempenhar. Por não se tratar de uma simples opção baseada nos sentimentos, ainda que os sentimentos ocupem um papel importante como todos sabemos; por não ser uma simples partilha comum de espaço e tempo, ainda que esse mesmo espaço e tempo possam ser profundamente enriquecidos a partir dessa experiência; por não poder ser reduzido a um mera estratégia para duas pessoas poderem enfrentar o futuro com mais confiança, ainda que novas oportunidades se abram nesse futuro quando é preparado em conjunto, o matrimónio pode desempenhar um papel singular no futuro da humanidade. De facto o tempo em que vivemos está a exigir de uma maneira radical que sejamos capazes de mudar as nossas atitudes e as nossas mentalidades. Somos chamados a passar da colaboração à corresponsabilidade naquilo que é a tarefa de edificar um mundo mais fraterno e mais humano. Já não chega colaborar e de modo nenhum posso ficar fechado no meu cantinho simplesmente preocupado com o que me está próximo fisicamente. É a este nível que também somos chamados a fazermo-nos próximos de toda a humanidade. De uma vez por todas temos de descobrir-nos corresponsáveis pela construção do futuro e pela dignificação da condição humana. E não falo da condição humana de um modo abstracto, mas da condição e dignidade humana de cada homem e de cada mulher em concreto.

Por ser uma opção definitiva baseada no amor e no compromisso em fazer do outro uma pessoa mais plena e feliz (digoo agora de uma maneira positiva que tem sempre mais força); por ser capaz de nos abrir a dimensões que estão para além do simples espaço e do simples tempo, ajudando-nos a penetrar na profundidade do real; por ser uma aposta na fidelidade vivida como sustentáculo de toda a vida, o matrimónio é uma realidade a ocupar um lugar insubstituível no futuro da humanidade. Núcleo essencial onde a vida é vivida na constante corresponsabilidade pela realização e felicidade não só do outro que amamos, mas daqueles que nos rodeiam e daqueles que chegam à existência como fruto do amor dos esposos entre si, o matrimónio dever ser uma das bases e um dos principais motores que impulsione o ser humano a viver a vida como dom e dádiva. Penso que só a partir desta perspectiva teremos mais possibilidades de sermos bem sucedidos nos desafios que o futuro nos reserva. Não tenho dúvidas de que o individualismo é e pode continuar a ser um dos grandes venenos da nossa existência, pois pouco a pouco vai secando a vida à sua volta, uma vez que tudo centra nele e nas suas necessidades. O desafio é o de verdadeiramente aprendermos a ser pessoas, ou seja a sermos com os outros, por causa dos outros e para os outros. E este é a experiência do matrimónio. E para nós crentes (por isso falo em matrimónio e não simplesmente em casamento) essa realidade é ainda mais evidente, pois descobrimos que no caminho que somos chamados a fazer não estamos sozinhos, como também que o futuro que somos desafiados a construir não é uma mera visão fruto da nossa imaginação, mas um horizonte que Deus colocou no nosso coração e que a experiência do amor verdadeiro, suporte de todo o matrimónio, começa já a concretizar e antecipar.

