No passado mês, quase ao terminar as linhas que convosco costumo partilhar, afirmava que o ser humano se realiza plenamente como pessoa no diálogo eu-tu, alcançando este diálogo a sua forma mais intensa na relação de amor. Olhar para esse amor, na sua dimensão da conjugalidade, é o objectivo que desta vez vos proponho. Na realidade, só o amor conjugal, ou seja, um amor total, livre, fiel, exclusivo e fecundo pode ser fundamento consistente de uma opção de vida concretizada no matrimónio. Sei bem que todas estas notas, a que acabo de fazer referência, marcam presença, de uma maneira ou de outra, em toda a realidade do amor, no entanto, elas adquirem um relevo especial naquele tipo de amor que aqui qualificamos de conjugal. Daí a atenção que lhes vou dar. O amor conjugal é um amor total, isto é, um amor que pressupõe a capacidade de perceber e aceitar o outro tal como ele é, amando-o por si mesmo e aceitando-o na sua riqueza, diferença e irrepetibilidade. Nada deve existir na vida dos dois que possa ficar fora dessa relação de amor. Trata-se de uma aceitação mútua, mesmo naquilo que é limite e fraqueza, se bem que cada um se deva sempre empenhar em ajudar o outro a progredir na construção da sua personalidade, respeitando a sua autonomia. É todo o eu que ama a totalidade do tu para, em conjunto, construir um projecto de vida, onde a totalidade da existência é partilhada. O amor conjugal é um amor livre, pois só na liberdade de querer ser totalmente um para o outro, se pode construir uma vida em comum. Numa relação em que o predominante não pode ser simplesmente o eu de cada um, mas se tem igualmente de ter em conta a pessoa amada, a dimensão da liberdade torna-se fundamental. A capacidade de livremente me decidir por aquele tu é, de facto, uma das dimensões decisivas no amor conjugal. O amor conjugal é igualmente um amor fiel e para sempre, porque só um amor que é fiel e se quer viver para sempre pode constituir um suporte real e sólido para a partilha total da vida inteira. É também um amor exclusivo, pois a relação existente entre o eu e o tu é exclusiva não podendo ser repetida com mais ninguém. O amor conjugal dirige-se a uma única pessoa, de tal modo que essa relação, por ser única e irrepetível, se pode tornar o suporte de uma vida partilhada. A exclusividade é aquela nota característica do amor conjugal que ao permitir tornar a relação entre as duas pessoas em algo de tão especial, as referencia uma à outra de maneira única e irrepetível. Amor exclusivo mas não fechado sobre si mesmo. Na realidade, no casamento os cônjuges não se podem buscar só a si mesmos, limitando-se a concretizar os seus interesses e a alcançar a sua própria realização. O verdadeiro amor conjugal deve ter sempre uma dimensão que supere os dois que se amam, pois se permanecer fechado sobre si mesmo corre o perigo de definhar. O amor leva à doação e à partilha da felicidade e do ser, por isso naturalmente se abre ao dom da dádiva e do acolhimento da vida. O matrimónio como ‘isolamento a dois’ seria um profundo equívoco. Um bom casamento tem sempre espaço para os amigos e para muitas formas de proximidade humana. Finalmente o amor conjugal é um amor fecundo. De maneira plena a fecundidade do amor conjugal manifesta-se na capacidade de gerar e acolher uma nova vida. Porque baseado na dádiva total de cada um ao outro, o amor conjugal está aberto e aponta para o milagre da vida. Para os cônjuges, os filhos não são, pois, algo de externo à sua relação de amor, pelo contrário, são o confirmar e o afirmar sempre, de maneira profunda e renovada, a relação que ambos têm. Este amor a dois é tão abarcante e total que é capaz de criar uma tal novidade tendente a concretizar-se numa vida completamente nova e distinta. Um amor conjugal que seja voluntariamente estéril jamais poderá desenvolver-se e alcançar a sua plenitude. Todas estas notas nos permitem facilmente entender como o amor conjugal não é uma realidade estática e concretizada de uma vez por todas. Pelo contrário, ele deve estar sujeito a um contínuo dinamismo de crescimento e aprofundamento. O cônjuges devem, pois, empenhar-se numa constante atitude de aperfeiçoamento, cultivando e exercitando o seu amor todos os dias da sua vida. Nesta linha tem toda a razão aquele meu amigo padre que na homilia do casamento de amigos comuns afirmava, com alguma ousadia: «mal estará a vossa relação se este dia de casamento for o dia mais bonito e feliz da vossa vida, pois isso significaria que não teria havido crescimento e aprofundamento no amor».


















