Diário da Assembleia Geral do ISCF

“Tudo o que se fizer a bem da família, por pequeno que seja é grande”. (Mons. Brás)

A Família no centro das atenções

Encontra aqui os vários artigos do Dr. Juan Ambrósio sobre a Família...

Encontro Mundial das Famílias 2015

O Vaticano apresentou dia 24 de março em conferência de imprensa o 7.º Encontro Mundial da Família, que vai decorrer de 22 a 27 de setembro de 2015 na cidade norte-americana de Filadélfia.

A saúde mental dos portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...

O trabalho, dom e direito

A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...

Longe vão os tempos

Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...

Dar esperança em tempo de crise

Vivemos tempos difíceis. A família, como célula base da sociedade, é imediatamente afetada por esta crise generalizada e que promete perdurar. Neste contexto, exige-se um novo paradigma, uma nova forma de estar e de nos relacionarmos.

31 de agosto de 2007

Uma Família Feliz

Por ocasião da X Assembleia Mundial da Confederação dos Movimentos de Famílias Cristãs, em Fátima, com que ternura, alegria e entusiasmo falou da família, e particularmente da sua própria família, ao “Jornal da Família”, o casal Billie e David Kilman. Um casal verdadeiramente feliz, pais de quinze filhos - nove rapazes e seis raparigas - 55 netos e 2 bisnetos, muitos dos quais estão na foto, feita durante o passeio ao parque de campismo da Disney World na Florida.

"Uma família feliz! Somos felizes porque aprendemos que o mais importa é “Amar a Deus, como único Senhor”, e que a nossa vida não passa de uma peregrinação. Quando nos casámos Deus fez uma aliança connosco e esta aliança está presente, sempre que necessitámos d’Ele. E em virtude desta aliança os pais têm um poder especial junto dos filhos. Deus o nosso Pai, é também Pai dos nossos filhos, Ele ama-os e sabe melhor do que nós qual é o seu maior bem. Por isso Deus faz parte das nossas vidas quotidianas, e nós procuramos partilhar esta realidade com os nossos 15 filhos, em coisas muito simples: Celebramos o Onomástico de cada filho, com isto pretendemos apresentar-lhe o santo do seu nome, como um herói ou heroína, para que lhes sirva de guia, em vez de uma estrela do cinema ou do desporto. Promovemos várias celebrações, em dias significativos, como o dia da árvore, fazemos pequenas festas para ajudar as crianças a conhecer Deus, segundo as suas capacidades, e acompanhamo-los à missa e aos sacramentos. Pretendemos educar os nossos filhos na fé e na vivência, segundo Jesus Cristo. A Confederação Mundial dos Movimentos de Famílias Cristãs, foi uma grande ajuda para nós, como casal a viver num ambiente descristianizado. Embora nos Estados Unidos haja liberdade religiosa, o que é muito positivo, a sociedade no seu conjunto não age com os mesmos objectivos. A experiência de vida familiar cristã do nosso Movimento tem enriquecido muito a nossa família. Os encontros semanais, os temas abordados e as experiências das outras famílias, mostra aos nossos filhos que eles não estão sós, que há famílias cristãs como nós e, na verdade até fazem ali muitos amigos. As limitações físicas para ter uma família alargada, e mais ainda a pressão social causam, no geral, graves danos. O David quando confrontado neste sentido, sempre me respondeu que a “paternidade responsável” significa aceitar, acolher e amar os filhos que Deus nos dá. Sentimos muitas dificuldades para ser bons pais de tantos filhos. Enquanto adolescentes e jovens adultos o questionamento da fé é frequente. Mas torna-se até saudável, a forma como a juventude espontaneamente se aproxima de Deus e cresce na fé. Nós podemos apenas servir de exemplo aos jovens e mostrar-lhes o nosso amor pelo Senhor. Ser pais ajuda-nos a entender melhor a Deus. Sabemos quanto Deus nos ama e quer que O amemos; mas nós não podemos forçar ninguém a amar Deus. No meio das dificuldades pensamos, Deus providenciará por nós. Se nos pede para fazer algo, Ele preparará o caminho e dar-nos-á as pistas. E na verdade dão-se pequenos, mas significativos acontecimentos na nossa vida, que só são possíveis, pela presença da mão invisível de Deus, como por exemplo: um dia fui ao mercado e gastei todo o dinheiro em comida e leite. Já não pude passar pela padaria, e não tinha pão em casa. Aflita disse ao Senhor que Ele teria que providenciar o nosso pão quotidiano. Pouco depois fui convidada a jantar no Centro Marianista, pois um convidado tinha faltado e havia uma senha a mais. Um jantar excelente, e a senhora Joyce, no final veio oferecer-me, com um enorme cesto de pão. Pensei então na multiplicação dos pães que Jesus fizera no deserto, e agora fê-la em nossa casa. Ir à missa todos os dias e receber Jesus na Eucaristia, para mim era tão importante como o ar que respirava, encontrando aí a força para fazer o que necessitava, e ultrapassar todos os obstáculos. Agora os nossos filhos cresceram e, por vezes, damos connosco a observar esta quase inacreditável maravilha. Como pudemos nó, dois comuns mortais humanos, criar adultos tão maravilhosos? Como puderam estas crianças crescer tão bem, quando nós falhávamos em tantos aspectos? Isto só foi possível pela poderosa graça de Deus! Todos nossos filhos cresceram e são a favor da vida e da família. A nossa filha mais velha, Katheleen, levou por diante 17 gravidezes. Perdeu oito bebés, mas alegra-se, juntamente com o seu marido John, com os nove filhos que o Senhor lhes deixou para criarem. O nosso filho Paulo e a sua mulher estavam à espera de gémeos e o médico aconselhou-os a deixarem apenas um deles e abortarem o mais débil. Eles recusaram. O mais débil também está vivo, tem oito anos, mostrando assim que Deus é Deus e os médicos não são Deus. Cada família dos nossos filhos, escolhe ter um dos pais em casa para dar aos seus filhos a melhor formação. Todas as mamãs e papás são formidáveis com os seus filhos. Assim os nossos filhos são na verdade o nosso melhor testemunho. Estamos contentes, por nos terem desafiado a partilhar, com os leitores do Jornal da Família um pouquinho da nossa vida de família. Que Deus abençoe todas as famílias, as famílias do Movimento por um Lar Cristão e o Instituto Secular das Cooperadoras da Família."

Billie e David Kilman - 520 Mohawk Ave - Norwood, Pa 19074, USA

30 de agosto de 2007

Festa no Instituto Secular das Cooperadoras da Família


É com muita alegria que partilhamos convosco, nossos leitores, um grande acontecimento para o nosso Instituto (ISCF). A entrada de mais duas jovens no passado dia 22 de Agosto no Instituto: Marina de Jesus (Lisboa) e Ana Margarida (Coimbra).
Foi num ambiente de festa em que as respectivas famílias e o Instituto, representado pelas várias localidades, de norte a sul, e também pelas cooperadoras que se encontram fora do país, e também num ambiente de esperança, que as acolhemos em nosso seio.
O futuro vai-se construindo, passo a passo, e estas jovens entregaram-se a uma vida de consagração para ajudar nessa mesma construção. O Instituto cresce, e cresce também a garantia de podermos servir mais e melhor as Famílias.
Agradecemos a Deus o dom que é a Marina e a Margarida, e que elas encontrem de facto a felicidade junto d'Aquele que as chamou.

Campo de Férias 2006/2007 - Carcavelos









Nos dias 22 a 26 de Agosto realizou-se, como temos vindo a realizar todos os anos ( o Instituto Secular das Cooperadoras da Família), e desta vez no Centro de Cooperação Familiar de Carcavelos, o Campo de Férias 2006/2007.

