Diário da Assembleia Geral do ISCF
“Tudo o que se fizer a bem da família, por pequeno que seja é grande”. (Mons. Brás)
A Família no centro das atenções
Encontra aqui os vários artigos do Dr. Juan Ambrósio sobre a Família...
Encontro Mundial das Famílias 2015
O Vaticano apresentou dia 24 de março em conferência de imprensa o 7.º Encontro Mundial da Família, que vai decorrer de 22 a 27 de setembro de 2015 na cidade norte-americana de Filadélfia.
A saúde mental dos portugueses
Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...
O trabalho, dom e direito
A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...
Longe vão os tempos
Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...
Dar esperança em tempo de crise
Vivemos tempos difíceis. A família, como célula base da sociedade, é imediatamente afetada por esta crise generalizada e que promete perdurar. Neste contexto, exige-se um novo paradigma, uma nova forma de estar e de nos relacionarmos.
18 de junho de 2007
Institutos Seculares comemoram os 60 anos da Provida Mater Ecclesia
Entrega
Tinha chegado ao limite das forças. Sem ajuda em casa, a incapacidade motora instalada, as dores crónicas e agora a devotada obrigação de ter a seu cargo a tia velhinha, que era como sua mãe, porque como tal ela a tinha criado. Ah! Se tivesse saúde como tudo seria mais fácil...Como os dias seriam desfrutados alegremente naquela doce companhia que tanto lhe dera e por isso lhe inspirava tanta ternura! Mas não. A vida estava-lhe a ser impossível. Perdido o tino, a tia parecia ter como único norte a sua presença física. Se afastava dela por uns momentos, logo a ouvia chamar. “Onde estás? Onde estás?” E a inquieta ansiedade com que a procurava, era sinónimo de uma total dependência para tudo: lavar, vestir, calçar, comer, até dormir. Cuidar de um idoso que voltou à infância e só por momentos breves recupera a adulta lucidez, é de uma enorme responsabilidade. E por maior que seja o amor, são precisas mãos para cuidar, braços fortes para segurar, força anímica para aguentar o dia a dia sem perder a serenidade e a alegria. E agora a mulher já nada disso tinha. E por maior que fosse esse o seu desejo, não estava nas suas mãos modificar as condições da sua vida, sobretudo as derivadas da sua precária saúde. Aguentou tanto quanto pode. Sempre soube que o ser humano pode muito mais do que imagina. Sempre soube que com pequenos truques se conseguem resolver situações aparentemente muito complicadas. Mas quando a velhinha perdeu de todo a capacidade de entrar e sair da banheira, quando deixou de saber onde estava, quando deixá-la por uns momentos sozinha se tornou mais perigoso que deixar um bebé que gatinha sozinho numa casa, viu que não havia criatividade, nem truque, nem ternura que lhe valessem. Pôs-se então à procura de um Lar onde deixar a tia. Mas as quantias pedidas pelas instituições onde existissem um mínimo de qualidade, eram-lhe completamente inacessíveis. Ao pesadelo e mágoa de deixar a sua amada velhinha longe dos seus carinhos e atenções, juntava-se a certeza de ter de encontrar e rapidamente, um lugar ligado à assistência social, que lhe exigissem um contributo acessível. Depois de muitas noites mal dormidas de preocupação e depois de ter falado com muitas pessoas informadas, soube que havia a hipótese de recorrer aos conselhos de uma assistente social da Santa Casa da Misericórdia, que visitava semanalmente a Paróquia. Marcada a entrevista, a boa da mulher dirigiu-se à Igreja, levando de braço dado, como era agora absolutamente obrigatório, a sua velhinha. E como a velhinha ia contente! Tal como criança a quem levam ao jardim, quando soube que iam à Igreja, rejubilou. Pelo contrário, a sobrinha, ia de alma pesada, dividida, como vão quase sempre os filhos que se vêm na situação de ter de pôr os pais num lar para idosos. Mas de alma ainda mais triste ficou quando lá chegou e lhe disseram que a assistente social tinha faltado e que só voltaria daí a três semanas, pois só fazia a visita às Quartas-feiras; a próxima seria o feriado 1º de Dezembro e a seguinte, outro feriado, o 8 de Dezembro, Dia de Nossa Senhora. Com a velhinha pela mão, que sorria, sem perceber nada do que se estava a passar nem o mínimo conhecimento das suas próprias circunstâncias, a mulher decidiu entrar na Igreja e sentar-se bem perto da imagem da Virgem Maria. Estava exausta. Não só do esforço físico que fizera para arranjar a velha senhora e trazê-la por um trajecto ainda grande de rua, mas também do esforço psicológico para tomar a decisão de pedir ajuda social. A esperança de uma luz, uma pequenina luz sobre o modo como resolver o problema, que alimentara desde que marcara a entrevista, apagara-se de todo. Mais três semanas de solução possível adiada. “E se a deixo cair no banho? E se eu caio doente de cama? Que faço? Que faço?” Voltara ao ponto de partida. Virou-se para a imagem de Maria, em desespero, quase zangada: “Olha, Senhora, resolve Tu! Eu já não posso! Eu já não sei! Tu sabes. Tu podes.! Se Tu achas que devo arriscar tudo por tudo e mantê-la comigo, ajuda-me! Se Tu sabes que não vou ter condições para cuidar dela como merece, ajuda-me! Resolve tu. Eu já não posso, eu já não sei! Tu podes, Senhora minha Mãe. Tu sabes como. Resolve. Ajuda-me! Ajuda-me, sobretudo a perceber o que devo fazer. Entrego-te o problema!” Por entre as lágrimas que lhe escorriam face abaixo, viu o cabelo branco da velha tia que brilhava numa luz de prata.Fernanda Ruaz - colaboradora do Jornal da Família
14 de junho de 2007
I Convenção Minhota pela Vida e pela Família
Programa (dia 16 de Junho, em Braga) | 09:00 | Recepção e entrega da documentação |
| 09:30 | Abertura dos trabalhos Dr. Fernando Almeida - Presidente da Associação In Familia |
| 09:45 | Sessão de apresentação Contextualização da defesa da Vida após o Referendo de 11 de Fevereiro de 2007 Professor João César das Neves - Universidade Católica |
| 10:15 | PAINEL I: FAMÍLIA, VIDA E RESPONSABILIDADE SOCIAL Dra. Alexandra Teté - Associação Mulheres em Acção Dra. Isilda Pegado - Federação Portuguesa pela Vida Dra. Fátima Fonseca - CENOFA Centro de Orientação Familiar Moderadora: Dra. Margarida Neto - Psiquiatra |
