Diário da Assembleia Geral do ISCF

“Tudo o que se fizer a bem da família, por pequeno que seja é grande”. (Mons. Brás)

A Família no centro das atenções

Encontra aqui os vários artigos do Dr. Juan Ambrósio sobre a Família...

Encontro Mundial das Famílias 2015

O Vaticano apresentou dia 24 de março em conferência de imprensa o 7.º Encontro Mundial da Família, que vai decorrer de 22 a 27 de setembro de 2015 na cidade norte-americana de Filadélfia.

A saúde mental dos portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...

O trabalho, dom e direito

A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...

Longe vão os tempos

Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...

Dar esperança em tempo de crise

Vivemos tempos difíceis. A família, como célula base da sociedade, é imediatamente afetada por esta crise generalizada e que promete perdurar. Neste contexto, exige-se um novo paradigma, uma nova forma de estar e de nos relacionarmos.

29 de junho de 2007

Matrimónio. Uma opção definitiva?!

4. O encontro, categoria fundamental para reflectir e viver o matrimónio

O que temos dito até agora sobre a fidelidade, o amor e o compromisso no âmbito do matrimónio, só pode ser verdadeiramente entendido quando olhamos para o pano de fundo onde obrigatoriamente estas realidades adquirem o seu significado. Refiro-me à experiência de relação e de encontro que se vive entre um homem e uma mulher. As linhas que se seguem, querem olhar para esse encontro como uma das categorias que melhor nos podem ajudar a reflectir e viver a realidade do matrimónio. Com efeito, o encontro aponta-nos para uma dimensão profunda e densa da relação de amor entre duas pessoas, sobre a qual se pode construir a comunidade de vida matrimonial. O tempo em que vivemos - todos o sabemos - parece correr a uma tal velocidade que não temos a possibilidade de parar para nós encontrarmos uns com os outros. De facto, cada vez existe uma maior consciência de que conhecemos muitas pessoas, falamos com muitas outras, cruzamo-nos com mais ainda, mas só em poucas ocasiões – talvez muitos menos daquelas que seriam necessárias e desejáveis para alcançarmos uma qualidade de vida que possa ser humanizadora - nos encontramos verdadeiramente com alguém. E, apesar disso, sabemos que a experiência de encontro constitui, no entanto, uma das dimensões fundamentais do existir humano. Ninguém pode ser sozinho. Esta intuição, que todos temos, pode ajudar-nos a entender como a experiência do encontro requer a presença de determinadas condições para que possa ser realizada. Sem elas poderemos continuar a falar e a cruzarmo-nos com um grande número de pessoas, mas, na realidade, não nos encontraremos com elas. O respeito pelo outro, pela alteridade do outro, ou se quisermos ainda dizer de uma maneira mais evidente, ainda que menos sonora e menos correcta do ponto de vista da língua, o respeito pela ‘outridade’ do outro é fundamental para se poder realizar a experiência de encontro. É que a pessoa humana jamais pode ser reduzida a um objecto que se manipula e pode dominar. O outro é sempre outra pessoa distinta de mim, mas tão digna como eu. Só depois de perceber isto e respeitar isto, posso olhar para esse outro como alguém que me interpela e com o qual me posso encontrar. Para além deste respeito pela alteridade do outro, também a reciprocidade surge, neste contexto, como nota muito importante. No encontro, a relação é constituída por duas ou mais liberdades que se interpelam, constituindo cada uma delas a possibilidade para as outras se manifestarem e actuarem. Nessa relação todos os sujeitos intervêm de forma activa, tornando-se participantes e responsáveis pelas existências uns dos outros (reciprocidade). Esta experiência pressupõe, da parte daqueles que se encontram, como é óbvio, uma grande disponibilidade e uma grande confiança. Disponibilidade para estar com atenção ao outro, às suas propostas, aos seus anseios, no fundo à sua verdade e realidade. Confiança para aceitar a relação que tende a abarcar a totalidade da existência de cada um, para aceitar a dádiva do outro que se me entrega e, também, para me dar naquilo que é a minha intimidade. Do que foi dito, podemos concluir que a verdadeira experiência de encontro não é um acontecimento que possamos dominar completamente, pelo contrário, é nesta relação que temos a possibilidade de nos ir descobrindo. Na verdade, o encontro realiza-se a partir de um acontecimento comum que constitui aqueles que se encontram num ‘nós’, no qual o eu e o tu se descobrem participando mutuamente um no outro. Esta realidade alcança a sua realização mais plena na forma humana mais elevada de encontro que é o amor. Ter ignorado isto, talvez tenha sido um dos factores que de forma mais decisiva tem contribuído para a situação de fragilidade em que se encontram hoje muitos casais.

por Juan Francisco Ambrósio - colaborador do Jornal da Família

25 de junho de 2007

Porque se espera?!

Certo dia, na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, assisti à brilhante palestra de António Lopes Ribeiro, famoso cineasta, que manteve, na TV, o “Museu do Cinema”, programa que o povo não esqueceu e lembra com saudade. Ora o conferencista, na habitual à vontade que lhe era peculiar, defendeu a tese que o cinema não é responsável pelo mal que corrói o mundo, mas pacífico espelho da sociedade. Que me desculpe o célebre realizador de cinema, vir, agora, discordar de seu parecer; para mim, foi e é o principal responsável pela mudança de comportamentos; e não está só, acompanha-o a imprensa, a TV e a tão desejada Internet. Sacerdote brigantino, à saída da sala de cinema, confessou, após assistir a filme que narrava a vida de Cristo: – “O actor que interpreta Jesus, evangeliza mais que punhado de missionários!…” Tinha razão: actrizes, figuras públicas, desportistas, escritores, não olvidando os jornalistas, ao declararem que seu trabalho é o espelho da sociedade, enganam-se ou enganam: a sociedade é que é o reflexo de seus pereceres. É lugar comum asseverar: a violência domina o mundo; e o mundo, para nós, é a nossa cidade, as ruas onde nossas esposas e filhos caminham. Artérias onde corre sangue inocente Durante décadas os povos andaram a ser manipulados. A TV e o cinema injectaram a peçonha da desmoralização, divulgando comportamentos reprováveis e cenas indecorosas, inflamando desejos e viciando adolescentes. A imprensa, a TV, conscientemente, plasmaram a índole dos leitores e ouvintes: mudaram-lhes valores, ao opinarem conceitos e condutas. São, no entanto, as “novelas”, no nosso tempo, igualmente responsáveis, porque banalizam posturas ignominiosas, que à força de serem vistas, tornaram-se de chocantes, normais. O que era ruim parece agora bom; o que se reprovava, tolera-se e até se aprova. Nunca ouviram a expressão: “Anda no ar…”; é que pensamentos bons e maus, borboleteiam como ondas de rádio. Não se vêem nem se sentem, mas andam no ar, e as mentes captam e guardam. Esse tem sido, em regra, o trabalho da media: vulgarizar o mal e a promiscuidade da sociedade. A liberdade sexual apresentada sem rebuço, nas “novelas”, sem reprovação, leva muitos a perguntarem-se: Por que não fazer o mesmo? Assim se desagrega e se corrompe a família, aguçam-se apetites… e alimenta-se a precisão de preservativos e a malfadada interrupção da gravidez. Desse jeito endurecem-se os corações, perde-se o respeito, a honra, a dignidade, os valores, e esbatem-se as fronteiras do bem e do mal. Surge, então, a violência, a corrupção… a impunidade. “Se todos fazem…. Porque não eu?!” – interrogam-se. Perguntai-me: Por que os meios de comunicação - mesmo os que mergulham em raízes cristãs, – agem assim?! Eu vos direi: É a cobiça: a cobiça do dinheiro, da fama, do poder. Transmite-se o que o apetite quer, o que dá audiência, e não o que a sociedade precisa, e deste jeito a Nação queima-se em concupiscência. Não sabem os responsáveis da TV, que a “novela”, em muitos lares, é a primeira fonte de cultura e tema de conversa?! Desconhecem que é pela postura das personagens que os jovens pautam a conduta?! E que as figuras públicas são responsáveis pelo muito desconcerto que crassa pelo País?! Se sabem, por que não mudam?! Se ignoram, há ainda tempo de se emendarem, para não serem culpados do mal que está acontecendo aos nossos filhos, e pela degradação da Pátria. Brinca-se com as labaredas do erotismo. Inflama-se de torpezas os corações juvenis e das cinzas voam as faúlhas da violência, do crime e da morte. Se houvesse chama de Amor, de fraternidade, a paz urbana regressaria. Voltariam as nossas crianças a brincar despreocupadamente; cairiam as grades das nossas janelas; e as expressões de medo apagar-se-iam. A paz dos bons velhos tempos estampar-se-ia, de novo, nas faces dos idosos, e os olhos das crianças tornar-se-iam a rir. A felicidade do povo depende da mass-media, das figuras públicas, dos políticos e de todos nós… Por que se espera!? Que se tange a fogo depois da Nação se queimar de imundices?!…


