20 de dezembro de 2014

Mais uma

Apesar de surpreendidos, nos últimos tempos, com notícias desta natureza: Bes, “Vistos gold”, genocídios, violência doméstica,  guerras e guerrilhas, esta, pela força brutal e requinte que encerra, conseguiu suster a respiração e o pensamento dos portugueses, dando espaço a uma multiplicidade de sentimentos contraditórios: silêncio e constrangimento, condenação e indignação, mas não menos compaixão: “José Sócrates, ex-primeiro-ministro foi detido pelo Tribunal Central de Instrução Criminal, à chegada ao aeroporto de Lisboa.
Uma notícia que correu mundo através dos órgãos de comunicação e foi actualizando os acontecimentos, revelando, por fim, que José Sócrates foi colocado em prisão preventiva”, precisando que a medida de coacção foi decretada pela justiça portuguesa após “um interrogatório-maratona”, por suspeitas de crimes de “fraude fiscal qualificada, corrupção e branqueamento de capital”.
O cenário mudou. Até dia 24 tudo se confinava ao campo dos rumores e das desconfianças. É certo que se deve presumir a inocência até ao trânsito em julgado, mas o impacto dos acontecimentos das últimas 72 horas… vai muito além de Sócrates, atinge, a qualidade do espaço público. Não há dúvida, a ausência extrema de valores e integridade moral e cívica potenciam comportamentos autistas que descuram o bem comum, o outro e o interesse colectivo. A força persuasiva e diabólica do dinheiro fácil, embrutece a consciência, os sentimentos, as atitudes e comportamentos e coloca em causa a qualidade da própria democracia.
Vem a propósito a palavra que o Papa Francisco dirigiu a cinco mil contabilistas, por estes dias: “a dignidade vale mais que o dinheiro. Na actual situação, sublinha, é "mais forte a tentação de defender o próprio interesse sem se preocupar com o bem comum" (…). Lembrou o drama vivido por muitas famílias que têm membros desempregados ou com trabalho precário e disse: "Não basta dar respostas concretas a questões económicas e materiais, é preciso suscitar e cultivar uma ética da economia, da finança e do trabalho".
Num país onde muitos estão a braços com míseros recursos, isto é escândaloso. O que é de lamentar é que uma “fraude” desta natureza, como tantas outras, apurada a verdade, fique sem punição e sem devolução do que a todos pertence.

por Vieira Maria




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