Juan Francisco Ambrósio - colaborador do JF

27 de novembro de 2007


Jesus de Nazaré

Apresentação do livro de Bento XVI

por

Padre Jacinto Farias

João César das Neves

Laurinda Alves

com a presença do Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa

Cinema S. Jorge. Av. da Liberdade. 28 Nov. 19:00


26 de novembro de 2007

A internet e o far west

A Internet é a maior colecção de insultos, mexericos, boatos e disparates alguma vez reunida na história da humanidade. Existem também coisas excelentes, belas e grandiosas, com uma qualidade única e inovadora. Mas não há dúvida que numa grande parte dos blogs, mensagens, comentários e sites de debate dominam o pedantismo e a grosseria, maldade e despeito, vacuidade e a mais pura e prístina estupidez.
Qual a razão do facto? Podia dizer-se que a Net atrai pessoas de mau carácter, mas todos os sinais são contrários. É evidente que quem frequenta as novas tecnologias da comunicação ainda pertence a uma elite favorecida, com mais formação e conhecimentos que a média. Por muito que se tenha popularizado, a sociedade virtual é dominada pelos mais educados e sofisticados de um país como Portugal.
Assim a explicação mais plausível tem de ser outra: a Net tende a trazer ao de cima os instintos mais baixos dos que a frequentam. Uma prova desse facto é que muita gente põe em blogs e e-mails coisas que teria vergonha de dizer ao telefone, escrever numa carta ou publicar em jornais ou livros. Aliás vê-se que, interpelado ou confrontado com o que escreveu, frequentemente o autor cai em si e admite ter-se deixado levar pelo meio. O que prova que existe algo nessa forma de comunicação que motiva o dislate.
A Internet apareceu como um grande melhoramento das formas tradicionais de contacto, mas veio a revelar-se, em muitos casos, uma mistura entre carta anónima e jornal de parede, onde se podem proclamar impunemente as suspeitas mais implausíveis ou descarregar as irritações mais viscerais. Cada gestor de um site sente-se com autoridade de um director de jornal e capacidades de um estúdio de cinema, ambas reduzidas à estatura do seu ego. Isso cria potencialidades maravilhosas e muita gente faz coisas admiráveis. Mas também se podem expandir os preconceitos e ideias feitas, teorias mirabolantes ou ódios de estimação, tudo admissível porque aquele é o seu espaço, com regras por ele definidas. A enorme influência do meio só confirma essa atitude.
Isto mostra que ainda se vivem os tempos heróicos, a fase dos pioneiros, a idade selvagem da internet. Como na época áurea do Far West, cada um faz a sua lei e não há limites nem procedimentos estabelecidos. Se há muitos feitos notáveis e heróicos, também todos os abusos são admissíveis, porque manifestam a suprema liberdade. O factor decisivo da Internet é de facto a liberdade. Mas a liberdade descontrolada e irresponsável torna-se embriagante e destruidora. O nosso tempo diz ansiar pela liberdade radical, mas depois quer justiça, segurança, direitos.
Assim a Net revive um drama antigo da civilização. O grande psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905-1997) disse que os EUA deveriam construir em Los Angeles uma "Estátua da Responsabilidade", para compensar a de Nova Iorque. A liberdade só floresce se apoiada no esteio dos valores e da cultura. Ao longo dos séculos todas as sociedades se esforçam por elaborar um edifício cultural e tradicional de valores que defenda o espaço pessoal da liberdade. A tradição, que tantos vêem como um entrave, só existe como protecção crucial dessa autonomia.
Perante um choque, como ao nascer de um novo continente ou forma de comunicação, a tradição é pulverizada. Então, no Far West e Internet, como nas revoluções, uma sociedade vive algum tempo com uma estrutura cultural mínima, que não chega para orientação. Nessas fases da História, e enquanto não se criam novos quadros de referência, vêm ao de cima os instintos mais básicos e boçais. É isso que por enquanto se vê na Net, apesar dos esforços intensos que um dia conseguirão civilizá-la.
Aqui surge outro problema. Muitos espantam-se por sociedades avançadas e sofisticadas tolerarem tais comportamentos. O que leva a Alemanha de Bach e Goethe a ajoelhar-se diante de Hitler? Serve-nos de aviso a afirmação de S. Bernardo: "Não há nada tão firmemente estabelecido na alma que a negligência e o tempo não enfraqueçam" (De Consideratione, I, ii, 2).

Por João César das Neves

Retiro para a Família


JOVENS PROFISSIONAIS CATÓLICOS

EXIBIÇÃO DO FILME “SHADOWLANDS”

A associação Jovens Profissionais Católicos tem a honra de convidar V. Exª para a exibição do filme “Shadowlands”, seguida dos comentários do Padre Hugo Santos, Capelão da Universidade Católica de Lisboa.

