10 de maio de 2015

Que é a Verdade?

Da pergunta de Pilatos ao conflito entre Verdade e Política


O confronto de opiniões, de afirmações categóricas e desmentidos, a contradição de versões dos mesmos factos, a análise valorativa de comportamentos pessoais e suas intenções constituem o quotidiano de noticiários, comentários e debates na nossa sociedade mediática. Para distinguir a segurança das informações e a validade das opiniões publicamente difundidas, formarmos as nossas próprias convicções e fundamentar racionalmente escolhas conscientes e comprometidas precisamos de nos orientar, ter critérios e apoios fiáveis. 
As nossas decisões, processam-se no espaço público, determinam interacções e influencias no quadro das instituições em que decorre a nossa vida e acção comum. Impõem-se referências que orientem, dêem estabilidade e coerência ao meu proceder e forneçam critérios para avaliar e distinguir no universo das opiniões aquelas que estou disposto a favorecer para configurar as instituições, segundo valores que subscrevo e com outros partilho. A reflexão, o nível da minha actividade em que o exercício do pensamento me coloca acima dos factos, dos desejos e das emoções, leva-me a questionar-me sobre a verdade. Espontaneamente me ocorre a situação paradigmática do diálogo de Pilatos com Jesus e a pergunta que Lhe dirige: “Que é a verdade?”.
As autoridades religiosas judaicas conduzem Jesus ao tribunal de Pilatos. Pretendem transformar a questão religiosa interna do ensino e acção de Jesus, em acusação de conspiração política para forçarem uma decisão da autoridade romana que, só ela, pode decretar a pena capital. Pilatos interroga Jesus que prontamente esvazia o conteúdo da acusação: “A minha realeza não é deste mundo… O meu reino não é daqui”. E adianta: “Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37). Um perante o outro, Jesus e Pilatos, estão em mundos opostos. Dificilmente as suas linguagens podem convergir.
 Não é a primeira vez que Jesus fala da “verdade”. Ele próprio se define no Evangelho de S. João como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6) e refere ao Espírito Santo como “espírito de verdade” (Jo 14, 17; 16, 13). O Evangelho escrito em grego usa a palavra aletheia que significa manifestação, revelação daquilo que estava encoberto, oculto. “Verdade” tem o sentido de des-velamento, des-ocultação, aquilo que aparece e revela o seu modo de ser, a sua “realidade”, no caso, a “manifestação” do mistério de Deus. A Tomé que pede para lhes mostrar o Pai, Jesus responde: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). Jesus é a verdade do Pai. Ao afirmar perante Pilatos que vem para “dar testemunho da verdade”, reclama que a sua missão está acima da polémica em que o envolveram. Vem apenas para levantar o véu que esconde a realidade transcendente de Deus, mostrar os caminhos que conduzem a Ele e, a essa luz, revelar a dignidade do homem. 
Na cultura hebraica de Jesus, o campo semântico de “verdade” é ocupado pelas palavras emunah e emet que acrescentam ao seu significado a crença de que Deus é infinitamente fidedigno e tudo o que revela é seguro, merece inteira confiança e reclama firme acolhimento e plena sujeição da vontade. 
A verdade de que Jesus fala revela Deus numa história de fidelidade e amor ao seu povo. Reclama a inteira confiança no Deus fiel à Aliança e a plena abertura da inteligência para aceitar o contínuo aclaramento da sua mensagem. Testemunhar a verdade acarreta a disposição firme da vontade para passar das crenças à acção e levá-la às últimas consequências como Jesus. O testemunho da verdade perante Pilatos implicou a responsabilização pela palavra que anunciou e pela actividade que desenvolveu, a aceitação das consequências da sentença injusta de Pilatos, a sua morte. “Jesus não é um rei como os reis deste mundo que exercem um poder meramente político. Jesus é o “rei dos judeus” no sentido de seu Salvador que exerce um poder que é divino e é aceite por uma adesão interior. Não vem para reavivar um reino judeu independente, mas para estabelecer o reino da verdade mudando os corações dos seres humanos” (The New Community Bible, comentário a Jo, 18, 28-38).
Pilatos está em posição oposta à de Jesus. Está do lado do poder e visa resolver pragmaticamente a situação. É uma posição política. “Está cego para a verdade e atascado na falsidade” (Ib). A sua argumentação não tem como referência a verdade ou a justiça, uma solução racionalmente sustentada em evidências, princípios ou leis, mas apenas aquela que preserve a sua situação pessoal e o poder que representa. Por isso ele vai de estratagema em estratagema, de cedência em cedência até à condenação daquele que repetidamente reconhece inocente. O evangelho de S. Mateus refere que Pilatos lavou as mãos perante a multidão, dizendo: “Eu não sou responsável pelo sangue deste homem”. Onde não há pretensão de verdade, não se assume responsabilidade.  A relação entre a verdade e a política tem sido desde Platão conflituosa. A filosofia platónica situava a verdade acima das coisas mutáveis, no plano dos princípios. A política que discute os assuntos humanos e os interesses divergentes dos cidadãos é o domínio da opinião variável. Na perspectiva de verdade o debate reclama o diálogo, para que possa surgir o “esclarecimento” (Aletheia) das questões, a verdade como referência da acção. No plano político, a discussão visa o confronto de opiniões, a supremacia duma sobre outra e a adesão da maioria a uma actuação prática que faça evoluir as instituições. Tem por referência o futuro, aquilo que se quer que seja, mais do que aquilo que é. É o terreno do incerto. Pode ser o domínio da miragem, da argumentação retórica, da sedução, no limite, da mentira e da manipulação. 
Hannah Arendt tem um ensaio em que aborda a questão sob o título “Verdade e Política” (Relógio D’ Àgua Editores, 1995; ed. Original, 1968). Dele deixo duas citações: uma que, para nossa reflexão, pode responder à pergunta de Pilatos; outra que situa o conflito do ponto de vista da política.
“Conceptualmente podemos chamar verdade àquilo que não podemos mudar; metaforicamente, ela é o solo sobre o qual nos mantemos e o céu que se estende por cima de nós”. p.59
“A discussão constitui a essência da vida política. Os modos de pensamento e de comunicação que têm a ver com a verdade são, quando na perspectiva política, necessariamente tirânicos; não têm em conta opiniões de outros, quando esse ter em conta, é a marca de todo o pensamento estritamente político.” p. 28

Por Octávio Morgadinho


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