19 de dezembro de 2014

A criatividade no Matrimónio


A problemática

Há quem se empenhe em afirmar que a perdurabilidade, no contexto actual está morta, e talvez tenha alguma razão.
Os compromissos estáveis deixaram de existir, tanto nas relações interpessoais, laborais e sociais, como no campo dos objectos e instrumentos. Vivemos num mundo das fragilidades, da ligeireza, da instabilidade, das caducidades… Estamos na sociedade do “descartável”. E a opção pelo matrimónio não é imune a esta mentalidade. O índice de separações matrimoniais nos últimos anos aumentou, consideravelmente e tudo faz intuir que a tendência continuará nesta direção.
As causas que produzem as roturas matrimoniais são variadas: desde os problemas de convivência pela incompatibilidade temperamental, passando pelos conflitos com a família mais alargada, as dificuldades com os filhos, a infidelidades e até mesmo a rotina e a monotonia; tudo isto pode ir debilitando e apagando a chama do enamoramento. Depois de passarem por diferentes problemas, muitos cônjuges têm a sensação de que o outro continua a ser alguém desconhecido ou simplesmente sem significado na sua própria vida.
Parece que investir no matrimónio e na estabilidade do casal, hoje em dia, assume um tom contratual, é de “freakies” como dizem os jovens, quase uma excentricidade; e se durar mais de cinco anos é verdadeiramente um êxito! São sem dúvida paradoxos da sociedade actual, que coexistem com o anseio da estabilidade emocional, das relações interpessoais fecundas, e com o desejo de encontrar o amor ‘das nossas vidas…’ e constituem um desejo de permanente procura de realização. E neste desejo, investir na criatividade, enriquecer a relação matrimonial e consolidá-la mais, cada dia que passa, pode ser uma chave fundamental.

O que se compreende por criatividade?
No dicionário, a criatividade é a capacidade ou faculdade de criar, engendrar, gerar novidade ou fecundar. O acto criativo é um acto que implica gerar uma situação nova e distinta, que dá acesso a realidades que nos permitem avançar, acreditar e melhorar. A criatividade não se orienta a qualquer tipo de novidade ou de situação diferente, mas orienta-se sim, a possibilitar a gestação de uma nova vida, mais fecunda, mais plena e mais humanizante. Neste caso trata-se de uma novidade que ajuda a fazer crescer, expandir e reforçar o amor dos esposos.
Neste sentido há que avançar com cuidado e não confundir a criatividade com a diversidade. Nem toda a diversidade assegura que se introduzam elementos de novidade e que esta novidade permita aos esposos crescer no amor. Muitos matrimónios, na actualidade, que experimentaram ou experimentam debilidades: rotina, falta de estímulos e motivação, perda de enamoramento inicial, etc… lançam-se na busca de novas e diferentes experiências extra-matrimoniais com a ilusão de voltar a experimentar as sensações extraordinárias, a sentir que a chama do amor se volte a acender no seu coração, pensando que deste modo, hão-de encontrar o que ansiavam. O que precisamente sucede, como afirma Z. Bauman, é uma “incapacidade aprendida” de amar, porque a arte de amar não é uma questão de quantidade, mas sim de qualidade. Uma pessoa não aprende a amar ensaiando-se e dispersando-se numa multiplicidade de relações amorosas, mas sim, entregando-se profunda e totalmente a uma delas.

