Diário da Assembleia Geral do ISCF

“Tudo o que se fizer a bem da família, por pequeno que seja é grande”. (Mons. Brás)

A Família no centro das atenções

Encontra aqui os vários artigos do Dr. Juan Ambrósio sobre a Família...

Encontro Mundial das Famílias 2015

O Vaticano apresentou dia 24 de março em conferência de imprensa o 7.º Encontro Mundial da Família, que vai decorrer de 22 a 27 de setembro de 2015 na cidade norte-americana de Filadélfia.

A saúde mental dos portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...

O trabalho, dom e direito

A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...

Longe vão os tempos

Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...

Dar esperança em tempo de crise

Vivemos tempos difíceis. A família, como célula base da sociedade, é imediatamente afetada por esta crise generalizada e que promete perdurar. Neste contexto, exige-se um novo paradigma, uma nova forma de estar e de nos relacionarmos.

2 de janeiro de 2007

O jogo do sim ou não à vida nascente


Sendo a Família berço da vida e do amor, a cujo serviço se dedica o “Jornal da Família”, não pode, este, se não situar-se inequivocamente do lado da vida e portanto do lado do não ao referendo e, nele, do não à despenalização, melhor, à liberalização do aborto, pois é disso que se trata – aborto livre e gratuito até às dez semanas.
É erróneo e enganoso falar de interrupção voluntária da gravidez, como se o ciclo da vida pudesse ser interrompido por uns tempos e depois retomado ainda que com algum prejuízo. É essa uma forma de obscurecer a verdade. O aborto não interrompe o ciclo da vida, antes, acaba com ela, destrói-a, mata-a. Nem se pode argumentar que às dez semanas o feto não é um ser humano. Se o não é às dez semanas, então também o não é, às onze, às doze ou às dezasseis, pois nada há de novo no percurso, apenas a evolução natural do crescimento e aperfeiçoamento biológico, psíquico e espiritual que continuará para além do nascimento, durante todo o ciclo vital.
Que falta de lógica e de objectividade, pretender-se que a mesma acção possa ser considerada umas vezes boa, outras vezes má. Um dia merecedora de elogio, e uma semana depois considerada crime…
Pura arbitratriedade!... Para já, enquanto a ciência não for capaz de provar o contrário, a vida humana começa no “momento da concepção e termina no momento da morte”. A defesa e a promoção da vida humana é um direito e um dever inalienável de cada um de nós. A verdade por mais cruel que possa parecer, é esta. Decretar a liberdade do aborto, é decretar a pena de morte ao bebé indefeso. É próprio do instinto animal a conservação da espécie. Estranho é que assim não fosse na espécie humana. O ventre da mulher é berço acolhedor da vida, não antro de morte.
Ao contrário do que os mentores do sim querem fazer querer, um sistema jurídico e penal de protecção à vida humana em qualquer das fases da sua existência histórica, e a suposta punição do crime contra ela, também em sua fase inicial, e portanto punindo o crime do aborto, longe de ser retrógrado e hipócrita, é progressista, porque é humanizante. Significa o reconhecimento do exercício da liberdade pessoal, que supõe naturalmente responsabilidade, ou imputabilidade dos actos humanos. A descriminalização ou liberalização do aborto por que alguns pelejam, essa sim, é querer passar às mulheres um atestado de menoridade psicológica e jurídica, considerando-as inimputáveis de seus actos, é usá-las de modo grosseiro, economicista, e egoísta, como se o corpo da mulher fosse uma coisa, estranha a si mesma uma propriedade que pode ser usada, vendida e deitada fora, arbitrariamente. Pretende-se com isso, tão só desviar a questão do aborto.
Ora, a questão primacial do aborto, centra-se na criança, o bem protegido, a gravidade da ofensa à criança e a imputação do crime; E disto quase não se fala, escondem-se as atrocidades a que é sujeita, por que se quer esconder a verdade. È que, como diz o famoso obstreta abortista Bernard Nathanson, arreligioso, actor directo de 5.000 abortos e indirecto (feitos sob suas ordens) de 60.000, hoje acérrimo defensor da vida intra-uterina, a táctica do engano e da mentira, é a principal arma dos mentores do aborto.
Defender o não à despenalização do aborto, não é como os mentores do sim propagandeiam, ódio ou menosprezo pela mulher. Se assim fosse muitas mulheres odiar-se-iam e menosprezar-se-iam a si próprias. Por exemplo, eu sou mulher, com uma auto-estima bastante razoável, para não dizer presunçosamente elevada, orgulho-me de ser o que sou, e digo não à despenalização do aborto. O que está em causa no referendo, não é a condenação ou absolvição da mulher, A penalização ou despenalização é outra questão. Tratemos as coisas sérias com seriedade e chamemos cada coisa pelo seu nome. O que verdadeiramente está em causa no referendo é a questão de decidir se o aborto é ou não é crime. Se é uma acção boa ou perversa, um acto louvável, apreciável e como tal legalmente protegido e apoiado, ou um acto monstruoso e por isso condenável, punível por lei. Por outras palavras: O que se vai decidir no referendo, é se o ser humano no seio da mãe tem direito à vida e por conseguinte direito a ser legalmente protegido (nesse caso, a lei não pode deixar de prever a punição de quem atenta contra a sua vida, mesmo se as circunstâncias atenuantes, aliás, já previstas na Lei, possam diminuir ou eximir da punição os puníveis), ou se, pelo contrário, como querem os adeptos do sim, o ser humano no seio da mãe não tem direito à vida, não tem direito a ser legalmente protegido (e então condena-se impunemente à morte o bebé inocente, dá-se cobertura legal e dão-se alvíssaras a quem atentar contra a sua vida).
Arrogar-se o poder de dispor arbitrariamente da vida ou da morte de um ser humano, é pura petulância. Pretender-se transformar um pecado numa virtude, um crime numa acção louvável, digna de ser apoiada economicamente pelo Estado, é patologia social. Pessoas sensatas, cultas, pensantes, com nobreza de carácter, com intuição e saber jurídico, olham a vida como ela é, uma realidade sagrada e por isso inviolável, e não podem se não defendê-la e promovê-la. Evidentemente que não é difícil perceber o jogo maquiavélico de interesses inconfessáveis por detrás da propaganda abortista. Quem não se deu conta da coincidência da aprovação da Lei do referendo na Assembleia da República com o anúncio quase em simultâneo da implantação imediata de clínicas abortivas, no coração da capital, trocando-as pelas maternidades? Ou o aproveitamento dos espaços e recursos da melhor maternidade do país, Alfedro da Costa, para fazer descaradamente campanha abortista? Curioso é que o Governo sinta tanta vergonha e humilhação por umas tantas mulheres, portuguesas irem voluntariamente abortar ao país vizinho, e simultaneamente se sinta tão honrado por um número significativo de mães portuguesas se verem obrigadas a ir ao mesmo país vizinho, ter os seus filhos… se os querem ter em segurança.
Como se pode conciliar, o encerramento de maternidades, e centros de saúde, as listas de espera, pessoas a ser chamadas para uma intervenção cirúrgica, um tratamento ou mesmo uma simples consulta, meses e anos depois de terem morrido, à mingua de tratamento adequado, o aumento das tachas moderadoras das consultas e exames clínicos, a fixação de taxas de internamento hospitalar, e de intervenção cirúrgica, diminuição da comparticipação nos medicamentos, a diminuição das pensões, etc, por não haver dinheiro, e a promessa de suportar o custo de clínicas abortivas, propiciando assim aborto gratuito, em complemento à distribuição gratuita de droga, pílulas, preservativos, facilitando ou mesmo promovendo a viciação sexual de crianças e jovens, para arranjar clientela aos matadouros de bebés inocentes? E tudo isto pago com o dinheiro que o Governo saca dos nossos bolsos aumentando continuamente os impostos…
Mais, a legalização do aborto, é uma grave violação do direito constitucional português e uma aberração do sistema jurídico, porque significa o desrespeito do ser humano como pessoa, numa fase da sua existência em que nada pode fazer de per si para se defender. É tentar ignorar que o “direito à vida” é anterior a todo e qualquer outro direito. É ignorar que o “direito à vida " não deriva do reconhecimento de quem quer que seja, Indivíduo, Estado Sociedade. Ofender e recusar o direito à vida, além de ser absolutamente injusto, é ignóbil.
Não nos acusem de carrascos. Não defendemos a condenação das mulheres que abortam. Elas são, sabemo-lo, na maioria das vezes, tão vítimas quanto a criança abortada. E nessa situação tem mais necessidade de tratamento social do que de punição; precisam de quem lhes estenda a mão e as ajudem a superar o trauma, a perdoarem-se a si mesmas, a reviverem. Mas não se pode generalizar. Nem todas se encontram nas mesmas circunstâncias nem são únicas intervenientes da prática abortiva, outros intervenientes há tão ou mais culpados do que elas.
Mas, defesa da mulher não pode ser feita à custa da vida do bebé, o único que não tem culpa de ter sido gerado. Não é desta forma que se resolvem problemas de ordem jurídica, social, económica ou psicológica que a todos preocupam. Esses males combatem-se nas suas causas sem demissões culpáveis dos que têm que educar, escolher a maternidade e a paternidade responsáveis e proporcionar dignas condições de vida a todas as famílias. A solução do problema passa, então, pela construção de um Estado moderno, gerador de valores éticos, de personalidades sadias, em que o respeito, a dignidade, o progresso, se compagine com o exercício da liberdade responsável, ou se quisermos, pela afirmação do direito natural e fundamental da maternidade, e desse modo, pelo dever do estado e da Sociedade garantir à mulher mãe e sua família os apoios necessários ao cumprimento desse direito/dever.
Além do mais, como recorda a nota da Conferência Episcopal, “para os fiéis católicos o aborto provocado é um pecado grave porque é uma violação do 5º Mandamento da Lei de Deus, “não matarás”, e é-o mesmo se legalmente permitido”.
É um pecado reservado; quem aborta, ou aqueles de cuja colaboração dependeu a eficácia do aborto, isto é, a morte do feto, colocam-se, ipso facto, fora da comunhão da Igreja. O acolhimento, o perdão, a compreensão, a ajuda, que a Igreja oferece ao pecador, neste caso aos operadores do aborto, para superarem o seu pecado, para se erguerem e reentrarem na comunhão, não é hipocrisia, é atitude evangélica, é reproduzir a acção salvadora de Cristo, que denuncia o pecado, mas ama o pecador, é reconhecer a possibilidade da vitória do bem sobre o mal, da vida sobre a morte.
A nós católicos, cumpre-nos votar não, cumpre-nos defender e promover a vida, cumpre-nos empenhar-nos em esclarecer as outras pessoas, sobre a dignidade da vida humana, desde o seu primeiro momento.