Em que consiste esta actividade? Digamos que esta actividade tem como finalidade, não só proporcionar aos jovens novas amizades e novos conhecimentos a nível Cultural, mas fundamentalmente proporcionar-lhes uma maior descoberta interior.
“Navegar Mar Dentro” foi o tema que nos ajudou a reflectir nestes dias, e foi também com este “lema” que se foram integrando nas várias actividades.
Participaram 10 jovens, vindas de vários pontos do país: Porto, Braga, Viseu, Lisboa, Covilhã, Coimbra e Guarda. Todas juntas aqui recordamos convosco esses momentos de convívio, de reflexão, de cultura e de conhecimento entre o grupo.
Foram dias diferentes e esperemos que a partir de agora tudo seja também um pouco diferente…

9 de agosto de 2007

Momentos desejados

Eis chegado o momento mais desejado, as férias… O momento libertador para todos nós que as desejamos.
Depois de um ano de trabalho e tensões é a altura da descompressão e de sermos nós mesmos.
Já passei vários momentos de férias ao longo da minha vida como é natural, conheço um bocado deste pais que tanto gosto e que tanto tem para nos mostrar. Mas nos últimos 4 anos tem tido um sabor muito especial na companhia da minha família, desde que uma criança apareceu nas nossas vidas, esta tornou-se mais rica e sem momentos de tédio. Nas férias o que antes dada para dar passeios a pé, ver momentos, ler, estar na preguiça, agora é estar completamente absorvido por este ser, pelas correrias na praia, pelas brincadeiras na areia, pelos jogos em casa… chega-se ao final do dia cansado, mas é um cansaço saudável.
No final chega uma tristeza, tanto a mim como a ele, os laços que fortaleceram vão-nos dar força para mais um ano, onde o tempo que passamos juntos é pouco e superficial.
É na memória dos momentos bons passados que iremos alimentar a esperança até ao novo momento de férias.
Anónimo

3 de agosto de 2007

Matrimónio. Uma opção definitiva?!

5. O amor conjugal

No passado mês, quase ao terminar as linhas que convosco costumo partilhar, afirmava que o ser humano se realiza plenamente como pessoa no diálogo eu-tu, alcançando este diálogo a sua forma mais intensa na relação de amor. Olhar para esse amor, na sua dimensão da conjugalidade, é o objectivo que desta vez vos proponho. Na realidade, só o amor conjugal, ou seja, um amor total, livre, fiel, exclusivo e fecundo pode ser fundamento consistente de uma opção de vida concretizada no matrimónio. Sei bem que todas estas notas, a que acabo de fazer referência, marcam presença, de uma maneira ou de outra, em toda a realidade do amor, no entanto, elas adquirem um relevo especial naquele tipo de amor que aqui qualificamos de conjugal. Daí a atenção que lhes vou dar. O amor conjugal é um amor total, isto é, um amor que pressupõe a capacidade de perceber e aceitar o outro tal como ele é, amando-o por si mesmo e aceitando-o na sua riqueza, diferença e irrepetibilidade. Nada deve existir na vida dos dois que possa ficar fora dessa relação de amor. Trata-se de uma aceitação mútua, mesmo naquilo que é limite e fraqueza, se bem que cada um se deva sempre empenhar em ajudar o outro a progredir na construção da sua personalidade, respeitando a sua autonomia. É todo o eu que ama a totalidade do tu para, em conjunto, construir um projecto de vida, onde a totalidade da existência é partilhada. O amor conjugal é um amor livre, pois só na liberdade de querer ser totalmente um para o outro, se pode construir uma vida em comum. Numa relação em que o predominante não pode ser simplesmente o eu de cada um, mas se tem igualmente de ter em conta a pessoa amada, a dimensão da liberdade torna-se fundamental. A capacidade de livremente me decidir por aquele tu é, de facto, uma das dimensões decisivas no amor conjugal. O amor conjugal é igualmente um amor fiel e para sempre, porque só um amor que é fiel e se quer viver para sempre pode constituir um suporte real e sólido para a partilha total da vida inteira. É também um amor exclusivo, pois a relação existente entre o eu e o tu é exclusiva não podendo ser repetida com mais ninguém. O amor conjugal dirige-se a uma única pessoa, de tal modo que essa relação, por ser única e irrepetível, se pode tornar o suporte de uma vida partilhada. A exclusividade é aquela nota característica do amor conjugal que ao permitir tornar a relação entre as duas pessoas em algo de tão especial, as referencia uma à outra de maneira única e irrepetível. Amor exclusivo mas não fechado sobre si mesmo. Na realidade, no casamento os cônjuges não se podem buscar só a si mesmos, limitando-se a concretizar os seus interesses e a alcançar a sua própria realização. O verdadeiro amor conjugal deve ter sempre uma dimensão que supere os dois que se amam, pois se permanecer fechado sobre si mesmo corre o perigo de definhar. O amor leva à doação e à partilha da felicidade e do ser, por isso naturalmente se abre ao dom da dádiva e do acolhimento da vida. O matrimónio como ‘isolamento a dois’ seria um profundo equívoco. Um bom casamento tem sempre espaço para os amigos e para muitas formas de proximidade humana. Finalmente o amor conjugal é um amor fecundo. De maneira plena a fecundidade do amor conjugal manifesta-se na capacidade de gerar e acolher uma nova vida. Porque baseado na dádiva total de cada um ao outro, o amor conjugal está aberto e aponta para o milagre da vida. Para os cônjuges, os filhos não são, pois, algo de externo à sua relação de amor, pelo contrário, são o confirmar e o afirmar sempre, de maneira profunda e renovada, a relação que ambos têm. Este amor a dois é tão abarcante e total que é capaz de criar uma tal novidade tendente a concretizar-se numa vida completamente nova e distinta. Um amor conjugal que seja voluntariamente estéril jamais poderá desenvolver-se e alcançar a sua plenitude. Todas estas notas nos permitem facilmente entender como o amor conjugal não é uma realidade estática e concretizada de uma vez por todas. Pelo contrário, ele deve estar sujeito a um contínuo dinamismo de crescimento e aprofundamento. O cônjuges devem, pois, empenhar-se numa constante atitude de aperfeiçoamento, cultivando e exercitando o seu amor todos os dias da sua vida. Nesta linha tem toda a razão aquele meu amigo padre que na homilia do casamento de amigos comuns afirmava, com alguma ousadia: «mal estará a vossa relação se este dia de casamento for o dia mais bonito e feliz da vossa vida, pois isso significaria que não teria havido crescimento e aprofundamento no amor».
por Juan Ambrósio - colaborador do Jornal da Família

2 de agosto de 2007

Férias: saber perder tempo

“Para tudo há um tempo debaixo dos céus:
Tempo para nascer e tempo para morrer,
Tempo para procurar e tempo para perder,
Tempo para guardar e tempo para deitar fora” (Ecle 3,1.6).