Como potenciar a criatividade no matrimónio?
O Amor de Deus, que todos os casais cristãos estão chamados a viver, na relação matrimonial e que tão maravilhosamente está descrita no capítulo 13 da primeira carta de S. Paulo aos Coríntios, não é um simples sentimento. Mas se quisermos, é um sentimento que se tem de alimentar, cultivar, suster e orientar pela vontade e por um pensamento inteligente. O Amor de Deus, ao qual estamos chamados, mais que o sentimento, pede-nos sobretudo “um trabalho” ou uma “tarefa” fundamentalmente criativa. Como dice Bauman: “amar é desejar conceber e procriar e por isso o amante procura e esforça-se por encontrar “a coisa” bela na qual pode conceber. O amor não encontra o seu sentido na ânsia de coisas já realizadas, completas e acabadas, mas sim no impulso de participar na construção dessas coisas. O amor está muito próximo da transcendência; é somente um outro nome do impulso criativo e, portanto, está carregado de desafios/riscos, já que toda a criação ignora sempre qual será o seu produto final”, (Amor líquido, pag. 21). Ou como disse Bento XVI: “O amor é ocupar-se do outro e preocupar-se pelo outro. Já não se busca a si mesmo, consumindo-se na embriaguez da felicidade, mas antes, anseia bem mais o bem do amado” (Encíclica Deus Caritas est, nº 6).
E não é possível preocupar-se e ocupar-se do bem da pessoa amada, senão, através de uma certa ‘tensão’ de criatividade.
Esta dimensão da criatividade requer um conhecimento profundo do outro, um conhecimento que permita saber o que é o novo que posso criar para que o outro cresça e para se crescer juntos. Requer conhecimento e comunicação profunda, dialógica, vital, espiritual e sexual… Em definitivo, requer um exercício permanente de “tomada de decisões”. O acto criativo é um acto permanente de tomada de decisões para resolver desafios, problemas e dificuldades, inclusive, muitas vezes, indo contra os próprios sentimentos, sobretudo quando existem grandes dificuldades no amor. E mesmo neste acto criativo podem existir equívocos, mas também se pode redireccionar os erros, conjuntamente, e construir juntos obras maravilhosas.
O amor dos casais é uma «opção» que tem de ser confirmada cada dia, e que como qualquer opção vai assumindo configurações muito distintas. Vai-se moldando, é susceptível de enfraquecimento ou ruptura; mas também se pode fortalecer cada vez mais; muitas vezes, este fortalecimento passa justamente por uma luta e um esforço de superação de crises e desenganos. Passa por construir novas oportunidades, por se esforçar, em cada dia, em ser criativos. Algumas sugestões:

Surpreender o outro com algo que sabemos que o pode deslumbrar 
Não é necessário pensar em coisas ou situações extraordinárias. Por vezes os detalhes mais simples podem ser acolhidos com a maior gratidão e alegria: uma mensagem carinhosa no telemóvel na primeira hora do dia; um gesto de ternura inesperado; uma escapadela a um sítio que sabemos que agrada imenso ao outro, etc.

Planificar conjuntamente os distintos momentos do ócio familiar 
Tendo em conta as situações que ajudam os dois (casal) a partilhar afetos, diversões, experiências ou gostos semelhantes, e permitam sentir-se em plena comunhão e que juntos, desfrutem todas essas emoções.
Trabalhar mutuamente para que cada um «tenha vida própria», a cultive, a faça crescer numa rede de relações sociais fecundas e sinta que o seu cônjuge o ajuda, contribui e acompanha. Sem dúvida, isto requer uma atitude de amor para o outro e uma confiança plena. Acreditar no outro, em tudo o que pode nascer de novo e fazê-lo emergir. Na medida em que se é capaz de potenciar e respeitar que o outro possa encontrar noutros lugares e em outras relações o que nunca se lhe pode oferecer, por sua vez, ama-lo e ‘reparti-lo’, permitirá também que este se sinta feliz ao nosso lado e desse modo, contribuir mais para a sua completa realização.

Improvisar passeios, saídas, espaços de conversação… que ajudem os esposos a desfrutar da companhia um do outro. 
Que permitam, sensatamente, «estar» conscientemente com a pessoa que se ama, sem pressas… totalmente atentos.
Por último, o que acima está escrito, não significa viver em tensão permanente e doentia, num esforço para se ser criativo cada dia e com uma frequência obsessiva. Os silêncios partilhados no amor e o relaxamento que levam a estar bem com o outro, mesmo depois de muitos anos de convivência, podem ser formas de conhecimento profundo e de bem-estar espiritual. Às vezes, nem sequer é necessário falar, se não se pode melhorar o silêncio.
Em definitivo, como em todas as coisas, trata-se de encontrar um ponto equilíbrio.

Textos Bíblicos: Rm 8, 31-39; Rm 12, 1-13;1C 13, 1-8; Col 3, 12-17; Jo 15, 9-12

Pontos de reflexão:
1. Que aspectos debilitam ou dificultam o amor no nosso matrimónio? Que alternativas podemos pensar, juntos?
2. Quais são os aspectos que mais valorizo no meu cônjuge? Como os posso potenciar?
3. Partilho afetos, diversões, gostos… com o meu cônjuge? Que podemos fazer para desfrutar juntos?
4. Que atitude adoptamos diante de uma dificuldade ou conflito entre nós? Que podemos fazer para encontrar alternativas?
5. Acreditamos que é necessário introduzir elementos novos no nosso matrimónio? Quais? Porquê?
6. Que poderei fazer para surpreender o meu cônjuge?

(cf. La Sagrada Família, agosto-setembre-octobre, 2014).



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