| 11:15 | Intervalo |
| 11:30 | PAINEL II: A FAMÍLIA E A VIDA NA COMUNICAÇÃO SOCIAL Professor João César das Neves - Universidade Católica Dr. Paulo Núncio - Advogado Dra. Graça Franco - Jornalista da RTP e da Rádio Renascença Moderador: Dr. João Aguiar - Jornalista e Administrador da Rádio Renascença |
| 12:30 | Apresentação das conclusões da manhã Professor António Pereira - Universidade do Minho |
| 13:00 | Almoço |
| 15:00 | Apresentação pública da associação In Familia Apresentação da Declaração de Princípios e do Plano de Acção para 2007 |
| 16:00 | Sessão de encerramento |
Passo a passo, com o Nuno
A decisão de viver em comum exige de nós a coragem de se confrontar com algumas questões: Faz sentido? Tem lógica? O que sinto: profunda vocação? A caminhada do matrimónio começou, para mim, com estas questões. Passo a passo, com o Nuno, fui descobrindo que para além do profundo sentido de partilhar a minha vida com alguém que amo, fazia toda a lógica ser com esta pessoa em especial que concretizo a minha vocação: construir uma família, trabalhar arduamente para que seja feliz sem nunca deixar de acreditar que Deus nos ama com infinito amor e nos atraiu para sermos testemunhas desse amor. Quando embarcamos nesta aventura, embora já não tivesse a ilusão de que as pessoas com o casamento mudam repentinamente, verifiquei que no essencial as nossas personalidades se mantiveram iguais ao que eram durante o namoro. As nossas diferenças continuaram a existir, no entanto, com a intimidade que o casamento implica, descobrimos outras características que nos diferem. Para além dos diferentes ritmos quanto ao adormecer e ao acordar, dos gostos que nos diferem quanto à ocupação dos tempos livres em casa e no modo como expressamos o que sentimos, somos também muito díspares quanto à forma como reconhecemos que erramos e pedimos perdão. A grande verdade é que o diálogo sereno facilitou sempre o perdão. Nas vezes em que um de nós se sentiu magoado com algum aspecto que o outro fez, aproveita sempre o momento que antecede ou que procede à oração da noite, para expor o seu desagrado. Após esclarecermos o porquê daquela situação, esforçamo-nos por ser humildes e reconhecer se erramos ou não. O crescimento da nossa relação só foi e é possível porque à parte das grandes cedências, tem existido um equilíbrio nas renúncias do dia-a-dia, pequenos pormenores que tornam mais agradável a vida conjugal, e que aliado à tolerância, fazem com que o amor cresça dentro do nosso lar. Sabemos que sem estas cedências de parte a parte, mais cedo ou mais tarde, a relação entraria
12 de junho de 2007
9 de junho de 2007
A Família e a Violência na Escola
Na sequência do artigo do mês passado (colocado no blogue a 15 de Maio), foi-me posta a questão: o que pode fazer a família para lidar com a violência na escola?
Começo por responder com uma generalidade: tudo o que se passa na escola tem a ver com a família. Só uma concepção totalitarista do Estado pode subtrair a educação à família, retirando os educandos do controle e consequente responsabilidade da família. O que acontece na escola, os seus problemas relacionais são reflexo do meio social, das suas carências, conflitos e expectativas e especialmente do meio social básico e nuclear, a família. Quando falamos de família neste contexto, não consideramos necessariamente a instituição família concebida como união estável assente em relações afectivas saudáveis entre os seus membros, mas a convenção sociológica que abrange apenas um ou os dois progenitores em variadas situações jurídicas e relacionais. A maior parte das crianças violentas procedem de núcleos monoparentais de que, as mais das vezes, está ausente a figura masculina ou de famílias elas próprias disfuncionais pela instabilidade e conflitualidade dos laços afectivos e relacionais e também pela insegurança económica. Estas “famílias” são parte do problema da violência na escola. A violência está presente no meio social, penetra as relações familiares e faz parte do quotidiano das famílias e consequentemente das crianças. “As crianças são o reflexo. Se uma mãe tem uma atitude destas, como é possível esperar que o filho respeite os professores, os funcionários ou mesmo os colegas?” – comentava, outro dia, um docente do agrupamento de escolas onde uma professora foi agredida pela mãe de uma aluna. Além das atitudes agressivas, há muitos outros comportamentos de predisposição e incitação à violência. Muitas das recomendações dos pais aos filhos estimulam a sua competitividade e agressividade. Recordo-me de numa acção de formação de professores para os sensibilizar para o trabalho cooperativo dos alunos, uma professora assumir o seu papel de mãe para defender energicamente que aconselharia sempre o filho a usar todos os meios legítimos ou não para ser o primeiro. “Não te deixes ficar atrás…”, “Chega-lhes também…” são conselhos frequentes e cúmplices de pais embevecidos com a agressividade, “desenrasque” ou provocação dos seus pimpolhos. Muitas das sementes da violência na escola começam em casa com a falta de autoridade e consequente falha de regras, a ausência ou esbatimento dos modelos de comportamento dos pais e também pelo abandono, abuso e frustrações de que são vítimas. A família é sempre parte da solução do problema da violência escolar. Na medida em que é um espaço de convivência respeitosa, de interiorização de regras e valores, de cooperação e valorização do trabalho, de equilíbrio afectivo, de autenticidade de relações, cultiva a responsabilidade em clima de justiça e correcção positiva e cria atitudes fomentadoras de relações sadias que se transferem para o ambiente escolar. Os pais devem seguir de perto a actividade dos filhos na escola. Quando pressentirem indícios de comportamento anormal, devem contactar a escola, informar-se das reais circunstâncias e possíveis condicionantes da violência e colaborar com os professores, direcção e outros agentes sociais no meio. O acompanhamento dos filhos exige uma atitude lúcida, serena e cooperante para avaliar situações, identificar causas e mobilizar apoios adequados. Uma resposta agressiva dos