Diário da Assembleia Geral do ISCF
“Tudo o que se fizer a bem da família, por pequeno que seja é grande”. (Mons. Brás)
A Família no centro das atenções
Encontra aqui os vários artigos do Dr. Juan Ambrósio sobre a Família...
Encontro Mundial das Famílias 2015
O Vaticano apresentou dia 24 de março em conferência de imprensa o 7.º Encontro Mundial da Família, que vai decorrer de 22 a 27 de setembro de 2015 na cidade norte-americana de Filadélfia.
A saúde mental dos portugueses
Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...
O trabalho, dom e direito
A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...
Longe vão os tempos
Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...
Dar esperança em tempo de crise
Vivemos tempos difíceis. A família, como célula base da sociedade, é imediatamente afetada por esta crise generalizada e que promete perdurar. Neste contexto, exige-se um novo paradigma, uma nova forma de estar e de nos relacionarmos.
27 de novembro de 2007
26 de novembro de 2007
A internet e o far west
Qual a razão do facto? Podia dizer-se que a Net atrai pessoas de mau carácter, mas todos os sinais são contrários. É evidente que quem frequenta as novas tecnologias da comunicação ainda pertence a uma elite favorecida, com mais formação e conhecimentos que a média. Por muito que se tenha popularizado, a sociedade virtual é dominada pelos mais educados e sofisticados de um país como Portugal.
Assim a explicação mais plausível tem de ser outra: a Net tende a trazer ao de cima os instintos mais baixos dos que a frequentam. Uma prova desse facto é que muita gente põe em blogs e e-mails coisas que teria vergonha de dizer ao telefone, escrever numa carta ou publicar em jornais ou livros. Aliás vê-se que, interpelado ou confrontado com o que escreveu, frequentemente o autor cai em si e admite ter-se deixado levar pelo meio. O que prova que existe algo nessa forma de comunicação que motiva o dislate.
A Internet apareceu como um grande melhoramento das formas tradicionais de contacto, mas veio a revelar-se, em muitos casos, uma mistura entre carta anónima e jornal de parede, onde se podem proclamar impunemente as suspeitas mais implausíveis ou descarregar as irritações mais viscerais. Cada gestor de um site sente-se com autoridade de um director de jornal e capacidades de um estúdio de cinema, ambas reduzidas à estatura do seu ego. Isso cria potencialidades maravilhosas e muita gente faz coisas admiráveis. Mas também se podem expandir os preconceitos e ideias feitas, teorias mirabolantes ou ódios de estimação, tudo admissível porque aquele é o seu espaço, com regras por ele definidas. A enorme influência do meio só confirma essa atitude.
Isto mostra que ainda se vivem os tempos heróicos, a fase dos pioneiros, a idade selvagem da internet. Como na época áurea do Far West, cada um faz a sua lei e não há limites nem procedimentos estabelecidos. Se há muitos feitos notáveis e heróicos, também todos os abusos são admissíveis, porque manifestam a suprema liberdade. O factor decisivo da Internet é de facto a liberdade. Mas a liberdade descontrolada e irresponsável torna-se embriagante e destruidora. O nosso tempo diz ansiar pela liberdade radical, mas depois quer justiça, segurança, direitos.
Assim a Net revive um drama antigo da civilização. O grande psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905-1997) disse que os EUA deveriam construir em Los Angeles uma "Estátua da Responsabilidade", para compensar a de Nova Iorque. A liberdade só floresce se apoiada no esteio dos valores e da cultura. Ao longo dos séculos todas as sociedades se esforçam por elaborar um edifício cultural e tradicional de valores que defenda o espaço pessoal da liberdade. A tradição, que tantos vêem como um entrave, só existe como protecção crucial dessa autonomia.
Perante um choque, como ao nascer de um novo continente ou forma de comunicação, a tradição é pulverizada. Então, no Far West e Internet, como nas revoluções, uma sociedade vive algum tempo com uma estrutura cultural mínima, que não chega para orientação. Nessas fases da História, e enquanto não se criam novos quadros de referência, vêm ao de cima os instintos mais básicos e boçais. É isso que por enquanto se vê na Net, apesar dos esforços intensos que um dia conseguirão civilizá-la.
Aqui surge outro problema. Muitos espantam-se por sociedades avançadas e sofisticadas tolerarem tais comportamentos. O que leva a Alemanha de Bach e Goethe a ajoelhar-se diante de Hitler? Serve-nos de aviso a afirmação de S. Bernardo: "Não há nada tão firmemente estabelecido na alma que a negligência e o tempo não enfraqueçam" (De Consideratione, I, ii, 2).