Este filme retrata a autêntica história de amor entre C.S. Lewis, o conhecido escritor e professor irlandês, autor, entre outros, de Crónicas de Nárnia, e a sua mulher, interpretados magnificamente por Anthony Hopkins e Debra Winger. O filme, de 1993, foi realizado pelo famoso Sir Richard Attenborough, tendo 2 nomeações para Óscar: uma para melhor adaptação e outra para melhor actriz principal.

Local/data: Igreja de São Nicolau (sala grande), no dia 29 de Novembro (5ª feira), pelas 21h15m

Duração: Filme (2h10m) e comentários (15 minutos)

Entrada livre

O Estado a Igreja e a Liberdade Religiosa

A presença da Igreja na sociedade, o exercício da actividade religiosa no espaço público, as implicações do direito à liberdade religiosa, as relações entre a Igreja e o Estado, a participação da hierarquia no debate público são questões na ordem do dia, na sociedade europeia secularizada onde a Igreja tem um papel histórico de liderança cultural e histórica e em países em que a maioria dos cidadãos se reclamam de católicos.

Não admira que o Papa e os Bispos aflorem o tema, sempre que a oportunidade se lhe depara. Ao receber o novo embaixador italiano na Santa Sé, o Papa reafirmou que a Igreja não quer “ser um agente político”, situações de privilégio do Estado e “posições de vantagem económica ou social”. Está ao serviço do homem para “oferecer à sociedade civil, o seu apoio, promovendo e elevando o que é verdadeiro, bom e belo, iluminando todos os sectores da actividade humana, através dos meios do Evangelho, procurando bem de todos, segundo a diversidade do tempo e da situação”.

O Cardeal Patriarca deu, no princípio de Outubro, uma entrevista aos órgãos de comunicação social para analisar a conjuntura das relações da Igreja com o Estado em Portugal.

A Concordata é um documento jurídico firmado entre o Estado e a Santa Sé que tem a ver com a actividade da Igreja em Portugal em matérias que confinam com a acção do Estado, na aplicação do direito de liberdade religiosa. “”A Concordata consagra o princípio da cooperação entre a Igreja e o Estado”. Não pede privilégios - repete o Cardeal Patriarca.

Há atrasos na regulamentação e na implementação da Concordata e da Lei da Liberdade Religiosa. Tanto uma como a outra, definem princípios, linhas gerais de actuação que requerem não apenas a adaptação das instituições religiosas e seus organismos, mas também a reformulação dos procedimentos e serviços de diversos departamentos do Estado. É um facto que actividade da Igreja católica no domínio estritamente religioso e patrimonial, no plano da acção sócio-caritativa, cultural e do ensino, na presença e apoio em instituições do Estado como as capelanias das forças armadas, hospitais e prisões, é de longe mais significativa do que a de qualquer outra confissão religiosa ou mesmo a de todas elas tomadas em conjunto. Reconhecê-lo é aceitar a evidência estatística, é respeitar os direitos dos cidadãos que simultaneamente são crentes, é respeitar a cultura e história. É também um facto que é a Igreja católica que mais se sente com decisões que não têm em conta a sua actividade em muitos domínios em que supre a insuficiência, a ineficácia ou simplesmente a inexistência dos serviços do Estado. É também a Igreja que mais se sente com supostas aplicações da lei da liberdade religiosa que r e s u l t a m dum entendi m e n t o unilateral, não têm em conta os c o m p r omissos assumidos na Concordata e na realidade limitam o exercício do direito à liberdade religiosa. Têm surgido algumas situações conflituais resultantes da ignorância ou menosprezo da acção das instituições sociais da Igreja no apoio às famílias em complemento da actividade escolar sobretudo no pré-escolar e primeiro ciclo – vulgo ATLs – e da limitação da acção das capelanias nomeadamente as hospitalares.