Em tempo de férias é sempre oportuno reflectirmos sobre o bem mais precioso da nossa vida: o tempo.
Perguntem ao estudante que reprovou, quanto vale um ano! Perguntem à mãe que teve o bebé prematuro, quanto vale um mês! Perguntem aos namorados que não se viam há muito, o valor de uma hora! Para perceber o valor de um minuto, perguntem ao passageiro que perdeu o avião! Para perceber o valor de um segundo, perguntem a uma pessoa que conseguiu evitar um acidente!Assim nos mostra a vida como é precioso cada ano, cada dia, cada hora ou fracção de tempo. Será por isso que se diz que “o tempo é dinheiro”? Ou será que o tempo, como a moeda, se vai desvalorizando na nossa vida cronometrada do dia-a-dia? E, no entanto, Deus dá-nos todo o tempo do mundo de graça. Todo o tempo deste mundo: o cronos e o káiros, o tempo medido e o tempo vivido.Os antigos consideravam que a verdadeira ocupação do homem era o ócio e não os negócios. Os monges tentaram manter vivo este ideal do homem ciente da sua vocação: não fomos criados para trabalhar, mas para louvar o criador; estamos neste mundo não para explorar a terra, mas para cuidar do jardim da criação. Ora et labora foi a fórmula de equilíbrio encontrada pelos mestres espirituais que sempre consideraram o ócio e a contemplação tão importantes como o trabalho.
Na escola, na família e na sociedade preparam-nos para o trabalho, mas não nos preparam para o ócio nem nos ensinam a saber “perder tempo”. Não nos faltam meios e propostas para matarmos o tempo, em vez de nos ensinarem a arte de vivê-lo com sabedoria: uns matam o tempo diante do televisor, outros “ocupando os tempos livres” para que nunca estejam livres; outros em actividades radicais, para que nunca cheguem à raiz das coisas e dos problemas… Matamos o tempo para não nos cruzarmos com a morte, e fugimos à morte para não nos encontrarmos com a vida.
Passamos a vida a correr contra o tempo, a lamentarmo-nos que “não temos tempo”, quando afinal o tempo só nos foge porque nós corremos contra ele. Construímos vias rápidas e máquinas velozes para ganhar tempo, mas é o tempo que foge e passa depressa sem nos permitir contemplarmos a paisagem de cada dia e saborear as paragens que a vida nos proporciona. Tornamo-nos escravos do relógio e cada vez sabemos menos “a quantas andamos”. Na ilusão de corrermos contra o tempo estamos a correr contra nós, pois não vivendo realmente, acabamos por queimar o tempo e a vida.
Como é difícil valorizar o tempo presente que Deus nos dá, vivendo o ritmo quotidiano da vida. Os mais velhos continuam a sonhar com o passado sempre “muito melhor” (no meu tempo é que era bom!), enquanto os mais jovens vivem obcecados com o futuro. Vamos assim contando os dias e os anos sem vivermos cada momento e cada dia: uns sempre atrasados ou desactualizados, outros tão avançados que parecem viver noutro planeta e fuso horário.
Necessitamos de reaprender a arte do ócio, de dar tempo a nós mesmos, à família, aos amigos. Precisamos de perder tempo com coisas “inúteis”:
pararmos a admirar o mistério do amanhecer, saborear a brisa da madrugada que nos fala de Deus, escutar a polifonia dos pássaros que cantam sem contrato, ouvir o silêncio das criaturas e decifrar as mensagens das estrelas… O tempo de férias constitui uma ocasião propícia para acertarmos a vida pelo relógio do sol e pelo ritmo das criaturas. É o tempo em que podemos tapar os ouvidos ao bater das horas, para escutarmos mais as batidas do coração. Longe de ser um tempo para “passar” ou mal gasto, as férias deveriam ser o tempo bem empregue: onde conseguimos arranjar agenda para nós e para os outros; onde redescobrirmos que o dinheiro não é tudo, que as melhores coisas da vida não se compram, pois são grátis, são graça. Longe de ser um tempo de evasão, as férias deveriam ser tempo de encontro, de reflexão, de avaliação; deveriam ser uma ocasião para passarmos do tempo de fazer (ter que fazer), para o tempo de viver, o tempo de experiência da autenticidade e da criatividade; Uma oportunidade para transitarmos das evasivas utopias da máquina do tempo para voltarmos a “ter tempo” e a vivê-lo com magia e fantasia infantil.
Quem dera que pelo menos as nossas férias fossem um tempo da experiência compartilhada com o outro, tempo favorável ao encontro, tempo cheio de significados. Como tão bem observou Marcel Proust: “Uma hora não é uma hora, é um vaso cheio de perfumes, sons, projectos e climas”. Uma vida não é vida se não for assim: cheia de perfumes, sons, projectos e climas. Pois, afinal, a vida não é o tempo e os anos que vamos contando, mas uma história de tempos, lugares e encontros cheios de tudo isso.
Dizia a raposa ao Princepezinho, “foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante”. Porque esta continua a ser uma verdade esquecida entre os humanos, é importante que haja quem saiba e ensine a “perder tempo” com o mais importante. E o mais importante continua a ser “criar laços” e “deixar-se cativar”.

Frei Isidro Lamelas

30 de julho de 2007

Férias em filosofia

A vida são dois dias, o Carnaval, três. Diz-se a brincar, como um hábil jogo de palavras e números, como se nada, de facto, se quisesse dizer. Estes três dias acabam por ter algo de religioso. Três dias de festa estridente que precedem a quarentena de cinzas e penitência. Ou a alusão aos três dias de Paixão de Cristo que terminaram na Ressurreição. Ou escondendo ainda um outro conceito: a vida dura pouco, menos que um divertimento de Carnaval e por isso não vale a pena perder tempo com o que não é aprazível. Indo mais fundo parece insinuar-se uma filosofia de vida retintamente epicurista que valoriza antes e acima de tudo o prazer.
As viagens ideológicas demoram o seu tempo e as mudanças, por muito velozes que pareçam, operam–se com leis rígidas que não permitem que a história evolua aos saltos.
Entremos um pouco mais no concreto. Vivemos uma sociedade de progresso, trabalho, produção, eficácia, rendimento. Mesmo com o apoio da técnica e da tecnologia, nunca o homem pode dizer que o seu tempo de vida é de lazer, como aconteceria a Adão, não fora o pecado original.
Mas o facto é que o conceito de Carnaval como divertimento de choque, excitação, entretenimento esgotante, vai-se estendendo a outras áreas. O repouso já não é o que era. E para muitos, o próprio tempo de férias constitui uma multiplicação – um compacto, como ora se diz – de entretenimentos que se escolhem como em carta de vinhos e se consomem até à embriaguês. Umberto Eco fala mesmo da carnavalização da vida face aos espectáculos constantes que as pessoas procuram, nomeadamente através dos media que são os agentes deste divertimento non stop quer de informação quer de ficção.
Aparte outros considerandos parece urgente rever a concepção de repouso, divertimento, festa, corte do trabalho quotidiano (quantas vezes o fim de semana é concebido como tempo de orgia!). Com tudo isso, há valores recônditos que não afloram nos tempos comuns de trabalho e rotina. Há pausas, silêncios, escutas, olhares que só se descobrem num certo despojamento de alma. Será por isso bom que as férias se não transformem em repetição programática do mesmo. Se assim for, semana após o recomeço do trabalho estarão praticamente gastas.

António Rego

Ainda somos todos contra o aborto?

por Pedro Vaz Patto

Quando é que um aborto deixará de ser praticado por causa deste sistema?
"Todos somos contra o aborto, só não queremos que as mulheres que o praticam sejam penalizadas." Quantas vezes não ouvimos da boca de partidários do "sim" no referendo de Fevereiro este tipo de afirmações? Ou, também, a ideia de que o aborto não seria liberalizado nem banalizado, que o número de abortos não iria aumentar, que passaria a vigorar um sistema de aconselhamento tendente a evitar esse aumento de uma forma alternativa em relação à penalização e até mais eficaz do que esta? Recordo-me muito bem de ter ouvido esta ideia, em debates em que participei, a vários dos meus interlocutores partidários do "sim". Continuo a acreditar na sinceridade e na boa-fé desses meus interlocutores. Mas estranho que estas ideias tenham deixado de se ouvir a partir do dia seguinte ao do referendo (é verdade que ainda as ouvi na própria noite de 11 de Fevereiro, pouco depois de serem conhecidos os resultados) ou não tenham sido ouvidas durante a discussão da lei entretanto aprovada pela Assembleia da República. Nem se oiçam agora, quando a lei e sua regulamentação entraram em vigor.
Essa lei, deliberadamente, não fala em "aconselhamento", mas em "acompanhamento", com o propósito claro de afastar qualquer ideia de dissuadir ou desaconselhar a prática do aborto (o que não deixaria de respeitar a vontade livre da mulher, respeito que os resultados do referendo impõem). Tal como se rejeitou qualquer propósito de "encorajar a continuação da gravidez" (expressão decalcada da lei alemã, lei muitas vezes mencionada na campanha, designadamente pela drª Maria de Belém Roseira e pelo engº José Sócrates), através do apoio à busca de alternativas ao aborto. O "acompanhamento", por psicólogos ou técnicos de serviço social, será facultativo. Os médicos objectores de consciência não poderão participar na consulta prévia e no referido "acompanhamento" (não vão eles incorrer na "perigosa" e "subversiva" prática de algum tipo de aconselhamento de alternativas ao aborto!). Esse "acompanhamento" será efectuado no âmbito de clínicas lucrativas, obviamente pouco interessadas em limitar a prática do aborto, que é a fonte do seu lucro. Aliás, ainda a lei, com a sua regulamentação, não entrara em vigor, já vários hospitais públicos se apressavam a praticar o aborto a pedido da mulher. É claro que não preocupou os responsáveis se esse "acompanhamento" social e psicológico estaria já em condições de ser prestado (nem ninguém falou disso, sequer). A regulamentação da lei não prevê a obrigatoriedade de comunicação à mulher do mais elementar dos elementos de informação necessários a uma decisão verdadeiramente consciente: o que diz respeito às características do desenvolvimento do embrião ou do feto (o que poderia ser feito através do visionamento de uma ecografia, ou de outra forma). Afinal, o que é que significa "interromper a gravidez"? Sem essa informação, pode bem suceder que uma mulher pratique o aborto convencida de que o embrião ou o feto são uma "mancha de sangue", ou um "amontoado de células", como tantas vezes se ouve. Uma decisão destas será tudo menos uma decisão consciente. Esta informação, na sua objectividade e para além de qualquer polémica doutrinal, certamente evitaria alguns abortos, muito mais do que a informação sobre os apoios do Estado à maternidade (essa prevista na regulamentação da lei), já conhecidos da generalidade das pessoas e, por sinal, bem pouco significativos. Tão pouco significativos que dificilmente alguém deixará de praticar um aborto por causa dessa informação...
Um projecto de proibição da publicidade que incite à prática do aborto, apresentada pelas deputadas Maria do Rosário Carneiro e Teresa Venda, semelhante ao de projectos anteriormente apresentados pelo próprio Partido Socialista, foi rejeitado liminarmente.
A prática do aborto no âmbito do Serviço Nacional de Saúde não ficará sujeita ao pagamento de qualquer taxa moderadora, seja qual for o nível de rendimento da mulher que a peça. A lógica da taxa moderadora é a de evitar um recurso desnecessário aos serviços de saúde, de "moderar" esse recurso, limitando-o e restringindo-o às situações de verdadeira necessidade.
Não se compreende que, como se verifica actualmente, se exijam essas taxas em internamentos e cirurgias, que muito dificilmente serão resultado de uma opção ou de uma decisão que possa ser evitada. Mas em relação ao aborto, mais do que qualquer outro serviço, tem plena lógica a intenção de "moderar" o recurso aos serviços de saúde, porque se trata, claramente, de uma opção e de uma decisão que podem ser evitadas. Aqui sim, justificar-se-iam taxas moderadoras.Seria interessante saber quando é que um qualquer aborto deixará de ser praticado por causa deste sistema. Ouvi dizer uma vez que não se conhecia nenhum caso no âmbito do sistema em vigor até agora em Itália, teoricamente muito mais orientado para a defesa da vida do que este nosso sistema. Oxalá me engane, mas não me parece que algum dia venha um aborto a ser evitado por causa deste sistema que agora entra em vigor.
Nesta altura, em que se prevê uma "avalancha" de pedidos de aborto, parece que a única preocupação dos responsáveis governativos é a de satisfazer esta procura e que nenhum desses pedidos deixe de ser atendido, nem que, para isso, se tenha que atravessar o Atlântico e se paguem viagens de avião. Não se lamenta o facto, não se procura estudar as razões, não se procura oferecer alternativas. Como seria bom voltar a ouvir: "Somos todos contra o aborto!".

