21 de dezembro de 2014

Natal, a Festa e a Família

Uma semana após a proclamação da República, a 12 de Outubro de 1910, o Governo Provisório aprovou o calendário dos cinco novos feriados nacionais. Dele constava o Natal, “Dia da Família”. A remoção da referência ao nascimento de Jesus fazia parte do processo cultural e ideológico que visava a secularização e laicização da vida pública, reformulando toda a simbologia e prática social para dela afastar qualquer referência a uma origem, justificação ou implicação religiosa.
Socialmente o Natal era por tradição a Festa da Família. Toda a organização social se estrutura e apoia em ritos que lhe dão significado e permanência. Os rituais, as festas foram e são uma exigência simbólica para a estabilidade das relações humanas e coesão social. A República não queria suprimir o valor simbólico da Festa de Natal nas suas implicações sociais, queria sim mudar o seu conteúdo, ignorando e suprimindo, por decreto, a sua fundamentação e referência religiosa.
O Natal não surgiu no calendário cristão para celebrar a família, foi a celebração do mistério religioso do Natal que fez dele festa para a famílias que o comemoravam com todas as implicações sociais que isso significou. O calendário tradicional que as revoluções iluministas, laicas, anticlericais do sec. XIX visaram suprimir e tentaram substituir baseava-se no calendário cristão das festas litúrgicas que celebravam os mistérios cristãos e também os seus heróis, os santos. O ano litúrgico propõe-se “celebrar, actualizar o único mistério de Cristo tal como se reflecte nos diferentes conteúdos (mistérios) das festas e acções dos membros do seu corpo” (M. Augé, “Teologia do tempo litúrgico”, in O Ano Litúrgico, p. 31.)
O Mistério Pascal de Cristo constitui o núcleo estruturante do calendário litúrgico cristão na sua dimensão semanal e anual. O domingo, o “primeiro dia”, comemorativo da ressurreição de Jesus marca o ritmo da semana. É o “dia sagrado” dedicado ao “Senhor”, sem trabalho, dia da assembleia (ecclesia » igreja) eucarística, memória permanente e actualização do Mistério Pascal, da morte e ressurreição do Senhor. O Tríduo Pascal, o período que a prepara e as celebrações que o prolongam constituem o cerne do Ano litúrgico que deu origem aos seus desenvolvimentos. “O ano litúrgico é o desenrolar dos diferentes aspectos do único mistério pascal. Isto vale sobretudo para o ciclo das festas à volta do mistério da Encarnação (Anunciação, Natal, Epifania) que comemoram o princípio da nossa salvação e nos comunicam as primícias dos mistérios da Páscoa” (CIC 1171). 
O Natal celebra o mistério da Encarnação do Filho de Deus, o seu nascimento na carne, a manifestação e acção terrena de Deus-Homem. O Natal celebra a condição humana do Filho de Deus e reciprocamente a elevação da humanidade à participação da divindade. A revelação do mistério comporta a incorporação da realidade humana na esfera do divino. 
Os evangelhos não dão grande importância à família de Jesus. Apenas Mateus e Lucas, nos anúncios e narrativas relacionadas com o nascimento de Jesus acentuam claramente o Seu enraizamento numa família humana. O mistério da Encarnação do Filho de Deus envolve a realidade familiar no seio da qual ele assumiu a humanidade. O calendário litúrgico foi incorporando na órbita do Natal, mas com carácter distinto, as celebrações referentes à família de Jesus.
A liturgia muito cedo associou o culto a Maria, “Mãe de Deus” à celebração no mistério da Encarnação do Filho de Deus. “Enviado do Céu no seio da Virgem, concebido em seu ventre, ele se fez carne e se manifestou como seu Filho, nascido do Espírito e da Virgem” (Tradição Apostólica de Hipólito de Roma, cit. O ano Litúrgico, p. 241). A Igreja bizantina começou a celebrar, no sec. V, a 26 de Dezembro, a festividade da Mãe de Deus que, no sec. VII, foi adoptada por Roma, e colocada na oitava do Natal. Associada posteriormente à Circuncisão de Jesus, foi retomada em 1969, com a designação de “Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus” no dia 1 de Janeiro.
Curiosamente foi o laicismo, a separação da Igreja do Estado, a legislação civil do divórcio, o casamento à margem da Igreja, a dessacralização da vida familiar, as mesmas circunstâncias que levaram a República a declarar o Natal Festa da Família, que despertaram a Igreja para a urgência de revalorizar os aspectos propriamente cristãos e sacramentais da família e promover os valores morais, espirituais e sociais inerentes à condição familiar. Com essa preocupação, o Papa Bento XV instituiu uma Festa dedicada à “Sagrada Família”. Aproximou-a da órbita do Natal, situando-a no domingo a seguir à Epifania. A Sagrada Família de Nazaré é proposta às famílias como modelo das virtudes familiares e sua intercessora. No pontificado de João XXIII, a Festa foi colocada mais próximo do Natal, no domingo a seguir.
O Natal é hoje uma Festa global. Ao aumentar a sua abrangência, foi perdendo a especificidade da sua identidade religiosa e social cristã. A crise da família, o enfraquecimento da sua coesão, o fosso entre gerações, a dispersão da família alargada, tendem a converter as reuniões familiares de Natal em encontros de coexistência, exercícios de tolerância e distribuição de prendas.
Na família e através dela recebemos a vida, experimentamos e desenvolvemos os laços afectivos básicos, exercitamos a cooperação e a interacção e suas crises, acolhemos os valores básicos e as convicções que estruturam a nossa personalidade e fundamentam as nossas decisões e compromissos. É na família que construímos a nossa identidade. Dessa identidade faz parte a nossa experiência de Deus, as nossas experiências individuais e também as nossas experiências comunitárias em família. O Advento e Natal são tempo para fortalecer os laços da nossa identidade cristã em família, encontrando-nos com o Deus que vem ao nosso encontro, se faz próximo e caminha connosco. Podemos fazê-lo, criando em família clima para partilhar a Palavra de Deus, para a oração comum, para a atenção e disponibilidade maior de uns para com os outros, para receber Deus que vem ao nosso encontro para nos ajudar a ser mais autênticos, a ir além de nós mesmos, a viver do amor de Deus. Demos espaço a Deus para que “nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançar o nosso ser mais verdadeiro” (AE ,8).

por Octávio Gil Morgadinho



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