por Humberto Pinho da Silva - colaborador do Jornal da Família

21 de junho de 2007

Crianças Desaparecidas

Vivemos numa realidade dura, e temos as provas disso mesmo todos os dias a entrar em nossas casas.

De há um tempo a esta parte o desaparecimento de Maddie McCann tem sido tema das nossas conversas. Mas, este também está a cair no esquecimento.

Com este caso volta de novo à memória dos portugueses tantos outros idênticos, tantas famílias que ainda choram a sua criança que continua desaparecida.

Que terá acontecido? Porque é que já não se fala dessa criança, e de tantas outras?

Que terá acontecido ao Rui Pedro? À Sofia Oliveira? Ao Alexandre Gabriel? À Ana Santos? À Cláudia Alexandra Silva e Sousa? Ao João Teles? Ao Jorge Sepúlveda? À Rita Monteiro? Ao Rui Pereira? E à Ana Sofia Galiado? Que terá acontecido?...




Maria Matos

Consulte o site http://www.ruipedro.net

20 de junho de 2007

Matrimónio. Uma opção definitiva?!

3. Fidelidade e Amor, duas realidades complementares

Com muita facilidade somos quase levados a identificar o amor com a fidelidade. É certo que tal reflexão tem todo o sentido e, no entanto, parece-me que é possível (talvez mesmo desejável) ir mais longe. Também para mim é evidente que o amor e a fidelidade se implicam e exigem mutuamente, de tal modo que não faz muito sentido falar de nenhuma destas realidades sem sentir a necessidade de apelar e recorrer à outra. E, contudo, não me parece ser necessária muita ousadia para perceber que o amor não é sem mais a fidelidade (ainda que sempre a implique), nem a fidelidade se pode reduzir ao amor (ainda que de certo modo sempre o pressuponha). Recorro a um exemplo para tentar deixar mais claro aquilo que pretendo dizer: É possível que a maneira como entendemos a dignidade da condição humana nos leve a defender essa mesma dignidade em situações em que se encontrem envolvidas pessoas, das quais não se pode dizer propriamente que as amamos. Admito que a importância que damos à dignidade humana implica um certo amor pela humanidade em geral (daí o ter afirmado que toda a fidelidade pressuponha de certo modo o amor), mas ao que aqui me quero referir vai noutra linha. Prossigamos, por isso, no exemplo: Imaginemos que em determinada situação aquele cuja dignidade é afectada não é só alguém que eu não conheço, mas trata-se de alguém com quem até antipatizo (isto para dizer de uma maneira leve). Pois bem, a fidelidade ao princípio fundamental de que toda a pessoa deve ser respeitada na sua dignidade, deve-me, nesse caso concreto, impelir a agir no sentido da preservação da mesma, ainda que não existam propriamente laços de amor com a pessoa envolvida. Deste exemplo, e é apenas disso que se trata, parece-me evidente poder concluir pela não identificação entre amor e fidelidade. Falar, no entanto, de amor sem fidelidade parece-me já uma tarefa muito difícil senão mesmo impossível. Pelo menos na parte que me toca, não sou capaz de fazê-lo. Com efeito, não tenho dúvidas em afirmar que o amor quando une verdadeiramente duas pessoas é sempre, em certo sentido, um amor exclusivo (fiel), ou seja, fundamenta e cria um determinado tipo de relação que se tem com aquela pessoa e com mais nenhuma. Apesar desta certeza, o exemplo anteriormente referido impede-me de identificar sem mais amor com fidelidade. Certamente que muito da dificuldade presente nesta reflexão tem a ver com o sentido que dermos à fidelidade e ao amor. Não é este o momento nem o lugar para fazer essa precisão, o que pretendo é muito mais simples e vai no sentido de sublinhar a importância fundamental do querer amar e do querer ser fiel, como dimensões fundamentais do matrimónio. Na verdade, na sociedade em que vivemos facilmente se cai na tentação de reduzir o amor a um sentimento, como á várias vezes afirmei. Assim, enquanto o sinto tudo é muito bonito e corre bem, mas quando o deixo de sentir, então já não vale a pena continuar e parte-se para outra, na tentativa de o voltar a encontrar. De modo nenhum quero ser injusto no sentido de acusar de ligeireza tantas pessoas que passaram e passam a este nível por situações bem difíceis. O que quero afirmar é que o amor não é magicamente, nem automaticamente, eterno. Não é simplesmente por dizer que amo que tudo está garantido. O amor não cresce espontaneamente e, no meu entender, nem sequer nasce espontaneamente. É necessário um encontro, que num primeiro momento pode não ter sido preparado, ou esperado, mas que depois tem de ser querido e continuado. Só o encontro continuado e querido pode fazer nascer o amor. Só a opção da fidelidade permite que ele cresça e se desenvolva, até poder ser o fundamento de uma vida a dois. E chegado a esse patamar, as coisas continuam a não acontecer de uma maneira automática e mágica. É preciso continuar a quer amar e a viver a fidelidade, para que a relação do casal possa continuar a desenvolver-se dando sentido à totalidade da vida. Acredito sinceramente que não pode existir o amor sem a fidelidade, mas faço a distinção entre essas duas realidades para afirmar e sublinhar a importância do querer ser fiel. O facto de termos descurado esta realidade talvez seja um dos motivos que nos pode ajudar a entender melhor a situação em que nos encontramos. Por isso me referi no número anterior à necessidade de aprender a fazer essa opção; por isso insisto, agora, na distinção entre a realidade do amor e da fidelidade. Distinção, mas nunca separação, pois o amor para ser amor tem sempre de ser fiel.

Juan Francisco Ambrósio - colaborador do Jornal da Família

Carta de um filho

Queridos pais!

Gosto imenso de vós, por isso hoje não resisto a fazer-vos um pedido:

- Não me dêem tudo o que vos peço. Às vezes só peço para ver até que ponto posso pedir.

- Não me gritem. Eu respeito-vos menos quando o fazem. Além disso estão a ensinar-me a gritar e eu não quero fazê-lo.