JOVENS PROFISSIONAIS CATÓLICOS
EXIBIÇÃO DO FILME “SHADOWLANDS”
A associação Jovens Profissionais Católicos tem a honra de convidar V. Exª para a exibição do filme “Shadowlands”, seguida dos comentários do Padre Hugo Santos, Capelão da Universidade Católica de Lisboa.
Este filme retrata a autêntica história de amor entre C.S. Lewis, o conhecido escritor e professor irlandês, autor, entre outros, de Crónicas de Nárnia, e a sua mulher, interpretados magnificamente por Anthony Hopkins e Debra Winger. O filme, de 1993, foi realizado pelo famoso Sir Richard Attenborough, tendo 2 nomeações para Óscar: uma para melhor adaptação e outra para melhor actriz principal.
Local/data: Igreja de São Nicolau (sala grande), no dia 29 de Novembro (5ª feira), pelas 21h15m
Duração: Filme (2h10m) e comentários (15 minutos)
O Estado a Igreja e a Liberdade Religiosa
A presença da Igreja na sociedade, o exercício da actividade religiosa no espaço público, as implicações do direito à liberdade religiosa, as relações entre a Igreja e o Estado, a participação da hierarquia no debate público são questões na ordem do dia, na sociedade europeia secularizada onde a Igreja tem um papel histórico de liderança cultural e histórica e em países em que a maioria dos cidadãos se reclamam de católicos.
Não admira que o Papa e os Bispos aflorem o tema, sempre que a oportunidade se lhe depara. Ao receber o novo embaixador italiano na Santa Sé, o Papa reafirmou que a Igreja não quer “ser um agente político”, situações de privilégio do Estado e “posições de vantagem económica ou social”. Está ao serviço do homem para “oferecer à sociedade civil, o seu apoio, promovendo e elevando o que é verdadeiro, bom e belo, iluminando todos os sectores da actividade humana, através dos meios do Evangelho, procurando bem de todos, segundo a diversidade do tempo e da situação”.
O Cardeal Patriarca deu, no princípio de Outubro, uma entrevista aos órgãos de comunicação social para analisar a conjuntura das relações da Igreja com o Estado em Portugal.
A Concordata é um documento jurídico firmado entre o Estado e a Santa Sé que tem a ver com a actividade da Igreja em Portugal em matérias que confinam com a acção do Estado, na aplicação do direito de liberdade religiosa. “”A Concordata consagra o princípio da cooperação entre a Igreja e o Estado”. Não pede privilégios - repete o Cardeal Patriarca.
Há atrasos na regulamentação e na implementação da Concordata e da Lei da Liberdade Religiosa. Tanto uma como a outra, definem princípios, linhas gerais de actuação que requerem não apenas a adaptação das instituições religiosas e seus organismos, mas também a reformulação dos procedimentos e serviços de diversos departamentos do Estado. É um facto que actividade da Igreja católica no domínio estritamente religioso e patrimonial, no plano da acção sócio-caritativa, cultural e do ensino, na presença e apoio em instituições do Estado como as capelanias das forças armadas, hospitais e prisões, é de longe mais significativa do que a de qualquer outra confissão religiosa ou mesmo a de todas elas tomadas
O Patriarca considera que a melhor maneira de superar as tensões entre a Igreja e o governo passa pelo diálogo directo e sereno, evitando a polémica pública e o protagonismo decorrentes de opinião que querem erradicar a actuação da Igreja da esfera pública. “Acredito que, no diálogo e na análise objectiva da melhor maneira da Igreja servir a nossa sociedade, conseguiremos apaziguar e pacificar” – disse o Patriarca que manifestou a abertura da Igreja para as adaptações necessárias, mas reclama do Estado a manifestação da sua boa fé e disponibilidade para fazer as suas. A Igreja “não é o poder, mas a autoridade do serviço”. O Primeiro Ministro mostrou também publicamente perspectiva idêntica de resolver pelo diálogo directo e perseverante este tipo de problemas. Nomeou recentemente Mário Soares Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa que integra especialistas e representantes das confissões religiosas. A Comissão da Liberdade Religiosa é um órgão independente e consultivo da Assembleia da República e do Governo. Compete-lhe pronunciar-se sobre todas as matérias relacionadas com a aplicação, desenvolvimento e alteração da Lei da Liberdade Religiosa. Na tomada de posse, Mário Soares, fazendo profissão de fé laica e republicana, confessou-se “a favor da separação do Estado das Igrejas, como a lei indica”, manifestando “grande respeito por todas as formas de liberdade, assim como pela Concordata que existe entre a República Portuguesa e a Santa Sé”. A liberdade religiosa é um direito, não uma concessão do Estado. A Igreja não quer interferir na esfera própria do Estado, mas deseja também que este respeite a sua actividade no seu domínio específico e possa fazer ouvir a sua voz em questões que envolvem a pessoa humana, a sua dignidade e direitos. A Igreja quer estar presente no espaço público. Compete ao Estado criar condições para o exercício da autonomia da Igreja na sua esfera própria e para a concretização do direito de liberdade religiosa no plano institucional e individual.
