Diário da Assembleia Geral do ISCF

“Tudo o que se fizer a bem da família, por pequeno que seja é grande”. (Mons. Brás)

A Família no centro das atenções

Encontra aqui os vários artigos do Dr. Juan Ambrósio sobre a Família...

Encontro Mundial das Famílias 2015

O Vaticano apresentou dia 24 de março em conferência de imprensa o 7.º Encontro Mundial da Família, que vai decorrer de 22 a 27 de setembro de 2015 na cidade norte-americana de Filadélfia.

A saúde mental dos portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...

O trabalho, dom e direito

A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...

Longe vão os tempos

Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...

Dar esperança em tempo de crise

Vivemos tempos difíceis. A família, como célula base da sociedade, é imediatamente afetada por esta crise generalizada e que promete perdurar. Neste contexto, exige-se um novo paradigma, uma nova forma de estar e de nos relacionarmos.

28 de fevereiro de 2007

Ciclo de Conferências da Quaresma 2007

Realizam-se às quintas-feiras, no mês de Março, às 21h15, no Auditório do Colégio São João de Brito

"Quatro Faces do Amor"

Dia 1 "Caridade" P. Luís Rocha e Melo, SJ
Dia 8 "Justiça" P. Paulo Teia, SJ
Dia 15 "Perdão" P. Tolentino Mendonça
Dia 22 "Liberdade" P. Hermínio Rico, SJ

Os jovens têm sede de Deus

Neste tempo de caminhada Quaresmal, gostaria de apelar aos jovens para que não tenham medo de parar, de procurar Cristo nas suas vidas e faço-o com as palavras daquele homem que nunca se cansou de amar os jovens e de confiar neles – o saudoso Papa João Paulo II: “Jovens, sabeis que Jesus se retirou para o deserto durante quarenta dias para orar. Procurai também vós criar um pouco de silêncio nas vossas vidas que vos permita reflectir e rezar”.
Contrariamente ao que tantas vezes se diz, também os jovens têm sede de Deus, têm sede de uma espiritualidade própria, uma espiritualidade para este tempo concreto, que tenha em conta os seus desejos e necessidades, que valorize o jovem na sua situação concreta, que o acolha e acredite nele.
Não há dúvida de que os jovens têm de ser eles próprios os evangelizadores dos outros jovens, porém, isto não será possível se antes não acontecer o Encontro com a Pessoa de Jesus Cristo. Só Ele é capaz de dar sentido às suas vidas e resposta às aspirações mais radicais.
A Igreja precisa dos jovens, eles são o seu futuro mas principalmente o seu presente. Que cada um de nós como Igreja que é, aprenda a acolher e a escutar os jovens que avidamente se aproximam, dando espaço para que cada um se encontre com O Senhor e faça a sua experiência pessoal de Deus. É urgente uma espiritualidade dos jovens hoje e, segundo diversos autores, homens e mulheres que trabalham e vivem com os jovens, esta espiritualidade tem que integrar a fé e a vida, ou seja, tem de ser uma espiritualidade séria, comprometida e incarnada!

Elisabete Puga

27 de fevereiro de 2007

Roma homenageia Mons. Joaquim Alves Brás

A memória de Mons. Joaquim Alves Brás, fundador do Instituto Secular das Cooperadoras da Família, vai ser homenageada em Roma no próximo dia 11 de Março. A Igreja de Santo António dos Portugueses acolhe uma celebração eucarística, que será presidida por Mons. Agostinho Borges, Reitor do Instituto Português de Santo António (IPSA).
Joaquim Alves Brás nasceu em Casegas, a 20 de Março de 1899. Foi ordenado Presbítero em 19 de Março de 1925, na Diocese da Guarda. Apóstolo da Juventude trabalhadora e particularmente sensível aos mais pobres e marginalizados, fundou a Obra de Santa Zita em 1932 e o Jornal «Voz das Criadas», hoje «Bem-Fazer».
Fundou o Instituto Secular das Cooperadoras da Família em 1933 e em 1962 o Movimento por um Lar Cristão e o Jornal da Família. Em 1958 recebe do Papa Pio XII o título de Monsenhor e em 1962 do Papa João XXIII, o de Prelado Doméstico.
Morreu a 13 de Março de 1966, vítima de um acidente rodoviário. Está a decorrer em Roma o seu processo de beatificação.
O IPSA, por seu lado, tem entre os seus objectivos "o exercício de trabalhos de investigação histórica, de publicações e conferências, destinadas a tornar conhecidos e a promover o engrandecimento de valores espirituais portugueses, quer através de facilidades que conceda a artistas, cientistas e investigadores, os quais poderão ser alojados na hospedaria”.

Agência Ecclesia

25 de fevereiro de 2007

Rezar, como?

Do Bispo e mártir do séc. III, S. Cipriano, e do seu Tratado recolhemos propositadamente um excerto sobre o modo como rezar “... com respeito e ordem e não lançar desordenadamente do vento as nossas orações com palavras rudes, nem pronunciar com loquacidade barulhenta aquela petição que deve ser apresentada a Deus com dignidade. Deus ouve mais o coração do que as palavras. Não é preciso gritar para chamar a atenção de Deus porque ele vê os nossos pensamentos...”.
“Devemos agradar aos olhos de Deus, tanto pela atitude do corpo como pelo tom de voz”, “seremos atendidos, não pela abundância das palavras, mas pelas palavras do arrependimento do coração”, continua aquele mártir dos primórdios do cristianismo.
Estas “linhas programáticas” do encontro com Deus acodem-me à mente porque ainda me está presente a postura do comum dos assistentes que, nas nossas cidades, vilas e aldeias, presenciavam a procissão do “Corpus Christi”, do Corpo de Deus.
Vergava-se os joelhos sobre a terra seca ou húmida, pedregosa ou macia, de asfalto ou de terra batida, à passagem de espécie sagrada.
Essa postura era o reconhecimento do sagrado que vinha ao encontro do homem; que lhe oferecia a sua misericórdia e imenso poder; não era o homem visitante mas o Deus presente que se inclinava à sua passagem ante cada um dos presentes, rogando-lhes confiança, ou não fosse capaz, diz a profecia de Ezequiel, de, de um ramo seco gerar árvore frondosa, capaz de acolher as aves do céu, de suportar os seus ninhos, que o mesmo é dizer as nossas vidas.
A procissão do “Corpus Christi” é uma devoção já conhecida no séc. XIII, na Europa, com origem em Liege, exercitada com brilho e pompa já no reinado do nosso D. João I, a ela se referindo também autores do reinado do nosso D. João IV.
E tamanha era a religiosidade transparente que os viajantes estrangeiros, de passagem por Lisboa, informavam os seus familiares do quanto lhes tocava no coração e na alma esse gesto de culto a Deus.
Mas hoje as pernas, as artroses ou pseudo artroses, ou o custo pesado de retirar a cobertura de numa cabeça pensante, permanecem impávidas e serenas por entre o deflagrar de um qualquer “flash” fotográfico ou um recolher de imagem para recordação de final de dia, por entre um sibilino guia inocente dos conhecimentos, senão mesmo indiferença de essência, ou um caçoar para amanhã.
Rezar precisa-se. Eu preciso de rezar, segundo S. Cipriano. Não da forma barulhenta, como não deve fazer-se, mas de lábios semi-serrados, movimentando-se ao ritmo quase insonoro do meu coração palpitante que abriga desígnios e projectos que só Deus conhece.
A procissão do “Corpus Christi” é um sinal dos tempos que correm, de vitalidade na Igreja, apesar de os tempos lhe não correrem de feição, mesmo entre nos, trilhando por entre um anticlerismo em que, na Europa, somos pioneiros – mais um galardão, a acrescentar e tantos outros que só nos empobrecem – e um indiferentismo, pior que a descrença.
Eu volto a repetir, preciso de rezar bem.
De coração contrito, tal como o publicano de outrora.
Assim chegam mais velozes as minhas preces.
Não quero ser negociante de orações; favor pelo favor; mas grato, reconhecido, ciente de um Deus próximo, a quem um dia, face a face, quero fazer algumas perguntas.
O porquê do que foi o meu sofrimento; mas agradeço-lhe, pondo no outro prato da balança, o bem que me deu a conhecer, o valor do perdão que me dá tranquilidade e dispensa, para dormir, o uso de sedativos.
É essa confiança, às vezes também em crise, pelos meus lados, que dispensa o recurso dos tranquilizantes e me traz o sono repousante, a alegria íntima de um Deus incarnado em Cristo, o seu rosto vivo, visível e eterno.
Dr. Armindo Monteiro- colaborador do Jornal da Família

24 de fevereiro de 2007

Amizade


Sentir a Amizade é sentir o carinho, a força da oração, a ternura do outro, é ter Deus entre nós.
É ouvir a “chamada”, saber e respeitar o espaço, silenciar o segredo, estar sempre pronto a escutar quem nos procura.
É a certeza de ter sempre alguém com quem partilhar as alegrias e as tristezas.
A Amizade é um tesouro que temos e devemos conservá-lo bem dentro do nosso coração. É uma bênção de Deus e por isso sintamo-nos filhos abençoados por Ele! Todos os dias!