pais pode significar que eles são parte do problema. A colaboração dos pais é indispensável para a escola fazer frente à violência. Está provado em todo o mundo que as únicas medidas eficazes são aquelas que passam pela mobilização da comunidade, pela atitude cooperativa de professores, alunos, familiares, autoridades e associações de âmbito local no combate às causas e adopção de medidas que visem a integração social dos alunos e suas famílias. Os novaiorquinos conseguiram resultados significativos nos bairros socialmente desfavorecidos de Bronx e Harlem, pondo as escolas a trabalhar com os encarregados de educação, na sua maioria mães afro-americanas, solteiras e de fraco nível económico. Outras experiências europeias confirmam estas conclusões. Há outra dimensão da violência na escola que exige a atenção, vigilância e intervenção dos pais: as crianças vítimas da violência. Estudos fundamentados concluem que cerca de metade das crianças episodicamente e 10% regularmente, foram no percurso escolar vítimas de bullying, termo inglês usado para designar o padrão de comportamento física ou psicologicamente agressivo dos mais activos e fortes que agride, prejudica, humilha e chantageia os mais fracos e vulneráveis. Ocorre frequentemente em diversas situações incluindo a família e o trabalho e, na escola até em colégios internos e jardins infantis. As educadoras que o digam. Analisando situações da vida do seminário no meu tempo não tenho dúvidas em inclui-las neste tipo de violência. Os pais devem ter em atenção os sintomas: quando a criança sem motivo aparente mostra relutância em ir para a escola, quando com frequência “perde” o dinheiro para o lanche, se queixa de coisas roubadas, apresenta equimoses ou golpes, se mostra ansiosa, pode estar a ser vítima de abuso de colegas. A solução passa por conversar com a criança duma forma compreensiva, por ajudá-la a abrir-se e dar indícios que levem à identificação das causas e possível solução do problema. Não se deve encorajar a criança a reagir violentamente, mas aconselhá-la a evitar as provocações, a andar acompanhado, juntando-se ao grupo de amigos, no recreio, no caminho, nos lugares de encontro. Com serenidade, esclareça-se a situação com os responsáveis e colabore-se ou promovam-se programas de actuação na escola. È possível que nem a escola nem a comunidade esteja desperta para este tipo de problemas. É preciso começar. Por vezes, será necessário o apoio de especialistas. Não se esqueça, no entanto, que o importante é uma acção persistente e concertada de previsão, acompanhamento e actuação serena e vigilante de toda a comunidade envolvida na escola.
por Octávio Gil Morgadinho - colaborador do Jornal da Família
7 de junho de 2007
História da Solenidade do Corpo de Deus
Teria chegado a Portugal provavelmente nos finais do século XIII e tomou a denominação de Festa de Corpo de Deus, embora o mistério e a festa da Eucaristia seja o Corpo de Cristo. Esta exultação popular à Eucaristia é manifestada no 60° dia após a Páscoa e forçosamente uma Quinta-feira, fazendo assim a união íntima com a Última Ceia de Quinta-feira Santa.
Em 1311 e em 1317 foi novamente recomendada pelo Concílio de Vienne (França) e pelo Papa João XXII, respectivamente. Nos primeiros séculos, a Eucaristia era adorada publicamente, mas só durante o tempo da missa e da comunhão. A conservação da hóstia consagrada fora prevista, originalmente, para levar a comunhão aos doentes e ausentes.
Só durante a Idade Média se regista, no Ocidente, um culto dirigido mais deliberadamente à presença eucarística, dando maior relevo à adoração. No século XII é introduzido um novo rito na celebração da Missa: a elevação da hóstia consagrada, no momento da consagração. No século XIII, a adoração da hóstia desenvolve-se fora da missa e aumenta a afluência popular à procissão do Santíssimo Sacramento. A procissão do Corpo e Sangue de Cristo é, neste contexto, a última da série, mas com o passar dos anos tornou-se a mais importante.
Do desejo primitivo de "ver a hóstia" passou-se para uma festa da realeza de Cristo, na "Chirstianitas" medieval, em que a presença do Senhor bendiz a cidade e os homens.
A "comemoração mais célebre e solene do Sacramento memorial da Missa" (Urbano IV) recebeu várias denominações ao longo dos séculos: festa do Santíssimo Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo; festa da Eucaristia; festa do Corpo de Cristo. Hoje denomina-se solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, tendo desaparecido a festa litúrgica do "Preciosíssimo Sangue", a 1 de Julho.
A procissão com o Santíssimo Sacramento é recomendada pelo Código de Direito Canónico, no qual se refere que "onde, a juízo do Bispo diocesano, for possível, para testemunhar publicamente a veneração para com a santíssima Eucaristia faça-se uma procissão pelas vias públicas, sobretudo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo" (cân 944, §1).
Fonte: Agência Ecclesia
4 de junho de 2007
Auschwitz consentido
As imagens de violência despertam-nos para a urgência da paz ou dela nos desinteressam pela insensibilidade que geram face à exposição excessiva dos dramas humanos? E como lemos, para além da náusea ou do apego ao espectáculo, a relação da justiça com a paz, do desenvolvimento com a harmonização das diferenças, da pobreza com a destruição, do terror com as situações opressivas próximas ou longínquas de países, culturas, religiões, impérios de tirania, riquezas usurpadas aos mais fracos, esquecimentos geradores de revoltas, tensões próximas da explosão por excesso de silêncio e cumplicidade dos mais capazes de fazer funcionar uma justiça para todos?
Não nos esqueçamos que o mundo já foi muito pior do que é hoje. Há passos gigantes já andados no debelar de enfermidades e carências extremas em tantos recantos da terra. Há sinais de pobrezas vencidas, com caminhos fraternos de desenvolvimento. Mesmo com o desequilíbrio do mapa Norte-Sul - um escândalo cuja vergonha deve ser repartida por todos - não podemos dispensar a justiça no julgamento do que já foi feito por uma melhor repartição de todos os bens essenciais a cada povo e a cada indivíduo.