- Não me dêem sempre ordens. Se em vez de ordens me pedissem as coisas, talvez eu as fizesse mais depressa e de melhor vontade.

- Cumpram as vossas promessas, boas ou más. Se me prometem um prémio, dêem-mo, assim como um castigo. Assim aprenderei a cumprir o que prometo.

- Não me comparem com ninguém, em especial com os meus irmãos. Se me colocam como exemplo para os outros alguém vai sofrer e acham-me pior que eles, serei eu quem sofre.

- Não mudem de opinião constantemente sobre o que eu devo ou não fazer. Decidam-se e mantenham essa decisão. Isso vai dar-me a segurança de que tenho uns pais que se interessam por mim e cuidam de mim.

- Deixem-me desenrascar sozinho. Se fazem tudo por mim, nunca aprenderei. Não saberei enfrentar as lutas da vida.

- Não digam mentiras à minha frente e nem peçam que eu as diga, mesmo que seja para vos tirar de uma dificuldade. Fazem sentir-me mal e perder a confiança naquilo que me dizem.

- Quando se enganam, admitam-no e ficarei cheio de admiração por vós. Assim aprendo que tenho que admitir que eu também me engano.

- Tratem-me com a mesma amizade com que tratam os vossos amigos. Lá porque são meus pais, também podem ser meus amigos.

- Não me digam para fazer coisas que vós não fazeis.

- Ensinem-me a amar e a conhecer a Deus. Não vale a pena que na catequese e na escola me digam para amar a Deus, se percebo que vós não O conheceis nem O amais.

- Quando eu for desabafar com um de vós, não me digam: Olha, não tenho tempo para estupidezes! Ou por exemplo: Isso não tem importância. Tentem compreender-me e ajudar-me.

- Peço-vos que gostem de mim. Sei que gostam, mas digam-me isto muitas vezes. Preciso de o ouvir embora pensem que não é necessário dizer-mo.

Um beijo do vosso filho que vos adora.

18 de junho de 2007

Institutos Seculares comemoram os 60 anos da Provida Mater Ecclesia

Dia 16 de Junho, dia marcado por mais um encontro dos Institutos Seculares para a comemoração dos 60 anos da Provida Mater Ecclesia – Constituição Apostólica promulgada por Pio XII no dia 2 de Fevereiro de 1947 – documento que abriu caminho à consagração secular.
Com o tema “Profetas da Esperança numa Sociedade Secularizada” apresentado por D. Augusto César, foram-se lançando várias “estrelinhas da esperança” àquilo a que os Institutos Seculares são chamados, ou seja, vivendo no século e esforçando-se por atingir a perfeição da caridade e contribuir, sobretudo a partir de dentro, para a santificação do mundo. (cf. cânon 710)
Com este documento – Provida Mater Ecclesia – nasce um novo modo de consagração que mais tarde é evocada também em dois documentos do Vaticano II - os Decretos Perfectae Caritatis e Ad Gentes, documentos que se tornaram fundamentais para a compreensão e confirmação dos Institutos Seculares.
D. Augusto César reforçou o papel que os Institutos Seculares têm a desempenhar neste mundo, lugar em que os mesmos terão que descobrir caminhos novos de esperança e terem a ousadia de os abrir. Eles são a presença da Igreja no mundo porque de facto a “Igreja faz parte do mundo e é chamada a servi-lo, ser a alma e o fermento do mundo, porque tem a missão de o santificar, de o consagrar e fazer incidir sobre ele os valores supremos da justiça, do amor e da paz (…) Sois o laboratório experimental onde a Igreja se revê na sua relação com o mundo... Sois alpinistas do Espírito. A vossa vocação é bela e exigente.” (Paulo VI)
O ambiente que se respira nesta sociedade pós-moderna torna o caminho mais exigente, mais difícil – “tudo é global e tudo acontece aqui” afirma D. Augusto César, tudo é-nos dado com uma certa instantaneidade e acessibilidade nesta “aldeia global” que se tornou o mundo. Então à que “fazer propostas, despertar vontades e formar mentes” porque “a nossa missão é transformar os problemas em desafios e não nos embrulharmos neles”!
Maria Matos

Entrega

Tinha chegado ao limite das forças. Sem ajuda em casa, a incapacidade motora instalada, as dores crónicas e agora a devotada obrigação de ter a seu cargo a tia velhinha, que era como sua mãe, porque como tal ela a tinha criado. Ah! Se tivesse saúde como tudo seria mais fácil...Como os dias seriam desfrutados alegremente naquela doce companhia que tanto lhe dera e por isso lhe inspirava tanta ternura! Mas não. A vida estava-lhe a ser impossível. Perdido o tino, a tia parecia ter como único norte a sua presença física. Se afastava dela por uns momentos, logo a ouvia chamar. “Onde estás? Onde estás?” E a inquieta ansiedade com que a procurava, era sinónimo de uma total dependência para tudo: lavar, vestir, calçar, comer, até dormir. Cuidar de um idoso que voltou à infância e só por momentos breves recupera a adulta lucidez, é de uma enorme responsabilidade. E por maior que seja o amor, são precisas mãos para cuidar, braços fortes para segurar, força anímica para aguentar o dia a dia sem perder a serenidade e a alegria. E agora a mulher já nada disso tinha. E por maior que fosse esse o seu desejo, não estava nas suas mãos modificar as condições da sua vida, sobretudo as derivadas da sua precária saúde. Aguentou tanto quanto pode. Sempre soube que o ser humano pode muito mais do que imagina. Sempre soube que com pequenos truques se conseguem resolver situações aparentemente muito complicadas. Mas quando a velhinha perdeu de todo a capacidade de entrar e sair da banheira, quando deixou de saber onde estava, quando deixá-la por uns momentos sozinha se tornou mais perigoso que deixar um bebé que gatinha sozinho numa casa, viu que não havia criatividade, nem truque, nem ternura que lhe valessem. Pôs-se então à procura de um Lar onde deixar a tia. Mas as quantias pedidas pelas instituições onde existissem um mínimo de qualidade, eram-lhe completamente inacessíveis. Ao pesadelo e mágoa de deixar a sua amada velhinha longe dos seus carinhos e atenções, juntava-se a certeza de ter de encontrar e rapidamente, um lugar ligado à assistência social, que lhe exigissem um contributo acessível. Depois de muitas noites mal dormidas de preocupação e depois de ter falado com muitas pessoas informadas, soube que havia a hipótese de recorrer aos conselhos de uma assistente social da Santa Casa da Misericórdia, que visitava semanalmente a Paróquia. Marcada a entrevista, a boa da mulher dirigiu-se à Igreja, levando de braço dado, como era agora absolutamente obrigatório, a sua velhinha. E como a velhinha ia contente! Tal como criança a quem levam ao jardim, quando soube que iam à Igreja, rejubilou. Pelo contrário, a sobrinha, ia de alma pesada, dividida, como vão quase sempre os filhos que se vêm na situação de ter de pôr os pais num lar para idosos. Mas de alma ainda mais triste ficou quando lá chegou e lhe disseram que a assistente social tinha faltado e que só voltaria daí a três semanas, pois só fazia a visita às Quartas-feiras; a próxima seria o feriado 1º de Dezembro e a seguinte, outro feriado, o 8 de Dezembro, Dia de Nossa Senhora. Com a velhinha pela mão, que sorria, sem perceber nada do que se estava a passar nem o mínimo conhecimento das suas próprias circunstâncias, a mulher decidiu entrar na Igreja e sentar-se bem perto da imagem da Virgem Maria. Estava exausta. Não só do esforço físico que fizera para arranjar a velha senhora e trazê-la por um trajecto ainda grande de rua, mas também do esforço psicológico para tomar a decisão de pedir ajuda social. A esperança de uma luz, uma pequenina luz sobre o modo como resolver o problema, que alimentara desde que marcara a entrevista, apagara-se de todo. Mais três semanas de solução possível adiada. “E se a deixo cair no banho? E se eu caio doente de cama? Que faço? Que faço?” Voltara ao ponto de partida. Virou-se para a imagem de Maria, em desespero, quase zangada: “Olha, Senhora, resolve Tu! Eu já não posso! Eu já não sei! Tu sabes. Tu podes.! Se Tu achas que devo arriscar tudo por tudo e mantê-la comigo, ajuda-me! Se Tu sabes que não vou ter condições para cuidar dela como merece, ajuda-me! Resolve tu. Eu já não posso, eu já não sei! Tu podes, Senhora minha Mãe. Tu sabes como. Resolve. Ajuda-me! Ajuda-me, sobretudo a perceber o que devo fazer. Entrego-te o problema!” Por entre as lágrimas que lhe escorriam face abaixo, viu o cabelo branco da velha tia que brilhava numa luz de prata.