Alexandrina Gouveia


SEXUALIDADE - Paradigma para uma reflexão (5º tema)

5. A afectividade, fonte de conhecimento de si e do mundo.

Antes de abordar o contributo explícito da inteligência da fé para a reflexão acerca da sexualidade (contributo que em certo sentido já tem vindo a ser desenhado nos vários pontos até agora abordados) seja-me permitido fazer uma breve alusão à questão da afectividade como fonte de conhecimento de si e do mundo.
Como todos sabemos, falar em sexualidade não é sem mais igual a falar em afectividade, embora a este nível a utilização dos termos revele que muitas vezes são usados como equivalentes. Mas neste âmbito, o erro maior nem sequer é este, mas aquele que, de certo modo, se encontra no extremo oposto, ou seja, reflectir a sexualidade ignorando a importância dos afectos.
Não é aqui o lugar para fazer uma distinção entre afectos amor e sexualidade, contudo, e para que as coisas não fiquem demasiado vagas, digamos que os afectos têm uma dimensão emotiva, ligada à sensibilidade geral, englobando reacções, com frequência difusas, de bem-estar, ou mesmo de mal-estar. No fundo, o que quero dizer é que a afectividade é uma realidade que ‘afecta’ a pessoa na sua totalidade. Ela marca e ajuda a construir a própria identidade pessoal, constituindo por isso uma das dimensões mais profundas da sexualidade humana. Entre afectividade e sexualidade há, então, uma relação estrita que não pode de modo nenhum ser ignorada. Isto é de tal maneira importante que podemos afirmar que o vazio afectivo desfigura a sexualidade, conduzindo-a a uma inflação da genitalidade que acaba por desvalorizar a própria sexualidade.
É verdade que na nossa cultura os afectos são hoje muito falados e até se lhes dá uma importância renovada, mas isto, porém, não traduz toda a realidade. Se observarmos com cuidado, poderemos ver como os afectos continuam a ser empurrados, por muitos, para a margem exclusiva da sensibilidade e dos sentidos, não se lhes reconhecendo ainda, pelos menos de uma maneira generalizada e consistente, o papel fundamental que realmente desempenham no âmbito do conhecimento que cada um é chamado a ter de si e do mundo que o rodeia. Na nossa sociedade, a razão continua a aparecer como a grande, e quase que exclusiva, via de acesso ao real.
Recorrendo às palavras de Maria Luísa Ribeiro Ferreira, penso que ficará mais claro aquilo que pretendo dizer (tomo estas palavras de uma citação feita por Jerónimo Trigo num artigo que me serve de inspiração para estas linhas: Expressões afectivas: que avaliação ética? In Pastoral Catequética 4 (2006) 29-42.
“Quando falamos de afectos falamos também de um saber e, consequentemente, há uma relação deles com a verdade das coisas. É nos afectos que se revelam as nossas convicções mais fundas. As noções que formamos do eu, do outro, do bem e do mal, da crença ou da descrença em Deus, são-nos dadas primeiramente pelos afectos e, passando embora pelo crivo da conceptualização e argumentação, nunca deixam de acusar esse toque. Há uma experiência primeira, indizível como todas as coisas que realmente nos tocam, difícil precisamente devido ao seu carácter experiencial e inefável. A afectividade é abertura ao mundo, um mundo diferente do mundo científico e tecnológico que conhecemos, mas tão verdadeiro e real quanto este. Há um saber de nós mesmos que só a consciência afectiva nos dá. Há uma suprema evidência nas experiências que temos de prazer e dor, de alegria e tristeza, de nós próprios e dos outros. Daí podermos dizer que as certezas ontológicas são dadas pela consciência afectiva”.
Sinceramente parece-me que estas palavras, ainda que possam parecer difíceis, são o suficientemente claras para nos interpelar na reflexão que temos vindo a desenvolver.
Como é possível abordar a questão da sexualidade ignorando esta realidade? Como é possível querer aprofundar a sexualidade humana, como uma das expressões do todo da pessoa, se não soubermos lidar com os afectos?
Têm razão aqueles que dizem que um dos dramas do nosso tempo consiste naquilo que podemos apelidar de ‘analfabetismo afectivo’. Estou convencido de que é também a este nível que podemos encontrar uma das razões mais profundas para muitas das situações que nos são dadas a observar ao nível da vivência e da reflexão da sexualidade.
A educação dos afectos parece-me, pois, cada vez mais importante e fundamental em todo o processo de crescimento e maturação humana e, ao nível da reflexão acerca da sexualidade, uma das dimensões a ter sempre presente.
Dr. Juan Ambrósio - colaborador do Jornal da Família

23 de fevereiro de 2007

Um jejum original: deixar o carro na garagem

O presidente da Conferência Episcopal da Alemanha lançou, para esta Quaresma, uma proposta original: fazer jejum do carro, deixando os automóveis na garagem como gesto de respeito pela natureza.
"O tempo de penitência da Quaresma convida-nos a repensar o nosso estilo de vida. Negligenciamos demasiadas vezes as coisas que são nefastas para o nosso ambiente e para os nossos próximos", refere o Cardeal Karl Lehmann, em entrevista ao Bild citada pela AFP.
"Aproveitemos o período da Quaresma para contribuir para a melhoria do clima, por exemplo, fazendo o jejum do automóvel", disse.
O Cardeal Lehmann junta-se, assim, aos apelos lançados por vários responsáveis católicos e protestantes da Alemanha e Luzembrugo, pedindo aos fiéis que renunciem completamente ao automóvel durante a Quaresma, deslocando-se a pé, nos transportes públicos ou de bicicleta.
Agência Ecclesia

22 de fevereiro de 2007

Novo Bispo do Porto

O Papa nomeou como novo Bispo do Porto D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente, até agora Bispo Auxiliar de Lisboa. Bento XVI aceitou a renúncia do governo pastoral da Diocese apresentada por D. Armindo Lopes Coelho, em conformidade com o Cân. 401 §1 do Código de Direito Canónico (por ter completado 75 anos de idade).
Manuel José Macário do Nascimento Clemente nasceu em Torres Vedras a 16 de Julho de 1948. Após concluir o curso secundário, frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde se formou em História.
Licenciado em História, ingressou no Seminário Maior dos Olivais em 1973. Em 1979 licenciou-se em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa, doutorando-se em Teologia Histórica em 1992, com uma tese intitulada Nas origens do apostolado contemporâneo em Portugal. A "Sociedade Católica" (1843-1853).
Ordenado presbítero em 29 de Junho de 1979, foi Coadjutor das paróquias de Torres Vedras e Runa, formador e Reitor do Seminário dos Olivais e, desde 1997, membro do Cabido da Sé de Lisboa. Nomeado Bispo Auxiliar de Lisboa e titular Pinhel, em 6 de Novembro de 1999, foi ordenado na Igreja de Santa Maria de Belém (Jerónimos) no dia 22 de Janeiro de 2000.
Nesse mesmo ano desempenhou o cargo de Coordenador da Comissão Preparatória da Assembleia Jubilar do Presbitério para o Ano 2000. Tem-se empenhado, por outro lado, no Congresso Internacional para a Nova Evangelização, cuja sessão lisboeta se realizou em Novembro de 2005, como presidente da Comissão Central de preparação do ICNE.
Na Conferência Episcopal Portuguesa tem sido promotor da Pastoral da Cultura desde 11 de Abril de 2002 e é membro da Comissão Episcopal de Comunicações Sociais desde 20 de Junho de 2002. Actualmente é presidente da nova Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais.

