16 de janeiro de 2015

São rosas, senhor


Na infância, a fome é um mal híper-abrangente, porque não é “apenas” uma dor do corpo e da alma, nem só a exclusão e a marginalidade e todos os desastres a que conduzem, 
mas a hipoteca permanente 
do futuro.
A dimensão das crises invoca uma necessidade directamente proporcional de parcimónia nos discursos. Entre o gaudio de uns e a consternação de outros, a emaranhada teia de interesses sãos ecriminosos em que a nossa sociedade se enredou, invoca o interesse de a ciência investigar a hipótese de a política também ser operada em ciclos longos, identificáveis por mecanismos naturais de autolimpeza dos regimes democráticos, acionados pelo seu sistema imunitário e tendo como função a preservação da homeostasia moral e, portanto, da sobrevivência política dos Estados e seus legítimos interlocutores.
A ver vamos, diz o cego, em voz alta, num país enredado em consanguinidades e endogamias e de política mais genética e amigalhaça do que ética e inteligente. Para mal dos nossos muitos pecados, não é impossível termos de lidar com a descoberta final: o super-juiz não está sobrecarregado com casos; tudo é o «caso», com os seus polos de ação dispersos, mas unidos numa única frente comum, como outrora as esquerdas quando queriam ir a votos. Só que desta feita as Internacionais são bancárias e acabaram por sair da gaveta.
Entretanto, enquanto se trata de investigar os possíveis crimes e re-orientar as estratégias eleitorais rosas e laranjas, é preciso continuar a pensar no pão e naqueles a quem ele escasseia, boa meta para políticos, tal como certa santa soberana evidenciou. O imenso distúrbio alimentar que é hoje o problema da fome e da obesidade foi, a semana passada, alvo de alguma mediatização por via das lúcidas e inteligentes intervenções de Letizia Ortiz e do Papa Francisco na reunião magna da FAO, em Roma.
A sensibilização social já estava feita pela imbecilidade da pré-campanha do mais mediático dos desfiles de roupa interior, as suas micromodelos alvo de ira e chacota nas redes sociais, coadjuvado pelo marketing grosseiro de uma marca de jeans “para todos os corpos”, que não resistiu a apresentá-los infundados por um enfermo padrão de IMC.
Ortiz, congruentemente vestida de rainha, chamou a atenção para duas questões cruciais: o efeito nefasto que tem sobre as decisões a tomar a falta de confiança que as sociedades têm na investigação científica, obrigada a achar resultados conformes ao financiador e a descarada impassibilidade da indústria alimentar quanto à sua responsabilidade objectiva na produção de doenças associadas à nutrição. Também lembrou que educar uma mulher é educar uma sociedade, mostrando, por si mesma, a vantagem da mente sobre a condição social.
Por sua vez, o Papa recuperou o essencial da «Caritas in Veritate» de Bento XVI e, igualando a assertividade esclarecida da consorte espanhola, lembrou os males provocados pela financeirização dos bens alimentares, especulados como um produto qualquer. Mas creio que, num futuro, recordaremos a sua intervenção por se fazer um porta-voz autorizado do pobre que reclama dignidade e não esparsas fatias de pão-de-ló, naquela deliciosa maneira americanizada de apontar os óbices às leituras da realidade, alinhadas pelos poderes, como certas e bem-comportadas.
Este debate de Roma também mostra a ociosidade, a estupidez e a “venda” das políticas aos interesses das grandes corporações anónimas, já que os Estados afluentes e democráticos gastam, hoje, fortunas incomensuráveis com doenças como a diabetes e a obesidade mórbida, sempre a crescer, enquanto muitos jovens morrem pela anorexia e, num mundo aqui ao lado, milhões de crianças – nas nossas ruas, também – passam fome e morrem desnutridas.
Na infância - e por isso, demos alguma atenção à campanha animada pela Caritas - a fome é um mal híper-abrangente, porque não é “apenas” uma dor do corpo e da alma, nem só a exclusão e a marginalidade e todos os desastres a que conduzem, mas a hipoteca permanente do futuro daquela pequena e frágil pessoa, já que o cérebro é o primeiro órgão a entrar em regressão por falta de nutrientes. Se rosas e laranjas se transformarem em pão talvez tudo o mais possa ser recolocado no seu devido lugar.

Por Cristina Sá de Carvalho (RR, 25/11/2014)


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