15 de dezembro de 2014

A História da madrinha rica

Tudo o que a sociedade não sabe fazer por si mesma pede à escola, mas convenhamos que em 2014 esta o realiza com enormes dificuldades.


A história da madrinha rica não é muito rica em declinações. Quase sempre a senhora é convidada a dar o nome à criança e, depois, vê-se confrontada com a obrigação de lhe oferecer um calendário de prendas, que o convite imaginou poderem ajudar o afilhado ou afilhada a sobreviver um pouco melhor. Tudo parece decorrer satisfatoriamente, mas as beijocas lambuzadas dos petizes, maternamente instigados a mostrar-se agradecidos a uma senhora grandiosa e distante, acabam por constituir um descomunal sacrifício para a magnânima madrinha. Esta, pela imolação vinda dos ósculos peganhentos e pela obrigação de marcar aniversários e festas, depressa evolui no sentido de se tornar uma exigente cobradora de benefícios e sendo, preferivelmente, uma solteirona sem descendência própria, desconhecedora dos hábitos e necessidades dos infantes, desorbita cegamente nas exigências colocadas aos afilhados.
A actual relação da nossa sociedade com as escolas que é a madrinha encontra nesta história um esclarecedor paralelismo. A madrinha, agora, não passa de remediada, mas como a escola está cada vez mais pobre, o equilíbrio das relações mantém-se implacavelmente exacto. E, entretanto, pouco lida e estudada, agita-se com os tempos, moderniza-se nas experiências e nos riscos, e quanto mais destrambelhada e desatenta se sente, mais perfeição e entrega quer dos afilhados.
O pedido mais recente da madrinha Sociedade à afilhada Escola diz respeito à violência doméstica.
Tudo pareceria ajustado e pensável se a sociedade não tivesse desenvolvido uma relação disfuncional com a escola, cujo valor não reconhece e à qual não satisfaz as condições quotidianas de um exercício digno e da operatividade protegida exigível pelo superior interesse das suas indispensáveis funções de educar, ilustrar, instruir. Mesmo numa sociedade modesta, uma boa escola é um sítio admirável onde as pessoas em crescimento são protegidas, orientadas, amparadas, ajudadas a descobrir-se e a estruturar-se, um verdadeiro "abrigo contra o mal", às vezes o único conjunto de adultos que trata uma criança sem risco, como o sujeito inviolável, belo e único que ela é.
A escola vê hoje o seu papel educativo e instrutivo muito mitigado e ainda estamos para ver os males que daí vão vir, mas, como espaço de relação entre pessoas, até agora luta - ou, mais propriamente, fazem-no os adultos que lá trabalham - para dar a cada aluno aquelas bases mínimas de dignidade e atenção que lhe permitem crescer saudável, adaptado, eficaz. Tudo o que a sociedade não sabe fazer por si mesma pede à escola, mas convenhamos que em 2014 esta o realiza com enormes dificuldades. Depois de ter passado décadas sob choques e experimentalismos pedagógicos sem nexo, uns quantos não sendo mais do que ajustes de contas pessoais, permanentemente invadida com a realização dos desejos mais descabidos que a sociedade acha que tem o direito de lhe solicitar em troca do financiamento atribuído, sem ajudas nem estímulos, está gasta e cansada.
A escola, que deu disciplinadamente conta de quase todos esses pedidos e do seu contrário, agora está a braços com turmas sobrelotadas, garotos com fome com frio e crescentes necessidades educativas especiais, mais o peso e o lastro que a vida transtornada das famílias lhe atira para dentro, a cada nova manhã. A escola de hoje pode ainda não ser um lume brando de cozer violências, o que não deixa de ser espantoso com toda a fricção a que tem estado votada. Mas a sua capacidade de acomodar aquelas a que os seus alunos estão sujeitos começa a exceder-lhe as competências, quanto mais poder garantir que estes, no futuro, não imitarão os modelos de violência que as mãos largas da sociedade lhes oferecem. Sendo assim, não há metas que resistam, mesmo.


Por Cristina Sá de Carvalho



0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More