O Patriarca considera que a melhor maneira de superar as tensões entre a Igreja e o governo passa pelo diálogo directo e sereno, evitando a polémica pública e o protagonismo decorrentes de opinião que querem erradicar a actuação da Igreja da esfera pública. “Acredito que, no diálogo e na análise objectiva da melhor maneira da Igreja servir a nossa sociedade, conseguiremos apaziguar e pacificar” – disse o Patriarca que manifestou a abertura da Igreja para as adaptações necessárias, mas reclama do Estado a manifestação da sua boa fé e disponibilidade para fazer as suas. A Igreja “não é o poder, mas a autoridade do serviço”. O Primeiro Ministro mostrou também publicamente perspectiva idêntica de resolver pelo diálogo directo e perseverante este tipo de problemas. Nomeou recentemente Mário Soares Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa que integra especialistas e representantes das confissões religiosas. A Comissão da Liberdade Religiosa é um órgão independente e consultivo da Assembleia da República e do Governo. Compete-lhe pronunciar-se sobre todas as matérias relacionadas com a aplicação, desenvolvimento e alteração da Lei da Liberdade Religiosa. Na tomada de posse, Mário Soares, fazendo profissão de fé laica e republicana, confessou-se “a favor da separação do Estado das Igrejas, como a lei indica”, manifestando “grande respeito por todas as formas de liberdade, assim como pela Concordata que existe entre a República Portuguesa e a Santa Sé”. A liberdade religiosa é um direito, não uma concessão do Estado. A Igreja não quer interferir na esfera própria do Estado, mas deseja também que este respeite a sua actividade no seu domínio específico e possa fazer ouvir a sua voz em questões que envolvem a pessoa humana, a sua dignidade e direitos. A Igreja quer estar presente no espaço público. Compete ao Estado criar condições para o exercício da autonomia da Igreja na sua esfera própria e para a concretização do direito de liberdade religiosa no plano institucional e individual.


Por Octávio Gil Morgadinho - colaborador do JF


21 de novembro de 2007

Lá como cá …

O recém empossado Presidente da República da França no seu discurso de tomada de funções disse: “Derrotamos a frivolidade e a hipocrisia dos intelectuais progressistas. Não vamos permitir a mercantilização de um mundo onde não há lugar para a cultura: desde 1968 não se podia falar da moral. Haviam-nos imposto o relativismo.