Mas a verdade é que o conforto de alguns – poucos - na casa comum que é a Terra, gera desleixos no olhar e no agir, no sentir e no lutar por uma repartição mais justa dos bens. Não se trata duma questão secundária do nosso tempo, nem duma fatalidade entregue às leis cegas do mercado. Não se trata duma questão de consciências mais sensíveis ou marcadas por escrúpulos religiosos. As manchas de pobreza e miséria, de esmagamento e humilhação de povos, culturas e religiões, são um Auschwitz consentido pelo mundo moderno teoricamente sensível a valores e direitos humanos, mas confuso na sua análise e tíbio na sua aplicação. Estamos perante uma questão de cidadania, pertença da humanidade, responsabilidade de todos e cada um, questão central na consciência do mundo de hoje. A cada um é colocada a dramática pergunta: “quantos pães tendes?”
Neste terreno se moveu a Conferência da Comissão Nacional Justiça e Paz. E mais de uma dezena de organismos que reflecte estas questões com carácter de urgência do nosso tempo. O problema é fazer chegar esta sensibilidade a quem de direito. Ou seja a todos nós. E a cada um.
António Rego
1 de junho de 2007
A criança...
A criança...
É como um passarinho,
Espera com muito amor,
Que os Pais lhe dêem carinho...
É como o Sol!
Que por todo o lado brilha...
Correndo, e saltando,
Espalhando alegria!
É como uma semente que nasce,
Fruto do amor se faz,
Que para ser feliz,
Precisa de Amor e Paz.
Deixem crescer as crianças,
Com muita felicidade...
Que sejam felizes,
29 de maio de 2007
Conferência 30 de Maio - Sacramento da Caridade

O documento, emanado em Março deste ano, aponta a Eucaristia como fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. É também neste documento que o longo e articulado itinerário da XI Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos encontra o seu fruto mais maduro.
As exortações apostólicas pós-sinodais configuram, dentro do magistério pontifício, um "género literário" específico. É nelas que o Papa recolhe, confirma e aprofunda, com a sua autoridade, o que foi comunicado, debatido e aprovado durante o percurso sinodal, desde a proclamação da Assembleia até ao final dos trabalhos.
No texto da “Sacramentum Caritatis” sentem-se assim ressoar, de modo implícito ou explícito, os vários documentos que acompanharam os trabalhos sinodais.
A conferência de 30 de Maio em Lisboa é proposta para a melhor vivência das festas do Corpo de Deus de 2007. Para a iniciativa, estão convidados todos os cristãos da Cidade de Lisboa e arredores.
28 de maio de 2007
Matrimónio e Educação
Reflectir em poucas linhas sobre duas das realidades mais complexas e mais importantes para a pessoa humana, para além de poder ser uma tarefa quase impossível de realizar, pode ainda levar-nos a correr o risco de dizer coisas perfeitamente banais e simplistas.
E contudo, torna-se um desafio interessante, pois aquilo que formos capazes de pensar e dizer a este nível terá obrigatoriamente muito a ver com a maneira como encaramos a vida.
É verdade que, com frequência, ouvimos dizer que o matrimónio e a educação estão a passar por uma profunda crise. Os dados estatísticos no que diz respeito ao divórcio e a realidade que todos vamos ouvindo, aqui e acolá, acerca das dificuldades da vida em casal parecem comprovar, sem margem para dúvidas, esta crise. Também no que diz respeito à educação o panorama não parece ser melhor, sendo frequente encontrar posições de desencanto e mesmo desânimo em muitos dos seus protagonistas.
Apesar desta realidade eu não quero ser pessimista, nem tenho como objectivo fazer aqui a análise dessa situação. O espaço que aqui disponho não me permite fazer isso, e, por outro lado, prefiro fazer uma afirmação inequívoca da importância do matrimónio e da educação para a construção da pessoa (de cada pessoa) e, por conseguinte, para a humanização deste mundo. A relação entre estas duas realidades (matrimónio e educação) penso que ficará clara a partir desta perspectiva.
Na verdade, ao olhar para a condição humana, somos capazes de perceber como cada um de nós é um ser 'acolhido'. Basta para isso fazermos a simples constatação que nenhum de nós se deu a vida a si mesmo. Todos a recebemos como um dom 'dado' por alguém. Quando tomamos consciência da nossa própria existência, já estamos nela. E se isto é evidente do ponto de vista meramente biológico, igualmente evidente me parece em todos os outros níveis específicos da condição humana.
Se não vejamos: Como é que aprendemos a falar? Como alcançamos capacidade de entender o mundo e a existência? Como é que aprendemos a amar? Como somos capazes de desenvolver a nossa capacidade de reflectir? Como é que aprendemos a simbolizar? Como somos capazes de dizer, intuir e experimentar o transcendente? Bastam estas perguntas para percebermos que sem os outros jamais chegaríamos a desenvolver estas características tão específicas da nossa condição.
Mas podemos ainda ir mais longe, e afirmar que a própria identidade pessoal, que é aquilo que nos individualiza e nos torna únicos e irrepetíveis, não é uma mera conquista, mas é também uma experiência de ser recebido e acolhido. Como é que eu descubro quem sou? Como é que eu descubro o meu nome? Não é porque os outros me tratam como um 'eu' e me chamam assim, que eu tenho a possibilidade de ir crescendo e ganhando a consciência de ser esse eu? Claro que não devo isso só aos outros, claro que a minha capacidade de interacção e de entrega é fundamental, mas a verdade é que sem os outros eu não chegava a ser o que sou.
Até mesmo a minha condição de ser pai me diz isso. Só acedi a essa experiência por causa dos meus filhos. Ser pai do André e do Filipe é algo que é constitutivo da minha identidade pessoal, ou seja preciso deles para construir a minha identidade pessoal, por isso, eles são parte constitutiva dela.
A partir destas pequenas ideias, que como é obvio precisavam de mais espaço para serem desenvolvidas, posso agora afirmar, sem correr um grande risco de ser mal entendido, que o ser humano só se vai humanizando à medida que vai vivendo a relação com os outros.
Claro que quando nascemos já possuímos as características genéticas e biológicas específicas da condição humana, mas todos estamos de acordo que ser homem e mulher é muitíssimo mais do que simples biologia ou genética. As linguagens que utilizamos, a cultura que construímos e da qual também fazemos parte, a experiência religiosa que vivemos, o amor que damos e recebemos, os projectos que vamos sendo capazes de realizar, quer ao nível individual como social, tudo isso, que é também característico da nossa realidade (e para mim o mais característico), exige a existência dos outros.
E afinal o que é que isto tudo tem a ver com o matrimónio e a educação? Do meu ponto de vista e a partir da minha experiência, atrevo-me a afirmar que tudo.