Paixão pela História

Licenciado em História e doutorado em Teologia Histórica, lecciona História da Igreja na Universidade Católica Portuguesa desde 1975 e é o actual Director do Centro de Estudos de História Religiosa da mesma Universidade.
É autor de obras como A Igreja no Tempo, História Breve da Igreja Católica [Lisboa, Grifo 2000] e de vários trabalhos sobre o catolicismo em Portugal a partir do Liberalismo.
É também presença habitual no Programa Ecclesia, na :2, com a rubrica "O passado do presente", dedicada à História da Igreja.
D. Manuel Clemente é conhecido e respeitado no meio cultural pelo diálogo com os diferentes sectores do pensamento intelectual e social.

Publicações

Livros e estudos sobre temas das áreas de História, Teologia e Pastoral, publicados em edições e revistas da especialidade, de que se destacam:
- Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à República. Lisboa, Grifo, 2002.
- A Igreja no tempo. Lisboa, Grifo, 2000.
- ESPÍRITO e espírito na história ocidental - os despistes da esperança. In As razões da nossa esperança. A caminho do terceiro milénio. Lisboa, Rei dos livros,1998.
- Das prelaturas políticas às prelaturas pastorais: o caso de Pinhel. In Lusitania Sacra. Segunda série. Lisboa, 8-9, 1996-1997.
- Milenarismos. In Creio na vida eterna. Lisboa: Rei dos livros, 1996.
- Sínodos em Portugal: um esboço histórico. In Estudos Teológicos. Coímbra. 1, 1996.
- As paróquias de Lisboa em tempo de liberalismo. In Didaskalia. Lisboa, 25, 1995.
- Os Seminários de Lisboa. In Novellae Olivarum. Nova série. Lisboa, 8, 1994.
- Universidade Católica Portuguesa: uma realização de longas expectativas. In Lusitania Sacra, Segunda série. Lisboa, 6, 1994.
- A sociedade portuguesa à data da publicação da Rerum Novarum: o sentimento católico. In Lusitanis Sacra. Segunda série. Lisboa, 6, 1994.
- Igreja e sociedade portuguesa do Liberalismo à República. In Didaskalia. Lisboa, 24, 1994.
- Nas origens do apostolado contemporâneo em Portugal, A "Sociedade Católica" (1843-1853). Braga, 1993.
- Cristandade e secularidade. In A salvação em Jesus Cristo. Lisboa, Rei dos Livros, 1993.
- Fé, razão e conhecimento de Deus no Vaticano I e no Vaticano II. In Communio. Lisboa, 10:6, 1993.
- A Igreja e o Liberalismo. Um desafio e uma primeira resposta. Communio. Lisboa, 9:6, 1992.
- Laicização da sociedade e afirmação do laicado em Portugal (1820-1840) . In Lusitania Sacra, Segunda série. Lisboa, 3, 1991.
- O Congresso católico do Porto (1871-1872) e a emergência do laicado em Portugal. Lusitania Sacra, Segunda série. Lisboa, 1, 1989.
- Cardeal Cerejeira: Pensamento, coração e relação com o poder. In Novellae Olivarum. Nova série. Lisboa, 15, 1989.
- Clericalismo e anticlericalismo na cultura portuguesa. In Reflexão Cristã. Lisboa, 53, 1987.
- Reflexões sobre os 50 anos da Acção Católica Portuguesa. In Novellae Olivarum. Nova série. Lisboa, 8, 1984.
- Católicos, Estado e Sociedade no Portugal oitocentista (congressos católicos de 1891 e 1895). Communio. Lisboa, 1:3, 1984.
- Notas de cultura portuguesa. Do teatro sagrado ao teatro profano. In Novellae Olivarum. Nova série. Lisboa, 6-7, 1983.
- Notas de cultura portuguesa. Os papas e Portugal. In Novellae Olivarum. Nova série. Lisboa, 2-3, 1983.
- Monsenhor Pereira dos Reis. (Em colaboração). Lisboa, 1979.
- A Igreja no tempo. História breve da Igreja Católica. Lisboa, 1978.


Agência Ecclesia

16 de fevereiro de 2007

Consagração: um projecto apaixonante


“Mestre, onde moras?”. Foi esta a pergunta que um dia fizemos ao Senhor, desejosas de O conhecer e de matar a nossa sede de algo mais que o mundo não nos pode oferecer.
Como resposta à nossa inquietação, também a nós foi lançado o desafio, como um dia aos discípulos: “Vinde ver!”. Depois de muitas dúvidas e interrogações, chegou o dia em que sentimos aquele “toque” especial e decidimos partir na aventura de percorrer o Seu caminho, aceitamos o desafio de O conhecer e de nos abrirmos ao Seu Amor, deixando que Ele transforme a nossa vida, como o barro se deixa transformar pelas mãos do oleiro. Hoje, é com profunda alegria e gratidão que queremos gritar ao mundo: “Vimos O Senhor!” (Jo 20, 25). Como Maria, sentimos que Ele colocou o Seu olhar na nossa pequenez e nos escolheu para sermos testemunhas da Vida que Ele quis trazer a cada ser humano. Num mundo onde impera a “cultura da morte”, O Senhor a quem nós queremos dizer Sim com todo o nosso ser, pede-nos que sejamos construtoras da “cultura da Vida”. Vivemos numa sociedade em que falar da Consagração, soa a algo “fora de moda”, algo que não faz sentido e que não tem a ver com os jovens. Porém, hoje como ontem, O Senhor continua a interpelar e a chamar, Ele continua a querer colocar o Seu voto de confiança em tantos jovens a quem Ele chama pelo nome e que aceitam seguir este caminho que os leva a adquirir e a viver os mesmos sentimentos de Jesus Cristo. Como jovens apostadas em viver este ideal de Consagração, sentimos ressoar no nosso coração as palavras que um dia o saudoso Papa João Paulo II dirigiu aos jovens consagrados: “ Vós sois chamados a vibrar com a Sua própria paixão pelo Reino, a oferecer como Ele as vossas energias, o tempo, a juventude e a existência pelo Pai e pelo irmãos. Desta forma havereis de aprender uma autêntica sabedoria de vida”. Esta sabedoria que se traduz no sabor do mistério de Deus, na experiência de uma vida casta, pobre e obediente, gasta pela Sua glória, no amor aos mais pequenos, na transfiguração da vida à luz das bem-aventuranças. Este é o programa apaixonante que nós, tocadas por esse Amor, decidimos viver e queremos testemunhar. Por isso, não queremos guardar esta riqueza apenas para nós, mas apelar a todos os jovens para que não tenham medo de Se encontrar com O Senhor, pois “Ele não tira nada, dá tudo!”.

Testemunhos de Alexandrina Gouveia e Elisabete Puga

O novo contexto da luta pela vida

Conferência Episcopal Portuguesa


Nota Pastoral

Reunida em Assembleia extraordinária, após o habitual retiro, a Conferência Episcopal Portuguesa, na sequência do referendo de 11 de Fevereiro, decidiu propor algumas reflexões pastorais aos cristãos e à sociedade em geral.


1. Apesar de a maioria dos eleitores não se ter pronunciado, o resultado favorável ao “Sim” é sinal de uma acentuada mutação cultural no povo português, que temos de enfrentar com realismo, pois indicia o contexto em que a Igreja é chamada a exercer a sua missão. Manifestou-se uma cultura que não está impregnada de valores éticos fundamentais, que deveriam inspirar o sentido das leis, como é o do carácter inviolável da vida humana, aliás consagrado na nossa Constituição. Esta mutação cultural tem várias causas, nomeadamente: a mediatização globalizada das maneiras de pensar e das correntes de opinião; as lacunas na formação da inteligência, que o sistema educativo não prepara para se interrogar sobre o sentido da vida e as questões primordiais do ser humano; o individualismo no uso da liberdade e na busca da verdade, que influencia o conceito e o exercício da consciência pessoal; a relativização dos valores e princípios que afectam a vida das pessoas e da sociedade.
Reconhecemos, também, que esta realidade social, em muitas das suas manifestações, tem posto a descoberto, em vários aspectos, alguma fragilidade do processo evangelizador, mormente em relação aos jovens. A nossa missão pastoral, por todos os meios ao nosso alcance, tem de visar este fenómeno da mutação cultural, pois só assim ajudaremos a que os grandes valores éticos continuem presentes na compreensão e no exercício da liberdade.