23 de julho de 2007

Os não nascidos e os impedidos de nascer

A notícia, a principio bem discreta, só vinha em poucos jornais, se comparada com o grande relevo dado, sem recriminações, à desobediência dos hospitais do Estado sobre os abortos já realizados. “ Mais de 60 abortos só num mês e ainda sem lei” era título do dia. Uma lei, como sabemos, que permite a algumas mães, muitas a custas do erário público, que mandem matar o filho que trazem no seio, se assim o pedirem de harmonia com o que está determinado.
Antes da lei, já nada é ilegal. E isso não interessa aos servidores do Estado que lhe dão cobertura e retiram importância, não vão as coisas complicar-se mais.
Diz a princípio a tal notícia discreta, depois já em primeira página e devido relevo que “A natalidade atinge em Portugal o valor mais baixo de sempre”, ou que “Nascimento de bebés em 2006 é o mais baixo desde que há estatísticas”. É o Instituto Nacional de Estatística a fonte. O índice de natalidade foi de 1,36, com tendência a descer e sem se ver saída para situação tão preocupante, para quem ainda se preocupa.
O país endoidou, está visto. E são os serviços oficiais que adiantam, triunfantes, todos os dados sobre os hospitais credenciados para abortar, os que à revelia da lei se anteciparam à regulamentação, as clínicas particulares autorizadas para o mesmo efeito. Já se anunciam dez! São eles que garantem, por fim, que onde houver médicos objectores de consciência, são sempre os médicos “o problema mais complicado”, está desde já assegurado que o aborto se executará em qualquer outro sítio, público ou privado. O Estado paga, ou seja, nós pagamos. Que especiais deveres estes do Estado!...
As clínicas espanholas já estão a actuar e a escolher, pressurosas, as cidades mais aptas para facilitar o negócio e sossegar os governantes, os partidos e os votantes do sim. Para já, Lisboa em acção e Porto em preparação. Por cá, clínicas com longa história e onde sempre se fizeram abortos, agem agora com plena tranquilidade. O ministério já fez cálculos ao preço e os outros publicaram, de imediato e para que se saiba, as tabelas, segundo as diversas modalidades abortivas. Coisa que não acontece em nenhum outro caso clínico cirúrgico. É preciso cativar a freguesia que se vai dispersar. Onde estiver a imaginação e a perspicácia do negócio, estará o poder de competir e triunfar.
Tudo isto merece uma leitura cuidada. O que se previa está já aí à vista na praça pública. Adiante se verá mais, que o tema não se esgota, nem depressa, nem de vez.
Mas, se há muita gente eufórica com este triunfo de uma cultura de morte que legalmente se implantou em Portugal, sem que deixemos de denunciar o que muito nos envergonha e em nada nos dignifica, há que unir vontades e forças ante o decrescimento galopante da natalidade, para que a vida possa triunfar e seja sempre considerada o maior e o mais indiscutível dos valores humanos, o único que é comum a todos.
Porque se manifestam tão pouco interessados, quer o governo, quer a opinião pública, em encontrar razões válidas para esta situação, em promover a natalidade e em ajudar e exigir condições para que os casais fecundos possam gerar filhos? Toda a gente diz que gosta de crianças. Porém, os pais que têm coragem para gerar filhos, se vão além de dois, são taxados de insensatos. O fisco, atento às ofertas feitas, ainda que esporadicamente e por vezes com sacrifício, pelos pais que querem ajudar os seus filhos, casais novos com filhos e dificuldades acrescidas, logo se apressa a cortar o abono de família das crianças com direitos, se a oferta parece grande e sem se atender a de que maior é a necessidade de quem a recebe. Para fazer bem já se paga imposto!
Não se aprecia a vida nascente, a generosidade dos familiares generosos e atentos, a estabilidade do casal em dificuldade, as despesas necessárias com os filhos, a coragem dos cidadãos mais sacrificados, socialmente mais determinantes, castigados até por terem filhos e por haver avós que os ajudam a criar…Então, o que é agora verdadeiramente importante neste país e para quem governa?
Temos de nos interrogar, seriamente, sobre um problema tão grave, como actual.
O acomodar-se indiferente ante o drama das crianças não nascidas ou impedidas de nascer é atitude suicida, por mais que se diga o contrário. A história anotará os novos criminosos.

D. António Marcelino

Abortamento - agora vamos saber como é

Estou muito surpreendido com o alarido de jornais e televisões sobre a execução de abortamentos por conta da lei e da sua infeliz regulamentação.
Eu julgava que o abortamento era um acto privado de algumas mulheres que, por estarem em situação de profundo desespero e por não terem quem as ajudasse, recorriam clandestinamente ao vão de escada onde lhes espetavam uma agulha de crochet e iam depois para o Hospital, esvaídas em sangue, ou morriam em casa desamparadas. Pelo menos foi isto o que sempre ouvi dos defensores do Sim nos debates em que participei defendendo o Não.

Afinal, não é.

É um “acto médico” banal e corrente, que vai ser praticado aos milhares pelos Serviços de Obstetrícia do Serviço Nacional de Saúde e a grande preocupação é se os ditos serviços têm capacidade para atenderem todas essas mulheres em tempo útil e em boas condições técnicas.

Como sempre haverá alguns médicos que praticarão abortamentos sem justificação nem indicação médica - mas elogiem-se os muitos que, com o esperado respeito pela sua dignidade profissional farão, em cada caso, objecção de consciência à prática de um acto que lhes repugna - temos aqui uma oportunidade, infeliz mas incortonável, de conhecer, de facto, a situação do abortamento em Portugal.

Será um case study, embora pelas piores razões. O que se deve esperar é que cada acto de abortamento seja devidamente registado como se se tratasse de uma investigação clínica, cujos resultados irão ser avaliados, cientificamente, ao fim de algum tempo. Excluindo a identificação da mulher, tudo o mais deve ser registado, nomeadamente a idade, estrato social, nível de instrução, tipo de conjugalidade, número de filhos, número de abortamentos já efectuados antes, motivo invocado para solicitar o abortamento, idade do feto, tipo de abortamento praticado, tempo de internamento, avaliação pós abortamento, física, psíquica e emocional.

