Assim concebida a liberdade é ela um bem inestimável, sem preço, tão ou mais valiosa como o ouro. Por ela e em nome dela as grandes lutas da história, de povos contra povos, de grupos contra grupos - estamos a lembrar-nos da revolta dos escravos na antiga Roma, comandados por Spartacus -, de pessoa contra pessoa, a começar na família, no trabalho.
Por ela se bateram figuras memoráveis da história, mesmo contemporânea, entre os quais Martin Luther King, infatigável lutador contra a escravatura e discriminação vitimando o povo negro americano.
Em nome dela a vida humana de tantos foi oferecida em holocausto.
A palavra liberdade continua a ser propalada em areópagos de todo o mundo e a alimentar, em seu nome, conflitos de toda a índole, uns sangrentos e outros sem o serem em vista e no nome da liberdade.
A esse bem ou valor alcançado se esculpiram estátuas de homenagem, pintaram murais, escreveram poemas e livros com quilómetros de extensão; os lutadores pela liberdade recolhem tributos em vida e epitáfios na morte.
Onde esse bem navega sem limitações é no pensamento; o pensamento não conhece fronteiras, não se medindo nem detectando. Outros afloramentos libertários são já visíveis e exteriorizáveis.
Alcançada a liberdade depressa a história se encheu de usos pérfidos dela.
É por isso muito conhecido o afloramento de que a liberdade individual acaba onde começa a do outro, o que vale dizer que o uso daquele valor não é ilimitado e conhece as restrições impostas, desde logo pelo ser social, de vivência em sociedade, que o homem é.
Quer isto dizer que o uso, sem limitações, que a liberdade do "ego" projecta, pode lesar, gravemente o outro.
Daí que à liberdade de expressão, seja falada seja escrita, sexual, artística, profissional, religiosa, etc, etc, as leis não sejam insensíveis aos desmandos a que conduz, castigando os prevaricadores do excesso.
Há quem defenda uma liberdade total, esses são os libertinos, que são muitos.
E essa ideia errada está a ser amplamente divulgada e aproveitada entre nós; os libertinos propalam todo o tipo de calúnias e ofensas verbais e escritas, convictos de que o não podem, sequer devem, mas fazem-no, a coberto de uma certa impunidade.
Nada e nem ninguém escapa à sua fúria demolidora, a coberto de poderosos meios que lhes estão ao alcance e sempre na mira.
Os libertinos, a coberto de uma liberdade sexual, transformada em promiscuidade, por muitos fomentada, concorrem para a completa escravização do ser humano.
Todos os que ofendem, desrespeitando, as instituições, em nome de uma liberdade de pensamento e expressão, sem regras, são libertinos e apressam (apressaram) a crise social e económica, tão ou mais grave do que a falência económica e política em que se caiu. E são por demais os que, por todos os meios, atentam, em nome de um mau uso da liberdade, ferindo valores ou princípios fundamentais, com tutela de lei.
E o excesso de liberdade em uso no meio familiar deu os pequenos libertinos que ofendem e agridem os seus professores na escola, roubam os mais frágeis, se prostituem pelos cantos, danificam materiais e se tornam possuidores de uma linguagem que envergonha qualquer.
Em nome da liberdade artística se assistiu à ofensa, no passado, no nosso país, a João Paulo II.
Mas já foi em nome de falta de liberdade ou tolerância religiosa que um bispo católico, paquistanês, pressionado, vivente numa comunidade de diferente credo religioso, maioritário, se suicidou, atentando a tiro contra a própria vida, e em jeito de derradeiro protesto, sem mais alternativa.
O nosso país atravessa um período da maior instabilidade, porque se fez um uso desregrado de um bem e direito fundamental que é a liberdade, convertendo-se num paraíso onde cada faz o que lhe apraz sem muito pouco lhe acontecer.
E todos os países onde se caiu nesse descalabro colectivo acabam por pagar um tributo altíssimo. Não escaparemos, por certo, a esse anátema.