2. Congratulamo-nos com a vasta e qualificada mobilização, verificada nas últimas semanas, em volta da defesa do carácter inviolável da vida humana e da dignidade da maternidade. É um sinal positivo de esperança. É importante que permaneça activa, que encontre a estrutura organizativa necessária, para continuar a participar neste debate de civilização.
O debate do referendo esteve centrado na justeza de um projecto de lei que, ao procurar despenalizar, acaba por legalizar o aborto. A partir de agora o nosso combate pela vida humana tem de visar, com mais intensidade e novos meios, os objectivos de sempre: ajudar as pessoas, esclarecer as consciências, criar condições para evitar o recurso ao aborto, legal ou clandestino. Esta luta deveria empenhar, progressivamente, toda a sociedade portuguesa: Estado, Igrejas, movimentos e grupos e restante sociedade civil. E os caminhos para se chegar a resultados positivos são, a nosso ver: a alteração de mentalidades, a formação da consciência, a ajuda concreta às mães em dificuldade.

3. A mudança de mentalidade interpela a nossa missão evangelizadora, de modo particular a evangelização dos jovens, das famílias e dos novos dinamismos sociais. Toda a missão da Igreja tem de ser, cada vez mais, pensada para um novo contexto da sociedade. São necessárias criatividade e ousadia, na fidelidade à missão da Igreja e às verdades evangélicas que a norteiam.
Faz parte dessa missão evangelizadora o esclarecimento das consciências. A Igreja respeita a consciência, o mais digno santuário da liberdade. Não a ameaça, nem atemoriza, mas quer ajudar a esclarecê-la com a verdade, pois só assim poderá exprimir a sua dignidade.
Esta verdade iluminadora das consciências provém de um sadio exercício da razão, no quadro da cultura; é-nos revelada por Deus, que vem ao encontro do ser humano; é património de uma comunidade, cuja tradição viva é fonte de verdade, enquadrando a dimensão individual da liberdade e da busca da verdade. Para os católicos, a verdade revelada, transmitida pela Igreja no quadro de uma tradição viva, é elemento fundamental no esclarecimento das consciências.
Aos católicos que, no aceso deste debate, se afastaram da verdade revelada e da doutrina da Igreja, convidamo-los a examinarem, no silêncio e tranquilidade do seu íntimo, as exigências de fidelidade à Igreja a que pertencem e às verdades fundamentais da sua doutrina.
Aos fiéis católicos lembramos, neste momento, que o facto de o aborto passar a ser legal, não o torna moralmente legítimo. Todo o aborto continua a ser um pecado grave, por não cumprimento do mandamento do Senhor, “não matarás”.
Apelamos aos médicos e profissionais de saúde para não hesitarem em recorrer ao estatuto de “objectores de consciência” que a Lei lhes garante.
Às mulheres grávidas que se sintam tentadas a recorrer ao aborto, aos pais dos seus filhos, pedimos que não se precipitem. A decisão de abortar é, na maior parte dos casos, tomada em grande solidão e sofrimento. Um filho que, no início, aparece como um problema, revela-se, tantas vezes, como a solução das suas vidas. Tantas mulheres que abortaram sentem, mais tarde, que se pudessem voltar atrás teriam evitado o acto errado. Abram-se com alguém, reflictam, em diálogo, na gravidade da sua decisão.

4. Mas há uma resposta urgente a dar ao drama do aborto: criar ou reforçar estruturas de apoio eficaz e amigo às mulheres a braços com uma maternidade não desejada e que consideram impossível levar até ao seu termo. Estudos recentes mostram que a maior parte das mulheres nessas circunstâncias, se fossem ajudadas não recorreriam ao aborto. É um dever de todos nós, de toda a sociedade, criar essas estruturas de apoio.
Uma das novidades da campanha do referendo foi o facto de muitos defensores do “Sim” – a começar pelo Governo da Nação, que se quis comprometer numa questão que não é de natureza estritamente política – afirmarem ser contra o aborto, quererem acabar com o aborto clandestino e diminuir o número de abortos. Registamos esse objectivo, mas pensamos que o único caminho eficaz e verdadeiramente humano é avançarmos significativamente na formação da juventude e no apoio à maternidade e à família. Não poderemos esquecer que, no quadro social actual, a maternidade se tornou mais difícil. No actual contexto das nossas sociedades ocidentais só se chegará a uma política equilibrada de natalidade com um apoio eficaz à maternidade, com particular atenção à maternidade em circunstâncias difíceis e, por vezes, dramáticas.
No que à Igreja diz respeito, continuaremos a incluir esta acção de acolhimento e ajuda às mães entre as nossas prioridades. Mas para que esta acção seja eficaz, precisa-se da convergência de todos, Estado e sociedade civil. Demo-nos as mãos para acabar com o aborto e tornar a lei, que agora se vai fazer, numa lei inútil.

5. A busca de uma solução, a médio e a longo prazo, tem de passar, também, por uma política de educação que forme para a liberdade, na responsabilidade, concretizada numa correcta educação da sexualidade. Esta constitui um dos dinamismos mais ricos e complexos do ser humano, onde se exprimem a dimensão relacional e a vocação para o amor e para a comunhão. Uma vivência desregrada da sexualidade é uma das principais causas das disfunções sociais e da infelicidade das pessoas. A sã educação da sexualidade há-de abrir para a gestão responsável da própria fecundidade, através de um planeamento familiar sadio, que respeite e integre as opções morais de cada um. Quando a geração de um filho não for fruto de irreflexão, mas de um acto responsável, estará resolvido, em grande parte, o problema do aborto.

6. A luta pela vida, pela dignificação de toda a vida humana, é uma das mais nobres tarefas civilizacionais. Não será o novo contexto legal que nos enfraquecerá no prosseguimento desta luta. A Igreja continuará fiel à sua missão de anúncio do Evangelho da vida em plenitude e de denúncia dos atentados contra a vida.


Fátima, 16 de Fevereiro de 2007

15 de fevereiro de 2007

A Sara, os maus tratos, defesa da vida e as hipocrisias

Vejo a TV, leio os jornais e páginas da Internet, ouço a rádio. Revolto-me.
E esta atitude resulta de várias situações dramáticas. Como é possível no meu País, civilizado, morrer uma criança de tenra idade - inocente, indefesa - devido à sequência de maus tratos, ademais pretensamente executados pela própria mãe? Como é possível interromper-se desta forma (tendencialmente propositada) o percurso histórico de um ser que, como todos os outros seres humanos, procurava simplesmente viver e ser feliz? Perante tal cenário, no nosso imaginário passam as previsíveis cenas de violência, os gritos, os choros, o sofrimento da Sara. Também nos lembraremos, quiçá, dos hipotéticos motivos que terão levado a mãe a ir cometendo tais actos: não aceitação da filha, desequilíbrios psíquicos e emocionais, falta de condições (mínimas) de vida, deficiente integração social, etc.. E vejo nas primeiras notícias da TV, leio nas primeiras páginas dos jornais e ouço de meia em meia hora na rádio, que o povo de Monção se revoltou. Mais, que um País – o meu País, civilizado – se revoltou. E todos querem justiça, condenação do(s) autor(es) de tão horrendo acto e, se possível, prisão por muitos anos. Até o ministro da solidariedade se revoltou, solidário com a Sara, com o povo de Monção e com o País. Envergonho-me de no meu País ainda haver mães que matam os filhos de tenra idade, mas orgulho-me ao assistir a esta reacção do povo português, sinal que defende a vida, mesmo a vida dos mais débeis. Porém, ponho-me a imaginar a Sarita há dois anos e tal atrás, com meia dúzia de semanitas, ainda aconchegada no ventre materno, bem protegida, ávida de vida. E começo a imaginar a mãe a cometer actos de violência física para com a filhita (que me dispenso de elencar para não ferir susceptibilidades) que culminam com a morte da Sarita. Neste hipotético cenário, este meu País – civilizado (?) mas com o complexo de ter ideias retrógradas e de não acompanhar os Estados modernos – cala-se, não se revolta e até o ministro da saúde (?) e todo o governo são cúmplices declarados e assumidos de tal acto. Além da aprovação explícita do homicídio, por maus tratos, até põem à disposição da autora moral do crime um hospital e profissionais de saúde qualificados – para matar em melhores condições –, todos pagos com o dinheiro dos meus impostos, dos impostos de todos os contribuintes. Perante esta astronómica hipocrisia já nem me atrevo a tocar na questão da penalização da autora moral do crime, por ser um problema de somenos importância (e uma falácia!). Como é possível que os mesmos que se revoltam e quase linchavam a mãe da Sara manifestem, no próximo referendo, aceitar que qualquer mãe interrompa voluntariamente a vida do filho que transporta no seu seio (para já, até às dez semanas)? Como é possível um governo revoltar-se publicamente (e exigir celeridade na justiça), quando apela, publicamente, ao “SIM” (ao aborto, bem entendido), no próximo referendo? Que sociedade hipócrita!
Quereremos nós – pelo menos nós, os cristãos, que aprendemos com Cristo a promover a VIDA, em todas as circunstâncias – arrastar-nos nesta onda?
Jorge Cotovio - Colaborador do Jornal da Família

