Por outro lado, um tema desta natureza acaba sempre por nos levar em direcções que desembocam em assuntos ‘quentes’, que estão hoje na ordem do dia, de uma maneira muito explorada e que despertam as mais variadas reacções, tantas vezes epidérmicas e mal fundamentadas. Como abordar esses temas num espaço tão reduzido, sem correr o risco de não cair também na superficialidade, que a maior parte das vezes não ajuda, mas só complica? As coisas complexas podem certamente ser ditas de uma maneira simples, mas infelizmente muitas vezes confundimos isso com superficialidade e simplismo, o que acaba por deturpar a realidade.
Apesar destas dúvidas, das quais ainda não me libertei totalmente, acho que vale a pena apostar neste percurso e isso porque, apesar de se dizer que o tema da sexualidade é hoje um tema que pode ser tratado com toda a naturalidade e abertura, considero que continua a haver a existência de um ‘tabu’ à sua volta.
Explico-me: todos nós sabemos como há não muito tempo atrás as questões relacionadas com a sexualidade não eram abordadas de uma maneira pública e, porque não dizê-lo também porque é verdade, não eram abordadas muitas vezes nem sequer de uma maneira privada. Havia aqui certamente uma posição redutora, que olhava para a sexualidade só a partir de uma determinada maneira, muito marcada por um certo tipo de mentalidade e de educação. Tudo era então silenciado e calado, vivido às escondidas e, quantas vezes, acarretando situações de verdadeiro sofrimento. Claro que não podemos generalizar de maneira absoluta, mas certamente que concordamos que esta era a tónica dominante.
Hoje do meu ponto de vista o tabu mantém-se. Não porque não se fale - talvez até se fale demais, dizendo tanta coisa, que se acaba por nada dizer nada, ou por dizer muito pouco -, mas sobretudo porque se alimenta a posição de que neste nível as coisas dizem respeito a cada um, não podendo pois haver ingerências nem limites moralistas. A visão redutora permanece, de uma maneira diferente certamente, mas permanece. Agora, tirando algumas situações com as quais todos estamos de acordo e que nem sequer remetemos para o campo da sexualidade, pois já consideramos doentias (refiro-me por exemplo à pedofilia), agora, dizia eu, não podemos impor qualquer tipo de limite que não vá para alem da subjectividade e da vontade de cada um daqueles que está envolvido em qualquer tipo de relação. Ora se eu não posso falar abertamente, porque isso é logo considerado ingerência, ignorância ou uma atitude completamente passada, então é porque o tabu continua.
O tema merece, pois, ser tratado. Mas em vez de ficar na análise de situações concretas, que são sem dúvida importantes, vou antes escolher outro caminho, que passa pela apresentação de alguns paradigmas a partir dos quais se pode reflectir esta dimensão tão importante do nosso viver. Não tenho dúvidas de que muitas das dificuldades sentidas nos nossos dias, quer ao nível da vivência, quer ao nível da reflexão teórica, poderão ser mais facilmente enfrentadas se percebermos que, também neste âmbito, estamos a passar por mudanças paradigmáticas, que acabam sempre por implicar alguma crise e ruptura. Olhar para esses paradigmas, que trazem sempre consigo uma determinada maneira de pensar, marcam uma maneira de olhar e influenciam uma maneira de agir, é então o meu objectivo. Espero, deste modo, poder dar um pequeno contributo para uma reflexão que nunca pode deixar de ser feita.


























