12 de abril de 2015

A Páscoa da Ressurreição


Como recordo aqueles tempos de menino e moço, como diria Bernardim Ribeiro, quando, no sábado de “aleluia”, me invadia um misto de ansiedade e incontida vontade de ouvir as dez sonoras e compassadas badaladas, para, de maneira célere e decidida, trepar pela longa escadaria que me levava até ao cimo da torre sineira e aí, de maneira frenética, pegar no badalo do sino e começar a tocar e a gritar: “Aleluia, Jesus ressuscitou”.
É verdade, que nessa altura, tudo isto era feito por um rito tradicionalista, não tendo a verdadeira noção do seu significado.
Muitos anos mais tarde, estive em Jerusalém, na Igreja do Santo Sepulcro, junto ao túmulo que foi cavado na rocha dum jardim do José de Arimateia, onde Jesus havia sido deposto e aí, rezando e meditando neste grande mistério pascal, melhor compreendi que foi precisamente daquele local, do túmulo de Cristo, que saiu vida nova para a humanidade, à imagem da ressurreição gloriosa do Senhor, Jesus Cristo. 
A vida cristã, mais não é que uma Páscoa permanente, o êxodo constante, uma passagem da morte do pecado, para a vida da felicidade e de graça. Em todas as Páscoas, revivem os cristãos, o mistério pascal da RESSUREIÇÃO, que nos dá uma nova vida, cheia de graça espiritual.
É que, a Páscoa dos cristãos, é Cristo, o novo fermento que nos dá ânimo para viver, para suportarmos o sofrimento, para crescer na fé.
Mas, para vivermos, em plena graça, é preciso estarmos em conjugação com Cristo, formando com Ele, um único corpo místico, a fim de com Ele partilharmos o mesmo espírito e vida espiritual.
Só vivendo em Cristo, poderemos viver com Ele. Se eu quiser ter a mais alta glória de ser Cristo, terei de seguir os Seus preceitos e de cumprir os seus mandamentos.
A PÁSCOA é uma forma de vida cristã. Pelo Baptismo, sacramento da ressurreição, renascemos do pecado original, para uma vida em graça, pondo à margem os liames do pecado e as limitações inerentes ao homem velho. Ser cristão é levar, nas obras e nas virtudes da vida diária, o testemunho de Cristo ressuscitado. A essência dos Evangelhos, a Boa Nova, consiste em comunicar aos nossos irmãos, em Cristo, o mistério do Senhor ressuscitado. Porém, ao fim, ao cabo e ao resto e vendo bem as coisas, o Cristo pascal, somos nós próprios, dando o nosso testemunho de vida, onde quer que estejamos, alvoraçando o nosso próximo, com o grito que promana do túmulo vazio, junto a Gólgota, em Jerusalém. 
Se quisermos ser, autênticos cristãos, na verdadeira acepção da palavra, temos o dever de dar, à nossa vida de cristãos, os valores que conferem à vida, um sabor de rectidão, de santidade.
Neste mundo, onde prolifera tanto ódio, tantas vindictas, tanta violência e actos tão bárbaros, como os praticados pelos desumanos jihadistas islâmicos da Líbia, que nos deixam horrorizados e em pânico, temos de mais nos unir a Cristo ressuscitado, que proclamou apenas a paz, a concórdia, o perdão, a fraternidade, o amor ao próximo. Sempre que um cristão se levantar da sua cama, após um sono tranquilo e reparador, que seja sempre uma radiosa manhã de Páscoa.
A PÁSCOA, é fundamento de toda a nossa fé. Por seu lado, a RESSURREIÇÃO é o grande sinal, a anunciada prova que todos esperavam e da qual chegaram mesmo a duvidar. “Se Cristo não tivesse ressuscitado, era vazia a nossa fé e toda a pregação do Nazareno” (I Cor 15,14).
A PÁSCOA é mistério de fé. E isto porque só através da fé se pode compreender CRISTO RESSUSCITADO. Do mesmo modo que os apóstolos, também nós, cristãos, às vezes vacilamos e somos tardos no acreditar. Frequentemente tropeçamos nos escolhos dos escândalos, no opróbrio da cruz, na dúvida que, amiudadamente se instala em nós.
Porém, não nos podemos esquecer que PÁSCOA é mistério de amor de fraternidade, de perdão, de resignação. A morte e Ressurreição de Cristo é, para nós cristãos, a maior prova de amor, a autêntica e perfeita doação de Cristo ressuscitado, para que nós, um dia, ressuscitemos também. Vendo bem as coisas, éramos nós que tínhamos necessidade de ressuscitar e não Cristo, que já era Deus, vértice supremo de toda a cristandade.
Mas tudo sucedeu, de modo tão diferente e tão célere, tudo aconteceu a correr, naquele inolvidável dia de Páscoa Judaica. Foi uma correria do Sinédrio para o Pretório; da casa de Anãs, para Caifás; de Pôncio Pilatos para Herodes Antípas e deste novamente para Pilatos. Jesus apressou-se a consolar Sua Mãe e os Seus amigos. Pedro e João, correram para o sepulcro. As piedosas mulheres e os discípulos de Emaús correram ao encontro do Senhor. E tudo por ódio, despeito, amor, e acrisolada afeição. Jesus foi querido, estimado, amado e odiado, vilipendiado e cruelmente crucificado. Foi beijado de três maneiras bem diferentes. Teve o beijo do amor, de sua mãe. O beijo do arrependimento de Maria Madalena e o beijo da traição de Judas Iscariotes.
Nesta Páscoa, com qual destes beijos vamos oscular Cristo?

Por Fabião  Baptista



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