Fernanda Ruaz - colaboradora do Jornal da Família

14 de junho de 2007

I Convenção Minhota pela Vida e pela Família

Programa (dia 16 de Junho, em Braga)
09:00 Recepção e entrega da documentação
09:30 Abertura dos trabalhos
Dr. Fernando Almeida - Presidente da Associação In Familia
09:45 Sessão de apresentação
Contextualização da defesa da Vida após o Referendo de 11 de Fevereiro de 2007
Professor João César das Neves - Universidade Católica
10:15 PAINEL I: FAMÍLIA, VIDA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Dra. Alexandra Teté - Associação Mulheres em Acção
Dra. Isilda Pegado - Federação Portuguesa pela Vida
Dra. Fátima Fonseca - CENOFA Centro de Orientação Familiar
Moderadora: Dra. Margarida Neto - Psiquiatra
11:15 Intervalo
11:30 PAINEL II: A FAMÍLIA E A VIDA NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Professor João César das Neves - Universidade Católica
Dr. Paulo Núncio - Advogado
Dra. Graça Franco - Jornalista da RTP e da Rádio Renascença
Moderador: Dr. João Aguiar - Jornalista e Administrador da Rádio Renascença
12:30 Apresentação das conclusões da manhã
Professor António Pereira - Universidade do Minho
13:00 Almoço
15:00 Apresentação pública da associação In Familia
Apresentação da Declaração de Princípios e do Plano de Acção para 2007
16:00 Sessão de encerramento

Passo a passo, com o Nuno

A decisão de viver em comum exige de nós a coragem de se confrontar com algumas questões: Faz sentido? Tem lógica? O que sinto: profunda vocação? A caminhada do matrimónio começou, para mim, com estas questões. Passo a passo, com o Nuno, fui descobrindo que para além do profundo sentido de partilhar a minha vida com alguém que amo, fazia toda a lógica ser com esta pessoa em especial que concretizo a minha vocação: construir uma família, trabalhar arduamente para que seja feliz sem nunca deixar de acreditar que Deus nos ama com infinito amor e nos atraiu para sermos testemunhas desse amor. Quando embarcamos nesta aventura, embora já não tivesse a ilusão de que as pessoas com o casamento mudam repentinamente, verifiquei que no essencial as nossas personalidades se mantiveram iguais ao que eram durante o namoro. As nossas diferenças continuaram a existir, no entanto, com a intimidade que o casamento implica, descobrimos outras características que nos diferem. Para além dos diferentes ritmos quanto ao adormecer e ao acordar, dos gostos que nos diferem quanto à ocupação dos tempos livres em casa e no modo como expressamos o que sentimos, somos também muito díspares quanto à forma como reconhecemos que erramos e pedimos perdão. A grande verdade é que o diálogo sereno facilitou sempre o perdão. Nas vezes em que um de nós se sentiu magoado com algum aspecto que o outro fez, aproveita sempre o momento que antecede ou que procede à oração da noite, para expor o seu desagrado. Após esclarecermos o porquê daquela situação, esforçamo-nos por ser humildes e reconhecer se erramos ou não. O crescimento da nossa relação só foi e é possível porque à parte das grandes cedências, tem existido um equilíbrio nas renúncias do dia-a-dia, pequenos pormenores que tornam mais agradável a vida conjugal, e que aliado à tolerância, fazem com que o amor cresça dentro do nosso lar. Sabemos que sem estas cedências de parte a parte, mais cedo ou mais tarde, a relação entraria em rotura. Há uma pequena “história” que recordo com frequência e me dá especial alento na minha caminhada, não só a nível conjugal, mas também pessoal e profissional. Imaginando que Deus seja o maestro de uma música, que tem notas harmoniosas, que se prolongam por mais ou menos tempo. Ele coloca também pausas, que embora sejam silêncios, ajudam a dar beleza a toda a composição musical. Também na nossa vida, por vezes surgem essas pausas (um conflito, um fracasso, algo de bom que insiste em não acontecer…), para tornar a nossa existência mais bela e segura. As pausas servem para ganhar força para a grandiosidade da vida que se segue. Quantas vezes esquecemos de agradecer essas “notas harmoniosas” a Deus e só nos lembramos de Lhe pedir que encurte essas “pausas” o mais possível. Aprendi com o Nuno, que assim estaria a tirar o significado à minha vida, e que aceitar essas pausas faz parte do reconhecimento do infinito amor de Deus. Aquando do casamento, tinha consciência que a minha vida ia mudar muito, principalmente no ritmo do dia-a-dia: novas tarefas domésticas para desempenhar, responsabilidade na organização e dinâmica no nosso lar e principalmente a disponibilidade e dedicação para o meu marido. Preocupava-me o facto de ambos sermos extremamente briosos com a profissão e com as tarefas que desenvolvemos a nível social, pois admitia que teríamos pouco tempo para fazer crescer a nossa relação. Com a ajuda do Espírito Santo que nos tem iluminado quanto às decisões mais importantes, descobri que é nestas ocupações que sentimos tanta realização, que “bebemos” da energia e optimismo para ultrapassar os muitos afazeres diários. O Nuno sempre se esforçou e esteve atento quanto às tarefas domésticas a desempenhar. “Se partilhamos a vida, deve ser em plenitude”, diz ele tantas vezes! Enquanto mulher, a partir da fase em que descobri a minha vocação, sempre tive o sonho de ser mãe, e um dos aspectos que me agradou no Nuno foi o facto de que ele também sentia o desejo de ser pai, demonstrando paciência, gosto, carinho e dedicação para com as crianças. Apesar de nunca lhe ter expresso, vivi durante o início do nosso casamento com um medo: o medo de não conseguir engravidar. Não tinha nada em que assentasse este receio, apenas as expressões de tantas mulheres jovens, que por inúmeras razões tal bênção não conseguem receber. Sei que a fecundidade não se traduz apenas em ter filhos, mas em gerar vida para a vida do mundo – disponibilidade à edificação da comunidade, no entanto a possibilidade de não sentir o que é estar grávida amedrontava-me. O milagre de poder gerar uma nova vida surgiu em Setembro. Planeado com muita antecedência, eis que surge o grande desafio de nos preparar para sermos pais. Acredito que não é em nove meses que tal é possível, mas ao longo nas nossas vidas, com a educação e valores que recebemos dos nossos pais, as diversas experiências e o que cultivamos nos nossos corações. A alegria imensa, tanto para nós como para os futuros avós. Sentimos que estamos no trilho certo. Tudo faz sentido! A incerteza profissional, perante tal alegria, já não é a montanha impossível de ultrapassar que há uns tempos atrás parecia. A fé multiplicou-se e os ligeiros atritos que por vezes surgiam para “limar” a nossa relação matrimonial, deram lugar a permanentes gestos de admiração pelo outro. Em sete meses de gestação, um dos nossos sonhos que se está a tornar realidade, tem permitido que nos moldemos mais um ao outro, possibilitando que manifestemos o que de mais precioso há em cada um de nós. Fazemos questão de ambos estarmos presentes em todas as consultas médicas, exames ou compras, próprias nos preparativos para receber o nosso filho. Sei que a nossa vida vai mudar muito, principalmente a nível da gestão económica, redistribuição das nossas actividades, para além das novas exigências no que respeita à educação do nosso filho. Não aspiramos um estilo de vida em que pretendemos excelentes condições, com uma casa recheada com os melhores móveis e electrodomésticos, férias de sonho ou até com os carros de última geração. Consideramos importante saber adoptar um estilo de vida mais simples, adequado às nossas profissões e às exigências da época histórica que atravessamos. Quanto às nossas profissões e outras ocupações, acredito que vamos sentir dificuldades na gestão e definição de prioridades, uma vez que é algo de importante na nossa realização pessoal. Tenho consciência que teremos de estar muito atentos nessa tarefa, principalmente porque a partir de agora temos uma outra prioridade: a educação do nosso filho. Educar é uma arte em que é necessário conjugar muita ternura e firmeza. E isto exige tempo, atenção, proximidade, capacidade de escuta e de decisões adequadas para que a criança possa crescer e estruturar-se como pessoa. É transmitir um estilo de vida marcado por valores. É este o nosso desafio e compromisso que assumimos! “Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. É isto que vos mando: que vos ameis uns aos outros.” (João 15, 16-17)