21 de novembro de 2007
Lá como cá …
O recém empossado Presidente da República da França no seu discurso de tomada de funções disse: “Derrotamos a frivolidade e a hipocrisia dos intelectuais progressistas. Não vamos permitir a mercantilização de um mundo onde não há lugar para a cultura: desde 1968 não se podia falar da moral. Haviam-nos imposto o relativismo.
Os mais ricos esquivam-se ao pagamento de impostos e engrossam cada vez mais as suas fortunas. Alguns deles abrem a boca para lançarem gestos de simpatia pelos mais desfavorecidos mas viram a cara quando lhes pedem para uma colecta. Frequentam dos melhores comes e bebes e trapos. Remetem os filhos para os melhores colégios privados, da Igreja católica, quando nada querem com ela. Outros mandam-nos estudar para o estrangeiro porque no país as alternativas de melhoria são quase nulas, a menos que se seja bafejado por um golpe de sorte, porque os filhos dos ricos e influentes têm lugares assegurados nisto, naquilo e mais naquilo. Aqui impera a mediocridade enquanto os mais capazes apodrecem no desassossego da sobrevivência, da doença, do conflito, transformados num fardo humano desesperado e sem luz verde à frente do túnel. Tudo é igual. Está-se mesmo a questionar se a liberdade de pensamento deve conter limites. Insulta-se, menospreza-se, enxovalha-se, apouca-se, ridiculariza-se nos meios de comunicação social todo o que exerce poder de autoridade Governos, Tribunais, polícias, e não só… A palavra falada flui quase sempre em torno do sexo; a intimidade da vida privada pouco conta e é aproveitada para um leque de muitas coisas. Levantam-se falsos testemunhos a quem quer que seja, na esperança de um engenhoso de leis que safe a honra do convento. As csarinas do regime, em prosas ocas, defendem o divórcio, o amor livre, a união de facto entre o sem o ser pessoas do mesmo sexo, combatem a família, apoucam a autoridade, negam o Transcendente, reúnem no mesmo tecto os filhos delas, dos outros, de ambos e eventualmente um ilegítimo. Tal como em França o relativismo se instalou entre nós. Tal como em França não se pode inventar mais impostos. E muito menos para assegurar o aborto e sustentar obras faraónicas. E já agora porque se gastou uma fortuna incomensurável para salvaguarda do que dizem ser gravuras rupestres, que bem poderiam ser trasladadas, sem perda da qualidade se a têm, para outro local, sem compromisso de regadio para a zona de Foz Côa? E quem é o responsável desse acto de gestão? Atiraram-se pessoas contra pessoas, acirrou-se a inveja, estimulou-se o ódio e este país está transformado num vespeiro, mergulhado numa dramática crise social, económica e moral. Leis apressadas permitiram que os tribunais por culpa de quem as fez – que não são os tribunais e nem os juízes, embora erradamente se pense e poucas vezes desmentido porque não é conveniente – tivessem que libertar concidadãos – e não só-perigosos criminosos. Tal como Sarkozy é preciso reconstruir este país. O povo deve pedir responsabilidades a quem o conduziu para este perigoso beco, de desemprego, de amoralidade, de desrespeito, de oportunismo e de cegueira.