Com os dados deste registo ficaremos todos a saber de forma transparente e cientificamente rigorosa, o quadro dos abortamentos em Portugal. Com base nestes resultados será possível estruturar as acções de prevenção, já que neste aspecto os partidários do Sim e os do Não estão de acordo: o abortamento é um mal absoluto e tudo o que se fizer para o combater é um grande e positivo bem para as mulheres e para sociedade.

À atenção da Direcção-Geral de Saúde, aqui deixo esta proposta, que nem sequer custará dinheiro.

Daniel Serrão

18 de julho de 2007

Carta aberta ao senhor ministro da Saúde

por António Gentil Martins

É injustificado e insultuoso pretender que os médicos tenham de confirmar, por escrito, o seu respeito pela ética. A pós o referendo nacional sobre o "aborto", antecedido por frequentes e claras afirmações de muitos dos mais representativos dos votantes pelo "sim", de que o consideravam um mal (embora por vezes, e segundo eles, necessário), surgiu a Lei n.º 16/2007, seguida da Portaria n.º 741-A/2007. Para além do conteúdo-base (que repudiamos), verifica-se que a lei, no seu artigo 6.º, assegura aos profissionais de saúde, e nomeadamente aos médicos, a "objecção de consciência".
A objecção de consciência, direito fundamental constitucionalmente protegido, permite que os médicos recusem a prática de actos da sua profissão quando tal prática entre em conflito com a sua consciência moral, religiosa ou humanitária ou contradiga o disposto no seu código deontológico. Obviamente esses profissionais não poderão ser prejudicados, de nenhum modo e sob nenhum pretexto, por exercerem tal direito.
Se, por outro lado, o regime aprovado proíbe os médicos de participar na consulta prévia, e no acompanhamento durante o período de reflexão, por outro pretende, de forma contraditória, injustificada e ilegal, obrigá-los a indicar quem pratique o aborto. Se, com uma mão, a lei assina um atestado de incompetência e falta de isenção aos médicos, impedindo-os de acompanhar a grávida na fase pré-aborto, com a outra empurra, sem corda, para a falésia, este direito de agir segundo os seus princípios morais, religiosos ou humanitários, ao obrigar esses mesmos profissionais, "incompetentes e parciais", a que encaminhem a grávida até ao... aborto.
Afinal, deve ou não o objector de consciência pronunciar-se? A partir de que fase tem competência, dignidade moral e isenção para intervir? Porque só é obrigado a intervir para que a prática do aborto, de que discorda, se concretize? Como será possível conciliar as duas imposições?
A portaria indica que a objecção de consciência deve ser manifestada em documento (burocrático e mesmo insultuoso, porque parece desconhecer a ética médica), assinado pelo objector, o qual deve ser apresentado ao seu director clínico. Mas, certamente, apenas deverá competir a quem aprovou a lei, o Estado, divulgar onde o aborto poderá, infelizmente, vir a materializar-se.
O código deontológico da Ordem, aplicável a todos os médicos, diz que, no exercício da sua profissão, este é técnica e deontologicamente independente, não podendo ser subordinado à orientação de estranhos. Mais: o médico deve, em qualquer lugar ou circunstância, prestar tratamento de urgência a pessoas que se encontrem em perigo imediato. Assim sendo, e mesmo quando objector de consciência, nunca deixará o médico de tratar uma doente que, por causa de um aborto, sofra consequências. É, por isso mesmo, injustificado e insultuoso pretender que os médicos tenham de confirmar, por escrito, o seu respeito pela ética. O mesmo se poderá dizer quanto a assegurar o respeito pelo segredo profissional, pois o código deontológico afirma que esse segredo se impõe a todos e constitui matéria de interesse moral e social.
No artigo 30.º do código, referente à objecção de consciência, diz-se claramente que o médico tem o direito de recusar a prática de actos da sua profissão quando tal entre em conflito com a sua consciência moral, religiosa ou humanitária ou contradiga o disposto no código deontológico.
Pontos essenciais, incluídos no juramento hipocrático, estão consagrados no artigo 47.º, onde se estabelece que o médico deve guardar respeito pela vida humana desde o seu início; que constitui falta deontológica grave a prática do aborto e da eutanásia; que esclarece, no entanto, que não é considerado aborto uma terapêutica imposta pela situação clínica do doente como único meio capaz de salvaguardar a sua vida. É o caso-limite, do confronto entre duas vidas, das quais só uma poderá ser salva.
Sabendo-se, segundo a leges artis, que a ecografia é o meio mais fiável para datar uma gravidez, era bom que a lei dissesse se, neste momento, se conhece outro meio alternativo igualmente fiável para que seja possível dispensar a ecografia, que na lei deixou de ser obrigatória.
Assim sendo, esperamos que o Governo proceda à alteração da portaria referida, por considerar necessária e suficiente uma simples declaração, sob compromisso de honra profissional, dos médicos objectores de consciência.

Ex-bastonário da Ordem dos Médicos e ex-presidente da Associação Médica Mundial e da sua comissão de ética

16 de julho de 2007

Mas as crianças Senhor… porque padecem assim?...


Há uns tempos a esta parte que tenho andado completamente confuso, angustiado, perplexo, chocado mesmo.
Desde que se deu o misterioso desaparecimento da pequenina Madeleine, na Luz (Algarve), já passei por várias mutações anímicas. Inicialmente atribui todas as culpas do desaparecimento de Madeleine, à negligência do casal McCann. Nunca compreendi e ainda hoje não consigo atinar, como é que se deixam três débeis crianças de tenra idade, sozinhas, a dormir em casa, para se ir, despreocupadamente, para um restaurante, ainda que se situe paredes meias com o local de repouso das meninas.
Depois convenci-me que tudo teria origem no facto de Madeleine ter acordado, e na sua irrequietude e irresponsabilidade pueril, ter-se levantado e saindo de casa, ter-se perdido ou caído para algum precipício, ou mesmo dirigir-se para a beira-mar, vindo a ser tragada pelas ondas do oceano. Mas dar-se esta remota hipótese, o corpo da pequenita já teria sido dado à costa.
Posteriormente, julguei tratar-se de alguém que tivesse raptado a menina, para, subsequentemente, exigir algum vultuoso resgate.
Presentemente, depois de saber do grande número de crianças que desaparecem e são raptadas, todos os anos e das demoníacas organizações, a nível mundial, que se entregam à repelente tarefa de angariar crianças para alimentar tenebrosas redes de pedofilia, de prostituição, de sádicas e satânicas práticas de homossexualidade e até, para arranjar órgãos para transplantes humanos, fico aterrado com a vileza e dimensão destes horrendos crimes, para os quais não consigo encontrar um adjectivo adequado que os possa classificar. Isto é simplesmente tenebroso…
Fico atónito, estarrecido, só de pensar nas cruentes barbaridades a que uma frágil criança pode ser submetida e a que está vulnerável.
Quantos horrendos crimes são praticados, aos milhares, em crianças, desde aquelas que foram impedidas de nascer, até aos meninos e meninas que foram raptadas aos seus pais, para depois serem violentamente maltratadas, das formas mais sádicas e vis, segundo os caprichos de mentes demoníacas.
Tenho acompanhado a história tenebrosa do misterioso desaparecimento da pequena e indefesa Madeleine. Não haverá maneira de se criarem mecanismos de defesa das frágeis crianças, numa sociedade tão evoluída como a nossa? Este problema não se circunscreverá apenas ao seio das famílias. Passa também pela sociedade em geral e pelas escolas em particular.
Quantos pais, dormem descansadamente, nas suas casas, quando os filhos, vagueiam, a altas horas da noite, por boîtes, dancing’s, clubes nocturnos de toda a espécie. Facilitar aos jovens saídas nocturnas, sozinhos ou com duvidosas companhias. Deixar crianças, de tenra idade, deslocarem-se sozinhas para os respectivos estabelecimentos de ensino. Permitir que jovens, “naveguem nas aliciantes, mas por vezes temíveis ondas da Internet ou nos segredos dos permissivos computadores, no aparente remanso do seu quarto de dormir ou na intimidade do seu escritório, pode ser deveras pernicioso. Os alertas chegam de muitos lados, vindo o mais recente de Inglaterra, onde duas jovens pagaram com a vida a sua infantilidade despreocupada.
Quantos escolares há, que seduzidos pela sempre afável Internet, encontram aliciantes companhias que os levam a deixar as aulas, para se reunirem num bar, num café, num pub ou numa discoteca. Ali o fumo é aprazível, as bebidas excitantes, as toilettes bastantes reduzidas e até as maquilhagens são altamente sugestivas, retocadas e de certo modo, ousadas.
A escola, que já tinha informado o encarregado de educação do mau aproveitamento escolar, do insucesso académico e da ausência de acompanhamento do ritmo cognitivo destes alunos, agora começa a alertar os pais destes escolares, para as faltas injustificadas que vão sendo registadas.
Mas, para grandes males, grandes remédios. Para que não haja ralhos em casa, anula-se a matrícula e pronto, acabaram-se as faltas, as contendas e as recriminações. Agora, os bancos escolares são trocados pelos bancos dos jardins, dos “pub’s”, das boîtes. A indumentária torna-se bastante mais reduzida. As maquilhagens mais provocantes. Os cigarros, acendem-se uns nos outros. Os cabelos conhecem múltiplo colorido e as unhas passam a ostentar um verniz vermelhão bem berrante. Quando passam por algum professor conhecido, olham de soslaio, tomam um ar triunfante e mostram um rasgo desdém, sorrindo na apertada e incómoda mini-saia. E assim, despreocupadamente, vão vivendo a vida, até, numa loja de pronto-a-vestir, como balconistas, num grande espaço comercial de um supermercado , quando não descambam para locais laborais bem pouco recomendáveis.
A escola, burocraticamente, fez o seu dever. Mas será que à escola, se pedirá apenas esta atitude de solícita legalista, de informar as faltas?
A escola, cuido eu, tem obrigação de ensinar, aconselhar, proteger e olhar pelas crianças que está a educar, transmitindo-lhes conhecimentos de saber, de instrução e de prevenção, alertando os jovens para as ciladas da vida, de modo que os adolescentes sejam capaz de se desviarem dos escolhos das sociedades, onde proliferam verdadeiros lobos da humanidade. É preciso alertar os nossos jovens para esta teia de malfeitores que com pele de cordeiros, são verdadeiras hienas, À procura do sangue de débeis e indefesas crianças. E isto porque já o Plauto, em Asinaria, escrito 200 anos antes de Cristo, proclamava que “homo homini lupus”, isto é, que o homem é o lobo do homem, alusão feita à ferocidade com que os homens procuram prejudicar e matar o seu semelhante.
Neste contexto, tanto a família, como a escola, como a Igreja, têm aqui um amplo campo de actuação catequética, a bem da civilização, da sociedade e sobretudo, das crianças.