Testemunho de uma mãe grávida

12 de junho de 2007

A Fundação Maria Ulrich realiza a 4ª Conferencia do Ciclo de Conferencias "Santos de Lisboa".

Esta será dedicada a Santo António e o orador é o Prof. César das Neves.

Terá lugar às 21:30H, na Casa Veva de Lima, na Rua Silva Carvalho, 240.

9 de junho de 2007

A Família e a Violência na Escola

Na sequência do artigo do mês passado (colocado no blogue a 15 de Maio), foi-me posta a questão: o que pode fazer a família para lidar com a violência na escola?

Começo por responder com uma generalidade: tudo o que se passa na escola tem a ver com a família. Só uma concepção totalitarista do Estado pode subtrair a educação à família, retirando os educandos do controle e consequente responsabilidade da família. O que acontece na escola, os seus problemas relacionais são reflexo do meio social, das suas carências, conflitos e expectativas e especialmente do meio social básico e nuclear, a família. Quando falamos de família neste contexto, não consideramos necessariamente a instituição família concebida como união estável assente em relações afectivas saudáveis entre os seus membros, mas a convenção sociológica que abrange apenas um ou os dois progenitores em variadas situações jurídicas e relacionais. A maior parte das crianças violentas procedem de núcleos monoparentais de que, as mais das vezes, está ausente a figura masculina ou de famílias elas próprias disfuncionais pela instabilidade e conflitualidade dos laços afectivos e relacionais e também pela insegurança económica. Estas “famílias” são parte do problema da violência na escola. A violência está presente no meio social, penetra as relações familiares e faz parte do quotidiano das famílias e consequentemente das crianças. “As crianças são o reflexo. Se uma mãe tem uma atitude destas, como é possível esperar que o filho respeite os professores, os funcionários ou mesmo os colegas?” – comentava, outro dia, um docente do agrupamento de escolas onde uma professora foi agredida pela mãe de uma aluna. Além das atitudes agressivas, há muitos outros comportamentos de predisposição e incitação à violência. Muitas das recomendações dos pais aos filhos estimulam a sua competitividade e agressividade. Recordo-me de numa acção de formação de professores para os sensibilizar para o trabalho cooperativo dos alunos, uma professora assumir o seu papel de mãe para defender energicamente que aconselharia sempre o filho a usar todos os meios legítimos ou não para ser o primeiro. “Não te deixes ficar atrás…”, “Chega-lhes também…” são conselhos frequentes e cúmplices de pais embevecidos com a agressividade, “desenrasque” ou provocação dos seus pimpolhos. Muitas das sementes da violência na escola começam em casa com a falta de autoridade e consequente falha de regras, a ausência ou esbatimento dos modelos de comportamento dos pais e também pelo abandono, abuso e frustrações de que são vítimas. A família é sempre parte da solução do problema da violência escolar. Na medida em que é um espaço de convivência respeitosa, de interiorização de regras e valores, de cooperação e valorização do trabalho, de equilíbrio afectivo, de autenticidade de relações, cultiva a responsabilidade em clima de justiça e correcção positiva e cria atitudes fomentadoras de relações sadias que se transferem para o ambiente escolar. Os pais devem seguir de perto a actividade dos filhos na escola. Quando pressentirem indícios de comportamento anormal, devem contactar a escola, informar-se das reais circunstâncias e possíveis condicionantes da violência e colaborar com os professores, direcção e outros agentes sociais no meio. O acompanhamento dos filhos exige uma atitude lúcida, serena e cooperante para avaliar situações, identificar causas e mobilizar apoios adequados. Uma resposta agressiva dos pais pode significar que eles são parte do problema. A colaboração dos pais é indispensável para a escola fazer frente à violência. Está provado em todo o mundo que as únicas medidas eficazes são aquelas que passam pela mobilização da comunidade, pela atitude cooperativa de professores, alunos, familiares, autoridades e associações de âmbito local no combate às causas e adopção de medidas que visem a integração social dos alunos e suas famílias. Os novaiorquinos conseguiram resultados significativos nos bairros socialmente desfavorecidos de Bronx e Harlem, pondo as escolas a trabalhar com os encarregados de educação, na sua maioria mães afro-americanas, solteiras e de fraco nível económico. Outras experiências europeias confirmam estas conclusões. Há outra dimensão da violência na escola que exige a atenção, vigilância e intervenção dos pais: as crianças vítimas da violência. Estudos fundamentados concluem que cerca de metade das crianças episodicamente e 10% regularmente, foram no percurso escolar vítimas de bullying, termo inglês usado para designar o padrão de comportamento física ou psicologicamente agressivo dos mais activos e fortes que agride, prejudica, humilha e chantageia os mais fracos e vulneráveis. Ocorre frequentemente em diversas situações incluindo a família e o trabalho e, na escola até em colégios internos e jardins infantis. As educadoras que o digam. Analisando situações da vida do seminário no meu tempo não tenho dúvidas em inclui-las neste tipo de violência. Os pais devem ter em atenção os sintomas: quando a criança sem motivo aparente mostra relutância em ir para a escola, quando com frequência “perde” o dinheiro para o lanche, se queixa de coisas roubadas, apresenta equimoses ou golpes, se mostra ansiosa, pode estar a ser vítima de abuso de colegas. A solução passa por conversar com a criança duma forma compreensiva, por ajudá-la a abrir-se e dar indícios que levem à identificação das causas e possível solução do problema. Não se deve encorajar a criança a reagir violentamente, mas aconselhá-la a evitar as provocações, a andar acompanhado, juntando-se ao grupo de amigos, no recreio, no caminho, nos lugares de encontro. Com serenidade, esclareça-se a situação com os responsáveis e colabore-se ou promovam-se programas de actuação na escola. È possível que nem a escola nem a comunidade esteja desperta para este tipo de problemas. É preciso começar. Por vezes, será necessário o apoio de especialistas. Não se esqueça, no entanto, que o importante é uma acção persistente e concertada de previsão, acompanhamento e actuação serena e vigilante de toda a comunidade envolvida na escola.


por Octávio Gil Morgadinho - colaborador do Jornal da Família

7 de junho de 2007

História da Solenidade do Corpo de Deus

A Solenidade Litúrgica do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida popularmente como "Corpo de Deus", começou a ser celebrada há mais de sete séculos e meio, em 1246, na cidade belga de Liège, tendo sido alargada à Igreja universal pelo Papa Urbano IV através da bula "Transiturus", em 1264, dotando-a de missa e ofício próprios.