No rodopio da vida
E assim vamos no ciclo do tempo. Lento, veloz, sereno, revolto. O tempo que se recicla e nos recicla. Lança-nos no retorno das coisas, nas repetições da paisagem, do sol, da chuva, da terra, da semente, do sono outonal, do renascimento, numa teimosia de renovar e reviver dentro do mesmo espaço e duma duração que se sente mas se não vê. O tempo, afinal, não existe. Existimos nós que passamos, morremos continuamente para a etapa anterior e nos refrescamos no presente e no advir. Sentindo sempre que tudo é volátil, passageiro, aparentemente insignificante. Experiências, descobertas, emoções, com o rodar do tempo esvaem-se, envelhecem, parecem sem sentido.E, todavia, a esperança que sempre emerge mesmo das mortes, dos outonos, das sementeiras profundas, das árvores desnudadas e tristes, reaviva-nos irresistivelmente. De tal modo que a morte continua a ser visceralmente repugnante. Temos sempre preparado o alerta máximo para qualquer ameaça próxima ou distante. Mesmo com a fé pronta para entender a ressurreição e a eternidade sempre extraímos de cada breve momento a seiva plena como se fora um composto de eternidade. Foi Deus quem nos plantou na alma este instinto de eterno que ultrapassa o nosso raciocínio e mesmo as formulações da nossa fé. Está no âmago do homem. Com a vinda de Jesus cada pequeno gesto em torno da árvore da vida ganhou um significado novo. Não se trata duma armação lógica, mas da certeza íntima de que Ele remiu todos os segundos do tempo e da eternidade e por isso tudo ganha uma interpretação transcendente. Olhamos, assim, de outro modo para as Estações, a natureza, o próximo e o longínquo, a tempestade e o tom primaveril que sempre irrompe das tardes mais cinzentas. O fim do ano litúrgico, a coroa de todos gestos de redenção, a esperança do renascimento no esboçar dum advento intemporal mas prenhe da história redentora de Jesus. Assim nos apercebemos que o Natal é muito mais que uma soma de objectos trocados. É o grande jogo do afecto pela vida nos seus diferentes tons. É uma liturgia, uma parábola, uma história mais que mágica. Real. Com a estrela, os magos, o canto dos anjos, o Menino reclinado, a humanidade em festa porque redimida. Seja em que tom for, este hino de Deus no meio dos homens nunca pode deixar de ser repetido. Mesmo que o Natal pareça mais um ciclo com menos imaginação.
António Rego
20 de novembro de 2007
Bento XVI denuncia campanhas de promoção do aborto na África
Ainda que a visão cristã da família tenha uma profunda ressonância na África, reconheceu em seu discurso, «causa grave preocupação que a cultura secular globalizada exerça um influxo cada vez maior nas comunidades locais a partir das campanhas de organizações que promovem o aborto».
«Esta destruição direta de uma vida humana inocente nunca pode justificar-se, por muito difíceis que sejam as circunstâncias que possam levar a levar em consideração dar um passo tão grave», indicou o Papa após ler os informes dos prelados do país africano e de tê-los recebido em audiências privadas.
«Quando pregais o Evangelho da vida – exortou-lhes – recordai ao vosso povo que o direito à vida de todo ser humano inocente, nascido ou não, é absoluto e se aplica a todas as pessoas sem exceção alguma.»
O bispo de Roma assegurou que «a comunidade católica deve oferecer sua ajuda às mulheres para as quais é difícil aceitar um filho, sobretudo se estão isoladas de sua família e amigos».
Desta forma, assegurou, «a comunidade deve estar disposta a acolher quem se arrepende de ter participado no grave pecado do aborto e guiá-los com caridade pastoral a aceitar a graça do perdão, a necessidade da penitência e a alegria de entrar mais uma vez na nova vida de Cristo».
19 de novembro de 2007
Verdades inconvenientes
1.Nas últimas semanas, o aborto voltou às páginas dos jornais. Em primeiro lugar, as entidades oficiais noticiaram - com um misto de decepção e frieza - que os abortos voluntários nos hospitais públicos, desde que a nova lei passou a ser aplicada, foram cerca de metade das estimativas. Como já foi observado, é prematuro tirar conclusões definitivas. Contudo, aparentemente, a "procura não satisfeita" do aborto voluntário será muito inferior ao propagandeado e o aborto clandestino não será tão frequente como disseram os partidários do "sim", apoiados no "estudo científico" da APF. E é razoável esperar - e temer - que, tal como aconteceu noutros países, a oferta legal do aborto vá gerar e alimentar a respectiva procura. De qualquer modo, à cautela, o senhor ministro da Saúde, desiludido talvez por estes resultados ou desgostoso pelo nível de objecção de consciência invocada pelos médicos, decidiu "corrigir" o seu Código Deontológico e "reeducar" a respectiva Ordem...
2. Enquanto o senhor ministro da Saúde considera haver abortos a menos, espalha-se a convicção - nos países que antecederam Portugal neste tortuoso caminho - de que há abortos a mais... Simone Veil, a ex-ministra francesa que introduziu a lei de "despenalização" do aborto no seu país, em 1975, reconheceu recentemente que a ciência está a demonstrar a existência de um ser humano vivo desde o momento da concepção. Em França, como na Grã-bretanha, cresce a resistência dos médicos mais jovens para realizar abortos "a pedido". Lord Steel – o deputado que introduziu no Parlamento a legislação que "despenalizou" o aborto no Reino Unido - fez saber, no 40.º aniversário dessa lei, que toda a gente pode estar de acordo em que há demasiados abortos, que o aborto está a ser usado de um modo irresponsável, como mais um método de contracepção, e que nunca imaginava, quando impulsionou essa alteração legal, que se chegasse à cifra actual de abortos (The Guardian, 24-10-2007). Nos EUA, a percepção social sobre o aborto inclina-se paulatinamente para o "não", com o assunto a reviver na agenda política (sobretudo depois da recente sentença do Supremo Tribunal que ratificou uma lei que proíbe o aborto por nascimento parcial).
