Há uns tempos a esta parte que tenho andado completamente confuso, angustiado, perplexo, chocado mesmo.
Desde que se deu o misterioso desaparecimento da pequenina Madeleine, na Luz (Algarve), já passei por várias mutações anímicas. Inicialmente atribui todas as culpas do desaparecimento de Madeleine, à negligência do casal McCann. Nunca compreendi e ainda hoje não consigo atinar, como é que se deixam três débeis crianças de tenra idade, sozinhas, a dormir em casa, para se ir, despreocupadamente, para um restaurante, ainda que se situe paredes meias com o local de repouso das meninas.
Depois convenci-me que tudo teria origem no facto de Madeleine ter acordado, e na sua irrequietude e irresponsabilidade pueril, ter-se levantado e saindo de casa, ter-se perdido ou caído para algum precipício, ou mesmo dirigir-se para a beira-mar, vindo a ser tragada pelas ondas do oceano. Mas dar-se esta remota hipótese, o corpo da pequenita já teria sido dado à costa.
Posteriormente, julguei tratar-se de alguém que tivesse raptado a menina, para, subsequentemente, exigir algum vultuoso resgate.
Presentemente, depois de saber do grande número de crianças que desaparecem e são raptadas, todos os anos e das demoníacas organizações, a nível mundial, que se entregam à repelente tarefa de angariar crianças para alimentar tenebrosas redes de pedofilia, de prostituição, de sádicas e satânicas práticas de homossexualidade e até, para arranjar órgãos para transplantes humanos, fico aterrado com a vileza e dimensão destes horrendos crimes, para os quais não consigo encontrar um adjectivo adequado que os possa classificar. Isto é simplesmente tenebroso…
Fico atónito, estarrecido, só de pensar nas cruentes barbaridades a que uma frágil criança pode ser submetida e a que está vulnerável.
Quantos horrendos crimes são praticados, aos milhares, em crianças, desde aquelas que foram impedidas de nascer, até aos meninos e meninas que foram raptadas aos seus pais, para depois serem violentamente maltratadas, das formas mais sádicas e vis, segundo os caprichos de mentes demoníacas.
Tenho acompanhado a história tenebrosa do misterioso desaparecimento da pequena e indefesa Madeleine. Não haverá maneira de se criarem mecanismos de defesa das frágeis crianças, numa sociedade tão evoluída como a nossa? Este problema não se circunscreverá apenas ao seio das famílias. Passa também pela sociedade em geral e pelas escolas em particular.
Quantos pais, dormem descansadamente, nas suas casas, quando os filhos, vagueiam, a altas horas da noite, por boîtes, dancing’s, clubes nocturnos de toda a espécie. Facilitar aos jovens saídas nocturnas, sozinhos ou com duvidosas companhias. Deixar crianças, de tenra idade, deslocarem-se sozinhas para os respectivos estabelecimentos de ensino. Permitir que jovens, “naveguem nas aliciantes, mas por vezes temíveis ondas da Internet ou nos segredos dos permissivos computadores, no aparente remanso do seu quarto de dormir ou na intimidade do seu escritório, pode ser deveras pernicioso. Os alertas chegam de muitos lados, vindo o mais recente de Inglaterra, onde duas jovens pagaram com a vida a sua infantilidade despreocupada.
Quantos escolares há, que seduzidos pela sempre afável Internet, encontram aliciantes companhias que os levam a deixar as aulas, para se reunirem num bar, num café, num pub ou numa discoteca. Ali o fumo é aprazível, as bebidas excitantes, as toilettes bastantes reduzidas e até as maquilhagens são altamente sugestivas, retocadas e de certo modo, ousadas.
A escola, que já tinha informado o encarregado de educação do mau aproveitamento escolar, do insucesso académico e da ausência de acompanhamento do ritmo cognitivo destes alunos, agora começa a alertar os pais destes escolares, para as faltas injustificadas que vão sendo registadas.
Mas, para grandes males, grandes remédios. Para que não haja ralhos em casa, anula-se a matrícula e pronto, acabaram-se as faltas, as contendas e as recriminações. Agora, os bancos escolares são trocados pelos bancos dos jardins, dos “pub’s”, das boîtes. A indumentária torna-se bastante mais reduzida. As maquilhagens mais provocantes. Os cigarros, acendem-se uns nos outros. Os cabelos conhecem múltiplo colorido e as unhas passam a ostentar um verniz vermelhão bem berrante. Quando passam por algum professor conhecido, olham de soslaio, tomam um ar triunfante e mostram um rasgo desdém, sorrindo na apertada e incómoda mini-saia. E assim, despreocupadamente, vão vivendo a vida, até, numa loja de pronto-a-vestir, como balconistas, num grande espaço comercial de um supermercado , quando não descambam para locais laborais bem pouco recomendáveis.
A escola, burocraticamente, fez o seu dever. Mas será que à escola, se pedirá apenas esta atitude de solícita legalista, de informar as faltas?
A escola, cuido eu, tem obrigação de ensinar, aconselhar, proteger e olhar pelas crianças que está a educar, transmitindo-lhes conhecimentos de saber, de instrução e de prevenção, alertando os jovens para as ciladas da vida, de modo que os adolescentes sejam capaz de se desviarem dos escolhos das sociedades, onde proliferam verdadeiros lobos da humanidade. É preciso alertar os nossos jovens para esta teia de malfeitores que com pele de cordeiros, são verdadeiras hienas, À procura do sangue de débeis e indefesas crianças. E isto porque já o Plauto, em Asinaria, escrito 200 anos antes de Cristo, proclamava que “homo homini lupus”, isto é, que o homem é o lobo do homem, alusão feita à ferocidade com que os homens procuram prejudicar e matar o seu semelhante.
Neste contexto, tanto a família, como a escola, como a Igreja, têm aqui um amplo campo de actuação catequética, a bem da civilização, da sociedade e sobretudo, das crianças.
por Fabião Baptista - colaborador do Jornal da Família