5 de janeiro de 2015

Uma noite de insónia


O estrondo produzido pelo foguetório e por girândolas de morteiros, fê-la acordar do sono profundo em que havia mergulhado.
Desperta, reparou que a chuva, açoitada pelo vento, batia em fortes bátegas, nas vidraças da janela do seu quarto, do seu espaço vivencial, como ela dizia, com certa graça…
Julgava já ser madrugada. Olhando para o relógio do seu rádio despertador, que tinha sobre a sua mesa de cabeceira, verificou que era apenas meia noite e que os barulhos que a acordaram, eram provenientes dos foguetes que festejavam a passagem de ano e a chegada do NOVO ANO.
Ligou a televisão e lá estava, a confirmar tudo aquilo, um ambiente de festa e orgia, de alegria e réveillon. Ao menos estes têm alegria, para festejarem, alegremente, a vinda de mais um ano de esperanças e de ridentes projetos, reflectiu ela…
Só, pensou então que tempos idos, também ela havia festejado passagens de anos, rodeada dos seus familiares. Nunca os quis festejar em discotecas, bares, dancings, ou outros centros de diversão pública. As comemorações, sempre tiveram lugar, em ambiente familiar. Nesse momento, de solidão e de tristeza, emoldurada pela nostalgia, deu com os olhos na foto do seu filho, que estava numa moldura, sobre a mesa-de-cabeceira. Pensou então, que o seu querido, adorado, muito amado e nunca esquecido filho, devia de estar, com sua segunda mulher e talvez com os filhos da primeira e da segunda, num qualquer sítio de diversão noturnas, festejando, alegre e despreocupadamente, a entrada do NOVO-ANO…
De repente, tentou afastar uma tal ideia. Ligou a luz do quarto, uma vez que estava acordada e não via jeito de adormecer de voltar a reclinar-se nos braços do Morfeu, pensando afastar deste modo, da sua mente, incómodos pensamentos, pressentimentos do presente e presságios do futuro, assim como a insónia que a fustigava e afligia de modo indesejado.
A chuva, essa continuava a tamborilar sobre as vidraças da janela, de maneira impetuosa e ritmada, parecendo fazer melodias.
Foi até à janela. Chovia mesmo, de maneira diluviana. Levantou-se, vestindo o roupão de lã. Calçou as pantufas e foi sentar-se junto da janela. Um cheiro a terra molhada, invadiu-lhe as narinas, despertando-lhe a memória dos tempos em que era criança e gostava de andar à chuva, debaixo de um grande guarda-chuva. Agora, só o cheiro vinha visitá-la, como velho amigo, fazendo-lhe recordar tempos idos, de criança. Nesta idade, tudo eram reminiscências de um passado, que já lhe parecia tão distante. Agora tudo tinha perdido, até o seu poder de acreditar. Onde estava a mulher corajosa, destemida, intrépida, lutadora. Cheia de certezas, força e esperança? Agora, envolvida no seu roupão, cor-de-rosa e embrulhada na sua insuportável insónia, encontrava-se apenas desiludida…
Voltou a deitar-se, pois estava a enregelar, embora o meio ambiente do seu quarto, graças ao ar condicionado, estivesse acolhedor. Fechou os olhos, na tentativa de adormecer, chamando, para si, sonhos agradáveis e o desejo de um novo ano, cheio de prosperidades e diferente destes últimos tempos. Só que o sono não lhe fez a vontade. Não obedeceu aos seus desejos. Talvez o barulho que a chuva fazia, batendo nas janelas, fosse o grande cúmplice. Ficou a desbobinar o filme do passado, as noites de inverno, em família, à solarenga lareira lusitana, os fins de anos, passados em confraternizações, com amigos e familiares. Nisto começam a surgir, na sua mente, imagens de um mundo em convulsão, com carnificinas, provocadas por dementados ataques de Al-Qaeda, provocados pela demoníaca Jihad islâmica, por fascínoras Kamikases, por talibãs sem escrúpulos, pelos terroristas da por Hezbollah, dos Fedayeen, assassinos impiedosos, num mundo terrível, e que o Novo Ano, não será capaz de mudar, para melhor. Porém a televisão, noticia que os americanos, acabavam de restabelecer a paz, com os cubanos, libertando prisioneiros, de ambas as partes. Mas logo de seguida voltam notícias, como o massacre de centenas de crianças, no Paquistão, a legalização da dementada eutanásia, a criminosa legalização do aborto, o crescente desemprego, a subida do custo da energia elétrica, o aumento dos impostos, a espartilhante austeridade, que faz minguar os vencimentos e as já de si exíguas reformas. E, perante tudo isto, continua a insónia, ufana e triunfante, a rir-se a bandeiras despregadas, do poder que tem sobre os humanos, martirizando-os e fazendo-os mergulhar em tétricos pensamentos.
Insatisfeita, ela voltou a sair da cama. Aqueceu um copo de leite, no micro-ondas, na leda tentativa de afastar a insónia, que tanto a incomodava e a fazia estar acordada àquela hora, persistindo em instalar-se no lado vazio da sua cama. Queria aconchego, carinho, calor humano, daquele calor que dá sentido à vida. O copo de leite tornou-a emoliente, trazendo-lhe, concomitantemente, boas ideias e óptimas recordações, imagens idílicas de passeios. Viu-se em Paris, subindo a Torre Eiffel, em Praga, nos canais de Veneza, navegando em gôndolas, em Milão, em Madrid e em Sevilha, repleta de sevilhanas salerosas e noutros lugares do mundo. E tudo isto porque, a chuva, continuava a cair, na sua sonora melodia e a insónia, talvez farta de ser vilipendiada, resolveu partir, desaparecendo devagarinho e sem alardes.
Quando voltou acordar, eram 10 horas da manhã.

Por Fabião Baptista



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