por Fabião Baptista - colaborador do Jornal da Família

13 de julho de 2007

O único defeito das Mulheres


Quando Deus fez a mulher, já estava a trabalhar há seis dias consecutivos.
Apareceu um anjo que lhe perguntou: "Deus, porque estás a perder tanto tempo com esta criação?"
Ao que Deus respondeu: "Já viste a minha lista de especificações para este projecto? Ela tem que ser completamente lavável, mas sem ser de plástico, tem mais de 200 partes móveis, todas substituíveis, e é capaz de sobreviver à base de coca-cola light e restos de comida, tem um colo capaz de segurar em quatro crianças ao mesmo tempo, tem um beijo capaz de curar qualquer coisa desde um arranhão no joelho a um coração ferido e faz isto tudo apenas com duas mãos."
O anjo ficou estupefacto com estas especificações. "Só duas mãos!?
Impossível! E esse é apenas o modelo normal? É muito trabalho só para um dia. É melhor acabares só amanhã."
"Nem pensar", protestou Deus. "Estou quase a acabar esta criação que me é tão querida. Ela já é capaz de se curar a si própria quando fica doente. E consegue trabalhar 18 horas por dia."
O anjo aproximou-se e tocou na mulher. "Mas fizeste-a tão macia e delicada, meu Deus".
"Sim, mas também pode ser muito resistente. Nem fazes ideia o que ela pode fazer e aguentar."
"E ela vai ser capaz de pensar?" perguntou o anjo. "Não só é capaz de
pensar como é capaz de negociar e convencer"
O anjo então reparou num pormenor e tocou na cara da mulher.
"Ups, parece que tens uma fuga neste modelo. Eu disse-te que estavas a tentar fazer demais numa criatura só."
"Isso não é uma fuga, é uma lágrima." "E para que é que isso serve?"
perguntou o anjo. "A lágrima é o seu modo de exprimir alegria, pena, dor, desilusão, amor, solidão, luto e orgulho."
O anjo estava impressionado."És um génio, Deus. Pensaste em tudo."
E de facto as mulheres são verdadeiramente espantosas. Têm capacidades que surpreendem os homens. Carregam fardos e dificuldades, mas mantendo um clima de felicidade, amor e alegria. Sorriem quando querem gritar.
Cantam quando querem chorar. Choram quando estão felizes e riem quando estão nervosas.
Lutam por aquilo em que acreditam e não aguentam injustiças. Não aceitam um "não" quando acreditam que existe uma solução melhor.
Prescindem de tudo para dar à família. Vão com um amigo assustado ao médico. Amam incondicionalmente. Choram quando os seus filhos são os melhores e aplaudem quando um amigo ganha um prémio. Ficam radiantes quando nasce um bébé ou quando alguém se casa. Ficam devastadas com a morte de alguém querido, mas mantêm a força além de todos os limites.
Sabem que um abraço e um beijo podem curar qualquer desgosto. Existem mulheres de todos os formatos, tamanhos e cores. Elas conduzem, voam, andam e correm ou mandam e-mails só para mostrar que se preocupam contigo. O coração de uma mulher mantem este mundo a andar. Elas trazem alegria, esperança e amor. Dão apoio moral à sua família e amigos.
As mulheres tem coisas vitais a dizer e tudo para dar.
NO ENTANTO, SE EXISTE UM DEFEITO NAS MULHERES É QUE ELAS SE ESQUECEM CONSTANTEMENTE DO SEU VALOR.

retirado de: www.mulherportuguesa.com



9 de julho de 2007

Pobres - os grandes anónimos

Que melhor notícia nos podia chegar (via ONU) do que a descida de pobres no mundo de hoje em 270 milhões? Logo a seguir pensamos que esse número nada nos entusiasma perante os 980 milhões que ainda restam.

Sabemos que a felicidade não se mede aos palmos nem a pobreza se coloca na balança electrónica que os ricos controlam. O que é um rico e um pobre? No Primeiro, como no Terceiro mundo? (As palavras e os números estão cada vez mais esfarelados pelos conceitos e preconceitos que se sucedem na óptica do bem estar, do ter, dos bens primordiais, do essencial e do supérfluo).

Para a economia é bom poupar, esbanjar, diminuir o consumo, ou apenas importa produzir mais, duma forma competitiva, capaz de fazer frente a outros que fazem o mesmo? Como se configura uma doutrina humanizada (e cristianizada, no caso da Doutrina Social da Igreja) com as regras de mercado livre e duma economia dobrada à libertinagem comercial, que estabelece as próprias regras no direito que todos têm a comprar ou vender, poupar ou esbanjar, fazer do pão de cada dia uma guerra sujeita às regras de compra e venda? Como se harmoniza a rentabilidade com a justiça social e distributiva? Como se sabe que o produto interno bruto, em vez de gerar um benefício para a comunidade, não vai parar aos cofres dos mesmos, já recheados de meios, oportunidades, prestígio, credibilidade nos mercados? Como é possível que o simples faro para o negócio gere milhões da noite para o dia, sem nada ter a ver com o bem comum? Como se questiona, nas regras vigentes, a riqueza acumulada sem um toque de escrúpulo com os que objectivamente vivem sem o pão de cada dia? Como se pode pedir aos grandes criadores de riqueza que, na sua agenda mental, tenham em conta os que vivem no estertor da miséria, sem casa, saúde, alimentação, conforto, acesso ao novo essencial que os tempos de hoje facultam? Que calma é esta que suscita alegria quando desce o número dos pobres, sem o escândalo pelos que ainda permanecem na margem da vida e rondam os cerca de mil milhões de seres humanos? Como se liga o alarme aos que andam distraídos sobre uma parte do mundo que ainda morre de fome?

António Rego in Ecclesia

4 de julho de 2007

E a Espanha aqui tão longe (comunicado da APFN)

O primeiro-ministro espanhol anunciou a instituição de um subsídio de nascimento de 2500 Eur, em linha do que tem vindo a ser praticado na esmagadora maioria dos países europeus, cada vez mais preocupados, com razão, com a reduzida taxa de natalidade.

Recorde-se que, em Espanha, a taxa de natalidade já é crescente, mas, por estar longe dos desejáveis 2.1 filhos por casal, o governo viu-se na necessidade de aumentar os apoios às famílias com filhos, conforme tem vindo a ser insistentemente lembrado pela Comissão Europeia.