Eu voto não!

por Dulce Teixeira de Sousa



SEXUALIDADE - Paradigmas para uma reflexão (2º Tema)

2. Uma dinâmica de humanização

“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou.” (Gen 1, 27)



Não cito estas palavras para lembrar nada a ninguém. Elas são por demais conhecidas, e eu já tive a oportunidade de a elas me referir quando reflectimos acerca da preparação para o matrimónio. Mas talvez estas palavras, na sua aparente simplicidade, possam de novo ajudar a iluminar a nossa reflexão.O que se afirma é uma realidade evidente: Deus criou o ser humano. Para nós, crentes, nada de novo. A nossa fé não nos deixa margem para dúvidas. Sabemos que na nossa origem e matriz está o acto criador de Deus e por isso nos sentimos agradecidos. É que de toda a criação, a única criatura de quem é dito ter sido criada à imagem e semelhança do próprio Deus é o ser humano, ou seja, somos nós, cada um de nós.
Mas se olharmos com mais atenção podemos descobrir mais, muito mais. Não simplesmente se afirma que a humanidade foi criada por Deus (Deus criou o homem à sua imagem e semelhança), como imediatamente se acrescenta que esse homem, o mesmo é dizer essa humanidade, é formada por homens e mulheres. A humanidade concretiza-se, pois, de duas maneiras distintas: a masculina e a feminina.
Daqui penso que podemos tirar já uma conclusão, que nem sempre tem sido tida em atenção e que muitas vezes tem mesmo sido ignorada. Refiro-me não só ao facto da humanidade ser composta por homens e mulheres, o que é uma evidência mesmo até para os mais distraídos, mas ao facto de só assim ela ser plenamente humana e de só assim ela corresponder ao desígnio de Deus.
A este nível as coisas podem já não ser tão evidentes. No fundo o que aqui se está afirmar é que uma humanidade plena só se pode realizar desta dupla maneira. Um mundo que porventura fosse constituído só por homens não seria um mundo plenamente humano, do mesmo modo que um mundo constituído só por mulheres também não o seria. E ao falar nisto não estou simplesmente a referir-me à necessidade evidente da procriação para a preservação da espécie, estou a querer ir mais longe, ao ponto de poder afirmar que eu enquanto homem não possuo em mim a plenitude da humanidade, tal como as mulheres não a possuem. Eu, homem, preciso das mulheres, pois só nessa relação de complementaridade - e refiro-me a uma complementaridade total e não simplesmente ao seu aspecto físico - posso aceder à plenitude da humanidade.
Esta diferença é, pois, uma profunda riqueza e causa de humanização.
E se dúvidas ainda houvesse, o texto com que iniciámos estas linhas continua e mais à frente afirma: “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gen 1, 31a). Ora bem, esta afirmação de que tudo era muito bom só é dita depois de Deus ter criado a humanidade, ou seja, homens e mulheres e, portanto também deve ser referida a esta realidade.
A diferenciação sexual, com tudo o que ela implica e que vai muito para além da mera diferença do sexo, não é pois razão de diminuição ou pobreza da humanidade, mas, pelo contrário, motivo e possibilidade de plena humanização.
Esta realidade não pode, por isso, de modo nenhum ser ignorada em toda a reflexão acerca da sexualidade que se queira séria e verdadeiramente humana. A sexualidade como dinâmica de humanização é, pois, um dos paradigmas que deve estar presente em toda a reflexão que fizermos a este nível. A partir deste paradigma podemos olhar para as situações concretas tentando discernir se face a elas estamos, ou não, perante realidades que humanizam. Se o que vemos, ouvimos e, porventura, praticamos não contribui para a promoção da condição humana (a nossa e a do outro) então teremos de ter a coragem de concluir que não se trata de sexualidade humana, mas de outra coisa para a qual temos de arranjar outro nome.


por Juan Francisco Ambrósio


20 de dezembro de 2006

SEXUALIDADE - Paradigmas para uma reflexão (1º Tema)

1. Introdução (o tabu continua)


Inicio com estas linhas um percurso com o qual pretendo apresentar alguns contributos que possam ajudar a reflectir a sexualidade. Faço-o consciente de que se trata de um tema que exige prudência, bom senso e seriedade.

Confesso mesmo, que no momento em que dialogávamos acerca de qual poderia ser o meu contributo este ano, varias hipóteses surgiram, entre as quais apareceu logo na primeira linha esta. Contudo, hesitei muito, não porque não considere o tema importante e pertinente (quanto a isso não tenho a menor dúvida), mas porque para ser tratado não nos podemos ficar pelos habituais lugares comuns, que em vários sítios vamos ouvindo. E já tanta coisa ouvimos e tanta coisa foi dita.
Por outro lado, um tema desta natureza acaba sempre por nos levar em direcções que desembocam em assuntos ‘quentes’, que estão hoje na ordem do dia, de uma maneira muito explorada e que despertam as mais variadas reacções, tantas vezes epidérmicas e mal fundamentadas. Como abordar esses temas num espaço tão reduzido, sem correr o risco de não cair também na superficialidade, que a maior parte das vezes não ajuda, mas só complica? As coisas complexas podem certamente ser ditas de uma maneira simples, mas infelizmente muitas vezes confundimos isso com superficialidade e simplismo, o que acaba por deturpar a realidade.
Apesar destas dúvidas, das quais ainda não me libertei totalmente, acho que vale a pena apostar neste percurso e isso porque, apesar de se dizer que o tema da sexualidade é hoje um tema que pode ser tratado com toda a naturalidade e abertura, considero que continua a haver a existência de um ‘tabu’ à sua volta.
Explico-me: todos nós sabemos como há não muito tempo atrás as questões relacionadas com a sexualidade não eram abordadas de uma maneira pública e, porque não dizê-lo também porque é verdade, não eram abordadas muitas vezes nem sequer de uma maneira privada. Havia aqui certamente uma posição redutora, que olhava para a sexualidade só a partir de uma determinada maneira, muito marcada por um certo tipo de mentalidade e de educação. Tudo era então silenciado e calado, vivido às escondidas e, quantas vezes, acarretando situações de verdadeiro sofrimento. Claro que não podemos generalizar de maneira absoluta, mas certamente que concordamos que esta era a tónica dominante.
Hoje do meu ponto de vista o tabu mantém-se. Não porque não se fale - talvez até se fale demais, dizendo tanta coisa, que se acaba por nada dizer nada, ou por dizer muito pouco -, mas sobretudo porque se alimenta a posição de que neste nível as coisas dizem respeito a cada um, não podendo pois haver ingerências nem limites moralistas. A visão redutora permanece, de uma maneira diferente certamente, mas permanece. Agora, tirando algumas situações com as quais todos estamos de acordo e que nem sequer remetemos para o campo da sexualidade, pois já consideramos doentias (refiro-me por exemplo à pedofilia), agora, dizia eu, não podemos impor qualquer tipo de limite que não vá para alem da subjectividade e da vontade de cada um daqueles que está envolvido em qualquer tipo de relação. Ora se eu não posso falar abertamente, porque isso é logo considerado ingerência, ignorância ou uma atitude completamente passada, então é porque o tabu continua.
O tema merece, pois, ser tratado. Mas em vez de ficar na análise de situações concretas, que são sem dúvida importantes, vou antes escolher outro caminho, que passa pela apresentação de alguns paradigmas a partir dos quais se pode reflectir esta dimensão tão importante do nosso viver. Não tenho dúvidas de que muitas das dificuldades sentidas nos nossos dias, quer ao nível da vivência, quer ao nível da reflexão teórica, poderão ser mais facilmente enfrentadas se percebermos que, também neste âmbito, estamos a passar por mudanças paradigmáticas, que acabam sempre por implicar alguma crise e ruptura. Olhar para esses paradigmas, que trazem sempre consigo uma determinada maneira de pensar, marcam uma maneira de olhar e influenciam uma maneira de agir, é então o meu objectivo. Espero, deste modo, poder dar um pequeno contributo para uma reflexão que nunca pode deixar de ser feita.