14 de fevereiro de 2007

Extremos da Educação

“A sabedoria consiste na antecipação das consequências.”
(Norman Cousins)



Hoje parece ser crescente a preocupação com a obesidade e a anorexia. Os estudos apontam para o seu aumento e sabemos as complicações que lhes advêm. O mais indicado para evitar os excessos é descobrir que situações levam a cometê-los. Prevenção esta que deve começar desde o ventre materno. Assim, se desde o início da vida humana nos preocupamos com o peso, o que é saudável, porque não preocuparmo-nos com maior intensidade na prevenção de excessos na educação?
É do nosso conhecimento que o ser humano é um todo que comporta diferentes dimensões e todas elas requerem crescimento.
Se olharmos para as crianças que nos rodeiam, não estarão elas a crescer (obesas) em egoísmo, em insatisfação e inversamente a decrescer (anorécticas) em valores?
Vão-se enchendo cada vez mais de coisas, a ansiedade de ter de querer mais aumenta. Também parece que simultaneamente cresce a dificuldade da criança em libertar-se do que possui e decresce o saber partilhar, respeitar a diferença quando esta interfere com a sua. Segundo os entendidos faz parte da natureza humana comportar-se da forma pela qual se é tratado, educado. Logo neste processo, o adulto tem um papel muito importante a desempenhar. São os pais, os educadores, os professores que têm a responsabilidade de ajudar a construir uma base fundamental de valores permanentes, de valores que não têm preço, porque são a “vida” para os anseios mais profundos da alma. Anseios que não se satisfazem com muitas das coisas que a criança quer, pede, porque pensa que são importantes. Olhemos para a nossa actuação e reflictamos com sinceridade se estamos a (des)educar. É esta pauta de conduta que proporcionará que gradualmente a criança tome consciência das próprias atitudes e reconheça os sentimentos que movem suas acções muito mais importante do que favorecer uma avalanche de conhecimentos e informações.

por Carla Mão de Ferro


Sim à Vida e ao Amor

Este mês de Fevereiro, concretamente o dia 14, tem para muitas pessoas - e sobretudo para muitos jovens – um sabor especial pois, desde há uns anos a esta parte, se celebra nesse dia o “Dia dos namorados” ou o dia de “S. Valentim”.



À nossa volta, observamos a movimentação que já existe, os corações e “ursos de peluche” a engalanar as montras, os cartões com dedicatórias especiais para uma pessoa especial… enfim, um sem número de coisas que terão como objectivo ajudar as pessoas a surpreender a sua “cara-metade”.
Toda esta azáfama terá o seu lado positivo. Afinal, quem não gosta de ter um gesto de carinho para com aqueles de quem mais gosta - seja o namorado/a, ou seja um (a) amigo (a), um familiar muito próximo? Todo o ser humano tem necessidade de dar e receber carinho, tem necessidade de se sentir querido, tem necessidade de se dar, e é este dar-se na gratuidade que nos torna livres e felizes, é este dar-se na gratuidade que gera vida à nossa volta!
Perante esta realidade, olhando a sociedade em que vivo, deparando-me com os valores (ou contra-valores!) que orientam o nosso mundo, questiono-me se de verdade as pessoas ainda sabem DAR-SE, se preferem ser geradoras de Vida ou se, pelo contrário, se tornam construtoras de uma “cultura da morte”?!!! O meu pensamento vai para os nossos jovens, fruto desta sociedade e desta mentalidade consumista, egoísta, uma sociedade em que só o ter conta, em que “tudo vale”. Uma sociedade em que se confunde o Amor com o prazer de um momento, com uma aventura passageira e que por isso rejeita os compromissos, pelo que o casamento para uma vida inteira é para muitos um absurdo…
Hoje, mais do que nunca, torna-se urgente consciencializar as nossas famílias e, através delas, os jovens, para a importância e a responsabilidade da educação sexual, não esquecendo nunca de que a sexualidade é um dom, é um valor da pessoa e que só tem sentido quando leva a pessoa ao dom de si. A este respeito, diz-nos o tão querido João Paulo II: “A educação para o amor como dom de si, constitui também a premissa indispensável para os pais que são chamados a oferecer aos filhos uma clara e delicada educação sexual. Perante uma cultura que ‘banaliza’ em grande parte a sexualidade humana, porque a interpreta e a vive de maneira redutiva e empobrecida, reduzindo-a unicamente ao corpo e ao prazer egoístico, o serviço educativo dos pais deve visar firmemente uma cultura sexual que seja verdadeiramente e plenamente pessoal: A sexualidade, de facto, é uma riqueza de toda a pessoa, - corpo, sensibilidade e alma – e manifesta o seu íntimo significado ao levar a pessoa para o dom de si no amor” (Sagrada congregação para a educação católica – Orientações educativas sobre o amor humano, Linhas gerais para uma educação sexual, nº 16). De acordo com o mesmo documento, a preparação dos jovens para o matrimónio, deve ter em conta uma exacta visão da ética cristã sobre a sexualidade. Deve haver, por isso, uma catequese continuada que tende a manter e robustecer a castidade própria dos namorados, a prepará-los para a vida conjugal, vivida cristãmente, e para a missão específica que os cônjuges têm no meio do Povo de Deus. Neste momento da nossa história em que a vida é fortemente ameaçada – em que é mesmo referendada – o meu apelo vai para todos os jovens e para a sua generosidade.
Não se deixem seduzir pelo mais fácil, por aventuras que podem dar um prazer momentâneo mas que depois… apenas fica o vazio, a revolta… Quantas vidas destroçadas, quantos jovens sem esperança, sem projectos, para quem já nada faz sentido! Não nos deixemos arrastar por esta corrente, tenhamos a coragem de remar contra a maré e de dizer SIM à Vida, SIM ao Amor que constrói! Tenhamos a coragem de reconhecer e deixar que Cristo, O Mestre da Vida e do Amor, seja não somente Senhor e Deus do mundo e da humanidade, mas que seja também Senhor e Deus desta existência humana concreta de cada um e de cada uma!