Teria chegado a Portugal provavelmente nos finais do século XIII e tomou a denominação de Festa de Corpo de Deus, embora o mistério e a festa da Eucaristia seja o Corpo de Cristo. Esta exultação popular à Eucaristia é manifestada no 60° dia após a Páscoa e forçosamente uma Quinta-feira, fazendo assim a união íntima com a Última Ceia de Quinta-feira Santa.

Em 1311 e em 1317 foi novamente recomendada pelo Concílio de Vienne (França) e pelo Papa João XXII, respectivamente. Nos primeiros séculos, a Eucaristia era adorada publicamente, mas só durante o tempo da missa e da comunhão. A conservação da hóstia consagrada fora prevista, originalmente, para levar a comunhão aos doentes e ausentes.

Só durante a Idade Média se regista, no Ocidente, um culto dirigido mais deliberadamente à presença eucarística, dando maior relevo à adoração. No século XII é introduzido um novo rito na celebração da Missa: a elevação da hóstia consagrada, no momento da consagração. No século XIII, a adoração da hóstia desenvolve-se fora da missa e aumenta a afluência popular à procissão do Santíssimo Sacramento. A procissão do Corpo e Sangue de Cristo é, neste contexto, a última da série, mas com o passar dos anos tornou-se a mais importante.

Do desejo primitivo de "ver a hóstia" passou-se para uma festa da realeza de Cristo, na "Chirstianitas" medieval, em que a presença do Senhor bendiz a cidade e os homens.

A "comemoração mais célebre e solene do Sacramento memorial da Missa" (Urbano IV) recebeu várias denominações ao longo dos séculos: festa do Santíssimo Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo; festa da Eucaristia; festa do Corpo de Cristo. Hoje denomina-se solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, tendo desaparecido a festa litúrgica do "Preciosíssimo Sangue", a 1 de Julho.

A procissão com o Santíssimo Sacramento é recomendada pelo Código de Direito Canónico, no qual se refere que "onde, a juízo do Bispo diocesano, for possível, para testemunhar publicamente a veneração para com a santíssima Eucaristia faça-se uma procissão pelas vias públicas, sobretudo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo" (cân 944, §1).


Fonte: Agência Ecclesia


4 de junho de 2007

Auschwitz consentido

Temos direito a perguntar-nos se a justiça e a paz são acontecimentos com défice ou com excesso de informação.

As imagens de violência despertam-nos para a urgência da paz ou dela nos desinteressam pela insensibilidade que geram face à exposição excessiva dos dramas humanos? E como lemos, para além da náusea ou do apego ao espectáculo, a relação da justiça com a paz, do desenvolvimento com a harmonização das diferenças, da pobreza com a destruição, do terror com as situações opressivas próximas ou longínquas de países, culturas, religiões, impérios de tirania, riquezas usurpadas aos mais fracos, esquecimentos geradores de revoltas, tensões próximas da explosão por excesso de silêncio e cumplicidade dos mais capazes de fazer funcionar uma justiça para todos?

Não nos esqueçamos que o mundo já foi muito pior do que é hoje. Há passos gigantes já andados no debelar de enfermidades e carências extremas em tantos recantos da terra. Há sinais de pobrezas vencidas, com caminhos fraternos de desenvolvimento. Mesmo com o desequilíbrio do mapa Norte-Sul - um escândalo cuja vergonha deve ser repartida por todos - não podemos dispensar a justiça no julgamento do que já foi feito por uma melhor repartição de todos os bens essenciais a cada povo e a cada indivíduo.

Mas a verdade é que o conforto de alguns – poucos - na casa comum que é a Terra, gera desleixos no olhar e no agir, no sentir e no lutar por uma repartição mais justa dos bens. Não se trata duma questão secundária do nosso tempo, nem duma fatalidade entregue às leis cegas do mercado. Não se trata duma questão de consciências mais sensíveis ou marcadas por escrúpulos religiosos. As manchas de pobreza e miséria, de esmagamento e humilhação de povos, culturas e religiões, são um Auschwitz consentido pelo mundo moderno teoricamente sensível a valores e direitos humanos, mas confuso na sua análise e tíbio na sua aplicação. Estamos perante uma questão de cidadania, pertença da humanidade, responsabilidade de todos e cada um, questão central na consciência do mundo de hoje. A cada um é colocada a dramática pergunta: “quantos pães tendes?”

Neste terreno se moveu a Conferência da Comissão Nacional Justiça e Paz. E mais de uma dezena de organismos que reflecte estas questões com carácter de urgência do nosso tempo. O problema é fazer chegar esta sensibilidade a quem de direito. Ou seja a todos nós. E a cada um.

António Rego

1 de junho de 2007

A criança...

(Escrito por Ana Teresa)

A criança...

É como um passarinho,

Espera com muito amor,

Que os Pais lhe dêem carinho...

É como o Sol!

Que por todo o lado brilha...

Correndo, e saltando,

Espalhando alegria!

É como uma semente que nasce,

Fruto do amor se faz,

Que para ser feliz,

Precisa de Amor e Paz.

Deixem crescer as crianças,

Com muita felicidade...

Que sejam felizes,

E nunca lhes façam mal.

29 de maio de 2007

Conferência 30 de Maio - Sacramento da Caridade


Realiza-se no próximo dia 30 de Maio, pelas 19h, no cinema São Jorge, a Conferência “Eucaristia, Sacramento da Caridade”, com D. Manuel Madureira Dias, anterior Bispo do Algarve, com a Presença de D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa. Em análise, o último documento do Papa Bento XVI, “Sacramentum Caritatis”.
O documento, emanado em Março deste ano, aponta a Eucaristia como fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. É também neste documento que o longo e articulado itinerário da XI Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos encontra o seu fruto mais maduro.
As exortações apostólicas pós-sinodais configuram, dentro do magistério pontifício, um "género literário" específico. É nelas que o Papa recolhe, confirma e aprofunda, com a sua autoridade, o que foi comunicado, debatido e aprovado durante o percurso sinodal, desde a proclamação da Assembleia até ao final dos trabalhos.
No texto da “Sacramentum Caritatis” sentem-se assim ressoar, de modo implícito ou explícito, os vários documentos que acompanharam os trabalhos sinodais.
A conferência de 30 de Maio em Lisboa é proposta para a melhor vivência das festas do Corpo de Deus de 2007. Para a iniciativa, estão convidados todos os cristãos da Cidade de Lisboa e arredores.

