Dizendo-se que no nosso país o fosso entre pobres e ricos, e que há cada vez mais pobres com a destruição iminente da classe média, por várias razões desde logo pela sobrecarga dos impostos, desemprego e desagregação das estruturas familiares, a exploração do homem pelo seu semelhante é uma realidade que se desenha no horizonte que nos cerca.
Mas onde a consciência dessa exploração sobressai mais é, sobretudo, nos países africanos onde os colonizadores e os detentores do poder que àqueles se seguiram, espoliaram o seu povo, umas vezes em benefício próprio, roubando o erário público outras vezes envolvendo-se em querelas intermináveis desviando o produto das riquezas para a compra de armamento e material bélico de toda a ordem e em negócios que acabam por reverter para o enriquecimento de outros, se não, também, para quem os colonizou. A cidade do Cairo, no Egipto, com os seus mais que 7 (ou mesmo 17, segundo me relataram) milhões de habitantes, é disso exemplo. As paredes dos seus edifícios estão negras da poluição, mas não menos grave do que isso deixam entrever, pelos vidros das janelas partidas, pelas portas e telhados destruídas, mesmo no coração duro da cidade capital, que após o abandono pela potência colonizadora tudo parou no tempo. O cidadão egípcio, minimamente esclarecido, afirma que a potência colonizadora espoliou o país e nada diz sobre os subsequentes governantes porque teme a perseguição. O povo egípcio é um povo humilde que, nas zonas turísticas, espera a cada esquina um pequeno óbulo mas, que se reclama, com orgulho, de uma Universidade que não põe quaisquer limites à formação de técnicos, sobretudo médicos, que se disseminam por todo o mundo árabe. Mas o Cairo é um mundo mesmo num mundo à parte. Nas principais artérias da capital ainda não chegaram os semáforos. E se houver que desenferrujar a língua um pacífico cidadão imobiliza o seu veículo a cair aos pedaços, com mais de 30/40 anos, da marca Lada ou Fiat 128, numa das principais vias; as ultrapassagens processam-se pela esquerda e pela direita; luzes é coisa que não e precisa; se for preciso os tejadilhos dos veículos aumentam a lotação e um mero choque já nem é motivo de discussão. Os táxis são de cor amarela e preta, tão decrépitos como os demais, alimentados a gasolina, cujo preço ronda 15 cêntimentos, mais ou menos 30$00 o litro! A cidade dos mortos, como se chama, foi erguida a partir de um cemitério da cidade onde os tugúrios dos pobres se implantaram no meio dele, numa sã convivência e é falada a correr, correndose alguns minutos, de carro, ao longo dela. Com alguma frequência nichos de metralhadoras são visíveis, numa postura de segurança, que pouco segurará, penso eu. Das poucas mulheres que se vêem nas ruas ao longo do dia muitas cobrem-se de negro, onde só os olhos são visíveis. Meio estonteados com a presença de mulheres brancas nos bairros periféricos, um ou outro rapazola toca nas pernas descobertas de mulher europeia, que se passeia em carroça puxada a cavalo, para turista ver o pitoresco do bairro. A religião oficial do Estado é o islamismo. E as mesquitas erguem-se ora magestaticamente ora de forma mais definhada, mas sempre em profusão. A presença da Igreja católica - copta - quase se não faz sentir. A instâncias sobre onde poderia visitar uma Igreja católica ou mesmo cumprir o preceito Eucarístico, de Domingo, a resposta esperada num país onde a religião oficial do Estado é o Islão e 90% o número de praticantes, não se fez esperar, que era difícil, que talvez, se era praticante e ainda assim só depois de confirmada a prática veio a resposta: talvez fosse possível dar uma mirada na Igreja.
E veio a confirmação: num bairro miserável de Luxor bordejado por um canal infecto, de águas putrefactas, derivadas do Nilo, onde crianças nadam, lá estava a Igreja, assinalada pela cruz e pela imagem da Mãe de Jesus. Uma entrada muito discreta, com alguns adultos no seu interior em atitude de oração, o sacrário recuado e fora das vistas do público e onde o celebrante se recolhe fora do alcance da assembleia no momento da consagração, para depois se reencontrar com os comungantes, um quadro representativo do apóstolo da Nigrícia, S. Daniel Comboni e um outro da padroeira das missões, Santa Teresa do Menino Jesus, um ambão e uma caixa das esmolas, para além do antigo e Novo Testamento escrito em língua árabe. À frente, bem visível e ao alto uma cruz de Cristo, como que a abraçar-me, feliz por eu, com alguns mais, O termos ido cumprimentar. Parece que tinha perdido a amargura e a dor da crucifixão. Ao lado, dentro do espaço eclesial, uma escola pequenina, um quadro preto à proporção. E mais não vi porque mais não quiseram que visse.
Mas no “site” da Internet vim, depois, a descobrir que em Luxor está sediada uma catedral e à sua frente um cardeal em obediência a Roma. Remato com a seguinte observação: como deve ser difícil seguir Jesus nesta terra, aparentemente calma e acolhedora na sua comovente humildade, mas onde só uma minoria de 10% é cristã. Em Portugal não se sofre de perseguição directa por se ser católico, mas há laivos disso, pela via do desrespeito ao respeito devido. "Alguém era tão santo, tão santo, que ficou com o nome de Santíssimo", afirmou - o em jeito de paródia uma pessoa pagã para tentar fazer rir numa estação televisiva… E é uma forma de perseguição a valores católicos, ligados ao respeito à família e à vida, à promoção do aborto. E que dizer daquela cena em que um filho agride barbaramente o pai, que se mantém firme, sem resposta, numa recém passada série televisiva, o que até é caso para os responsáveis pelo curso da comunicação social se debruçarem sobre a violência exercida em nada ajustada àqueles valores. Os tempos que correm são, em Portugal, seguramente de maldição. Até as condições atmosféricas se mostram irregulares em nada de feição para as culturas dos nossos solos, dizem os entendidos.
Por Armindo Monteiro - colaborador do JF