por Elisabete Puga


13 de fevereiro de 2007

França: cristãos, judeus e muçulmanos contra casamento homossexual

Declaração inter-religiosa em favor da família


Numa declaração comum, os responsáveis cristãos, judeus e muçulmanos da região de Lyon, França, chamam a atenção sobre a instituição do matrimónio como referência fundamental da humanidade. Entre os que assinaram a declaração, datada de 6 de fevereiro passado, encontra-se o cardeal Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon. «A questão -- diz a declaração -- é saber hoje se a lei pode autorizar o matrimónio de duas pessoas do mesmo sexo. Não se trata de um simples debate de sociedade, mas de uma escolha maior, sem precedentes na história da humanidade. Não é um presente que se deva dar às gerações futuras.» Os que assinaram a declaração sublinham que «já existe bastante sofrimento ocasionado pela fragilidade dos laços familiares, sem falar das doenças que afectam nossos entes queridos. Esta fragilização deve-se, para muitos, à dificuldade que os adultos encontram para ajudar aos jovens a construírem a sua vida». «Como poderão estes adquirir uma formação sólida, enfrentar o seu futuro com confiança, cumprir com a obrigação de uma profissão e construir sua própria família no equilíbrio, se relativizarmos a instituição do matrimónio?», perguntam os líderes religiosos. «É capital não fazer com esta referência fundamental da humanidade não se torne confusa», respondem. Uma instituição tão essencial, recordam os signatários da declaração, «não pode estar submetida às flutuações das correntes de pensamento. Ela situa-se muito além das diferenças religiosas ou das separações ideológicas». Num momento no qual muitos docentes constatam a dificuldade dos jovens nascidos em famílias desestruturadas de seguir correctamente a sua escolaridade, perguntam os líderes religiosos: «Podemos verdadeiramente pensar numa tal perturbação, cujas consequências poderiam ser devastadoras?». «A experiência mostra que estamos a pagar caro hoje por ter deixado que destruíssem a natureza -- afirmam. Não vamos agora desestruturar a humanidade, que é o centro de toda a criação.» A declaração conclui afirmando que «é uma mentira achar que é indiferente para uma criança crescer ou não com um pai e uma mãe. As referências fundamentais da história da humanidade constroem-se na diferença e na complementaridade do homem e da mulher». «Os crentes vêem que isso é testificado pelos relatos da criação, que lhes transmite a Palavra de Deus: ‘No princípio, Deus criou o homem e a mulher’. Estão chamados a unir-se no matrimónio para dar a vida e fazê-la crescer. Tal é a base original sobre a qual se fundam as nossas vidas pessoais, as nossas famílias e as nossas sociedades. Não nos esqueçamos de que é frágil!» Assinam a declaração o cardeal Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon; Azzedine Gaci, presidente do Conselho Regional do Culto Muçulmano Ródano-Alpes; o Pe. Athanase Iskos, sacerdote da Igreja Ortodoxa Grega; Kamel Kabtane, reitor da Mesquita de Lyon; o reverendo Chris Martin, ministro da Igreja Anglicana; o pastor Jean-Fréderic Patrzynski, da Igreja Luterana; Richard Wertenschlag, grão-rabino de Lyon e da região Ródano-Alpes; o pastor John Wilson, da Igreja Evangélica Baptista; e Dom Norvan Zakarian, bispo da Igreja Armênia Apostólica.
Agência Zenit


12 de fevereiro de 2007

Segunda-feira, logo pela manhã

E pronto! Lá temos de voltar à vida real. Andámos estas semanas em discussões fundamentais, questões de vida e de morte, liberdade e prisão. Apaixonámo-nos, argumentámos, discutimos. Mas agora acabou-se. Temos de regressar à monotonia do trabalho, à dureza concreta, às dificuldades quotidianas. Entretanto, Portugal recuou mais um pouco.
Como bons portugueses, adoramos estas discussões ociosas, que nada têm a ver com a vida autêntica, os problemas resolúveis, o que podemos fazer. Não passam de abstracções inatingíveis, conceptualizações insolúveis, pormenores transcendentes. Mas parecem sempre basilares, decisivos, candentes. Fingem mesmo ser essenciais.
Apaixonam-nos porque nos fazem sentir importantes. Naqueles momentos em que discursamos à mesa do café, teorizamos diante dos miúdos ou protestamos com a televisão, nessas alturas estamos mesmo no topo do mundo. Falamos de igual para igual com os líderes das potências e os especialistas famosos. Temos nas mãos o futuro da Humanidade. Até nos esquecemos da hipoteca, do lumbago, do chefe embirrento. Afinal, o nosso voto muda o mundo. Que no entanto regressa sempre pior logo na segunda de manhã.
Os políticos, ansiosos por nos satisfazer, fornecem um fluxo permanente de questões inócuas e ociosas. É o regresso do circo romano. Vivemos assim todo o Liberalismo e I República. Salazar foi mestre na técnica, usando tudo, dos grémios aos delfins, passando pelo império e a glória.
Em democracia, o simples calendário eleitoral em geral chega. Como nos divertimos naqueles longos meses de debates dos candidatos à Presidência! A economia não crescia, o défice piorava, a casa de banho tinha infiltrações, mas tudo se esfumava diante de questões incontornáveis, como a personalidade de Cavaco, o passado de Soares, a rebeldia de Alegre. Cada um deles dependia totalmente de nós. Íamos decidir o País. Não a economia, o défice, a casa de banho, mas o País, a Humanidade, o Universo. Aquilo que não existe.
Na falta de uma sumarenta eleição presidencial, contentamo-nos até com um escândalo na junta de freguesia. Mas há alturas, como esta, em que a realidade aperta e não existem sedativos eficazes. O Governo sofre com as dolorosas reformas, e não tem nada com que nos distrair. Há até o perigo de os cafés, sem temas abstractos, começarem a discutir política real e problemas verdadeiros. Existe a possibilidade remota de se virem a revelar os aspectos relevantes, interesses instalados, podres escondidos. Perante esse susto, o que há a fazer é seguir o sábio conselho do grande ilusionista.
António Guterres foi quem, em condições bem difíceis, conseguiu iludir o problema de forma magistral. Construía-se então a estrutura corporativa da III República e o Orçamento inchava com subsídios, regalias, direitos adquiridos. Mas o horizonte não trazia nenhuma questão inútil para distrair os contribuintes. O golpe genial foi fazer no mesmo ano dois referendos suscitando dois problemas insolúveis e inconsequentes, mas tão sumarentos em discussão que nenhum português lhes conseguiria resistir: os limites da vida e os contornos do País.
Foi talvez um exagero, mas a situação exigia medidas rápidas. Subir o orçamento em quase dez pontos do PIB sem que ninguém notasse foi prestidigitação ímpar. Infelizmente o artista nunca foi reconhecido e, perante a estagnação económica e o atraso na Europa, teve de fugir. Mas a lição ficou. Sócrates, discípulo fiel, com a mesma besta orçamental a resistir ao domador, lançou mão do primeiro estratagema. Que é o mais garantido, porque, ao tocar na Igreja, assegura o poder distractivo.
O inconveniente destas substâncias intoxicantes é a ressaca do dia seguinte. Hoje é a segunda-feira de manhã, em que a rua, cheia de cartazes e canas de foguetes, nos lembra a nulidade do esforço. Pior, este é o dia de voltar à vida real, aos empregos sem saída, aos impostos que não descem, à torneira que pinga. A luta foi emocionante, mas realmente não serviu para nada. Estamos mais cansados, combativos, irritados, mas não mais ricos, produtivos, felizes. O drama do aborto continua, os problemas de saúde mantêm-se, a vida recomeça igual. Só os extremistas, que odeiam a sociedade, lucraram com o tempo perdido.
Esta é a sina do português, capaz de esquecer tudo por uma boa discussão de taberna, quanto mais abstracta melhor. Enquanto a vida passa e as crianças choram, logo na segunda-feira pela manhã.

João César das Neves - Professor universitário



SEXUALIDADE - Paradigmas para uma reflexão (4º tema)