28 de maio de 2007

Matrimónio e Educação

Reflectir em poucas linhas sobre duas das realidades mais complexas e mais importantes para a pessoa humana, para além de poder ser uma tarefa quase impossível de realizar, pode ainda levar-nos a correr o risco de dizer coisas perfeitamente banais e simplistas.
E contudo, torna-se um desafio interessante, pois aquilo que formos capazes de pensar e dizer a este nível terá obrigatoriamente muito a ver com a maneira como encaramos a vida.
É verdade que, com frequência, ouvimos dizer que o matrimónio e a educação estão a passar por uma profunda crise. Os dados estatísticos no que diz respeito ao divórcio e a realidade que todos vamos ouvindo, aqui e acolá, acerca das dificuldades da vida em casal parecem comprovar, sem margem para dúvidas, esta crise. Também no que diz respeito à educação o panorama não parece ser melhor, sendo frequente encontrar posições de desencanto e mesmo desânimo em muitos dos seus protagonistas.
Apesar desta realidade eu não quero ser pessimista, nem tenho como objectivo fazer aqui a análise dessa situação. O espaço que aqui disponho não me permite fazer isso, e, por outro lado, prefiro fazer uma afirmação inequívoca da importância do matrimónio e da educação para a construção da pessoa (de cada pessoa) e, por conseguinte, para a humanização deste mundo. A relação entre estas duas realidades (matrimónio e educação) penso que ficará clara a partir desta perspectiva.
Na verdade, ao olhar para a condição humana, somos capazes de perceber como cada um de nós é um ser 'acolhido'. Basta para isso fazermos a simples constatação que nenhum de nós se deu a vida a si mesmo. Todos a recebemos como um dom 'dado' por alguém. Quando tomamos consciência da nossa própria existência, já estamos nela. E se isto é evidente do ponto de vista meramente biológico, igualmente evidente me parece em todos os outros níveis específicos da condição humana.
Se não vejamos: Como é que aprendemos a falar? Como alcançamos capacidade de entender o mundo e a existência? Como é que aprendemos a amar? Como somos capazes de desenvolver a nossa capacidade de reflectir? Como é que aprendemos a simbolizar? Como somos capazes de dizer, intuir e experimentar o transcendente? Bastam estas perguntas para percebermos que sem os outros jamais chegaríamos a desenvolver estas características tão específicas da nossa condição.
Mas podemos ainda ir mais longe, e afirmar que a própria identidade pessoal, que é aquilo que nos individualiza e nos torna únicos e irrepetíveis, não é uma mera conquista, mas é também uma experiência de ser recebido e acolhido. Como é que eu descubro quem sou? Como é que eu descubro o meu nome? Não é porque os outros me tratam como um 'eu' e me chamam assim, que eu tenho a possibilidade de ir crescendo e ganhando a consciência de ser esse eu? Claro que não devo isso só aos outros, claro que a minha capacidade de interacção e de entrega é fundamental, mas a verdade é que sem os outros eu não chegava a ser o que sou.
Até mesmo a minha condição de ser pai me diz isso. Só acedi a essa experiência por causa dos meus filhos. Ser pai do André e do Filipe é algo que é constitutivo da minha identidade pessoal, ou seja preciso deles para construir a minha identidade pessoal, por isso, eles são parte constitutiva dela.
A partir destas pequenas ideias, que como é obvio precisavam de mais espaço para serem desenvolvidas, posso agora afirmar, sem correr um grande risco de ser mal entendido, que o ser humano só se vai humanizando à medida que vai vivendo a relação com os outros.
Claro que quando nascemos já possuímos as características genéticas e biológicas específicas da condição humana, mas todos estamos de acordo que ser homem e mulher é muitíssimo mais do que simples biologia ou genética. As linguagens que utilizamos, a cultura que construímos e da qual também fazemos parte, a experiência religiosa que vivemos, o amor que damos e recebemos, os projectos que vamos sendo capazes de realizar, quer ao nível individual como social, tudo isso, que é também característico da nossa realidade (e para mim o mais característico), exige a existência dos outros.
E afinal o que é que isto tudo tem a ver com o matrimónio e a educação? Do meu ponto de vista e a partir da minha experiência, atrevo-me a afirmar que tudo.
É que ser pessoa humana é algo que requer obrigatoriamente a presença e o amor dos outros. É que a educação tem por objectivo principal a formação integral da pessoa humana. É que o matrimónio é aquele tempo e espaço, aquela relação, onde duas pessoas se vão construindo uma à outra, sendo capazes de dar origem a algo de novo, o nós (que não elimina a identidade pessoal de cada um, mas pelo contrário a alimenta) que muitas vezes se concretiza num alguém totalmente novo e irrepetível (os filhos).
Somos pessoas porque alguém antes de nós teve a capacidade de viver uma relação de personalização e amadurecimento capaz de gerar vida nova (não ignoro que muitas vidas são, infelizmente, geradas fora deste âmbito, mas insisto na ideia de que o característico da vida humana é muito mais do que simples biologia). Somos pessoa porque fomos acolhidos numa experiência de amor que foi capaz de nos lançar nesse patamar da condição humana e cada dia é capaz de nos ir ajudando a crescer como pessoas (independentemente da idade que tenhamos, pois isto é um processo para toda a vida). Somos pessoa porque fomos sendo educados como tal, e porque continuamos a sê-lo.
Não apoiar inequivocamente o matrimónio, não apostar claramente numa educação pessoal e pessoalizadora é correr o grave risco de poder criar sociedades menos humanas.
Todos estamos empenhados em construir um mundo mais humano e mais fraterno. Mas não tenhamos dúvidas que isso só será possível se tivermos pessoas mais humanas e mais fraternas, e isso passa obrigatoriamente pela educação e pela capacidade que tivermos em viver a experiência matrimonial duma maneira verdadeira e profunda.

por Juan Ambrósio - professor de Teologia na UCP

retirado de: http://www.ecclesia.pt/destaque/semana_educ_02/juan

24 de maio de 2007

Ser uma televisão

A professora Ana Maria pediu aos alunos que fizessem uma redacção e nessa redacção o que eles gostavam que Deus fizesse por eles. À noite, ao corrigir as redacções, ela deparou-se com uma que a deixou muito emocionada. O marido, ao entrar em casa viu-a chorar e pergunta: "O que aconteceu?" Ela respondeu: "Lê". Era a redacção de um menino.

"Senhor, esta noite peço-te algo especial: transforma-me num televisor. Quero ocupar o lugar dele. Viver como vive a TV da minha casa. Ter um lugar especial para mim, e reunir a minha família ao meu redor... Ser levado a sério quando falo... Quero ser o centro das atenções e ser ouvido sem interrupções e sem perguntas. Quero receber o mesmo cuidado especial que a TV recebe quando não funciona. Ter a companhia do meu pai quando chega a casa, mesmo que esteja cansado. E que minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar. E ainda que os meus irmãos "briguem" para estar comigo. Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. E, por fim, que eu possa divertir todos. Senhor, não te peço muito... Só quero viver o que vive qualquer televisor!"

Naquele momento, o marido de Ana Maria disse: "Meu Deus, coitado desse menino. Que descuido o desses pais". E ela responde-lhe: "Essa redacção é do nosso filho".

Fonte: Desconhecida

22 de maio de 2007

Mote para uma telenovela

Primeiro, a imaginação. Nem censura, nem repressão, nem redução de meios, nem diminuição de notícias. Apenas isto: libertar o povo da inquietação desatinada dos telejornais. Caiu um avião com 400 pessoas na Patagónia? Não há necessidade de afligir potenciais viajantes com essa notícia. Um tornado arrasou 20 cidades? Que adianta a notícia? Explodiram 20 bombas e mataram 800 pessoas? O vereador roubou e fugiu? Mais uma criança raptada? O desemprego aumenta? Mas não há outras novidades?

