1 de dezembro de 2014

Quando pensamos que tudo acaba…

Dizemos com frequência que o sofrimento pode ser via de libertação interior e de crescimento espiritual; mas esquecemos que o ser humano faz parte de um todo social e que para termos condições para superar a dor e fazer dela caminho de redenção, é preciso que o Amor se faça presente nas nossas humanas vidas. Esse Amor às vezes está connosco de forma tão subtil, tão delicada, que só muito mais tarde damos por ele. Como é o caso verídico que vos conto.
Cumpridas as formalidades do internamento, o marido afastou-se e a mulher ficou só. Teve tempo para olhar em volta e recolher-se em si mesma, como era seu costume. Tudo limpo, arrumado, a cheirar a materiais de construção frescos. Enquanto arrumava os objectos pessoais nos móveis a estrear, ia pensando na sua vida e como chegara ali. Aceitara sempre a doença como facto natural de todo o ser vivo. Nunca tinha passado pela tal fase do: “porquê a mim?”, talvez porque a doença a apanhara na infância e as interrogações dessa idade sejam outras. Não sabia. Nem revolta, nem desespero, que se lembrasse. Solidão, sempre. Ali estava, mais uma vez, só. Ali estava, naquele silêncio de alma que a si própria se impunha, tentando não ter esperanças demasiadas, nem medos infundados. Ia operar os dois pés, uma operação que sabia dolorosa e cujo tempo de recuperação era uma incógnita. Sem quase poder andar, estava já há muitos anos. Montes de sapatos guardados numa enorme gaveta de expectativas vãs. Dores, os pés em ferida, alma dorida. Ali estava, teimosamente, de pé, tentando chegar ao cabide do armário. Não chegava. A porta do armário também tinha sido difícil de abrir, mas lá conseguira o jeito. Olhou a televisão suspensa na parede por uma geringonça  giratória. Alta de mais. Também não conseguiria esticar o braço para chegar ao botão. Há muito que ultrapassara a zanga de nunca se lembrarem de quem tem limitações ou é deficiente. Tinha as energias todas concentradas em objectivos muito mais concretos, como conseguir esticar um braço, virar a cabeça, ou dar um passo, fazer os mais comuns dos gestos com a mínima dor. Será que alguém saudável faz ideia do que é ter dor ao esticar um braço, ou mexer uma perna, durante anos a fio? Só quero poder dar uns passos sem dor. Estava a prever uns dias ainda mais difíceis, mas era preciso tentar. Não queria parar definitivamente, com um filho para criar e toda uma carreira profissional por cumprir. O mais provável era a aposentação, passar o resto dos seus os dias em casa, dedicar-se a dar explicações, talvez, e pouco mais. Há pior. É verdade. Mas o pior nunca a animara. O que a tornava feliz era saber que há melhor. Que havia jovens mulheres que davam colo aos filhos, corriam, passeavam pelos campos e pelas praias... sem dor! Meu Deus! Este vazio, sem lágrimas, pensou, enquanto se sentava na cama para guardar os objectos mais pessoais na mesa de cabeceira. Foi então que reparou numa pagela que alguém do hospital lá deixara, encostada a uma pequena jarra, com uma única flor. Quem será que tem este cuidado de pôr uma flor nos quartos? Pegou na pagela; uma gravura muito simples e uma frase : “QUANDO PENSAMOS QUE TUDO ACABA, É QUE TUDO COMEÇA”.
Passaram muitos anos sobre o internamento e a operação aos pés. A pagela ficou guardada numa caixinha, onde guarda as “carícias congeláveis” e as pode retirar de vez em quando, para de novo as saborear. A profecia da pagela cumprira-se. Quando pensava que a sua vida iria fechar-se, abriu-se. Medicamentos novos, cirurgias impensáveis no momento, deram-lhe hipóteses de viver uma vida com muito mais qualidade. 
No silêncio do quarto do Hospital de Santana, na Parede, a mulher não queria que a sua Fé alimentasse a sua Esperança, mas o Amor presente no cuidado de quem pôs aquela pagela na sua mesa de cabeceira, falou mais alto, e a frase acompanhou cada momento de recuperação. 
Não faz ideia de quem foram as mãos que lhe deram tanto com aquele amoroso gesto. Mas sabe que fazem parte do seu hino diário de GRATIDÃO.


por Fernanda Ruaz


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