por Juan Francisco Ambrósio


8 de dezembro de 2006

Quando os jovens envelhecem


Mesmo que nos horizontes económicos se acendam ténues lampejos de esperança, apercebemo-nos que o cidadão comum continua a sentir o seu dia a dia mais caro e sacrificado. Os discursos de estímulo podem ter algum efeito no investimento, na criação de novas empresas, na aceitação de algumas medidas de risco, na confiança com que se inventam novas formas de sobreviver. Os pobres vão rodando nas escalas, mas são quase sempre os mesmos, nas pequenas culturas e trabalhos de sobrevivência, nas inúmeras faltas do essencial dentro dos novos conceitos de alimentação, saúde, casa, trabalho, educação, etc. Todos sabemos que emergiram novas pobrezas. Muitas, próximas de carências afectivas, dependências, isolamentos,
Marginalizações, ou simplesmente a recusa de se deixar encaixar numa sociedade que cerca o cidadão de servidões e vassalagens para poder triunfar. A Caritas de Espanha acaba de revelar que, no último ano, se alterou, na Europa, o perfil dos sem abrigo. Grande parte deles é constituída por jovens, que sofrem agressões cada vez mais frequentes. Os jovens sempre inventaram margens na evolução das sociedades.
Com muitas contestações, cantares, ritmos e gritos. Tudo isso existirá mas com alguns problemas agravados pelas alterações no acesso ao ensino, com a desvalorização social dos cursos, com os mestrados no desemprego, com o desentendimento familiar
Que leva muitos a fugir para o deserto da noite e para as celas do vão de escada.
Numa sociedade envelhecida como a nossa, parece que os idosos teriam fechado
Todas as oportunidades e que todas pertenceriam aos jovens. Mas não é assim. Eles próprios envelhece mais cedo. Basta ver a sequência de adolescentes e jovens que entram nas televisões a vender a frescura da sua vida e, num pequeno intervalo de séries, passam a fazer de adultos com os rostos marcados pelo desgaste que
Nenhuma maquilhagem consegue disfarçar, num anúncio precoce de envelhecimento.
Importa, todavia acentuar outros quadros: que eles próprios descrevem: “há entre nós uma rede multiforme de vidas ao serviço da vida… queremos uma cultura da vida nas relações familiares, na vida associativa, no compromisso social, no empenhamento
Profissional, na aceitação positiva do diferente, no diálogo de gerações, na generosidade de gestos de partilha de bens e serviços”. O Conselho Nacional da Pastoral Juvenil foi uma oportunidade de muitos jovens reverem o seu próprio rosto… rejuvenescido.


por António Rego


5 de dezembro de 2006

A ética política do Governo respeita a Ética?

(...) Ao reflectir nas razões do Governo para apoiar o Referendo, e ao ver o Primeiro Ministro a encabeçar a campanha pelo “Sim”, reconheço que não pensam bem.

Não só ele, sendo o líder desse governo, como outra gente, que pensa como ele, socialista ou não, no espectro global da nossa política. Jorge Coelho na “Quadratura do Círculo” que é um espaço útil de debate de ideias entre pensadores de cores políticas diferentes, lançava recentemente a ideia de que a grande razão, entre as maiores, era o facto social derivado do escândalo de ver milhares de mulheres portuguesas irem a Espanha abortar, e a injustiça que isso representava em relação às que não tem recursos para tal. Este é, para si, aparentemente, a razão ética da procura do “Sim”. “Problema social”, dizia Jorge Coelho!
Submeter a questão a “referendo” é ir pretender buscar uma legitimação ética para o aborto à opinião duma maioria, se possível. É uma ética de “maiorias” que se pretende chamar “ética política”. Mas essa nunca será uma legitimação da Ética que decorre do “direito natural”, assentando este na verdade que só a Biologia Humana é capaz de revelar.
A utilização dessa “ética política” é dar força ao opinável sem fundamento. É a instalação do “livre arbítrio colectivo”, mais ou menos manipulado, onde a dor e os dramas se misturam com interesses lucrativos de lúgubres trajectórias e inconfessados fins.Já aqui repetidamente discuti que, começada a vida humana – no ovo -, ela é inviolável porque o ser humano, na sua realidade intrínseca, corpo e alma, está lá desde esse início e com uma qualidade biológica como nunca mais vai ter no processo contínuo e uniforme que está na base da diferenciação orgânica e do crescimento corpóreo. As apelidações de ovo, embrião, feto, nascituro, infante, adolescente, adulto e velho são úteis para definirem estádios da vida desse Ser Humano, que nunca deixa de ser a vida de um Ser Humano, corpo e alma, do início ao fim da vida. É um erro biológico inadmissível pensar-se que a Vida, uma vez aparecida – logo na conjugação dos gâmetas - seja de natureza diferente da vida presente nas fases que se vão suceder, sejam os 14 dias ou as dez semanas, ou depois, em qualquer outra idade. Isto é um erro de pura e insustentável conjectura filosófica e uma aberração perante a realidade biológica que conhece quem cientificamente lida com ela na sua expressão macro e, sobretudo micromolecular.Um dos corifeus do “sim”, EPC no “Público”(5ªfeira, 23 Nov.), pretende erradamente dizer que “a questão do começo da vida humana é o cerne da questão da despenalização do aborto” – ou da legalização do aborto em que a despenalização redunda – e essa questão “consiste apenas numa decisão de tipo filosófico”… Para si, “nada de mais inútil …do que brandir argumentos científicos para a tentar decidir.
Isto é inadmissível e reprovável como o denunciaram recentemente três ilustres colegas meus (Daniel Serrão, Miguel Leão e Nuno Montenegro, in: Tempo Medicina, 20 de Nov.06), assim: “Quem, no contexto da actual discussão sobre o aborto, aventa a hipótese da vida se iniciar por volta das 10 ou 12 semanas, está, ainda que de forma ínvia, a legitimar o princípio do “livre arbítrio” para a interrupção da gravidez”…
Portanto, a ética política –que tem noutros campos legitimidade- não a tem neste sobre o começo da vida humana, e não encontro fundamento ético, racional e humano, para que haja um referendo! O lugar da Ética em matéria como a que está em questão é soberano. E a vida não é eticamente matéria de REFERENDO ! Ao fazer-se, porém, e, obviamente, votarei NÃO!

por Levi Guerra
(Médico, Professor Catedrático de Medicina escreve, semanalmente, ao domingo no "Primeiro de Janeiro")


