Estranho título este. A fidelidade é uma opção que se aprende? Mas então ela não é uma realidade do foro dos sentimentos, uma realidade inata, algo que certamente podemos aperfeiçoar e amadurecer à medida que vamos vivendo, mas que já faz parte de nós? Estas breves interrogações levantam muitas questões. Sem a pretensão de esgotar a reflexão acerca delas, proponho, no entanto, que as olhemos.
Comecemos pela primeira, a fidelidade como sentimento. Não duvido que a fidelidade possa também ser reflectida no contexto dos sentimentos, contudo estou sinceramente convencido de que essa caracterização não esgota aquilo que a ela é. De facto, não penso que a fidelidade se possa reduzir a um sentimento. Talvez até seja essa redução um dos principais problemas dos nossos dias. Quando esta dimensão tão importante do matrimónio (e também de tantas outras dimensões do viver humano) se sustenta apenas e só nos sentimentos então ela corre o sério risco da desagregação. Os sentimentos, como a experiência do viver nos ensina, são muito flutuantes ao longo do tempo, vão e vêm, mudam. É verdade que sempre sinto qualquer coisa e, nesse sentido eles são permanentes, mas é igualmente verdade que não sinto sempre o mesmo e, nesse sentido, eles são passageiros. A fidelidade não pode pois fundamentar-se somente neste âmbito da vida humana. Mas mesmo no âmbito dos sentimentos a aprendizagem é uma dimensão fundamental. Julgo que todos estaremos de acordo quanto a necessidade que todo o ser humano tem de aprender a lidar com os sentimentos. Hoje fala-se muito na iliteracia dando como exemplo tantas pessoas que sabem ler, mas não entendem verdadeiramente aquilo que lêem. Pois bem, ao nível dos sentidos e sentimentos existe também uma enorme iliteracia. Todos sentimos e temos sentimentos, mas não são poucos aqueles que não entendem verdadeiramente aquilo que sentem nem sabem lidar com os sentimentos. A aprendizagem, mesmo que fosse só a este nível, revela-se então fundamental. E não será a fidelidade uma característica inerente ao ser humano, uma capacidade com a qual todos nós nascemos, não fazendo pois muito sentido falar numa aprendizagem a este nível? Não duvido que a fidelidade entendida de uma certa maneira é uma característica do viver humano. Na verdade, existe em todos nós um movimento natural e inato que nos mantém fiéis à vida. Por isso atentar contra ela é algo que não consideramos natural e que, em última instância, precisa sempre de ser justificado, mesmos que às vezes as justificações sejam muito fracas e nos pareçam de todo insustentáveis. Mesmo a este nível tão elementar, penso que estaremos também de acordo, continua a ter todo o sentido falar em aprendizagem, de modo a que algo que é muito do foro do instintivo possa ser humanizado e assumido como tal. A fidelidade a que aqui nos referimos situa-se, no entanto a uma nível muito mais amplo, muito mais profundo. Não é simplesmente um sentimento ou uma dimensão inata, é antes de mais, e principalmente, uma opção da vontade, um dinamismo de fundo com o qual comprometo a minha existência. Isso é para mim cada vez mais evidente quando se reflecte esta realidade no âmbito do matrimónio. A este nível estou claramente a falar de uma opção de vida que deve ser aprendida e aprofundada. Muito para além de ser um sentimento a fidelidade é o resultado de uma opção e de uma vontade. No caminho de encontro e aproximação entre duas pessoas lentamente se vai consolidando uma relação que vai evoluindo de uma coisa que se tem para uma coisa que se é e que faz parte daqueles que a vivem. Uma relação deste nível - estamos já claramente no domínio do amor capaz de sustentar uma vida a dois - não acontece porque acontece, nem permanece porque sim. Ela vai sendo construída porque as pessoas nela envolvidas a isso se dispõe e nela investem. É fruto do querer, mesmo que no início tenha começado com um encontro fortuito, não preparado, não querido. A sua permanência não é igualmente o resultado do evoluir normal e natural da relação. Também aqui é preciso apostar, investir. A fidelidade no amor humano não é simplesmente uma coisa que acontece naturalmente, ela exige e implica sempre a vontade e o querer. É verdade que o amor traz consigo naturalmente um movimento de aproximação e de fidelidade, mas a fidelidade de que estamos a falar vai muito mais longe, pertencendo ao campo da opção, pelo que julgo fazer todo o sentido falar




