3. Por fim, é interessante observar como o discurso favorável à vida se tem tornado mais feminino e mesmo feminista. Não é só porque o aborto selectivo, em países como a Índia ou China, discrimina maciça e escandalosamente contra os fetos do sexo feminino. É também porque começa a ser irrecusável o rasto de sofrimento deixado pelo aborto voluntário nas mulheres que o praticaram, como foi recentemente salientado no I Encontro de Estudos Médicos sobre a Vida Humana, que reuniu em Lisboa alguns dos melhores especialistas nessa matéria. Refiro apenas dois exemplos: o prof. Joel Brind, presidente do Breast Cancer Prevention Institute, de Nova Iorque, apresentou a evidência disponível sobre a relação entre a prática do aborto e o risco acrescido (em 30 por cento, face às restantes mulheres) de cancro de mama; Priscilla Coleman, professora e investigadora da Bowling Green State University, em Ohio, mostrou como o aborto induzido está fortemente associado ao desenvolvimento de doenças mentais graves, como a depressão, a doença bipolar, a esquizofrenia e comportamentos de risco, como o suicídio. Ora, independentemente da posição de cada um quanto à questão moral do aborto, parece razoável exigir um delicado e cuidadoso respeito pelas obrigações de consentimento informado, no contexto da lei actual.
4. O aborto deixou de ser uma "estatística" e passou a constituir uma realidade vivida, analisada, sofrida e narrada por quem o padeceu. A defesa da saúde e da liberdade da mulher foi instrumentalizada para promover o aborto legal; agora, a mulher - em nome da qual, abusivamente, se fez o caminho de "ida" - protagoniza o caminho de "volta" da legislação e da atitude da sociedade face ao aborto.
Associação Mulheres em Acção
A Associação VIVA HÁ VIDA convida-o a assistir a uma conferência subordinada ao tema "A Igreja e a Defesa do Amor Humano", com base nas catequeses do Papa João Paulo II sobre a Teologia do Corpo, a proferir pelo Rev. Pe. João Paulo Pimentel, dia 23 de Novembro, às 21 horas no Cristo-Rei. A entrada é livre.
16 de novembro de 2007
Os números do aborto
Há estudos que indicam que muitas mulheres que abortam legalmente não o fariam se o aborto fosse ilegal
Essas previsões, tal como as de outras proveniências que se vinham repetindo desde há vários anos, não tinham uma base segura e rigorosa. Apontavam para os vinte mil (um quinto do número de nascimentos) porque tal corresponde à média europeia (acima dessa média, encontram-se países de entre os mais desenvolvidos, como a Suécia, a França e o Reino Unido). Um estudo da APF, divulgado antes do referendo e apresentado como fiável, também apontava para tais números. Noutros tempos, a propaganda dos partidários da liberalização chegou a apontar números muito mais elevados,mas sem qualquer fundamento, como agora bem se vê.
Considerar que em Portugal se praticavam tantos abortos quantos os que, em média, se praticam nos países da Europa onde essa prática está há muito legalizada era partir do princípio (não demonstrado) de que a proibição em nada influía no volume dessa prática e que, por isso, mais valia permitir que se fizesse legalmente o que sempre se faria na clandestinidade. Nunca aceitei este princípio, que ignora a eficácia pedagógica inerente à mensagem cultural de uma lei que define uma conduta como crime. E o efeito que pode ter uma lei como a agora aprovada, que facilita essa conduta, colocando ao seu serviço os recursos do Estado. Qualquer política legislativa assenta, pelo contrário, na ideia de que legalizar e liberalizar uma conduta só pode conduzir ao incremento da sua prática.
Compreende-se que haja estudos que indicam que as mulheres que abortam legalmente, numa significativa percentagem, afirmam que não o fariam se o aborto fosse ilegal. Na Irlanda, é possível tornear a lei que criminaliza o aborto com uma fácil deslocação ao Reino Unido. Mas os abortos aí praticados por mulheres irlandesas são, proporcionalmente, em muito menor número do que os das mulheres da própria Grã-Bretanha. Na Polónia, depois das alterações que restringiram fortemente os casos de legalização do aborto, este continua a ser praticado clandestinamente, mas em número muito inferior ao do período em que tal prática estava liberalizada.