É que ser pessoa humana é algo que requer obrigatoriamente a presença e o amor dos outros. É que a educação tem por objectivo principal a formação integral da pessoa humana. É que o matrimónio é aquele tempo e espaço, aquela relação, onde duas pessoas se vão construindo uma à outra, sendo capazes de dar origem a algo de novo, o nós (que não elimina a identidade pessoal de cada um, mas pelo contrário a alimenta) que muitas vezes se concretiza num alguém totalmente novo e irrepetível (os filhos).
Somos pessoas porque alguém antes de nós teve a capacidade de viver uma relação de personalização e amadurecimento capaz de gerar vida nova (não ignoro que muitas vidas são, infelizmente, geradas fora deste âmbito, mas insisto na ideia de que o característico da vida humana é muito mais do que simples biologia). Somos pessoa porque fomos acolhidos numa experiência de amor que foi capaz de nos lançar nesse patamar da condição humana e cada dia é capaz de nos ir ajudando a crescer como pessoas (independentemente da idade que tenhamos, pois isto é um processo para toda a vida). Somos pessoa porque fomos sendo educados como tal, e porque continuamos a sê-lo.
Não apoiar inequivocamente o matrimónio, não apostar claramente numa educação pessoal e pessoalizadora é correr o grave risco de poder criar sociedades menos humanas.
Todos estamos empenhados em construir um mundo mais humano e mais fraterno. Mas não tenhamos dúvidas que isso só será possível se tivermos pessoas mais humanas e mais fraternas, e isso passa obrigatoriamente pela educação e pela capacidade que tivermos em viver a experiência matrimonial duma maneira verdadeira e profunda.
por Juan Ambrósio - professor de Teologia na UCP
24 de maio de 2007
Ser uma televisão
A professora Ana Maria pediu aos alunos que fizessem uma redacção e nessa redacção o que eles gostavam que Deus fizesse por eles. À noite, ao corrigir as redacções, ela deparou-se com uma que a deixou muito emocionada. O marido, ao entrar em casa viu-a chorar e pergunta: "O que aconteceu?" Ela respondeu: "Lê". Era a redacção de um menino."Senhor, esta noite peço-te algo especial: transforma-me num televisor. Quero ocupar o lugar dele. Viver como vive a TV da minha casa. Ter um lugar especial para mim, e reunir a minha família ao meu redor... Ser levado a sério quando falo... Quero ser o centro das atenções e ser ouvido sem interrupções e sem perguntas. Quero receber o mesmo cuidado especial que a TV recebe quando não funciona. Ter a companhia do meu pai quando chega a casa, mesmo que esteja cansado. E que minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar. E ainda que os meus irmãos "briguem" para estar comigo. Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. E, por fim, que eu possa divertir todos. Senhor, não te peço muito... Só quero viver o que vive qualquer televisor!"
Naquele momento, o marido de Ana Maria disse: "Meu Deus, coitado desse menino. Que descuido o desses pais". E ela responde-lhe: "Essa redacção é do nosso filho".
22 de maio de 2007
Mote para uma telenovela
Para tranquilidade do povo, as televisões fizeram um pacto: dar apenas boas notícias, agradáveis, que o povo já tem muito com que se atribular. Assim, uma troca de horário: às 20 horas a telenovela em forma de notícias. Depois, em ficção, todos os dramalhões da terra, que são verdade, mas não naquela hora. As pessoas divertir-se-iam com a violência da irrealidade e a irrealidade do bem e da paz. Longe da fúria e da barbaridade das imagens acontecidas no dia, na hora, em directo.
Que há, neste todo, de mentira e verdade? Como ficam um cidadão e uma sociedade navegando nestas águas que ninguém sabe analisar como límpidas ou salobras?
Vem a pergunta: o problema será da tecnologia que tornou inevitável sabermos tudo sobre a hora ou mesmo antes de acontecer? E a rádio, a televisão, o telemóvel, a net e o correio electrónico?
De que falam as pessoas? Que factos e fantasias enchem as suas mentes, alimentam os seus monólogos, diálogos, discussões, afirmação, recusa, instintos e nobreza? Falam bem do chefe, do colega, da sogra, do presidente? Em cada ser começa esta complexidade. Na educação das crianças com as suas agressões, transgressões, mentiras. Nos jovens que desafiam, em rotura, qualquer lei convencionada e sobretudo imposta. E por aí adiante, nos mecanismos do afecto, da sexualidade, da auto afirmação, da defesa como castelo do eu, da intriga, divertimento... ou nos simples desaires da aldeia…
Será o ser humano apenas um animal com vastas áreas de selva e curtas fímbrias de nobreza e transcendência? Será que o bem, o belo, a dádiva, a festa, a harmonia, não têm dimensão e brilho suficientes para preencher o quadro da vida que todos nós gostamos de desenhar na nossa existência?
Uma pergunta mais: os agentes de comunicação sujeitos ao poder económico e político como podem gerar outro tipo de media? E quem teria autoridade e capacidade de os controlar? O poder? Económico, político, popular anónimo?
Bom mote para uma telenovela não muito cor-de-rosa.
António Rego
21 de maio de 2007
Viver a religião em termos religiosos
O Iluminismo foi o único movimento cultural mundial que tentou fundar uma seita ateia e anti-religiosa. O fiasco é hoje evidente mas a sua sanha e fanatismo, da guilhotina ao gulag, estiveram entre os piores da História. E deixaram sequelas. Muitos leitores, mesmo crentes, continuam a ficar incomodados com um artigo destes neste local. Todos os temas são aceitáveis numa coluna destas, mas religião fica mal.
Aliás, uma das provas da crescente influência da religião está no facto de o ateísmo também viver um surto de expansão. Surge uma nova geração de obras violentamente anti-religiosas, desde The God Delusion do cientista britânico Richard Dawkins (Bantam Books, Setembro 2006) até ao recentíssimo God Is Not Great: How Religion Poisons Everything, de Christopher Hitchens (Twelve, Maio de 2007). Mais pacatamente por cá, onde acaba de sair a tradução de The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason, de Sam Harris (W.W. Norton, 2004; Tinta da China, 2007), João Carlos Espada, referindo outros sintomas do mesmo fenómeno, criou furor e foi insultado por citar Raymond Aron: "O ateísmo é o ópio dos intelectuais" (Expresso, 21 de Abril).