A ideia de que tudo é igual, o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, que o aluno vale tanto quanto o mestre, que se não pode dar notas para traumatizar o mau estudante. Fizeram-nos crer que a vítima conta menos que o delinquente. Que a autoridade estava morta, que as boas maneiras haviam terminado. Que não havia nada de sagrado, nada de admirável. Esta era o “slogan“ de Maio de 68 nas paredes da Sorbonne. "Viver sem obrigações, gozar sem trabalhar". Quiseram acabar com a escola de excelência e do civismo. Assassinaram os escrúpulos e a ética. Uma esquerda hipócrita, que permitia indemnizações milionárias. Esta esquerda está na política, nos meios de comunicação e na economia. Ela tomou o gosto do poder. Deixaram sem poder as forças da ordem e criaram uma farsa: abriu-se um fosso entre a juventude e a polícia. Os vândalos são bons e a polícia é má. Como se a sociedade fosse sempre culpada e o delinquente inocente. Defendem os serviços públicos, mas jamais usam o transporte público. Amam tanto a escola pública que os seus filhos estudam nos colégios privados. Dizem adorar a periferia e jamais vivem nela. Assinam petições quando se expulsa um invasor de uma moradia, mas não aceitam que um deles se instale na sua. É essa esquerda que desde Maio de 1968 renunciou ao mérito, esforço, atiça o ódio contra a família, a sociedade e a República. Não podemos inventar impostos para estimular aquele que cobra do Estado sem trabalhar. Vou reabilitar o trabalho. Em Portugal tem sido assim de há umas poucas dezenas de anos. Tem-nos feito, também, crer, que é na facilidade e no oportunismo que está o mérito. Que os pais estão ultrapassados e só servem para sustentar vícios, vida boa e sem trabalhar. Que o casamento de hoje equivale ao divórcio já amanhã; que à orgia de sexo, drogas e álcool da noite de hoje, essa juventude transviada tem a resposta na pílula do dia seguinte; que a escola, à sua entrada, qual farmácia, devia fornecer preservativos para esse bando que não conhece nem a ordem nem a lei, nem a moral, nem a verdade e nem a obediência. E como se desautorizaram os professores a violência tem recaído impunemente sobre eles; e como importa preencher estatísticas, mesmo com maus resultados, é-se obrigado a deixar transitar ao imediato o mau estudante. Humilharam os professores, fizeram deles os parasitas da sociedade e ao mesmo tempo o colo dos filhos a quem o não dão, nem preocupados com isso estão. Esmagaram-se os funcionários públicos com o fundamento errado de que auferem vencimentos escandalosos, alguns dos quais nem para eles dá para viver. Escarneceu-se das polícias, insultando-as, atentando contra os seus membros fazendo delas grupos acéfalos, sem poder nem autoridade. Dispararam toda a sorte de disparates contra os tribunais ignorando as suas dificuldades de funcionamento; a rebeldia de um povo que se ama alguma coisa não é a verdade e nem a justiça, enegreceu os seus magistrados, agora bodes expiatórios de um sistema que há muitos anos os ignorou. Qualquer um, sem o menor conhecimento de causa, atira pedras contra decisões dos tribunais; alguns intelectuais deste país ultrajam-nos, muitos vivendo à sombra do Estado, cujos órgãos assim desprezam. Já poucos se levantam para ceder lugar a um idoso, a uma mulher grávida ou a um doente. Nas ruas é um desfiar constante de obscenidades entre as camadas mais jovens, voltadas para o amor livre, a idolatria do sexo, do prazer, da volúpia, mesmo com prejuízo para os incautos. Também de há uns tempos a esta parte nos intentam fazer crer que o casamento entre pessoas de sexo diferente é igual ao juntar de duas pessoas do mesmo sexo; a verdade quase desapareceu do léxico. Dizem ser preciso estimular o crescimento da natalidade mas, contraditoriamente, tratam gratuitamente, à custa do povo, quem queira matar os fetos inocentes.

Os mais ricos esquivam-se ao pagamento de impostos e engrossam cada vez mais as suas fortunas. Alguns deles abrem a boca para lançarem gestos de simpatia pelos mais desfavorecidos mas viram a cara quando lhes pedem para uma colecta. Frequentam dos melhores comes e bebes e trapos. Remetem os filhos para os melhores colégios privados, da Igreja católica, quando nada querem com ela. Outros mandam-nos estudar para o estrangeiro porque no país as alternativas de melhoria são quase nulas, a menos que se seja bafejado por um golpe de sorte, porque os filhos dos ricos e influentes têm lugares assegurados nisto, naquilo e mais naquilo. Aqui impera a mediocridade enquanto os mais capazes apodrecem no desassossego da sobrevivência, da doença, do conflito, transformados num fardo humano desesperado e sem luz verde à frente do túnel. Tudo é igual. Está-se mesmo a questionar se a liberdade de pensamento deve conter limites. Insulta-se, menospreza-se, enxovalha-se, apouca-se, ridiculariza-se nos meios de comunicação social todo o que exerce poder de autoridade Governos, Tribunais, polícias, e não só… A palavra falada flui quase sempre em torno do sexo; a intimidade da vida privada pouco conta e é aproveitada para um leque de muitas coisas. Levantam-se falsos testemunhos a quem quer que seja, na esperança de um engenhoso de leis que safe a honra do convento. As csarinas do regime, em prosas ocas, defendem o divórcio, o amor livre, a união de facto entre o sem o ser pessoas do mesmo sexo, combatem a família, apoucam a autoridade, negam o Transcendente, reúnem no mesmo tecto os filhos delas, dos outros, de ambos e eventualmente um ilegítimo. Tal como em França o relativismo se instalou entre nós. Tal como em França não se pode inventar mais impostos. E muito menos para assegurar o aborto e sustentar obras faraónicas. E já agora porque se gastou uma fortuna incomensurável para salvaguarda do que dizem ser gravuras rupestres, que bem poderiam ser trasladadas, sem perda da qualidade se a têm, para outro local, sem compromisso de regadio para a zona de Foz Côa? E quem é o responsável desse acto de gestão? Atiraram-se pessoas contra pessoas, acirrou-se a inveja, estimulou-se o ódio e este país está transformado num vespeiro, mergulhado numa dramática crise social, económica e moral. Leis apressadas permitiram que os tribunais por culpa de quem as fez – que não são os tribunais e nem os juízes, embora erradamente se pense e poucas vezes desmentido porque não é conveniente – tivessem que libertar concidadãos – e não só-perigosos criminosos. Tal como Sarkozy é preciso reconstruir este país. O povo deve pedir responsabilidades a quem o conduziu para este perigoso beco, de desemprego, de amoralidade, de desrespeito, de oportunismo e de cegueira.