29 de novembro de 2006

A Liberdade e o Uso

A palavra liberdade, com origem na latina “libertas”, está intimamente ligada a qualidade, estatuto, atributo do que é livre, sem sujeição a domínio de outrem, que não presta contas dos seus actos, agindo por si e para si, aparentemente como quer e sem limitações.
Assim concebida a liberdade é ela um bem inestimável, sem preço, tão ou mais valiosa como o ouro. Por ela e em nome dela as grandes lutas da história, de povos contra povos, de grupos contra grupos - estamos a lembrar-nos da revolta dos escravos na antiga Roma, comandados por Spartacus -, de pessoa contra pessoa, a começar na família, no trabalho.
Por ela se bateram figuras memoráveis da história, mesmo contemporânea, entre os quais Martin Luther King, infatigável lutador contra a escravatura e discriminação vitimando o povo negro americano.
Em nome dela a vida humana de tantos foi oferecida em holocausto.
A palavra liberdade continua a ser propalada em areópagos de todo o mundo e a alimentar, em seu nome, conflitos de toda a índole, uns sangrentos e outros sem o serem em vista e no nome da liberdade.
A esse bem ou valor alcançado se esculpiram estátuas de homenagem, pintaram murais, escreveram poemas e livros com quilómetros de extensão; os lutadores pela liberdade recolhem tributos em vida e epitáfios na morte.
Onde esse bem navega sem limitações é no pensamento; o pensamento não conhece fronteiras, não se medindo nem detectando. Outros afloramentos libertários são já visíveis e exteriorizáveis.
Alcançada a liberdade depressa a história se encheu de usos pérfidos dela.
É por isso muito conhecido o afloramento de que a liberdade individual acaba onde começa a do outro, o que vale dizer que o uso daquele valor não é ilimitado e conhece as restrições impostas, desde logo pelo ser social, de vivência em sociedade, que o homem é.
Quer isto dizer que o uso, sem limitações, que a liberdade do "ego" projecta, pode lesar, gravemente o outro.
Daí que à liberdade de expressão, seja falada seja escrita, sexual, artística, profissional, religiosa, etc, etc, as leis não sejam insensíveis aos desmandos a que conduz, castigando os prevaricadores do excesso.
Há quem defenda uma liberdade total, esses são os libertinos, que são muitos.
E essa ideia errada está a ser amplamente divulgada e aproveitada entre nós; os libertinos propalam todo o tipo de calúnias e ofensas verbais e escritas, convictos de que o não podem, sequer devem, mas fazem-no, a coberto de uma certa impunidade.
Nada e nem ninguém escapa à sua fúria demolidora, a coberto de poderosos meios que lhes estão ao alcance e sempre na mira.
Os libertinos, a coberto de uma liberdade sexual, transformada em promiscuidade, por muitos fomentada, concorrem para a completa escravização do ser humano.
Todos os que ofendem, desrespeitando, as instituições, em nome de uma liberdade de pensamento e expressão, sem regras, são libertinos e apressam (apressaram) a crise social e económica, tão ou mais grave do que a falência económica e política em que se caiu. E são por demais os que, por todos os meios, atentam, em nome de um mau uso da liberdade, ferindo valores ou princípios fundamentais, com tutela de lei.
E o excesso de liberdade em uso no meio familiar deu os pequenos libertinos que ofendem e agridem os seus professores na escola, roubam os mais frágeis, se prostituem pelos cantos, danificam materiais e se tornam possuidores de uma linguagem que envergonha qualquer.
Em nome da liberdade artística se assistiu à ofensa, no passado, no nosso país, a João Paulo II.
Mas já foi em nome de falta de liberdade ou tolerância religiosa que um bispo católico, paquistanês, pressionado, vivente numa comunidade de diferente credo religioso, maioritário, se suicidou, atentando a tiro contra a própria vida, e em jeito de derradeiro protesto, sem mais alternativa.
O nosso país atravessa um período da maior instabilidade, porque se fez um uso desregrado de um bem e direito fundamental que é a liberdade, convertendo-se num paraíso onde cada faz o que lhe apraz sem muito pouco lhe acontecer.
E todos os países onde se caiu nesse descalabro colectivo acabam por pagar um tributo altíssimo. Não escaparemos, por certo, a esse anátema.

Por Armindo Monteiro


11 de novembro de 2006

Sites Viciosos


Nos primórdios do ano de 2002, escrevi no “Regional”, crónica que focava a influência nefasta que a Internet pode exercer nas mentes enfermas e juvenis. Na ocasião o artigo foi fortemente contestado por leitores, mal informados.
Quatro anos depois volto ao tema, pois parece-me premente, e descuidado de pais e educadores.
Se no final dos anos oitenta alguém pretendesse obter imagens pornográficas, só havia dois caminhos: a sala de cinema da especialidade e revistas, vendidas como se fossem clandestinas.
Hoje, qualquer supermercado de bairro vende vídeos e CD-ROM’s eróticos; e a taxas reduzidas há acesso a TV’s pornográficas, para não falar na pesquisa a qualquer motor de busca na Internet.
Por curiosidade, os adolescentes, uns mais que outros, são tentados a procurar sites de softcore e hardcore. Se o fazem esporadicamente, nada de mal acontece, mas se buscam por acinte, podem ficar viciados. É que a pornografia é tão perigosa como: o tabaco, o jogo ou a “droga”.
Entra-se por brincadeira ou curiosidade, e, sem se saber como, as imagens ficam a borboletear na mente, como ideias fixas, prejudicando: a paz interior, o rendimento escolar, e o raciocínio.
São os adolescentes as primeiras vítimas, mas os adultos também sofrem, já que a pornografia é responsável pelo aumento: da prostituição, violações, estupros, sequestros, e até, muitas vezes, pelo: divórcio, homossexualismo e violência.
E o que admira é que ninguém parece estar preocupado! Raras são as vozes que alertam para o malefício que a Internet pode causar nas mentes juvenis.
Talvez seja a razão porque muitos pais, ingenuamente, colocam os computadores nos quartos de dormir, e locais recatados, favorecendo, desse modo, acesso a sites viciosos.
Muitos educadores desconhecem como se manipula o computador; não sabem que, com pouco engenho e auxilio de motor de busca, entra-se em sórdidos e viciosos lugares.
Qual o pai, por mais devasso que fosse, levava a filha ao bordel? Apresentaria a proxenetas? Ou a familiarizava com rameiras? Todavia colocam, nos quartos dos filhos, computadores, sem filtro, que são janelas e portas, às redes mafiosas.
Desconhecem ou os afazeres não lhes permitem esses cuidados , que a pornografia é viciosa!? Pelos olhos entram as imagens perversas que contaminam as mentes sãs.
Os riscos que corre quem visitar sites duvidosos, são imensos: é possível detectar o nosso computador, essa é a razão, não rara, de aparecerem SPAM’s ou mensagens inesperadas e inconvenientes.
Infelizmente não se elucida disso, nem se aconselha a não “conversar” com amigos virtuais, trocar moradas, marcar encontros, mormente sozinhos. Também os grupos de convívio não são inocentes, se o coordenador não for idóneo ou não conhecer os membros… e mesmo assim…
A internet é uma excelente auto-estrada de informação, auxílio precioso nos estudos, mas carece de cuidados. Precauções que ninguém adverte.
Será que a falta de informação de uns, e o desinteresse de outros, é puro acaso?!

por Humberto Pinho da Silva


8 de novembro de 2006

Os Olhos Azuis da minha irmã


Num dos últimos "Prós e Contras", a eurodeputada Edite Estrela considerou que o aborto poderia ser legítimo, caso a mãe descobrisse que a criança era portadora de trissomia 21.


Eu tenho uma irmã com olhos azuis. Chama-se Mónica, tem 22 anos e tirou o curso profissional de Serviços Básicos de Hospitalidade. Trabalha hoje numa pastelaria de Lisboa. Os olhos dela são lindos e ela é educada, feminina, anda sempre perfumada... A Mónica é a minha irmã e irmã de mais três. Gostamos muito dela e ela é muito feliz. Dá unidade à família, está atenta sempre a todos e a cada um. A sra. eurodeputada não tem os olhos azuis mas tem uns olhos tão bonitos como os da Mónica. Tem os talentos e as virtudes de avó e de mãe. E tem dificuldades; certamente também chora e se alegra, é mais uma das pessoas deste nosso planeta que acorda todas as manhãs e lava os dentes. De certeza que já viu um pobre na rua e lhe estendeu a mão direita (a esquerda) ou as duas, ou olhou para uma prostituta e sentiu pena. De certeza que já ajudou alguém em apuros. Gostávamos que viesse a nossa casa, provasse os muffins que a Mónica faz e visse o gosto com que ela põe a mesa. E descobrisse que esta menina de olhos azuis tem... trissomia 21. E ficaria bem contente por ela ter nascido. Tal como nós. Tal como qualquer pessoa.
Jaime Bilbao


2 de novembro de 2006

Responda quem souber...