Tudo isto só confirma o interesse crescente por temas religiosos. Visitar uma livraria é ver a profusão de volumes sobre o tema, dos disparatados aos eruditos (normalmente os mais disparatados). Em particular, após dois mil anos, Jesus é um best-seller. Já lhe arranjaram uma filha (O Código da Vinci, Doubleday 2003) e fizeram cúmplice de Judas (National Geographic Society, Abril 2006). Agora até descobriram um túmulo com os seus ossos por ressuscitar (Discovery Channel, Março 2007).
O mais notável nestas investigações sobre o "Jesus histórico" é a falta de lógica. Ninguém parece notar que, se Cristo não é Deus, então não passa de um carpinteiro meio maluco cujos ossos ou descendentes não interessam. Jesus só importa se for o filho de Deus. E nesse caso, o que merece atenção é, não os pormenores, mas a Sua presença e palavra, que mudam radicalmente a minha vida.
No meio da confusão, um livro marca a época: Jesus de Nazaré (Esfera dos Livros, Maio 2007), do Papa Bento XVI. Um dos maiores teólogos da actualidade, Joseph Ratzinger incorpora todos os avanços de conhecimento da ciência e investigação sobre a pessoa de Jesus. Mas sobretudo, com a sua habitual clareza e frontalidade, coloca a questão decisiva: "Aqui surge a grande pergunta que acompanha todo este livro: mas que coisa nos trouxe verdadeiramente Jesus, se não trouxe a paz do mundo, o bem-estar para todos, um mundo melhor? Que coisa trouxe? A resposta é muito simples: Deus. Trouxe Deus. (...) Ele trouxe Deus: agora nós conhecemos o Seu rosto, agora podemos invocá-lo. Agora conhecemos o caminho que, como homens, devemos seguir neste mundo. Jesus trouxe Deus e com Ele a verdade sobre o nosso destino e proveniência; a fé, a esperança e o amor. Só a nossa dureza de coração nos faz achar que isso seja pouco" (p. 67 da edição italiana). Esta é a única razão por que vale a pena aproximarmo-nos de Jesus Cristo.
O centro do livro surpreende até a teologia contemporânea, porque o Papa olha a religião em termos religiosos, um desafio nos tempos que correm. Nesta época de dinamismo e prosperidade, até os crentes consideram a fé como um instrumento útil e vantajoso. Mas "interpretar o Cristianismo como uma receita para o progresso e reconhecer o bem-estar comum como a verdadeira finalidade de todas as religiões e, por isso, também da cristã, é nova forma da tentação" (p. 66).
A razão da religião é esta: Deus vale só por Si. "Amo-te, não porque me podes dar o paraíso ou o inferno, mas simplesmente porque és quem és - meu rei e meu Deus" (p. 195).
professor universitário
19 de maio de 2007
Dia Mundial Contra a Obesidade
Causas desta problemática estão associadas ao sedentarismo e a uma dieta hipercalórica, de acordo com a Associação Europeia para o Estudo da Obesidade, e a uma baixa actividade física exercida pelos mesmos, ou seja, as nossas crianças são pouco activas. Desporto?... só na TV.
Hoje, no Dia Mundial Contra a Obesidade, várias localidades promovem acções dedicadas ao tema.
No Porto realizar-se-á um workshop sobre "Obesidade: Riscos da alimentação na adolescência" e, na Camacha, ilha da Madeira, realizar-se-á uma palestra sobre o tema "ADEXO - Obesidade, hábitos de vida saudável".
Somos chamados, todos nós, a uma maior atenção no que se refere à nossa alimentação. Obesos ou não, todos somos o que comemos.
16 de maio de 2007
Livro de orações da manhã da Renascença
Hoje, dia 16 de Maio, é lançado o livro TU ME SEDUZISTE E EU ME DEIXEI SEDUZIR, de Luís Rocha e Melo, s.j., editado pela Tenacitas.
“As orações do padre Luís Rocha e Melo, s.j., incluídas nesta obra foram transmitidas semanalmente pela Rádio Renascença, de Outubro de 2003 a Abril de 2007. Lidas em um minuto apenas, poderia ser captada a inspiração, a ideia, o sentimento, a emoção, mas seria certamente uma enorme perda não as tornar conhecidas para poderem ser aprofundadas, reflectidas, revividas, rezadas.”
O livro inclui o estudo “Um itinerário Espiritual” de Matilde Paes Parente e será apresentado pelo P. José Manuel Pereira de Almeida.
A apresentação do livro decorrerá no Auditório da Rádio Renascença, na Rua Ivens, 14 (ao Chiado), pelas 19h00 e contará com a presença do Presidente do Conselho de Gerência do Grupo Renascença, João Aguiar Campos.
15 de maio de 2007
A Violência nas Escolas
A Comissão Parlamentar de Educação Ciência e Cultura investiga e elabora relatório sobre a violência nas escolas. A Ministra da Educação promete medidas legislativas para simplificar e aumentar a eficácia da resposta das escolas à violência que as afecta. Professores que contestam a alteração do seu estatuto relevam os casos de violência de que são vítimas e responsabilizam as estruturas do Ministério. Especialistas em questões de ordem pública contrariam alarme e tentam mostrar que um surto de agressões de professores localizadas e mediatizadas não significa aumento anormal da criminalidade no espaço escolar. Os sindicatos pedem reforço da autoridade dos professores e a classificação de “crime público” para as agressões de que são alvo. Acrescem as notícias de tiroteio numa escola na América ou outros factos chocantes lá fora para centrar a atenção sobre o problema da violência nas escolas.