Nunca me pareceu decisivo discutir os números exactos do aborto clandestino em Portugal. Fossem eles maiores ou menores, seriam sempre suficientemente elevados para recusar uma liberalização que, por imperativo da lógica, contribuiria para que fossem ainda mais elevados.
Se os números agora divulgados revelam que o número de abortos praticados em Portugal é inferior a metade da média europeia, tal só poderá significar que, afinal, a proibição e a criminalização do aborto (independentemente do número reduzido de condenações) tiveram algum efeito, pelo menos no plano pedagógico. A lei evitou, pelo menos, a banalização desta prática na mentalidade comum, a que se encontra noutros países europeus.
O que pode, agora, temer-se é que essa "resistência" cultural enfraqueça com a vigência da nova lei, provocando, de forma gradual, a progressiva aproximação à média europeia e o progressivo aumento do número de abortos, como se tem verificado em Espanha com uma lei não tão permissiva como a que entre nós foi aprovada.
Foi com grande amargura que notei a frieza de responsáveis governativos que indicavam, resignadamente, que se poderia esperar um número de vinte mil abortos anuais. Uma frieza e uma resignação que a todos chocaria se se referissem a outro tipo de mortes, por doença ou acidente. Ninguém aceitará que os números de mortes por doença ou acidente não se reduzam ao mínimo, ou não façamos tudo para evitar essas mortes. É muito mais fácil evitar um aborto do que uma qualquer outra morte. E em nenhuma destas o Estado colabora activamente, como se verifica agora com o aborto.
Por trás dos números do aborto, de cada um deles, está a riqueza única e insubstituível de uma vida humana. É esta consciência que anima o empenho de quem lutou para manter uma lei que evitou, como se vê, que muitas dessas vidas se perdessem. E de quem, apoiando as grávidas em dificuldade, continua a evitar que algumas dessas vidas se percam.
República viva
Nenhum tempo, nenhum facto da história deve ser lido com leviandade. E ainda menos com uma perspectiva interesseira em extrair lições de proveito rápido. O tempo e os acontecimentos merecem grande serenidade e discernimento para que os sinais que vão surgindo tenham uma interpretação que torne a história em mestra e a vida corrente em contínua aprendiz. Sem medo das luzes e das sombras que a travessia dos tempos induz.
Provavelmente muitos de nós, da República nascida em 1910, pouco mais temos que preconceitos ou chavões reduzidos a meia dúzia de factos que nos descreveram como heróicos ou mesquinhos. Que ninguém tenha medos dos factos, do que os precedeu, dos contextos em que se verificaram, dos líderes que os protagonizaram, dos horizontes que abriram, das mudanças históricas que criaram. Mas que não venham misturados de jogos subtis e presunções anacrónicas e obsoletas. Todos precisamos aprender e assumir responsabilidades no melhor e no pior que assumimos no tempo.
Quando se fala da I República, quase sempre se antagoniza com outra pedra do xadrez chamada Igreja Católica. Como se se esgotasse no duelo entre as duas instituições toda a gama de factos e consequências. Como se não existisse o povo. Trabalhar as análises sobre preconceitos é um erro não apenas histórico mas de consequên-cias negativas para os tempos de hoje e para a convivência saudável da comunidade nacional. Por isso se saúda a proposta da Conferência Episcopal Portuguesa em Roma para uma evocação do centenário da I República com uma "interpretação exacta dos acon-tecimentos". Para bem ou para mal a I República ainda está viva.
António Rego
12 de novembro de 2007
Ontem como hoje... quem paga tudo é o Zé
Não tenhamos ilusões. Já ontem era assim. Os políticos “arranham-se”, mas quem vem a pagar a factura, é sempre o Zé Povinho.
11 de novembro de 2007
9 de novembro de 2007
A coroa da Virgem na Bandeira da Europa
Esta Europa, que incompreensivelmente renega raízes cristãs e pretende apresentar-se ao mundo como laica, adoptou, sem saber, na sua bandeira, símbolos cristãos; melhor: de inspiração mariana.
