22 de dezembro de 2014

Que desgraça na vida aconteceu

Camilo Pessanha, poeta português dos primórdios do  séc. XX, em memória de sua falecida mãe, escreveu, em Macau, um poema, cujos primeiros versos, dizem “Mãe, que desgraça na vida aconteceu, ficaste insensível e gelada, todo o teu perfil esmoreceu…!”
Assim também muitos pais e mães do nosso país, com o coração cheio amargura, lhes apetece, em clamor, gritar a plenos pulmões “Que desgraça nos aconteceu!”.
Ele é a emigração dos seus filhos para o estrangeiro em busca de meios de vida que uma pátria madrasta lhes recusou, de uma pátria que lhes negou o pão de cada dia, de uma pátria que mente atirando números de desempregos em queda real porque a pressão dos candidatos ao emprego debandaram para outras paragens. 
Ele é uma faixa de cerca de 2 milhões de compatriotas nossos numa situação detectada de pobreza, que tecnicamente é reconducente a menos de 10 dólares diários para satisfação das necessidade diárias básicas de alimentação, vestuário, medicação e alojamento, suas e do seu agregado familiar. 
Ele é uma insegurança, até agora incipiente, mas que começa a enraizar e de que tem sido vítimas, principalmente, os mais idosos e isolados. 
Ele é uma criminalidade, em crescendo, no seio da família, ao nível aterrador do uxoricídio e do abuso sexual, de que são alvo os mais fracos e indefesos, sempre as mulheres e as crianças, os eternos sofredores dos mais fortes e dos que, para satisfação da sua líbido, doentes ou sem o serem, endereçam as suas insaciáveis e incontroláveis tendências às suas vítimas. 
Ele é um país mórbido, doentio, patológico, atingido pelo vento iracundo do norte que espalhou os micro-organismos agressivos aos pulmões, à revelia da culpa de quem quer; nem pensar pelo incumprimento de normas técnicas, que nós somos escrupulosos observadores de regulamentos e ordenações; indemnizar os familiares dos que partiram ou os que jazem debilitados no leito do hospital, é do outro mundo, o nosso gabinete jurídico está já incumbido de tratar do assunto…, é a linguagem da desculpa e enxotar nacional. 
Ele é uma terra que está a aterrar-nos e enterrar-nos com impostos. Só perde, é voz corrente, quem tem. Estamos avassalados por um furacão diabólico, numa carga fiscal, própria de um sistema liberal, mais amarelo, a tender para o vermelho, do que outra cor, apoiado por uma estrutura persecutória que não olha a meios e nem a proporções, tudo em nome de um  cofre  financeiro bem cheio, com um “cash“  gordo, luzidio,  anafado, a transbordar de cheio para, daqui por uns anos, no mais puro do samaritanismo, consolar os que foram espoliados, como se alguém acreditasse em tão caritativo gesto…!
Ele é um conjunto vasto de pessoas que começam a mostrar, tal como o pato, ao emergir à tona da água, depois de muito se proteger com o unto do uropígeo da frieza da água, um clima de “torção“ de regras e valores fundamentais, que dá para encher os bolsos, sem esforço, apaga a vergonha e o respeito que lhe deviam merecer os cidadãos limpos deste país, conhecido em muitos mundos, até lá para os lados de fala em mandarim e árabe, para não falar na Europa próxima, com que também aprenderam alguma coisa e noutros continentes, como um país de muitos oportunistas e alargada gente sem grande escrúpulo, pronta, deixando-a, aconchegar o monte dos seus haveres.
Ele é uma praga de gente subsidiada que vive sem dobrar a cerviz, vinda dos quatro cantos do mundo, esvazia cofres, gera tumulto, esparge lassidão, acrescentando mau ao já nosso muito de mau.    
Não admira que a família atravesse uma das fases mais críticas entre nós; o amor deu lugar à atracção e dura enquanto esta durar; o espírito de sacrifício à experiência e à desresponsabilização; a pedra angular da sociedade pois é nela que se cultivam os valores essenciais à construção saudável do mundo cedeu, ruiu, e só muito a custo, pontualmente, a autoridade dos pais, o respeito entre todos os seus membros, a generosidade entre marido e mulher, o perdão e a tolerância, fonte de estabilidade do social, vem ao de cima, com delatores a cada canto, mais interessados em desagregar do que construir, cultivando um academismo balofo, quantas vezes pingue e fácil. 
É altura de apregoar bem alto “Que desgraça nos aconteceu…“, ainda que, de riso de orelha a orelha, nos tentem convencer do contrário, como já boa parte dos ouvintes já se deu conta... 

por Armindo Monteiro


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