De facto, a violência nas escolas existe e sempre existiu, em formas que correspondem à sua organização e condições sociais de implantação e funcionamento. Varia de país para país e de meio para meio, segundo o grau de incidência dos múltiplos factores que a condicionam, mas existe em toda a parte. A escola violenta é reflexo das violências da sociedade de que faz parte. Varia desde o grande crime mediático, das agressões armadas, ao pequeno crime nas imediações da escola, sobretudo se ela se situa em zonas problemáticas, ao confronto físico, furto ou dano em equipamentos e bens, até à violência larvar que humilha, magoa, ofende e desgasta física ou psicologicamente os seus alvos, alunos e professores, reduz a eficácia do processo educativo e lectivo e cria um clima de intimidação no quotidiano do ambiente escolar. A organização escolar oferece condições para uma violência própria. A nossa escola é uma organização hierarquizada com uma responsabilidade difusa que favorece a arbitrariedade e as patologias da autoridade. Nem sempre as normas são claras, os limites e a responsabilidade da execução definidos, a prestação de contas e avaliação dos resultados exigidos e as sanções oportunamente aplicadas. O corporativismo que defende alguns professores isola e marginaliza outros, abandonando-os à sua inexperiência, improvisação ou inabilidade perante os problemas mais difíceis. Os professores mais inexperientes e menos qualificados são aqueles que se sujeitam às escolas e turmas mais problemáticas. O isolamento na sala de aula continua a ser regra por receio de uns, inércia ou desinteresse de outros. É difícil pôr os professores da mesma disciplina a colaborar na adaptação do ensino aos alunos. É difícil aos professores da mesma turma apoiarem-se na análise, diagnóstico e terapêutica das situações. “Não existe possibilidade de trabalhar contra a violência escolar com equipas instáveis ou que não se entendem. Os professores isolados são impotentes” – afirma o Director do Observatório europeu da violência na escola, E. Debarbieux. A violência nas escolas previne-se com um clima de escola c o o p e r a t i v o, com um ambiente saudável de solidariedade e inter ajuda que compense a competitividade que tende a marginalizar os mais fracos e limitados. A escola reforça, por vezes, a afirmação e sucesso dos mais fortes e dotados e acentua a rejeição e fracasso dos mais fracos física e psicologicamente, ocasionando o abuso duns e a frustração doutros e respectivos comportamentos desviantes. A escola não pode isolar-se dos outros agentes educativos. A escola continua a ser mais lugar de confronto do que de encontro entre pais e professores. Os professores têm dificuldade em abertamente prestarem contas aos pais do trabalho com os seus filhos. Uns e outros têm dificuldade em dialogar desapaixonadamente sobre o seu comportamento, evolução, objectivos e problemas. Os professores preocupam-se demasiado em defender o seu espaço, os pais em pedir contas. Alguns dos problemas dos alunos na escola são importados do ambiente familiar. Muitos pais abdicaram da afirmação da sua autoridade, mostram-se incapazes de impor regras aos seus filhos, evitam os conflitos pela abdicação. A escola é por si incapaz de recuperar o perdido. A pressão dos pais é por vezes contraditória: exigem da escola o sucesso e a disciplina para os seus filhos, mas recusam aos professores os meios para exercerem a sua autoridade. Algumas das agressões mediatizadas a professores provêm de pais alegadamente em desforço de acções disciplinadores sobre os seus filhos. É preciso que pais e professores vençam o clima de desconfiança mútua. Que os pais venham mais à escola. Que não venham uns apenas para reivindicar, outros para serem humilhados só com queixas. A escola deve abrir espaços de colaboração e trazer os pais em momentos de convívio e sucesso no espaço escolar. Deve servir os interesses e aproveitar os recursos da comunidade em que ela está localmente implantada sobretudo se é uma zona socialmente desfavorecida. Não falámos da nova legislação prometida, pelo Ministério ou das medidas propostas pela comissão. Medidas legais que reforcem e simplifiquem o exercício da autoridade têm o seu papel. Não só para gerir a violência ou impor sanções disciplinares aos alunos. Há muito a fazer no reforço da coesão do corpo docente e auxiliar das escolas, na formação e adaptação do pessoal docente às tarefas que vão para além do trabalho lectivo, na relação com as famílias e para sua aproximação e integração da comunidade escolar. Numa sociedade conflitual como a nossa com tantas fracturas culturais e sociais, com a família a desagregar-se, com enormes factores de instabilidade a gerarem violência é inevitável que ela também atinja a escola. A escola deve estar preparada para a enfrentar.
14 de maio de 2007
A «beleza» esteve em Fátima
De seguida, D. António Marto leu aos peregrinos a mensagem a enviar a Bento XVI. Na celebração do 90º aniversário das aparições em Fátima, os peregrinos "acompanham-no em oração a sua visita ao Brasil" e "agradecem a bênção apostólica que nos enviou".
Ao saudar os milhares de peregrinos, o bispo de Leiria-Fátima falou "dos amigitos e amigitas" que passaram ali a noite e também dos doentes. Na despedida da imagem de Nossa Senhora de Fátima, os peregrinos soltaram os lenços brancos e algumas lágrimas e disseram adeus.
Agência Ecclesia
Acima de tudo não estragar
Há 200 anos, insultar o rei dava severo castigo, mas o assassino de um escravo ficava impune. Era uma época bárbara sem respeito pelos direitos humanos. Hoje, uma mãe mata o filho aos dois meses de gestação com apoio do Estado (Lei n.º 16/2007 de 17 de Abril), mas será exemplarmente castigada se fumar um cigarro num bar (proposta de lei n.º 119/x). Aliás, mais castigada que se fumasse droga. Temos de abandonar a ideia de que a lei melhorou.
Não melhorou mas aumentou. A justiça antiga só actuava em crimes cometidos e danos causados. A lista de delitos e penas era discutível, mas limitada. Hoje a lei mete-se em tudo na nossa vida, não para corrigir injustiças, mas para ensinar como viver. As autoridades nacionais e europeias estatuem os mais pequenos detalhes da existência. Nada existe sem regulamentação. O Estado deixou de ser justo para ficar bisbilhoteiro.
O futuro desprezará o tempo que deixou a vida e a liberdade nas mãos de miríades de burocratas, funcionários, inspectores, ministros, polícias e juízes. Técnicos que, pela sua acção, geram muitas vezes mais estragos e custos que qualquer benefício que julguem atingir. O défice mostra-o bem. Mas o défice é o menos.
O pior é que, na ânsia regulamentar, a lei passou a castigar quem não faz mal nenhum. A polícia multa por conduzir sem cinto de segurança ou sem seguro, penaliza quem faltar à medicina no trabalho. A lei interessa-se por materiais de construção, formas de brinquedos, peso de mochilas escolares. No restaurante, onde não se fuma mas ainda se come, a lista de requisitos e regras abstrusas enche volumes pesadíssimos. Tudo com penas agravadas. O mundo diz-se mais evoluído, mas é mais espartilhado, quadriculado, entupido.