Decididamente, há coisas que não dá para entender...
Desde recuados tempos, do início da nossa história, que os portugueses sempre foram hábeis em artimanhas e férteis em arranjarem estratagemas para enganarem o próximo. E se não, vejamos:
D. Afonso Henriques, logo nos alvores da nossa nacionalidade, teve o engenho e a arte, de se livrar do jugo incómodo do seu primo, D. Afonso VII, rei de leão, prometendo-lhe vassalagem, o que logo esqueceu, deixando o honrado aio Egas Moniz em muito maus lençóis. Ainda estou recordado de uma gravura que ilustrava um “Quadro Histórico” do meu livro da 4.ª classe, onde se via o leal Egas Moniz, rodeado dos seus filhos, levando ao lado a sua mulher, todos vestindo alvas túnicas e com cordas ao pescoço, dependuradas, descalços e prontos a pagarem com a vida, em remissão da sua palavra honrada, dada a D. Afonso VII e da promessa não cumprida.
Mais tarde, o mesmo D. Afonso Henriques, desembaraçou-se da sua própria mãe e do seu valido, conde Fernan Peres de Trava, vencendo-os na Batalha de São Mamede (1128), colocando de seguida, sua mãe, sob vigilância, no castelo de Lanhoso.
Após o Tratado de Samora (1143), D. Afonso Henriques prometeu um tributo, anual, ao Papa Inocêncio II, de quatro onças de ouro, compromisso este que só cumpriu no primeiro ano da sua oferta.
Mas a tarde de enganar o próximo não se esgotou com a morte do nosso primeiro rei.
Nos tempos que correm, continuamos a ser “burlados”, a assistir a estas habilidades bacocas, a estas artimanhas saloias.
Ora vejamos:
Os portugueses, por larga maioria, disseram um estrondoso NÃO à REGIONALIZAÇÃO, através de um referendo, onde foram observadas todas as regras constitucionais e requisitos democráticos. Pois bem. Agora, sem referendo algum, sem consultar o Povo Português, sem se auscultar o eleitorado, está-se a planear, uma regionalização, a retalhar-se o país em cinco pedaços (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve), o que é uma verdadeira regionalização, como o desejavam certos partidos e a generalidade dos portugueses rejeitou terminantemente.
De início ainda se pensou na extinção de Governadores Civis. Porém, para que o escândalo não fosse tão grande, e para camuflar a regionalização que está a ser engendrada encapotadamente, mantiveram-se os 18 Governadores Civis existentes.
Chama-se a isto, regionalizar o bel-prazer de quem manda, a alvedrio do Governo, estando-se nas tintas para o Zé Povinho. Haverá sinceridade nisto?...
Mas mudemos de assunto.
Apoiados numa maioria parlamentar, bastante confortável, o Executivo decretou e a Assembleia aprovou que as próximas listas de actos eleitorais, teriam de ter, obrigatoriamente, 33 por cento de mulheres. Esta incongruente decisão, traveja-se no facto de ter de haver paridade de sexos e não discriminação, de acordo com o Artº 13.º da Constituição da República Portuguesa. Uma lei brilhante, não haja dúvida...
Só que, para haver total igualdade de sexos, na política, a fasquia devia ter subido para os 50 por cento. Caso contrário estão a privilegiarem-se os homens...
Estou já a vislumbrar, nos próximos preparativos para os actos eleitorais, a azáfama na composição das listas de mulheres, contactando-as e incentivando-as a integrarem a vida partidária, engrossando as fileiras dos políticos, quer tenham propensão para a política, quer não; quer sejam cidadãs activas e dinâmicas, quer não; quer tenham habilidade, habilitações e conhecimentos, quer não; quer tenham disponibilidade, quer não. O que é preciso é preencher a quota dos 33%...
Sinceramente, isto é simplesmente ridículo, caricato, burlesco, especialmente vindo de um partido que entre 52 membros do seu Executivo, tem apenas seis mulheres.
Será que não importam as competências e os perfis? Será que o que conta é apenas o sexo? Será que daqui em diante deixa de haver uma competição de valores, mas apenas uma luta de próstatas e de portadoras de úteros?...
Bonito, não haja dúvida...
Mas, agora reparo eu. Se se deseja a igualdade de sexos e as mulheres ficam apenas com a quota de 33%, os homens não poderão ocupar mais de 33%. Atendendo que 33, mais 33, são 66 por cento, falta ocupar um sector de 34%. Quem irá guarnecer esta faixa de 34 por cento? Estará reservado este espaço para pederastas e para lésbicas?
Responda quem souber?...
Fabião Baptista


30 de outubro de 2006

Um livro da Família para a Família


Por misterioso desígnio de Deus, na Família de Nazaré, viveu o Filho de Deus escondido por muitos anos: é, pois, protótipo e exemplo de todas as famílias cristãs.
E aquela Família, única no mundo, que passou por uma experiência anónima e silenciosa numa pequena aldeia da Palestina; que foi provada pela pobreza, pela perseguição e pelo axílio; que glorificou a Deus de modo incomparavelmente alto e puro, não deixará de ajudar as famílias do mundo, na fidelidade aos deveres quotidianos, no suportar as ansiedades e tribulações da vida, na generosa abertura às necessidades dos outros, no feliz cumprimento do plano de Deus a seu respeito. (FC 86)

27 de outubro de 2006

A violência contra as crianças

A primeira e grande, para não dizer a maior, escalada de violência contra a criança é aquela que se exerce sobre ela, por muito que isso custe a tantíssima gente, quando, ainda, no ventre da sua mãe, seja por vontade desta, do pai, de ambos, ou até de terceiros, através do aborto.


A violência enquanto fenómeno etápico, dinâmico, temporalmente incarnado no trajecto vital de qualquer, começa logo após o nascimento com o abandono da mãe ou do pai.
O psicólogo Mark Spitz, norte americano dos mais clarividentes, detectou a morte das crianças abandonadas pelas mães, ao cuidado das instituições assistenciais, logo nos primeiros meses, em larga escala, afectadas pela chamada “melancolia do recém nascido”, depressão mortal com origem na falta de afecto, que o bebé sente logo que toca o corpo materno e que tão bem distingue dos demais, pelo cheiro da pele, pela envolvência suave da mão da mãe, pelo seu odor corporal, que conhece, para além do seio alimentador.
Mas a violência, grave, exerce-se quando, em regra, em Portugal, o progenitor, o pai, se furta do cumprimento das suas obrigações alimentares, desempregando-se voluntariamente, ou simulando o desemprego, ou, ainda, com a cumplicidade da entidade empregadora, retardando o acesso a dados remunerativos.
Felizmente que a sensibilidade à cooperação com os direitos da criança leva, actualmente as instituições oficiais a fornecerem, com alguma celeridade, relatórios sociais, mas no passado a demora daquelas atingia proporções calamitosas, numa área da maior importância do interesse da criança.
Reputo, ainda, de violência contra a criança, as condições em que , algumas vezes, se denota a entrega da criança pela mãe numa proximidade relativa do parto em que a confiança de facto, a terceiros não está suficientemente esclarecida em toda a dimensão, podendo comprometer a retirada à mãe biológica. Mas uma das causas de omnipresente não equacionada parecendo até, numa sociedade hedonista, irresponsável, amoral relativamente anti-ética, ser estimulada, é o divórcio dos pais.
Não só porque a desagregação da família, por essa praga, fomentada ao longo dos anos por quem faz a lei, sem compreensão da sua dimensão, se opera com violência, na qual a criança vive, recebe os seus péssimos ensinamentos, adquire a célula da sua expansão, gravando o modo como se processa, registando-o e, no futuro, pondo-o em prática, dificilmente lhe escapando sem ressonância na sua personalidade.
A violência é ainda, de uma maneira mais directa, a própria violência física e moral exercida sobre o corpo e a mente da criança.
O caso Joana disserem os tribunais é um exemplo.
Os Jornais, os “media” de toda a ordem dão-lhe eco da violência sobre crianças. Nem sempre relatam todas as condenações,
Uma delas é o caso da criança de Valongo, morta pelos próprios pais, submetendo-a a toda a sorte de violências, levando, inclusivé, ao descolamento da parte tecidular que cobre o crânio.
A violência sexual sobre elas é assustadora.
Aos órgãos de informação, tão ciosos em denunciarem, pedia-se que comunicassem as condenações.
Fica no ar uma certa impunidade posterior, acobertada pela maledicência recaindo sobre quem julga, agora transformado inimigo da sociedade, pela imagem desgraçada que se fez dos Juízes.
Mas vale a pena lembrar a afirmação de Lacouture: no dia em que os juízes tiverem medo de julgar nunca mais nenhum cidadão pode sair à rua em segurança. Esperemos que se não caia neste precipício. Mais um que se abateu sobre nós.
Mas esperemos que a violência que se abateu sobre as crianças, incluindo as que vivem em meios degradados, sem condições de higiene, alimentação, de educação, assistência, vítimas de segregação social, do álcool e da droga a que os pais se entregam, não seja ela também, um fenómeno re-frangente sobre o exterior.
A violência que as jovens crianças exercem sobre os professores, também eles “elevados” à condição de classe maldita, mercê de uma propaganda negativa da sua imagem, é fruto, já de um clima humano degradado. Lá dizia o poeta que numa criança nem com uma pétala se toca.
Há um longuíssimo caminho a percorrer no sentido do combate à violência sobre a criança, que passa pela educação de um povo inculto, incivilizado, violento e sem norte. Desde logo incutindo a ideia de que é um ser indefeso, que tudo assimila e nele tudo se vai transformar em bem ou em mal.
Clamo daqui que os pais prestem alimentos a seus filhos.
Uma lei do tempo de Salazar atirava para a cadeia quem os não prestasse, prestando-os era restituído à liberdade. De uma lei igual, provavelmente, se está a precisar.
A educação passa pela compreensão dessa primária e fundamental necessidade.