4. Um olhar a partir das ‘ciências antropológicas’


Já se afirmou neste espaço que a sexualidade humana encerra em si uma dinâmica de humanização. Também já se sublinhou a influência que a cultura tem nesta reflexão (porque tudo o que é humano tem a ver com a cultura) e o contributo que o pensamento cristão deve dar para a ‘construção’ de uma cultura que seja capaz de dizer o humano na sua totalidade também a este nível (porque a fé tem sempre de ser traduzida e expressada de um modo cultural).
De facto, a reflexão cristã acerca da sexualidade, pode ser sem dúvida uma mais valia em todo este percurso - para nós crentes é-o de uma maneira clara e inequívoca -, mas ela não pode de modo nenhum dispensar e ignorar os importantes contributos que as chamadas ciências antropológicas têm dado para a elaboração de um paradigma personalista da sexualidade. Por isso, e antes de avançarmos propriamente para o contributo explícito da fé neste campo, convém lançar um olhar sobre algumas das suas reflexões, que a modo de exemplo enumero de seguida, com a consciência clara de que cada uma delas mereceria um comentário que exigiria muitas mais linhas do que aquelas que aqui estão disponíveis (para esta enumeração inspiro-me em Augusto Cabral, Sentido e critérios éticos da sexualidade, in Educar é amar, Pastoral Catequética 4, SNEC, Lisboa 2006, 45-46):
- Afirma-se a complexidade do fenómeno da realidade sexual;
- Toda essa complexidade se resolve, definitivamente, numa unidade: a pessoa humana;
- A reflexão sobre a sexualidade humana ajuda a descobrir o mistério da pessoa, tal como a reflexão sobre a pessoa ajuda-nos a entender melhor a sexualidade humana;
- A estrutura sexual é um dos lugares privilegiados em que a pessoa pode experimentar a passagem do âmbito do vital (biológico e físico) para o âmbito do humano;
- A sexualidade é uma das grandes possibilidades que a pessoa tem.
- A sexualidade é uma grande força que empurra a pessoa a sair de si própria. A saída biológica do seio materno e a abertura psicológica na adolescência são dois momentos que exemplificam bem esta abertura em que o indivíduo se lança à aventura de conhecer um ‘novo mundo’ que não se reduz ao seu;
- A sexualidade humana é uma estrutura antropológica onde e mediante a qual a pessoa pode também viver e realizar a abertura na dimensão da entrega, da oferta e do dom de si mesmo;
- A sexualidade humana é uma forma de intencionalidade e de expressão da existência, uma mediação da intersubjectividade, uma a-tmosfera e uma linguagem;
- A sexualidade humana é um comportamento e não uma função e, enquanto comportamento, é expressão ou linguagem de uma existência pessoal;
- A sexualidade humana tem um carácter dialogal que concretiza, através do corpo, a intersu-bjectividade e intencionalidade do indivíduo;
- A sexualidade humana é uma linguagem de comunicação e diálogo entre as pessoas, entre o “eu-tu” que cria a necessidade e a aceitação do “nós”, que, por sua vez, se abre ao “vós” para formar a grande família humana.
Basta esta pequena enumeração para percebermos a riqueza do caminho percorrido e o quanto a reflexão cristã pode de facto ganhar com este contributo. Claro que estamos conscientes de que, para além destas, muitas outras afirmações têm sido produzidas noutros sentidos e noutras direcções, mas também elas não podem ser ignoradas pela reflexão cristã. É que o amor de Deus pela humanidade tem a ver com o homem concreto de cada tempo, com aquilo que ele já foi capaz de percorrer no caminho da sua humanização (potenciando, facilitando, ‘empurrando-o nesse caminho’), e com aquilo que ainda lhe falta percorrer, ou que porventura sejam mesmos passos atrás (denunciado, interpelando convidando a novos itinerários).
Apesar das muitas fragilidades e mesmo dos erros que possamos encontrar no contributo das ‘ciências antropológicas’, é forçoso reconhecer que ele é mesmo indispensável e importantíssimo nesta procura de paradigmas que nos ajudem a reflectir a sexualidade humana. O olhar da fé, que queremos lançar sobre esta realidade, tem que levar a sério este contributo, para se deixar enriquecer por ele e para o poder enriquecer.

por Juan Ambrósio


8 de fevereiro de 2007

A pessoa humana no centro da Paz

Como se pode garantir uma paz segura? Os valores da paz resultam apenas de convenções humanas? Os direitos humanos são criação das leis dos Estados e variam com as suas conveniências?


A estas e outras questões semelhantes responde o Papa na Mensagem para o Dia Mundial da Paz com o tema “A pessoa humana coração da paz”. A paz assenta no respeito pelos direitos humanos e estes fundamentam-se “na própria natureza humana e na sua inalienável dignidade de pessoa criada por Deus”. Rigoroso e claro o Papa vai directamente às questões essenciais. Ou admitimos valores absolutos, normas morais e jurídicas universais e encontramos para eles fundamento na natureza humana anterior a qualquer prescrição e legislação humana, ou teremos de nos contentar com as visões relativistas e positivistas desses mesmos valores e normas que os consideram derivados do meio social e variáveis segundo diversas ordens de conveniências contextualmente avaliadas. Estas dão lugar, no entender do Papa, a uma “concepção débil” dos direitos humanos e uma base muito frágil para a construção da paz. “. “É importante que os Organismos internacionais não percam de vista o fundamento natural dos direitos do homem” – diz o Papa – “Sem esta clareza, acaba-se por utilizar a mesma expressão ‘direitos humanos’, mas subentendendo sujeitos bem distintos entre si: para uns, a pessoa humana dotada de dignidade permanente e de direitos sempre válidos, em toda a parte e para todos; para outros, uma pessoa de dignidade mutável e de direitos sempre negociáveis nos conteúdos, no tempo e no espaço.” O ponto de vista do Papa insere-se na argumentação tradicional da Igreja no plano dos princípios éticos e normas jurídicas. Opõem-se-lhe as concepções positivistas e utilitaristas da moral e do direito. A moral e o direito são ou não meras convenções sociais? Esta a questão. As duas respostas são perceptíveis nas argumentações do actual debate sobre o aborto. Todo o ser humano é pessoa, “alguém, capaz de se conhecer, de se possuir e livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas”. A pessoa humana tem uma dignidade inalienável que faz dela sujeito de direitos e deveres. A dignidade da pessoa é permanente e os seus direitos “sempre válidos, em toda a parte e para todos” porque radicam na sua própria natureza. Há um direito natural, normas e princípios que regulam o mundo das pessoas para que elas actuem como pessoas e garantam o respeito por si próprias e pelas outras pessoas. O reconhecimento da dignidade da pessoa humana e do direito natural que regula as relações humanas são “pressuposto fundamental para uma autêntica paz” e para o diálogo entre todos os homens, qualquer que seja a sua crença e religião. Na igualdade essencial da natureza humana radicam os direitos fundamentais do homem. Devem ser respeitados por todos e tutelados pelas instituições. São direitos fundamentais o direito à vida e à liberdade religiosa,” à livre expressão da própria fé em Deus”. “A vida é um dom de que o sujeito não tem plena disponibilidade. (…) O direito à liberdade religiosa põe o ser humano em relação com um princípio transcendente que o furta ao arbítrio do homem.” (4) Os atentados à vida abrangem as diversas formas de violência desde os conflitos armados e agressões terroristas, passando pelas mortes silenciosas provocadas pela opressão, pobreza e subdesenvolvimento, a fome, as doenças e epidemias, até aos atentados contra a vida nas sociedades prósperas e desenvolvidas no aborto, eutanásia ou pesquisa e aplicações desreguladas de conhecimentos e técnicas biológicas. É inaceitável qualquer concepção de Deus ou ideologia que incite ao ódio, estimule a violência, o desprezo pela vida e os direitos básicos da pessoa humana. A liberdade religiosa é coarctada pela legislação de Estados que proíbem a profissão pública da determinada religião, por aqueles que limitam os direitos de cidadania aos crentes de outras religiões ou impõem “um sistemático desprezo cultural quanto às crenças religiosas”. Pare lá das variantes individuais e diferenças na condição social, todas as pessoas humanas são iguais por natureza, têm a mesma dignidade essencial. Todas merecem o mesmo respeito e possuem os mesmos direitos fundamentais. Respeitar esses direitos, suprimir as injustas discriminações são condição indispensável para uma paz justa. O Papa chama a atenção para “as inúmeras injustas desigualdades ainda tragicamente presentes no mundo.” Entre elas, “as desigualdades no acesso a bens essenciais, como a comida, a água, a casa, a saúde” – nomeadamente as ocasionadas pela escassez de energia e respectivos custos que bloqueia o desenvolvimento em algumas regiões do mundo –, e “as contínuas desigualdades entre homem e mulher no exercício dos direitos humanos fundamentais” que, em determinadas culturas, sujeitam as mulheres ao arbítrio do homem, lhe cerceiam as liberdades fundamentais ou lhe dão tratamento de objectos. O Papa aborda ainda a questão da ecologia, acentuando o protagonismo do factor humano. “Ao lado da ecologia da natureza existe uma ecologia que podemos designar “humana”, a qual, por sua vez, requer uma “ecologia social”. (…) A experiência demonstra que toda a atitude de desprezo pelo ambiente provoca danos à convivência humana, e vice-versa.” “A paz com a criação” tem a ver com “a paz entre os homens.” Nesta perspectiva, coloca a questão do abastecimento energético. Impõe-se uma justa distribuição dos recursos energéticos e de todos os outros que contribua para o desenvolvimento humano integral, especialmente das regiões mais pobres. “A destruição do ambiente, um uso impróprio ou egoísta do mesmo e a apropriação violenta dos recursos da terra geram lacerações, conflitos e guerras” e incentivam “as capacidades destruidoras do homem.” Só a aceitação dum fundamento essencial, baseado na natureza da pessoa humana – acentua o Papa nesta Mensagem – pode evitar o direito do mais forte. É necessário caminhar para lá. As instituições internacionais devem estabelecer regras, garantir o cumprimento de acordos e normas de salvaguarda da paz, e gerir pelo diálogo e negociação os focos de conflito que vão pululando pelo mundo. Entre eles estão o acesso aos recursos energéticos, o Médio Oriente e a proliferação das armas nucleares.


Por Octávio Gil Morgadinho


6 de fevereiro de 2007

Liberalização do Aborto não é igual a Pena de Morte?