Quando a 29 de Maio de 1986, o Secretário Geral do Conselho da Europa, Marcelo Oreja, hasteou a bandeira, no palácio de Berlamont, estava longe de imaginar que a divisa da Europa estava imbuída de símbolos católicos. Na época, poucos conheciam a razão das doze estrelas sobre fundo azul. Anos depois, quando já não era possível recuar, foi explicado o verdadeiro significado. “Lourdes Magazine” revista publicada pelo Santuário de Lourdes, em Julho de 2004, revelou o que há muito constava. A bandeira foi inspirada na visão de Catarina Labouré, jovem noviça. Foi a 27 de Novembro de 1830. Estava Catarina na capeladas Irmãs de Caridade, na Rua do Bac, em Paris e, aparecendolhe a Virgem, disse-lhe que mandasse cunhar a medalha, a que chamou de Milagrosa. Esta, apresenta Maria com os pés pousados no mundo e no verso, o monograma da Mãe de Jesus, a cruz e dois corações, tudo circundado por 12 estrelas que é a coroa da Virgem. Ora quando Arséme Heitz idealizou a bandeira, inspirou-se nessa visão. Segundo o autor, o azul representa o céu e as 12 estrelas, o resplendor que cerca a cabeça da Imaculada Conceição. Se os “agnósticos” europeus fossem mais versados em temas bíblicos, não desconheceriam, igualmente, que o Apocalipse 12:1, descreve mulher resplandecente como Sol, coroada de 12 estrelas. Nem ignorariam que 12 foram os filhos de Jacob; 12 são as tribos de Israel; e 12 os Apóstolos. Mas como desconheciam a simbologia bíblica, e ainda menos a visão de Santa Catarina de Labouré - ou Deus os cegou, - pensaram que o número 12 era sinal de: perfeição, plenitude e unidade; lembrando-se dos 12 meses do ano e dos 12 signos do Zodíaco. E a 8 de Dezembro de 1955 – que coincidência! – aprovaram a bandeira que tem estampado, sobre azul celeste, o símbolo da pureza da Imaculada Conceição. Por onde se conclui que, renegando raízes cristãs, a Europa mostra, na divisa, a coroa da Virgem Santíssima. Deste jeito se infere que o povo tem razão ao afirmar:
Deus escreve torto por linhas direitas.
A Medalha Milagrosa que a Virgem recomendou trazer junto ao peito, não é amuleto. As graças, segundo Ela, serão abundantes, se existir fé e se cumpra ou se tente cumprir, os Mandamentos. Em 1842 foi grande acontecimento a conversão do banqueiro judeu Afonso Ratisbonne, após haver recebido a Medalha Milagrosa. Este homem de negócios veio a fundar, com o irmão Teodoro Ratisbonne, a Congregação dos Missionários de N ª Senhora do Sion. Dezanove anos depois das aparições, em Paris, foi erguido o Santuário de Nª Senhora das Graças, no Monte Sião, Minas Gerais, com o fim de difundir a Medalha Milagrosa.
Por Humberto Pinho da Silva – colaborador do JF
8 de novembro de 2007
As dificuldades dos tempos que correm …
Dizendo-se que no nosso país o fosso entre pobres e ricos, e que há cada vez mais pobres com a destruição iminente da classe média, por várias razões desde logo pela sobrecarga dos impostos, desemprego e desagregação das estruturas familiares, a exploração do homem pelo seu semelhante é uma realidade que se desenha no horizonte que nos cerca.
E veio a confirmação: num bairro miserável de Luxor bordejado por um canal infecto, de águas putrefactas, derivadas do Nilo, onde crianças nadam, lá estava a Igreja, assinalada pela cruz e pela imagem da Mãe de Jesus. Uma entrada muito discreta, com alguns adultos no seu interior em atitude de oração, o sacrário recuado e fora das vistas do público e onde o celebrante se recolhe fora do alcance da assembleia no momento da consagração, para depois se reencontrar com os comungantes, um quadro representativo do apóstolo da Nigrícia, S. Daniel Comboni e um outro da padroeira das missões, Santa Teresa do Menino Jesus, um ambão e uma caixa das esmolas, para além do antigo e Novo Testamento escrito em língua árabe. À frente, bem visível e ao alto uma cruz de Cristo, como que a abraçar-me, feliz por eu, com alguns mais, O termos ido cumprimentar. Parece que tinha perdido a amargura e a dor da crucifixão. Ao lado, dentro do espaço eclesial, uma escola pequenina, um quadro preto à proporção. E mais não vi porque mais não quiseram que visse.