Por Armindo Monteiro


23 de outubro de 2006

Agitação no mundo escolar

O começo do ano escolar está agitado, como é hábito. Desta vez, porém, alguma coisa acontece para romper com a inércia do sistema.

A decisão do Ministério da Educação de encerrar mais de um milhar de escolas com escasso número de alunos e concentrá-los noutras é coerente com a baixa natalidade e consequente falta de crianças em meio rural ou zonas urbanas envelhecidas. Para a eficiência do ensino e economia de recursos é conveniente reunir as crianças em espaços com um mínimo de alunos por escola e por sala para cumprir a sua função de socialização e criar condições de maior exigência e qualidade do ensino. Choca com as expectativas dos professores, diminuindo as perspectivas de colocação e aumentando a intensidade e exigência da qualidade de trabalho. Não agrada às populações que vêm no desaparecimento da escola local um factor de retrocesso social. Toda a mudança causa incomodidade, mas traz vantagens.
Há que valorizar as vantagens e diminuir as perdas. É preciso criar condições de comodidade e segurança para a mobilidade das crianças e seu acolhimento nos novos centros escolares e garantir uma estadia saudável, frutuosa e adequada durante o tempo prolongado do novo horário escolar. A crescente responsabilização das autarquias por este ramo de ensino não deixará de produzir os seus frutos. Será para elas que os pais devem canalizar cada vez mais as suas reivindicações para que as soluções sejam adaptadas aos interesses das populações locais. Nesta fase, algum populismo leva os autarcas a colarem-se às populações na contestação ao Ministério. Creio que será passageira a atitude, pois o pleno exercício das suas responsabilidades será a forma de garantir as melhores condições de sucesso a este ramo do ensino vital para o progresso local. Um ensino básico de qualidade é vital para o sucesso em qualquer processo de aprendizagem posterior e promoção duma região.
O ensino pré-escolar e a primeira fase do ensino básico vão ter um horário alargado. A escola garante às famílias um apoio maior, tomando conta das crianças mais tempo do horário laboral. A escola acrescenta ao ensino a função social. Passa a ter tempo para reorganizar as suas funções e metodologia lectiva, integrando o estudo e os trabalhos práticos assistidos e alargando a sua acção cultural à educação física e musical, aprendizagem do inglês e, com certeza, outras iniciativas ao seu alcance. É posto em causa o funcionamento de muitos ATL de iniciativa particular que asseguravam o complemento do horário e das actividades escolares e os postos de trabalho e outros recursos investidos. Sobra motivo para polémica.
Nos restantes ciclos do ensino básico e secundário, continua o processo de preencher os períodos no horário escolar abertos pela falta ocasional dos professores e completar o trabalho lectivo com outras formas de apoio. As chamadas aulas de substituição foram introduzidas algo precipitadamente e acolhidas com desagrado por alunos e professores. Não podem ser vistas numa perspectiva rígida, mas com alguma criatividade e adaptação às condições reais da escola, dos alunos e dos professores. O objectivo é claro: apoiar os alunos com mais dificuldades de aprendizagem, acabar com os tempos mortos que desestabilizam a disciplina e são focos de comportamentos desviantes, aumentar o leque da acção cultural da escola e criar outras formas de relacionamento dos alunos com o pessoal docente. A escola tem de ser espaço de trabalho produtivo, de convívio saudável, de abertura de perspectivas.
Em todo este processo de mudança, algum desconforto atinge os professores. Os sindicatos não têm conseguido levar a melhor no processo reivindicativo a que estavam habituados. Sofrem as limitações salariais, alterações no regime de trabalho e regalias sociais que atingiram os funcionários públicos. Está em negociação o estatuto da carreira docente. Constitui motivo relevante de discordância a avaliação dos professores e os critérios de progressão na carreira. Questões velhas. Uma avaliação mais criteriosa dos professores deve ter em conta a sua valorização e actualização científica, a sua prática lectiva, a assiduidade e a qualidade de serviço prestada na escola. Os seus resultados devem influenciar a certificação da qualificação dos professores e o seu progresso na carreira. Consequentemente a progressão deve fazer-se por critérios de competência e não pelo simples passar do tempo. Requerem-se critérios objectivos de avaliação e avaliadores imparciais. Aceita-se a participação dos implicados no processo educativo, salvaguardada a objectividade. Também dos pais. Nem sempre os sindicatos tiveram este entendimento. Cremos no entanto que são condições essenciais para estimular a motivação dos professores e o progresso no ensino.

por Octávio Gil Morgadinho


"Razões para escolher a vida"


(Documento da Conferência Episcopal Portuguesa, 19 de Outubro de 2006)

1ª. O ser humano está todo presente desde o início da vida, quando ela é apenas embrião. E esta é hoje uma certeza confirmada pela Ciência: todas as características e potencialidades do ser humano estão presentes no embrião. A vida é, a partir desse momento, um processo de desenvolvimento e realização progressiva, que só acabará na morte natural. O aborto provocado, sejam quais forem as razões que levam a ele, é sempre uma violência injusta contra um ser humano, que nenhuma razão justifica eticamente.

2ª. A legalização não é o caminho adequado para resolver o drama do “aborto clandestino”, que acrescenta aos traumas espirituais no coração da mulher-mãe que interrompe a sua gravidez, os riscos de saúde inerentes à precariedade das situações em que consuma esse acto. Não somos insensíveis a esse drama; na confidencialidade do nosso ministério conhecemos-lhe dimensões que mais ninguém conhece. A luta contra este drama social deve empenhar todos e passa por um planeamento equilibrado da fecundidade, por um apoio decisivo às mulheres para quem a maternidade é difícil, pela dissuasão de todos os que intervêm lateralmente no processo, frequentemente com meros fins lucrativos.

3ª. Não se trata de uma mera “despenalização”, mas sim de uma “liberalização legalizada”, pois cria-se um direito cívico, de recurso às instituições públicas de saúde, preparadas para defender a vida e pagas com dinheiro de todos os cidadãos.
“Penalizar” ou “despenalizar” o aborto clandestino, é uma questão de Direito Penal. Nunca fizemos disso uma prioridade na nossa defesa da vida, porque pensamos que as mulheres que passam por essa provação precisam mais de um tratamento social do que penal. Elas precisam de ser ajudadas e não condenadas; foi a atitude de Jesus perante a mulher surpreendida em adultério: “alguém te condenou?... Eu também não te condeno. Vai e doravante não tornes a pecar”.
Mas nem todas as mulheres que abortam estão nas mesmas circunstâncias e há outros intervenientes no aborto que merecem ser julgados. É que tirar a vida a um ser humano é, em si mesmo, criminoso.
4ª. O aborto não é um direito da mulher. Ninguém tem direito de decidir se um ser humano vive ou não vive, mesmo que seja a mãe que o acolheu no seu ventre. A mulher tem o direito de decidir se concebe ou não. Mas desde que uma vida foi gerada no seu seio, é outro ser humano, em relação ao qual tem particular obrigação de o proteger e defender.