Não admira que o tema recorrente nos jornais seja a incapacidade das autoridades, da Ota e TGV à corrupção e desleixo. Os funcionários são os primeiros a denunciar os disparates dos seus serviços. A fúria legista gera os crimes mais bizarros cometidos, não por malfeitores, mas pelas autoridades pretendendo melhorar a nossa vida.
Esta afirmação parece severa, mas é evidente. Quando inspectores inutilizam toneladas de comida, que sabem em bom estado, porque o acondicionamento não era regular, cometem pecado que brada aos céus. Um exemplo recente mostra como até se minam as bases da nossa identidade nacional.
A escola, antes de tudo, ensina a ler e escrever. Por isso os custos de mudar a gramática lectiva são esmagadores, com benefícios vagos. Os linguistas, como todos os cientistas, são inovadores, polémicos, puristas. É natural que as teorias abundem, evoluam, se entrechoquem. Mas quando o Ministério da Educação intervém, a interessante discussão de especialistas passa a gravíssimo atentado à língua e cultura.
A Portaria n.º 1488/2004 de 24 de Dezembro revogou a anterior gramática (Nomenclatura Gramatical Portuguesa da Portaria n.º 22 664 de 28 de Abril de 1967), adoptando, "a título de experiência pedagógica, a Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário". Agora, como a experiência correu mal, vai proceder-se, "até Janeiro de 2009, à revisão dos programas das disciplinas de Língua Portuguesa" e "ficam suspensos, até 2010, os processos de adopção de novos manuais das disciplinas de Língua Portuguesa dos 5.º, 6.º, 7.º, 8.º e 9.º anos de escolaridade" (Portaria n.º 476/2007 de 18 de Abril).
A antiga gramática está revogada e a nova vai ser revista. Quem aprendeu, afinal não sabe nada. Quem quer aprender, não sabe o quê. Ninguém se entende. E o assunto é "só" a língua materna. Se existisse uma conspiração deliberada para destruir as bases da nossa educação, progresso e unidade nacionais, o efeito não seria pior. O facto de isto ser causado, não por terroristas, mas pela arrogância e incompetência de funcionários, não é desculpa. Estão na prisão muitos por muito menos.
10 de maio de 2007
Da infâmia dos fins à corrupção dos meios
Daqui a tempos haverá novo referendo sobre a regionalização. Suponha que, ao contrário do anterior, ele aprova essa política. Suponha que depois, em nome da legitimidade da vitória, as novas autoridades regionais criam uma autonomia que destrói Portugal. Um exagero desses acontece agora com o recente referendo sobre o aborto.
A questão posta à votação no passado dia 11 de Fevereiro tratava apenas da "despenalização da interrupção voluntária da gravidez". Mas a lei que a maioria apresentou e aprovou prevê a "exclusão da ilicitude" (Lei n.º 16/2007 de 17 de Abril). Os nossos legisladores conhecem bem a diferença, pois há anos decretaram a despenalização do consumo de droga (Lei 30/2000 de 29 de Novembro), sem com isso excluir a ilicitude nem, pior, impor a sua banalização. Desta vez porém deram esse salto lógico sem dificuldades ou contemplações. O Sistema Nacional de Saúde prepara-se para fornecer livremente o aborto em nome da suposta legitimidade democrática do referendo.
Agora junta-se insulto à infâmia. Na proposta de Lei de Política Criminal prevê-se que "toda a criminalidade menos grave vai deixar de estar sujeita a penas de prisão. Nela se inclui 'o aborto com consentimento da mulher grávida fora das situações de não punibilidade legalmente prevista' - lê-se no artigo 10.º da proposta" (DN de 20 de Abril). Assim a argumentação do campo abortista não passou de grotesta impostura. Falavam de pobres mulheres presas e grave repressão policial, mas este diploma em preparação eliminará a questão da prisão para o aborto consentido em toda a gravidez. Para quê então tanto esforço e despesa no referendo? Nem sequer houve o pudor de deixar passar algum tempo para disfarçar a burla.
O embuste vem de longe. A lei do aborto é há muito um festival de aldrabice e distorção, pois começou por ser rejeitada em 1997, para ser aprovada pela mesma Assembleia, menos de um ano depois, após manipulação dos deputados. Agora, com base num voto que só falava de despenalização, as autoridades vão impondo os caprichos que escamotearam durante a campanha. Na altura o primeiro-ministro prometeu "as melhores práticas europeias" e falou no caso alemão. Depois, desavergonhadamente, acabamos com uma solução pior que soviética.
A questão curiosa é saber como é possível tal grau de desonestidade. A explicação simplista, de afirmar que temos uma elite corrupta e mentirosa, nada diz. Primeiro não pode ser levada a sério sem implicar a única solução coerente, a emigração. Depois porque hoje um tal nível de indignidade nunca pode vir apenas da corrupção da elite. O mal é demasiado grande para a explicação directa.
Só existe uma força capaz de tanta desfaçatez: a certeza da convicção. As maiores catástrofes da era moderna foram causadas, não por assassinos maléficos, mas por reformadores inspirados. De Robespierre a Pol Pot, de Hitler a Bush, foi sempre em nome de um mundo novo, de uma sociedade mais justa que se cometeram as piores atrocidades. O mesmo se passa agora com a liberalização do aborto. Os seus defensores estão fanaticamente convencidos, com um fanatismo indispensável para calar a consciência, de que só assim se defende o bem da mulher e sociedade. Julgam os opositores como bárbaros obsoletos que não merecem atenção. Com um fim tão "sublime" justificam-se quaisquer meios. Até a desonestidade aberta e a manipulação perversa da vida democrática. Que representam algumas distorções semânticas perante a liberdade sexual e o acesso a cuidados de saúde, mesmo na chacina de embriões?
O poder não só impõe a prática infame do aborto mas para o conseguir cobre de infâmia a legalidade e a democracia. Os fins corrompem os meios. Este processo é velho por cá, onde os maiores atropelos já foram feitos "a bem da Nação". Mas agora é num tema nuclear, a vida humana inocente. Uma vez passada esta fronteira, nunca mais se volta atrás. A arrogância da elite fica imparável. Temos de nos preparar para os próximos atropelos à legitimidade e honradez. Provavelmente já na regionalização.
João César das Neves, professor universitário