Mas no “site” da Internet vim, depois, a descobrir que em Luxor está sediada uma catedral e à sua frente um cardeal em obediência a Roma. Remato com a seguinte observação: como deve ser difícil seguir Jesus nesta terra, aparentemente calma e acolhedora na sua comovente humildade, mas onde só uma minoria de 10% é cristã. Em Portugal não se sofre de perseguição directa por se ser católico, mas há laivos disso, pela via do desrespeito ao respeito devido. "Alguém era tão santo, tão santo, que ficou com o nome de Santíssimo", afirmou - o em jeito de paródia uma pessoa pagã para tentar fazer rir numa estação televisiva… E é uma forma de perseguição a valores católicos, ligados ao respeito à família e à vida, à promoção do aborto. E que dizer daquela cena em que um filho agride barbaramente o pai, que se mantém firme, sem resposta, numa recém passada série televisiva, o que até é caso para os responsáveis pelo curso da comunicação social se debruçarem sobre a violência exercida em nada ajustada àqueles valores. Os tempos que correm são, em Portugal, seguramente de maldição. Até as condições atmosféricas se mostram irregulares em nada de feição para as culturas dos nossos solos, dizem os entendidos.
6 de novembro de 2007
O vulcão dos Capelinhos

Passados cinquenta anos sobre este fenómeno que abalou a ilha do Faial nos Açores e surpreendeu geólogos e turistas, restam as dúvidas sobre o significado dum cataclismo, as formas estranhas como a terra evolui, as perguntas que geralmente se fazem a Deus sobre a criação, a harmonia, a evolução inteligente da natureza e dos seres.
Cada qual responde com as razões que tem à mão. Muitas delas nada têm de científico. Muitas recusam enquadrar um fenómeno deste género no projecto inteligente de Deus. Ciência, razão e fé, entrecruzam-se nas explicações, ora unindo-se ora digladiando-se. Só a meio da escalada se percebe que não é o amontoado de razões que nos aquieta a alma, mas a razão profunda do nosso ser e a lógica cerrada da nossa fé firmemente ancorada na sabedoria silenciosa de Deus.
No terramoto de Lisboa, Voltaire, como muitos, irritou-se e com Deus. Rousseau, homem insuspeito nestas matérias, lembrou-lhe que não tinha nada que se revoltar contra Deus. Se Lisboa, disse, fosse um conjunto de casinhas bem distri-buidas, sem roubar lugar a rios e riachos, com o Tejo respeitado por inteiro, nada de grave teria ocorrido em 1755.
Mas nem filósofos nem geólogos explicam os grandes cataclismos do Norte ou do Sul, as mortes de inocentes, o desaparecimento e destruição de cidades inteiras. Nem sequer os Gulagues, Auschewittz, ou Jardins de S.Cruz. A história, desde os tempos da Arca de Noé, Caim e Abel, está recheada de acontecimentos que só um olhar do alto, de fora do tempo e do espaço imediato pode projectar luz sem ser absurdo. Chamemos simplesmente Fé à chave de todo este imbróglio. Chamemos Deus ao ser de suma sabedoria que, face ao nosso desenquadramento do conjunto, nos tolera perguntas a mais, isto é, sorri das nossas arrogantes questões, os nossos olhos baços, presos ao quadrado sectário, sem altura nem horizonte.
Desprezo pela razão? Pelo contrário, respeito por ela que tem direito a não ser iludida por dimensões parcelares e viciadas que são sempre as nossas. Humilhação para a ciência? Pelo contrário, glória a ela que se sente entrelaçada por fios mais que visíveis.
O povo tem razão. No meio do vulcão das incertezas volta-se para a grande certeza de Deus que vê donde nós não vemos, projecta com sabedoria inalcançável e nos tranquiliza o coração como mais ninguém sabe fazer. Por isso, nos despojos da dor o crente sabe onde pode encontrar refúgio e em que ombro pode chorar de súplica e agradecimento. Feliz quem possui o dom da fé sempre escorado na faculdade superior da razão.
António Rego
5 de novembro de 2007
O Estado a escola e os cidadãos
Diziam os filósofos gregos que o saber era desinteressado e uma das condições para ser amigo da sabedoria era o ócio, a disponibilidade de tempo e recursos para se consagrar à busca do saber, sem a pressão de quaisquer outros interesses.
O abandono escolar atinge percentagem elevada. Não só em Portugal. É um fenómeno universal que afecta sobretudo os alunos mais desfavorecidos dos países desenvolvidos. Mas em Portugal é mais grave e atinge valores mais elevados. Não resulta apenas dos alunos, mas sobretudo da desadequação dos programas de ensino às aptidões e apetências dos alunos. O abandono precoce da escola, a iletracia, a fraca qualificação escolar e profissional são factor de pobreza, a nível individual e também a nível social. Os países com menor aproveitamento e qualificação escolar serão os mais pobres e nesses países, os mais pobres serão os que tiverem menos conhecimentos, habilitações e qualificações.

