5ª. O aborto não é uma questão política, mas de direitos fundamentais. O respeito pela vida é o principal fundamento da ética, e está profundamente impresso na nossa cultura. É função das leis promoverem a prática desse respeito pela vida. A lei sobre a qual os portugueses vão ser consultados em referendo, a ser aprovada, significa a degenerescência da própria lei. Seria mais um caso em que aquilo que é legal não é moral.

Pedimos a todos os fiéis católicos e a quantos partilham connosco esta visão da vida, que se empenhem neste esclarecimento das consciências. Façam-no com serenidade, com respeito e com um grande amor à vida. E encorajamos as pessoas e instituições que já se dedicam generosamente às mães em dificuldade e às próprias crianças que conseguiram nascer.



17 de outubro de 2006

Educar para a conjugalidade

A ideia de que o casamento se tornou algo a prazo, que, cada um pode desligar quase a seu belo prazer enraíza-se no casal ao menor sinal de contrariedade; o descompromisso passa a pairar sobre o vínculo, a ensombrar o dia a dia, e a breve trecho, facilitado intencional e legislativamente, o divórcio.

Há dezanove anos atrás na Alemanha já se falou em contrato de casamento, com duração prévia, a prazo.
Não vingou o projecto em teoria, mas na prática ele aí está, com o número de divórcios em crescendo, sobrelevando a inédita Europeia.
Fala-se numa educação para a cidadania, que farta, na forma de respeito ao Hino Nacional, à bandeira pátria do Presidente da República, aos símbolos da Nação...
Fala-se de uma educação para a sexualidade, controvertendo-se o prisma porque deve fazer-se, quem deve ser o seu agente e o local de arranque. Se na família, se na escola; se aos 7 anos se aos 14 anos; se de forma chocante, materialista, sem referência a valores, estilo sexo vale tudo, motor da história, como o dinheiro, o lucro fácil, a exploração desenfreada, a droga e seu comércio, tão importante como o das armas.
Fala-se de uma educação para a profissionalidade, sob a forma de respeito e investimento na produção, na qualidade, no relacionamento público e na deontologia, manifestação da ética.
O casamento não é justaposição de pessoas, que se anulam entre si, despersonalizando-se, no que ainda mais problemático tornaria a sua consumação.
Não é, em regra, convivência entre duas pessoas de sexo diferente - só esse é casamento - , o céu aberto, pátria dos anjos, terreno sem mácula, casa sem erro, verdadeira assepsia, bacteriologicamente pura.
Uma concepção assim exigida falsearia a realidade, que é mundo, controvérsia, dor, sofrimento, miséria, cruz, mas também é bem, verdade, caminho, vida e triunfo.
Porque não falar numa educação para a conjugalidade, para se ser marido e mulher; bom esposo e esposa?
Porque não educar para o casamento, fonte de família, agora que se esboça timidamente, um ideário de maior consideração, já que se chegou à conclusão que sem ela o Estado, qualquer estado, não sobrevive como Nação.
Depois de uma longa travessia no deserto, onde o país se atolou, começam, alguns, a medo, a exaltar os valores em falta, que escaparam da Família, dos jovens, de todos ou quase, deixando o Estado - Nação, mergulhado na escuridão, chorando lágrimas de descontentamento.
Aquela educação para a conjugalidade acentuaria o casamento como figura tendencialmente estável, espaço de perdão, de amor; exaltaria o amor como forma de solução do "eu", do "outro" e de todos, finalmente.
Aquela educação, frisaria que na divergência é viável a convivência; que naquele espaço se pode e deve criar vida, em sinal de fuga ao egoísmo; que ali se pode criar um espaço de inter ajuda, que sem se cingir a ele, seja exemplo transbordante para o exterior.
Essa educação seria escola de cultivo do respeito pelo respeito, de rejeição da violência, causa quase sempre com origem na adversidade, que auxiliaria à superação.
Essa educação irradiaria ainda, para a submissão a exames médicos e testes psicológicos que dariam a conhecer as diferenças de cada e funcionariam como campo acção preventiva da doença, sobretudo ao nível da descendência.
E nem se diga que é utopia.
Nalguns países, alguns casais, já se sujeitam a exames médicos dentro da pedagogia de uma educação para a conjugalidade, que mais não é do que a educação para o cultivo de valores entre os futuros cônjuges, da inteligência das situações e da racionalidade de procedimentos.

por Armindo Monteiro


6 de outubro de 2006

Família no centro

«O Bispo de Beja apresentou à sua Diocese um Plano Pastoral para 3 anos. É polarizado na Família. Todas as circunstâncias concorreram para chegar aí. Umas positiva outras negativamente. Contribuiu positivamente, uma série de acontecimentos e de documentos relacionados com o tema. Negativamente contribui a onda de agressões verbais e de episódios endémicos que põem em causa a estabilidade e a funcionalidade da instituição básica da sociedade.
O Plano Pastoral sobre a Família não vai ser o remédio milagreiro para resolver todos os problemas com que a Família se debate. Mas será certamente um factor altamente positivo para valorizar esforços e iniciativas em ordem a apoiar aquilo que continua a ser a esperança do futuro da Igreja e do mundo.
O Plano Pastoral é um mapa. Não traz nada a casa, mas diz como chegar lá. Não dá boleia, mas facilita a viagem. Não dispensa de andar, mas orienta os passos. Já há vinte e cinco anos atrás D. Manuel Falcão dizia aos seus diocesanos de Beja : “ entendi propor à Diocese um programa de acção pastoral a curto prazo, que abra caminhos à vida diocesana nos próximos anos. Julgo, de facto, que o governo da Diocese não pode limitar-se à solução pontual dos problemas que vão surgindo dia a dia, mas deve ser norteada e dinamizada por objectivos pastorais criteriosamente estabelecidos e tenazmente perseguidos” .
Também D. António, após estes primeiros anos de contacto e conhecimento da realidade, decidiu fazer o mesmo. Se em boa hora o pensou em melhor hora o fez. E aí está o Plano como “um instrumento regulador e flexível para uma acção pastoral consequente, organizada e adequada aos objectivos em vista.
Planificar é antever o que se quer, como se quer e quando se quer. Um Plano Pastoral estabelece um horizonte temporal para a acção e permite superar os limites e as dificuldades provenientes do ocasional”.
“Este Plano Pastoral sobre a Família, caracteriza-se por um horizonte temporal de três anos. Define-se por três ideias-chave e três objectivos a conseguir em cada ano. As actividades propostas como caminho para conseguir os objectivos, são sugestões a utilizar no todo ou em parte, sem menosprezar outras consideradas mais adequadas e enriquecedoras. É uma proposta que cada Paróquia, Serviço e Movimento, num esforço próprio de quem está mesmo convencido da necessidade urgente de uma pastoral para a Família e com a Família, irá estudar e procurar transportar, com as necessárias adaptações, para a sua esfera de acção na justa medida das suas necessidades e possibilidades”.
Mais uma vez, poderemos fazer nossas as proféticas palavras de D. Manuel em 1981: “chegou a hora de imprimir um novo ritmo à vida da Diocese. Este ritmo novo há-de resultar fundamentalmente de uma fé mais viva, de um zelo mais ardente e também de uma condução mais firme e dinâmica das actividades pastorais”.
De facto, o Plano é uma espécie de anjo da guarda. Não faz mas acompanha o trabalho de quem faz. Está sempre ao lado, para estimular, iluminar, guiar…Poderíamos dizer do Plano o que Moisés dizia da Lei :”estará à tua frente, para te proteger no caminho e te conduzir ao lugar que preparei para ti. Respeita-a e obedece-lhe”. (Ex 23,20-21)
Era isso o que também já D. Manuel lembrava, quando era ele a apascentar esta Grei de Beja : “para que o Plano não fique no rol, das coisas que não passam de belos sonhos, importa que seja assumido pelas forças vivas da Diocese, ou melhor, que sejam elas a concebê-lo, a elaborá-lo e a ganhar o gosto de lhe dar realização. Por isso, é palavra de ordem a mobilização das paróquias e arciprestados, das associações, grupos e movimentos de formação e de apostolado, dos organismos e serviços locais e diocesanos . Que cada um participe activamente no que disser respeito ao seu próprio campo de acção ou competência”.
“O movimento que se pretende desencadear a partir do Plano é essencialmente um movimento de renovação da Igreja Diocesana, na linha do pensamento conciliar. Tem de se alimentar do afervoramento da vida espiritual de cada cristão, uma correspondência cada vez mais fiel e generosa à sua vocação baptismal, e porventura matrimonial , sacerdotal . (…) Isto é coisa de Deus. Precisa de cobertura espiritual. Urge, pois, colocar a Diocese em estado de oração. Que os padres se entreguem, como faziam os apóstolos prioritariamente ao ministério da oração e da Palavra. Que os fiéis e as comunidades de fiéis, se entreguem com ardor às práticas de piedade."»

