19 de janeiro de 2015

Ainda sobre Nash...


Em John Nash confluíram a maravilha humana de um ser genialmente dotado para a grandiosidade dos números que fez dele um matemático genial, um génio ainda vivo, mas também a máxima desdita, atingido como foi por doença mental gravíssima, para que a medicina ainda não descobriu cura, embora meros paliativos, e que fazem do ser humano um ser distanciado do mundo, vivendo no que vai construindo, por entre surtos de alucinações, mania da perseguição, isolamento total e incapacidade de convivência em moldes normais, e quase sempre para o trabalho, doença a que os gregos apelidavam de mente rachada, ou seja “esquizos frenos”. 
Nash, que o cinema quase imortalizou, ao assinar uma fita com o nome de “Uma Mente Brilhante”, tornou-se conhecido porque, embora atingido pela doença, conquistou um prémio de reconhecimento universal no domínio da matemática, pelo Teorema de Iackobs, reconhecimento que veio a culminar com a atribuição do Prémio Nobel da Matemática, em 1994. 
De Nash é posta em destaque a sua genialidade em contraponto com a doença, mas é esquecida ou pouco relevada a figura da esposa, a bela jovem que, superando a timidez do que viria a ser o seu marido, com ele contraiu casamento e de quem houve um filho, mal descortinando que a vida ao seu lado, ao lado do homem que já jovem era professor universitário, dando mostras de uma inigualável inteligência, se tornaria um doente mental. A vida, a seu lado, tornou-se um inferno, como sucede com os que privam de perto com portadores de esquizofrenia, caiu em revolta contra Deus, chegou ao beco sem saída, a sua cruz era do peso do mundo, mas que suportou como autêntica heroína, com resignação, paciência, dedicação e um amor fiel sem limites, mesmo quando outros a requestaram. A todos respondeu não.
O meu marido está doente, mas, disse, “é o homem que eu amo, o homem a quem a infelicidade bateu à porta”, mas é o homem de toda a minha vida”.  


E o sábio marido continuava a manifestar a sua doença entre cenas de rua e em casa, modesta, por entre a escritura de milhares de folhas brancas, que colava às escondidas da sua companheira de sempre, e que nunca maltratou fisicamente, colando aquelas, cheias de milhares de fórmulas e teoremas, equações e inequações, integrais e sistemas, em todas as paredes da divisão. 
Semi-afastado da velha e reputadíssima Universidade americana é entretanto agraciado com o prémio de melhor do Mundo de 1994, o Prémio Nobel de Matemática, e numa atitude comovente e de enorme apreço, começa por receber as canetas de todos os colegas da Universidade e, depois, na cidade sueca de Estocolmo, os símbolos desse prémio, que, também, significa a persistência, mas não só sua, mas também de uma mulher extraordinária, generosa, sublime, uma heroína, que abandonou o egoísmo que, tantas vezes nos move, para penetrar na alteridade, na ajuda ao que tanto sofreu e amou e ama, carregando a cruz de ambos. 
Nash, entre a voz entaramelada, pouco ciente da sua capacidade de alinhar um discurso coerente e firme, mas bastante melhorado da sua doença, que o permite deslocar-se ainda à Universidade de Princeton, dirigindo-se a um escol de cientistas do globo terrestre, por entre figuras de inimaginável relevo, começou e terminou por dizer, olhando fixamente a esposa entre, assistência de elite, “que toda a vida se dedicou ao estudo de números e suas razões, mas a verdadeira razão da sua vida estava na sua mulher”.  
Mas tantas mulheres no Mundo há como a mulher de Nash, autênticas heroínas, aquelas que, com risco e sacrifício da vida assumem ser mães, aquelas que carregam filhos deficientes e pacientes de doença grave, maridos e familiares em terminal de vida. 
Heroína aquela mãe que se ocupa de dia e de noite em trabalho para criar e educar a filha, só, sem contributo do marido que há dez anos a deixou só mas com o tesouro da Ana, nos braços débeis. 
A Ana é também uma heroína jovem. Explorada é certo pela firma empregadora, os fins-de-semana, a começar à sexta, dedica-se, para conseguir mais algum dinheiro, para concluir o seu mestrado, a cuidar de idoso, viúvo, sem família disponível. 
A Ana é uma linda menina, de queixo rasgado, um rosto esbelto, um sorriso que adocica a vida do vetusto homem, que soube reconhecer o esforço da mãe, que mal ganha para comer e o abandono do pai, que não está desejosa de ver e que recebe do Estado uma magra bolsa de estudos, a infinitésima parte do que o Estado aplica mas… pessimamente.  
Em tempo de Natal porque não lembrar a menina, quiçá inexperiente, sem grandes meios de fortuna, ante a novidade da sua futura gravidez, aceitou ser mãe de um Filho, a Luz do Mundo, porque a Deus nada é impossível, ou seja Maria, a Nossa Senhora. E que não é impossível, o exemplo de Nash, o génio, apesar de doente mental grave, que se tornou conhecido em todo o mundo, já antes do Nobel, sendo pela aplicação das suas descobertas, também à economia, em matéria de consumo e mercados. 


Por Armindo Monteiro


Filme inspirado na vida de John Nash






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