Por cá, sucede precisamente o contrário, apesar de Portugal ser dos raros países europeus com taxa de natalidade decrescente. Os resultados de 2006, ainda não divulgados pelo INE, irão apresentar o resultado do agravamento da política anti-natalista por parte deste governo que, não satisfeito, recentemente anunciou o aumento das taxas moderadoras para crianças até aos 12 anos, e isenção das mesmas taxas para as mulheres que abortam!

Estando agora Portugal a presidir à Europa, a APFN apela ao primeiro-ministro para seguir o exemplo de Espanha e, na continuação da presidência alemã, adoptar, em Portugal, as medidas de apoio às famílias com filhos que têm vindo a ser adoptadas, com sucesso, na esmagadora maioria dos nossos parceiros europeus.

29 de junho de 2007

Matrimónio. Uma opção definitiva?!

4. O encontro, categoria fundamental para reflectir e viver o matrimónio

O que temos dito até agora sobre a fidelidade, o amor e o compromisso no âmbito do matrimónio, só pode ser verdadeiramente entendido quando olhamos para o pano de fundo onde obrigatoriamente estas realidades adquirem o seu significado. Refiro-me à experiência de relação e de encontro que se vive entre um homem e uma mulher. As linhas que se seguem, querem olhar para esse encontro como uma das categorias que melhor nos podem ajudar a reflectir e viver a realidade do matrimónio. Com efeito, o encontro aponta-nos para uma dimensão profunda e densa da relação de amor entre duas pessoas, sobre a qual se pode construir a comunidade de vida matrimonial. O tempo em que vivemos - todos o sabemos - parece correr a uma tal velocidade que não temos a possibilidade de parar para nós encontrarmos uns com os outros. De facto, cada vez existe uma maior consciência de que conhecemos muitas pessoas, falamos com muitas outras, cruzamo-nos com mais ainda, mas só em poucas ocasiões – talvez muitos menos daquelas que seriam necessárias e desejáveis para alcançarmos uma qualidade de vida que possa ser humanizadora - nos encontramos verdadeiramente com alguém. E, apesar disso, sabemos que a experiência de encontro constitui, no entanto, uma das dimensões fundamentais do existir humano. Ninguém pode ser sozinho. Esta intuição, que todos temos, pode ajudar-nos a entender como a experiência do encontro requer a presença de determinadas condições para que possa ser realizada. Sem elas poderemos continuar a falar e a cruzarmo-nos com um grande número de pessoas, mas, na realidade, não nos encontraremos com elas. O respeito pelo outro, pela alteridade do outro, ou se quisermos ainda dizer de uma maneira mais evidente, ainda que menos sonora e menos correcta do ponto de vista da língua, o respeito pela ‘outridade’ do outro é fundamental para se poder realizar a experiência de encontro. É que a pessoa humana jamais pode ser reduzida a um objecto que se manipula e pode dominar. O outro é sempre outra pessoa distinta de mim, mas tão digna como eu. Só depois de perceber isto e respeitar isto, posso olhar para esse outro como alguém que me interpela e com o qual me posso encontrar. Para além deste respeito pela alteridade do outro, também a reciprocidade surge, neste contexto, como nota muito importante. No encontro, a relação é constituída por duas ou mais liberdades que se interpelam, constituindo cada uma delas a possibilidade para as outras se manifestarem e actuarem. Nessa relação todos os sujeitos intervêm de forma activa, tornando-se participantes e responsáveis pelas existências uns dos outros (reciprocidade). Esta experiência pressupõe, da parte daqueles que se encontram, como é óbvio, uma grande disponibilidade e uma grande confiança. Disponibilidade para estar com atenção ao outro, às suas propostas, aos seus anseios, no fundo à sua verdade e realidade. Confiança para aceitar a relação que tende a abarcar a totalidade da existência de cada um, para aceitar a dádiva do outro que se me entrega e, também, para me dar naquilo que é a minha intimidade. Do que foi dito, podemos concluir que a verdadeira experiência de encontro não é um acontecimento que possamos dominar completamente, pelo contrário, é nesta relação que temos a possibilidade de nos ir descobrindo. Na verdade, o encontro realiza-se a partir de um acontecimento comum que constitui aqueles que se encontram num ‘nós’, no qual o eu e o tu se descobrem participando mutuamente um no outro. Esta realidade alcança a sua realização mais plena na forma humana mais elevada de encontro que é o amor. Ter ignorado isto, talvez tenha sido um dos factores que de forma mais decisiva tem contribuído para a situação de fragilidade em que se encontram hoje muitos casais.

por Juan Francisco Ambrósio - colaborador do Jornal da Família

25 de junho de 2007

Porque se espera?!

Certo dia, na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, assisti à brilhante palestra de António Lopes Ribeiro, famoso cineasta, que manteve, na TV, o “Museu do Cinema”, programa que o povo não esqueceu e lembra com saudade. Ora o conferencista, na habitual à vontade que lhe era peculiar, defendeu a tese que o cinema não é responsável pelo mal que corrói o mundo, mas pacífico espelho da sociedade. Que me desculpe o célebre realizador de cinema, vir, agora, discordar de seu parecer; para mim, foi e é o principal responsável pela mudança de comportamentos; e não está só, acompanha-o a imprensa, a TV e a tão desejada Internet. Sacerdote brigantino, à saída da sala de cinema, confessou, após assistir a filme que narrava a vida de Cristo: – “O actor que interpreta Jesus, evangeliza mais que punhado de missionários!…” Tinha razão: actrizes, figuras públicas, desportistas, escritores, não olvidando os jornalistas, ao declararem que seu trabalho é o espelho da sociedade, enganam-se ou enganam: a sociedade é que é o reflexo de seus pereceres. É lugar comum asseverar: a violência domina o mundo; e o mundo, para nós, é a nossa cidade, as ruas onde nossas esposas e filhos caminham. Artérias onde corre sangue inocente Durante décadas os povos andaram a ser manipulados. A TV e o cinema injectaram a peçonha da desmoralização, divulgando comportamentos reprováveis e cenas indecorosas, inflamando desejos e viciando adolescentes. A imprensa, a TV, conscientemente, plasmaram a índole dos leitores e ouvintes: mudaram-lhes valores, ao opinarem conceitos e condutas. São, no entanto, as “novelas”, no nosso tempo, igualmente responsáveis, porque banalizam posturas ignominiosas, que à força de serem vistas, tornaram-se de chocantes, normais. O que era ruim parece agora bom; o que se reprovava, tolera-se e até se aprova. Nunca ouviram a expressão: “Anda no ar…”; é que pensamentos bons e maus, borboleteiam como ondas de rádio. Não se vêem nem se sentem, mas andam no ar, e as mentes captam e guardam. Esse tem sido, em regra, o trabalho da media: vulgarizar o mal e a promiscuidade da sociedade. A liberdade sexual apresentada sem rebuço, nas “novelas”, sem reprovação, leva muitos a perguntarem-se: Por que não fazer o mesmo? Assim se desagrega e se corrompe a família, aguçam-se apetites… e alimenta-se a precisão de preservativos e a malfadada interrupção da gravidez. Desse jeito endurecem-se os corações, perde-se o respeito, a honra, a dignidade, os valores, e esbatem-se as fronteiras do bem e do mal. Surge, então, a violência, a corrupção… a impunidade. “Se todos fazem…. Porque não eu?!” – interrogam-se. Perguntai-me: Por que os meios de comunicação - mesmo os que mergulham em raízes cristãs, – agem assim?! Eu vos direi: É a cobiça: a cobiça do dinheiro, da fama, do poder. Transmite-se o que o apetite quer, o que dá audiência, e não o que a sociedade precisa, e deste jeito a Nação queima-se em concupiscência. Não sabem os responsáveis da TV, que a “novela”, em muitos lares, é a primeira fonte de cultura e tema de conversa?! Desconhecem que é pela postura das personagens que os jovens pautam a conduta?! E que as figuras públicas são responsáveis pelo muito desconcerto que crassa pelo País?! Se sabem, por que não mudam?! Se ignoram, há ainda tempo de se emendarem, para não serem culpados do mal que está acontecendo aos nossos filhos, e pela degradação da Pátria. Brinca-se com as labaredas do erotismo. Inflama-se de torpezas os corações juvenis e das cinzas voam as faúlhas da violência, do crime e da morte. Se houvesse chama de Amor, de fraternidade, a paz urbana regressaria. Voltariam as nossas crianças a brincar despreocupadamente; cairiam as grades das nossas janelas; e as expressões de medo apagar-se-iam. A paz dos bons velhos tempos estampar-se-ia, de novo, nas faces dos idosos, e os olhos das crianças tornar-se-iam a rir. A felicidade do povo depende da mass-media, das figuras públicas, dos políticos e de todos nós… Por que se espera!? Que se tange a fogo depois da Nação se queimar de imundices?!…


por Humberto Pinho da Silva - colaborador do Jornal da Família

21 de junho de 2007

Crianças Desaparecidas

Vivemos numa realidade dura, e temos as provas disso mesmo todos os dias a entrar em nossas casas.