Padre Magalhães


4 de outubro de 2006

Família deve ter autonomia, autoridade e capacidade de opção

Com o título “a Família, um bem necessário e insubstituível”, celebra-se a Semana da Educação Cristã, de 1 a 8 de Outubro.
Coincidindo com o início escolar, do ensino religioso e da catequese, pede-se que seja uma ocasião para, todos nós, reflectirmos sobre o papel da família na educação integral das pessoas, primariamente nas fases iniciais da vida e do desenvolvimento humano, social e cultural.
Somente podemos ser uma sociedade adulta, consciente, atenta, responsável e mobilizada para as grandes causas e para os grandes valores se a Família, na conjugação com a Escola, com a Igreja e com a própria Sociedade, tem autonomia, autoridade e capacidade de opção. Tudo isto para se tornar capaz de dar, às pessoas que a constituem, a orientação, o apoio, a formação e a cultura que sente ser a comunicação e transmissão de heranças e de valores que fazem a sua própria vida e a sua própria especificidade. As outras instituições devem sentir-se ao serviço, para proporcionarem a abertura, o pluralismo, o aprofundamento e a integralidade que a família, por si só, nunca pode dar.
Esta Semana é de reflexão e de oração; de avaliação e de programação… Ao serviço da formação integral de cada pessoa humana para quem a sua Família é um bem necessário e insubstituível. Que todas as instâncias e estruturas: políticas, económicas, sociais, culturais e religiosas o entendam!

D. Ilídio Leandro

2 de outubro de 2006

De novo...o ABORTO!


De volta e meia somos bombardeados com a questão do aborto. A vida, ou a morte, já não sei, passa a ser tema de conversa no Parlamento e fora dele, claro. E como ainda não ficou esclarecido no último referendo, acharam por bem voltar a debater a questão.
Acho que é tempo de olhar em frente!
Nota:
Fazem-se mil abortos por ano no Serviço Nacional de Saúde (SNS), e consideram (o Governo) muito pouco, justificando, com isso, que estes foram feitos no âmbito da actual lei - palavras do Ministro da Saúde… Agora, depois de sabermos a campanha que ele opta em fazer a favor disto tudo, falta saber que saúde ele ministra.
Recentemente …

«O PS entregou a 15 de Setembro no Parlamento uma nova proposta de referendo sobre o aborto, no qual se propõe perguntar aos portugueses se concordam com a "despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado"», ou seja, a questão é a mesma, mas com outros “arranjos”. O que interessa é que leve os portugueses a avançar com esta questão.
Agora, vamos esclarecer algumas coisas que ainda são ignoradas nesta história toda.

Vejamos:
- a vida começa, como nós sabemos, quando existe a junção de células, ou seja, quando se dá a fecundação. Sabemos que o nosso organismo começa a ser composto por estas duas células, a do homem e a da mulher e, depois, estas têm a capacidade de se reproduzirem e se diferenciarem para formar órgãos, então o feto é um ser vivo. E sem dúvida, é um ser humano porque já contém todos os cromossomas de um ser humano, um potencial ser humano.
Ele não é constituído só pela célula da mãe nem só pela célula do pai, é um NOVO SER.

Conhecimentos de hoje…

Sabemos, hoje, que os talentos, as capacidades e habilidades apresentadas pelo recém-nascido começam a desenvolver-se logo que as células se reproduzem. Diversos estudos científicos têm evidenciado que o feto é um ser inteligente e muito mais complexo do que nós imaginávamos.
Passo a descrever:
Com 18 DIAS o sistema nervoso começa a formar-se.
No 28º DIA a boca forma-se e o coração rudimentar começa a bater.
Com 5 SEMANAS, mede 1cm. Começam a surgir as pernas e os braços. Surgem, pela primeira vez, alguns movimentos bruscos.
Com 6 SEMANAS o embrião mede 1,5 cm e o seu coração apresenta 140 a 150 batimentos por minuto. Nas suas mãos começam a desenvolver-se os dedos.
Com 7/8 SEMANAS o embrião é capaz de realizar movimentos muito simples como um ligeiro toque na sua própria cara o que responde com desvio da cabeça.
Com 8/9 SEMANAS o embrião mede 4cm. A partir deste ponto, os cientistas começam a referir-se a ele como feto.
DE FETO A BEBÉ (11 SEMANAS)
O feto vive dentro de um saco amniótico que contém um líquido que o envolve e protege. Nesse ambiente flutuante e sem peso, ele move-se activamente. Dentro do seu corpo, todos os órgãos já estão no devido lugar. Tudo o que se encontra num ser humano já está formado.
Com 12 SEMANAS mede 7,5 cm e pesa 14gr. Começa a formação dos principais ossos do corpo. Os dedos dos pés e das mãos já estão diferenciados e as unhas surgem. Apresenta movimento espontâneo embora a mãe ainda não os perceba.
Com 14 SEMANAS, engole, suga e "respira", isto é, faz movimentos respiratórios já treinando os seus pulmões para o trabalho que vão ter após o nascimento. As feições estão bem definidas e a coluna vertebral bem delineada.
Com 15 SEMANAS o feto apresenta todos os movimentos presentes em fetos a termo, isto é, com 9 meses. Pesa cerca de 110g e mede 12cm.
Com 16 SEMANAS, além de fazer caretas, levantar as sobrancelhas e coçar a cabeça, começa a desenvolver o sentido do paladar. Nesta idade, as papilas gustativas já estão desenvolvidas. A experiência tem demonstrado que o feto faz caretas e pára de engolir quando uma gota de substância amarga é colocada no líquido amniótico. Por outro lado, uma substância doce provoca a aceleração dos movimentos de sucção e deglutição.
Com 19 a 20 SEMANAS os seus movimentos começam a ficar mais coordenados, contrastando com os movimentos iniciais que eram reflexos mais primitivos. É capaz de ficar erecto e impulsionar o corpo para frente. O seu cérebro pesa cerca de 90g. Aparecem os primeiros fios de cabelo. Inicia-se a formação do "vernix caseoso"que é uma camada de gordura que reveste, externamente o feto. Esta "capa de gordura" tem a função de proteger a sua pele num ambiente aquático. Nesta fase o feto já pesa cerca de 300g.
Com 21 a 24 SEMANAS, ocorre a maturação do sistema auditivo. O futuro bebé consegue ouvir e reconhecer a voz materna. Pode até interessar-se por alguns estilos musicais. Apesar de já ser um "bebé miniatura" quase não há hipóteses de sobreviver fora do útero.
Com 25 SEMANAS, o feto pesa, em média, 800g e as hipóteses de sobrevivência a partir de então, caso haja um parto prematuro, começam a existir.
Com 27/28 SEMANAS, o feto pisca os olhos. Fecha os olhos quando dorme e abre-os quando está acordado. Pesa, em média, 1 Kg e mede cerca de 30 cm.
Com 30 a 34 SEMANAS o feto continua o seu processo de crescimento e desenvolvimento. O tecido adiposo vai se formando rapidamente e contornando o corpo do feto. Nessa fase, pesa em média 2kg e mede cerca de 40cm.
Com 35 a 37 SEMANAS, com o aumento do tamanho, o seu espaço vital, a cavidade uterina, começa a reduzir-se. Ele tentará todas as posições possíveis até encontrar a melhor. Geralmente esta posição é: cabeça para baixo enquanto as nádegas ocupam a zona mais larga do útero. Esta é a posição ideal para nascer.
Com 38 SEMANAS EM DIANTE o feto está pronto para nascer. O seu organismo está totalmente formado e maduro. Com um peso médio de 3,4kg e comprimento de 50cm, ele já não consegue mexer-se muito, aguarda, na posição certa, a grande hora. 
Com isto tudo, e porque somos pessoas civilizadas, eles querem enganar quem???
A partir das palavras do Ministro da Saúde, e o facto de estar a fazer a sua campanha pela morte, só tenho que juntar as minhas palavras ás da "Associação Portuguesa de Famílias Numerosas" que "pediu a demissão do ministro da Saúde, Correia de Campos, acusando-o de “falta de bom senso” por defender a despenalização do aborto e querer incentivar os hospitais a praticá-lo, de acordo com a lei."

Maria Matos


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