Para tranquilidade do povo, as televisões fizeram um pacto: dar apenas boas notícias, agradáveis, que o povo já tem muito com que se atribular. Assim, uma troca de horário: às 20 horas a telenovela em forma de notícias. Depois, em ficção, todos os dramalhões da terra, que são verdade, mas não naquela hora. As pessoas divertir-se-iam com a violência da irrealidade e a irrealidade do bem e da paz. Longe da fúria e da barbaridade das imagens acontecidas no dia, na hora, em directo.

Que há, neste todo, de mentira e verdade? Como ficam um cidadão e uma sociedade navegando nestas águas que ninguém sabe analisar como límpidas ou salobras?

Vem a pergunta: o problema será da tecnologia que tornou inevitável sabermos tudo sobre a hora ou mesmo antes de acontecer? E a rádio, a televisão, o telemóvel, a net e o correio electrónico?

De que falam as pessoas? Que factos e fantasias enchem as suas mentes, alimentam os seus monólogos, diálogos, discussões, afirmação, recusa, instintos e nobreza? Falam bem do chefe, do colega, da sogra, do presidente? Em cada ser começa esta complexidade. Na educação das crianças com as suas agressões, transgressões, mentiras. Nos jovens que desafiam, em rotura, qualquer lei convencionada e sobretudo imposta. E por aí adiante, nos mecanismos do afecto, da sexualidade, da auto afirmação, da defesa como castelo do eu, da intriga, divertimento... ou nos simples desaires da aldeia…

Será o ser humano apenas um animal com vastas áreas de selva e curtas fímbrias de nobreza e transcendência? Será que o bem, o belo, a dádiva, a festa, a harmonia, não têm dimensão e brilho suficientes para preencher o quadro da vida que todos nós gostamos de desenhar na nossa existência?

Uma pergunta mais: os agentes de comunicação sujeitos ao poder económico e político como podem gerar outro tipo de media? E quem teria autoridade e capacidade de os controlar? O poder? Económico, político, popular anónimo?

Bom mote para uma telenovela não muito cor-de-rosa.

António Rego



21 de maio de 2007

Viver a religião em termos religiosos

A religião é um dos temas mais influentes e fascinantes da actualidade. O facto em si não é surpreendente, pois afinal a religião é um dos temas mais influentes e fascinantes de sempre. Só se torna notável porque a Europa faz há séculos muitos esforços para negar o lugar da fé. O que prejudica mais a Europa que a fé.

O Iluminismo foi o único movimento cultural mundial que tentou fundar uma seita ateia e anti-religiosa. O fiasco é hoje evidente mas a sua sanha e fanatismo, da guilhotina ao gulag, estiveram entre os piores da História. E deixaram sequelas. Muitos leitores, mesmo crentes, continuam a ficar incomodados com um artigo destes neste local. Todos os temas são aceitáveis numa coluna destas, mas religião fica mal.

Aliás, uma das provas da crescente influência da religião está no facto de o ateísmo também viver um surto de expansão. Surge uma nova geração de obras violentamente anti-religiosas, desde The God Delusion do cientista britânico Richard Dawkins (Bantam Books, Setembro 2006) até ao recentíssimo God Is Not Great: How Religion Poisons Everything, de Christopher Hitchens (Twelve, Maio de 2007). Mais pacatamente por cá, onde acaba de sair a tradução de The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason, de Sam Harris (W.W. Norton, 2004; Tinta da China, 2007), João Carlos Espada, referindo outros sintomas do mesmo fenómeno, criou furor e foi insultado por citar Raymond Aron: "O ateísmo é o ópio dos intelectuais" (Expresso, 21 de Abril).
Tudo isto só confirma o interesse crescente por temas religiosos. Visitar uma livraria é ver a profusão de volumes sobre o tema, dos disparatados aos eruditos (normalmente os mais disparatados). Em particular, após dois mil anos, Jesus é um best-seller. Já lhe arranjaram uma filha (O Código da Vinci, Doubleday 2003) e fizeram cúmplice de Judas (National Geographic Society, Abril 2006). Agora até descobriram um túmulo com os seus ossos por ressuscitar (Discovery Channel, Março 2007).
O mais notável nestas investigações sobre o "Jesus histórico" é a falta de lógica. Ninguém parece notar que, se Cristo não é Deus, então não passa de um carpinteiro meio maluco cujos ossos ou descendentes não interessam. Jesus só importa se for o filho de Deus. E nesse caso, o que merece atenção é, não os pormenores, mas a Sua presença e palavra, que mudam radicalmente a minha vida.
No meio da confusão, um livro marca a época: Jesus de Nazaré (Esfera dos Livros, Maio 2007), do Papa Bento XVI. Um dos maiores teólogos da actualidade, Joseph Ratzinger incorpora todos os avanços de conhecimento da ciência e investigação sobre a pessoa de Jesus. Mas sobretudo, com a sua habitual clareza e frontalidade, coloca a questão decisiva: "Aqui surge a grande pergunta que acompanha todo este livro: mas que coisa nos trouxe verdadeiramente Jesus, se não trouxe a paz do mundo, o bem-estar para todos, um mundo melhor? Que coisa trouxe? A resposta é muito simples: Deus. Trouxe Deus. (...) Ele trouxe Deus: agora nós conhecemos o Seu rosto, agora podemos invocá-lo. Agora conhecemos o caminho que, como homens, devemos seguir neste mundo. Jesus trouxe Deus e com Ele a verdade sobre o nosso destino e proveniência; a fé, a esperança e o amor. Só a nossa dureza de coração nos faz achar que isso seja pouco" (p. 67 da edição italiana). Esta é a única razão por que vale a pena aproximarmo-nos de Jesus Cristo.
O centro do livro surpreende até a teologia contemporânea, porque o Papa olha a religião em termos religiosos, um desafio nos tempos que correm. Nesta época de dinamismo e prosperidade, até os crentes consideram a fé como um instrumento útil e vantajoso. Mas "interpretar o Cristianismo como uma receita para o progresso e reconhecer o bem-estar comum como a verdadeira finalidade de todas as religiões e, por isso, também da cristã, é nova forma da tentação" (p. 66).
A razão da religião é esta: Deus vale só por Si. "Amo-te, não porque me podes dar o paraíso ou o inferno, mas simplesmente porque és quem és - meu rei e meu Deus" (p. 195).


João César das Neves
professor universitário

19 de maio de 2007

Dia Mundial Contra a Obesidade

Mais de 30% das nossas crianças, com idades entre os 7 e 11 anos, são obesas, segundo dados da Oraganização Mundial de Saúde (OMS).
Causas desta problemática estão associadas ao sedentarismo e a uma dieta hipercalórica, de acordo com a Associação Europeia para o Estudo da Obesidade, e a uma baixa actividade física exercida pelos mesmos, ou seja, as nossas crianças são pouco activas. Desporto?... só na TV.
Hoje, no Dia Mundial Contra a Obesidade, várias localidades promovem acções dedicadas ao tema.
No Porto realizar-se-á um workshop sobre "Obesidade: Riscos da alimentação na adolescência" e, na Camacha, ilha da Madeira, realizar-se-á uma palestra sobre o tema "ADEXO - Obesidade, hábitos de vida saudável".
Somos chamados, todos nós, a uma maior atenção no que se refere à nossa alimentação. Obesos ou não, todos somos o que comemos.

Maria Matos

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