Por Armindo Monteiro - colaborador do JF

No rodopio da vida

E assim vamos no ciclo do tempo. Lento, veloz, sereno, revolto. O tempo que se recicla e nos recicla. Lança-nos no retorno das coisas, nas repetições da paisagem, do sol, da chuva, da terra, da semente, do sono outonal, do renascimento, numa teimosia de renovar e reviver dentro do mesmo espaço e duma duração que se sente mas se não vê. O tempo, afinal, não existe. Existimos nós que passamos, morremos continuamente para a etapa anterior e nos refrescamos no presente e no advir. Sentindo sempre que tudo é volátil, passageiro, aparentemente insignificante. Experiências, descobertas, emoções, com o rodar do tempo esvaem-se, envelhecem, parecem sem sentido.

E, todavia, a esperança que sempre emerge mesmo das mortes, dos outonos, das sementeiras profundas, das árvores desnudadas e tristes, reaviva-nos irresistivelmente. De tal modo que a morte continua a ser visceralmente repugnante. Temos sempre preparado o alerta máximo para qualquer ameaça próxima ou distante. Mesmo com a fé pronta para entender a ressurreição e a eternidade sempre extraímos de cada breve momento a seiva plena como se fora um composto de eternidade. Foi Deus quem nos plantou na alma este instinto de eterno que ultrapassa o nosso raciocínio e mesmo as formulações da nossa fé. Está no âmago do homem. Com a vinda de Jesus cada pequeno gesto em torno da árvore da vida ganhou um significado novo. Não se trata duma armação lógica, mas da certeza íntima de que Ele remiu todos os segundos do tempo e da eternidade e por isso tudo ganha uma interpretação transcendente. Olhamos, assim, de outro modo para as Estações, a natureza, o próximo e o longínquo, a tempestade e o tom primaveril que sempre irrompe das tardes mais cinzentas. O fim do ano litúrgico, a coroa de todos gestos de redenção, a esperança do renascimento no esboçar dum advento intemporal mas prenhe da história redentora de Jesus. Assim nos apercebemos que o Natal é muito mais que uma soma de objectos trocados. É o grande jogo do afecto pela vida nos seus diferentes tons. É uma liturgia, uma parábola, uma história mais que mágica. Real. Com a estrela, os magos, o canto dos anjos, o Menino reclinado, a humanidade em festa porque redimida. Seja em que tom for, este hino de Deus no meio dos homens nunca pode deixar de ser repetido. Mesmo que o Natal pareça mais um ciclo com menos imaginação.

António Rego

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