22 de dezembro de 2014

A Família no centro das atenções

9. ‘Empalavrar’ Deus a partir do amor familiar

O ser humano é um ‘empalavrador’ da realidade. Com esta expressão, que tomo de Lluis Duch (Monge Beneditino que tem desenvolvido uma intensa e extensa reflexão no âmbito da antropologia), pretende-se sublinhar uma das dimensões fundamentais não só do viver humano, como da sua própria condição. Na realidade, a vida humana, para ser verdadeiramente humana, não pode apenas ser uma vida sentida, mas tem de ser uma vida com sentido. Dito de outra maneira, é na procura do sentido do viver que a vida deixa de ser simples vida para passar a ser a minha e/ou a nossa vida. Só nessa altura a vida vai para além de um mero acontecimento físico e biológico.
Nesse exercício, que podemos bem de chamar de narração, a palavra ocupa um papel fundamental, pois a procura de sentido tem sempre de ser traduzida em palavra(s), num discurso que possa ser entendido por cada um e pelos outros. É a este exercício, tão tipicamente humano, que se pode chamar ‘empalavramento’. 
E este exercício percorre a totalidade da existência, pois aquilo que o ser humano não é capaz de dizer através da palavra nunca acaba por compreender  e, mais importante do que isso, nunca acaba por viver.
Esta nota característica da existência humana tem grandes consequências quando pensamos a experiência da relação do ser humano com Deus. Também neste âmbito irrompe a necessidade de ‘empalavrar’, para se poder viver mais plena e intensamente o que se está a experimentar. Mas como fazer isso sem reduzir essa mesma experiência ao tamanho da palavra que utilizo? Esta é uma questão central. Não podemos deixar de dizer, de ‘empalavrar’ Deus, mas igualmente ele não pode ficar amarrado a nada do que digamos, pois todos sabemos que ele é muito mais do que aquilo que dele possamos dizer. 
Como dizer o indizível? Como abarcar o infinito? Esta é uma dificuldade que todos os crentes sentem. Mas juntamente com esta, sentimos outra, como que de sinal contrário: como silenciar aquilo que nos marca no mais profundo do nosso ser? Como calar uma das experiências mais fundamentais do nosso viver? Não há como fugir a este dizer, ainda para mais quando o sentimos como fonte de felicidade e salvação que queremos e devemos partilhar com outros.
Quando olhamos para o percurso que a tradição cristã nos testemunha a este nível há um dado que surge com toda a sua evidência: a gramática utilizada para tentar dizer esta experiência está intimamente relacionada com o amor e com a família.
Na Sagrada Escritura, quando se quer falar da relação entre Deus e o ser humano essa é a linguagem utilizada, seja no Antigo Testamento, onde podemos referir-nos, por exemplo, ao livro do Cântico dos Cânticos no qual se fala do amor que une intimamente o amante e a amada; seja no Novo Testamento, onde, por exemplo, na primeira carta de João se diz explicitamente: “amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.” (4, 7-8). Quando no Novo Testamento se fala da relação de Cristo com a Igreja é à metáfora matrimonial que se recorre. E esta realidade acaba por desembocar numa reflexão que nos apresenta o matrimónio como sacramento desse mesmo amor e realidade.
Também quando Deus nos quer falar abertamente e dizer-nos tudo o que pensou, sonhou e preparou para nós, é no seio de uma família que assume a condição humana, para concretizar esse diálogo e o levar a horizontes jamais imaginados. E quando Jesus nos quer revelar plenamente esse Deus e qual a relação que ele quer estabelecer connosco, é à linguagem das relações familiares que recorre, porque só ela é capaz, como nenhuma outra, de nos ajudar a dizer Deus: este Pai que nos ama como filhos e que faz de nós irmãos.
De igual modo os místicos, quando querem traduzir (‘empalavrar’) a experiência de intimidade que vivem, se viram para a gramática do amor humano, como tão sublimemente nos testemunham estas duas estrofes que tomo da poesia de Santa Teresa d’Ávila: “Foste por amor criada/Formosa bela e assim/Dentro do meu ser, pintada/Se te perderes, minha amada/Alma, procura-te em Mim. […] E se acaso não souberes/Em que lugar Me perdi/Não andes daqui para ali/porque se encontrar Me quiseres/A Mim, Me acharás em ti!”
Podia continuar a dar exemplos nesta linha, mas julgo que estes bastam para entendermos que o amor familiar, não sendo a única gramática possível e necessária para falar de Deu, é aquela que mais nos aproxima do seu Mistério e melhor traduz a relação com ele.
Recorrendo a esta gramática é possível elaborar uma linguagem acerca de Deus capaz de conter simultaneamente a distância e a proximidade, capaz de dizer Deus como o Outro, mas simultaneamente como aquele que é o Deus connosco. A experiência do amor, que cada um de nós vive, pode ajudar-nos a entender melhor a nossa relação com ele, pois sabemos que o amor pode unir no respeito e na promoção da alteridade do outro, já que quem ama quer verdadeiramente ser um com o outro, e não apenas ser um. E, no fundo, como sabemos bem, a experiência cristã, muito mais do que ser caracterizada por um falar acerca de Deus, é, essencialmente, um viver Deus, experiência que pode e deve ser traduzida pela relação de amor.
Apesar de todas as suas ambiguidades e fragilidades a experiência do amor humano vivido em contexto familiar é uma linguagem que nos permite, não só poder narrar melhor a nossa relação com Deus, como fazer esse exercício a partir da própria relação com ele. ‘Empalavrar’ assim o Mistério de Deus, não está com certeza isento de erros e de riscos, mas porque brota dessa relação é algo que profundamente nos tem de comprometer com aquilo que é dito.
Na altura em que nos preparamos para celebrar o natal, este é, certamente, um momento oportuno para testemunhar e viver essa realidade.

por Juan Ambrósio


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