De há um tempo a esta parte o desaparecimento de Maddie McCann tem sido tema das nossas conversas. Mas, este também está a cair no esquecimento.

Com este caso volta de novo à memória dos portugueses tantos outros idênticos, tantas famílias que ainda choram a sua criança que continua desaparecida.

Que terá acontecido? Porque é que já não se fala dessa criança, e de tantas outras?

Que terá acontecido ao Rui Pedro? À Sofia Oliveira? Ao Alexandre Gabriel? À Ana Santos? À Cláudia Alexandra Silva e Sousa? Ao João Teles? Ao Jorge Sepúlveda? À Rita Monteiro? Ao Rui Pereira? E à Ana Sofia Galiado? Que terá acontecido?...




Maria Matos

Consulte o site http://www.ruipedro.net

20 de junho de 2007

Matrimónio. Uma opção definitiva?!

3. Fidelidade e Amor, duas realidades complementares

Com muita facilidade somos quase levados a identificar o amor com a fidelidade. É certo que tal reflexão tem todo o sentido e, no entanto, parece-me que é possível (talvez mesmo desejável) ir mais longe. Também para mim é evidente que o amor e a fidelidade se implicam e exigem mutuamente, de tal modo que não faz muito sentido falar de nenhuma destas realidades sem sentir a necessidade de apelar e recorrer à outra. E, contudo, não me parece ser necessária muita ousadia para perceber que o amor não é sem mais a fidelidade (ainda que sempre a implique), nem a fidelidade se pode reduzir ao amor (ainda que de certo modo sempre o pressuponha). Recorro a um exemplo para tentar deixar mais claro aquilo que pretendo dizer: É possível que a maneira como entendemos a dignidade da condição humana nos leve a defender essa mesma dignidade em situações em que se encontrem envolvidas pessoas, das quais não se pode dizer propriamente que as amamos. Admito que a importância que damos à dignidade humana implica um certo amor pela humanidade em geral (daí o ter afirmado que toda a fidelidade pressuponha de certo modo o amor), mas ao que aqui me quero referir vai noutra linha. Prossigamos, por isso, no exemplo: Imaginemos que em determinada situação aquele cuja dignidade é afectada não é só alguém que eu não conheço, mas trata-se de alguém com quem até antipatizo (isto para dizer de uma maneira leve). Pois bem, a fidelidade ao princípio fundamental de que toda a pessoa deve ser respeitada na sua dignidade, deve-me, nesse caso concreto, impelir a agir no sentido da preservação da mesma, ainda que não existam propriamente laços de amor com a pessoa envolvida. Deste exemplo, e é apenas disso que se trata, parece-me evidente poder concluir pela não identificação entre amor e fidelidade. Falar, no entanto, de amor sem fidelidade parece-me já uma tarefa muito difícil senão mesmo impossível. Pelo menos na parte que me toca, não sou capaz de fazê-lo. Com efeito, não tenho dúvidas em afirmar que o amor quando une verdadeiramente duas pessoas é sempre, em certo sentido, um amor exclusivo (fiel), ou seja, fundamenta e cria um determinado tipo de relação que se tem com aquela pessoa e com mais nenhuma. Apesar desta certeza, o exemplo anteriormente referido impede-me de identificar sem mais amor com fidelidade. Certamente que muito da dificuldade presente nesta reflexão tem a ver com o sentido que dermos à fidelidade e ao amor. Não é este o momento nem o lugar para fazer essa precisão, o que pretendo é muito mais simples e vai no sentido de sublinhar a importância fundamental do querer amar e do querer ser fiel, como dimensões fundamentais do matrimónio. Na verdade, na sociedade em que vivemos facilmente se cai na tentação de reduzir o amor a um sentimento, como á várias vezes afirmei. Assim, enquanto o sinto tudo é muito bonito e corre bem, mas quando o deixo de sentir, então já não vale a pena continuar e parte-se para outra, na tentativa de o voltar a encontrar. De modo nenhum quero ser injusto no sentido de acusar de ligeireza tantas pessoas que passaram e passam a este nível por situações bem difíceis. O que quero afirmar é que o amor não é magicamente, nem automaticamente, eterno. Não é simplesmente por dizer que amo que tudo está garantido. O amor não cresce espontaneamente e, no meu entender, nem sequer nasce espontaneamente. É necessário um encontro, que num primeiro momento pode não ter sido preparado, ou esperado, mas que depois tem de ser querido e continuado. Só o encontro continuado e querido pode fazer nascer o amor. Só a opção da fidelidade permite que ele cresça e se desenvolva, até poder ser o fundamento de uma vida a dois. E chegado a esse patamar, as coisas continuam a não acontecer de uma maneira automática e mágica. É preciso continuar a quer amar e a viver a fidelidade, para que a relação do casal possa continuar a desenvolver-se dando sentido à totalidade da vida. Acredito sinceramente que não pode existir o amor sem a fidelidade, mas faço a distinção entre essas duas realidades para afirmar e sublinhar a importância do querer ser fiel. O facto de termos descurado esta realidade talvez seja um dos motivos que nos pode ajudar a entender melhor a situação em que nos encontramos. Por isso me referi no número anterior à necessidade de aprender a fazer essa opção; por isso insisto, agora, na distinção entre a realidade do amor e da fidelidade. Distinção, mas nunca separação, pois o amor para ser amor tem sempre de ser fiel.

Juan Francisco Ambrósio - colaborador do Jornal da Família

Carta de um filho

Queridos pais!

Gosto imenso de vós, por isso hoje não resisto a fazer-vos um pedido:

- Não me dêem tudo o que vos peço. Às vezes só peço para ver até que ponto posso pedir.

- Não me gritem. Eu respeito-vos menos quando o fazem. Além disso estão a ensinar-me a gritar e eu não quero fazê-lo.

- Não me dêem sempre ordens. Se em vez de ordens me pedissem as coisas, talvez eu as fizesse mais depressa e de melhor vontade.

- Cumpram as vossas promessas, boas ou más. Se me prometem um prémio, dêem-mo, assim como um castigo. Assim aprenderei a cumprir o que prometo.

- Não me comparem com ninguém, em especial com os meus irmãos. Se me colocam como exemplo para os outros alguém vai sofrer e acham-me pior que eles, serei eu quem sofre.

- Não mudem de opinião constantemente sobre o que eu devo ou não fazer. Decidam-se e mantenham essa decisão. Isso vai dar-me a segurança de que tenho uns pais que se interessam por mim e cuidam de mim.

- Deixem-me desenrascar sozinho. Se fazem tudo por mim, nunca aprenderei. Não saberei enfrentar as lutas da vida.

- Não digam mentiras à minha frente e nem peçam que eu as diga, mesmo que seja para vos tirar de uma dificuldade. Fazem sentir-me mal e perder a confiança naquilo que me dizem.

- Quando se enganam, admitam-no e ficarei cheio de admiração por vós. Assim aprendo que tenho que admitir que eu também me engano.

- Tratem-me com a mesma amizade com que tratam os vossos amigos. Lá porque são meus pais, também podem ser meus amigos.

- Não me digam para fazer coisas que vós não fazeis.

- Ensinem-me a amar e a conhecer a Deus. Não vale a pena que na catequese e na escola me digam para amar a Deus, se percebo que vós não O conheceis nem O amais.

- Quando eu for desabafar com um de vós, não me digam: Olha, não tenho tempo para estupidezes! Ou por exemplo: Isso não tem importância. Tentem compreender-me e ajudar-me.

- Peço-vos que gostem de mim. Sei que gostam, mas digam-me isto muitas vezes. Preciso de o ouvir embora pensem que não é necessário dizer-mo.

Um beijo do vosso filho que vos adora.

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