Fiquei agradavelmente surpreendida quando há dias a “Lusa” publicava o anúncio do Ministro da Justiça, Alberto Costa, de que Portugal vai realizar em Lisboa uma conferência contra a pena de morte, no quadro da presidência da União Europeia.
Todos sabemos que Portugal foi pioneiro em acabar com a pena de morte. E tal iniciativa só pode ser louvável. O que não se entende é de que lado está o Ministro. Como se pode ser simultaneamente a favor e contra a pena de morte?
Não é o mesmo Ministro da Justiça Dr. Alberto Costa, pública e expressamente a favor da despenalização = discriminalização (legalização = liberalização) do aborto? E a despenalização do aborto até às dez semanas, sem qualquer motivo, se não o livre arbítrio da mulher grávida, não é o mesmo que aceitar e promover (as leis têm também uma função dissuasora) a pena de morte senão por decreto positivo, por omissão ou negação do direito à vida de seres humanos inocentes e indefesos? Não será o anúncio de tal iniciativa uma antecipada necessidade de limpar o rosto da nação portuguesa salpicado de sangue, da ignóbil matança de inocentes, perante uma hipotética vitória do sim?
Esperemos que o povo português tenha o bom senso de ouvir o rebate da consciência (que por ser a voz de Deus, não pode ser outra do que o respeito profundo pela vida e consequentemente um não determinado e firme no referendo), poupando-lhe assim o trabalho de ter de explicar em que princípios jurídicos se fundamenta o limite do direito à vida de uns, para defender o direito aos prazeres de outros… ou melhor, a substituição do direito de nascer pelo direito de abortar.
A verdade nua e crua, indesmentível, é que o aborto em qualquer momento da gravidez, sem um grave motivo, viola o princípio do direito à vida nascente, porquanto dá a morte a um ser humano inocente e indefeso, e, como diz Guardini, «não é lícito destruir a vida do ser humano que amadurece no seio materno, pelo facto de não ter cometido nenhum delito nem ter posto o seu agressor em situação de legítima defesa». E o Estado tem o dever sagrado de proteger a vida dos cidadãos, particularmente dos mais fracos. Descomprometer-se de assegurar o mais fundamental dos direitos humanos o direito a nascer e mais ainda apagar esse direito, é renunciar à sua própria razão de ser.


por Dulce Teixeira de Sousa


5 de fevereiro de 2007

O verdadeiro combate pela liberdade


"Eu sou contra o aborto e até acho que está ali uma vida humana. Mas não devo impor esta minha opinião aos outros. Tem de haver liberdade para decidir." Muitas pessoas votarão "sim" no próximo referendo com esta posição. Acham que em tema tão decisivo para a vida da mulher deve dar-se liberdade.
O mais espantoso neste raciocínio é que este é o único campo em que é aplicado. Em todos os outros aspectos sociais ninguém raciocina deste modo. Nunca se ouviu dizer: "Eu até acho que se deve conduzir devagar, mas cada um é livre de andar como quiser"; ou "Eu até penso que não se deve despedir sem justa causa, mas a liberdade empresarial deve prevalecer"; ou ainda "Eu até sou contra a droga, mas cada um que decida". Em todos os sectores da vida o Estado impõe-nos uma conduta e atitude, limites apertados à vigência da liberdade. Só aqui, onde está em causa a protecção de uma vida humana embrionária, só aqui se quer impor a absoluta autonomia.É evidente que cada um tem liberdade de pensar o que quiser sobre o início da vida humana. Mas quando se fala da destruição dessa vida então essa, como todas as liberdades, tem de ser regulada e protegida. Cada um também tem liberdade de escolher a casa que quiser desde que respeite o plano urbanístico, de escrever o que lhe apetece mas sujeito à lei de imprensa, às regras da privacidade, ao código da publicidade. Quanto mais importante a liberdade, mais regras a defendem. Porque não se protege a liberdade de nascer?O drama do aborto vem do confronto de duas situações gravíssimas. Quem se propõe praticá-lo só o faz em caso-limite, em situações onde estão em jogo coisas decisivas. Mas o embrião que sofre o aborto tem toda a sua pessoa envolvida nele de forma ainda mais decisiva. Pode compreender-se que o Estado não se meta nas decisões íntimas dos cidadãos. Mas pode deixar à liberdade de cada um a decisão de eliminar a vida de outro? Para mais, inocente? Ter em atenção o primeiro elemento, ignorando o segundo, é uma irresponsabilidade incrível.
Em todos os assuntos o Estado tem uma política, uma regulamentação, um instituto. Fá-lo para garantir o bem-estar, promover a justiça, assegurar o futuro e o progresso. Claro que essas leis e limites criam muitos incómodos, mas sempre em nome de um valor superior. Que bem-estar é mais importante que o do bebé em gestação? Que justiça é mais sublime que a dos inocentes? Que futuro, que progresso para Portugal sem embriões, sem filhos, sem vida? Será que o direito à irresponsabilidade paternal se sobrepõe ao direito à vida?Vivemos num tempo de causas, de campanhas, de ideais. Defendem-se as águias pesqueiras e as ruínas celtas, a cozinha tradicional e a camada de ozono, o sexo seguro e a higiene dentária. Só as crianças antes de nascer têm de ficar sem protecção... em nome da liberdade? Será que ninguém lhes dá a liberdade sequer de respirar e olhar para o Sol? Será que a liberdade de cada um determinar quando começa a vida humana é mais importante que a liberdade de nascer?Claro que o Estado quer regulamentar também este tema. Mas só pretende fazê-lo a partir das dez semanas de vida. A lei protegeria o direito à vida, mas só após as dez semanas. Porquê? Por que razão o feto com 11 semanas teria protecção e o de nove não? Que estudo, conceito, ideologia, argumento suporta tal decisão? A resposta, simplesmente, é que dá jeito que assim seja. Há conveniência nesse limite. E o direito à vida ficaria sujeito aos interesses. Não é novidade, pois este tem sido sempre o princípio original da opressão.O mais patético desta situação é que os filhos e netos daqueles que lutaram para conseguir as nossas liberdades julgam continuar essa tradição combatendo agora pela liberdade de abortar. Os seus pais militaram contra a ditadura e a guerra colonial, os seus avós resistiram à censura e demagogia, ao racismo e genocídio.
Mas na sociedade que sacrifica a liberdade à qualidade de vida, o tema que motiva a intervenção é a liberdade sexual. Mesmo sacrificando a vida do filho.Pensam copiar velhas glórias, mas não notam que, ao fazê-lo, caem na posição dos antigos opressores. Não vêem que a luta que marcará este tempo, a generosidade heróica da nossa geração, é precisamente a defesa da vida contra a ditadura do hedonismo.Continuamos a ter heróis no combate pela liberdade, mas esses estão do lado do "não", afirmando a liberdade de nascer, de ter um nome, de ser alguém.

João César das Neves - Professor Universitário


2 de fevereiro de 2007

"Um filho para a eternidade"



"Um Filho para a Eternidade" de Isabelle de Mézerac, leva-nos a viver um turbilhão de sentimentos aquando de uma espera morosa de um filho, que à partida, não sobreviveria após o seu nascimento.
Este é um testemunho de uma mãe que se aventura a receber este filho que está condenado (por deficiência), desde o início, a morrer. Apesar do sofrimento, Isabelle, mesmo incentivada do contrário, leva esta gravidez até ao fim, "ir o mais longe possível na relação com aquele que vai morrer, inclusive por tratar-se de um filho que vai nascer, deixa-nos tempo para dar tudo, dizer tudo e autoriza-nos a reerguer a vida", ir mais longe porque este ser tem o direito que a sua vida termine por si e não ser interrompida por quem se achar de direito.
Aquela criança passaria pela sua família, deixaria lembranças e saudades, isso exigiria "olhar o nosso sofrimento de frente, sem pretender esquivar-se, enfrentar a morte na sua hora, sem querer antecipá-la, é tudo o que aprendi com Emmanuel, e é por isso que reergo a vida!".
Emmanuel com a sua curta vida constrói um laço com os seus que depois se manifesta neles, "olhou-me intensamente (um dos filhos), e através das suas lágrimas garantiu-me que agora sabia que eu o teria amado, até ao fim, mesmo se ele tivesse tido uma mal-formação!"
Este livro leva-nos a sentir de uma outra forma muitas questões que surgem à volta de uma criança que está para nascer, cheia de dúvidas...

por Maria Matos



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