25 de novembro de 2014

Reviver o Passado em...

Foto de MM
Em Agosto volto à ruralidade, às minhas origens. Se me perguntarem o que é isso de “ruralidade”, não consigo responder com a definição do tipo “isto é…”. Encadeam-se recordações e sentimentos ou aquilo que deles resta no inconsciente das minhas tendências ou repulsas, misturam-se pessoas e acontecimentos, sensações e vivências que penetraram a minha história e perduraram na personalidade como referência a partir do qual se foi construindo a vida. 
Toda a escolha, toda a deliberação, todo o exercício da liberdade se processa no suposto dum começo, duma situação e circunstâncias que existem antes e independentemente de sobre elas me pronunciar e, só por isso, por elas ser influenciado. Todos temos raízes, um passado, experiências que deixaram em nós as marcas mesmo quando em relação a elas nos comportámos com atitudes de rejeição activa. Com a idade, o passado regressa reelaborado em revivescência dos tempos que não voltam, satisfação dos limites ultrapassados, idealização de novos mitos.

Quando, num destes dias, visitei pequenos aglomerados isolados nos recôncavos dos montes e percorri as ruas estreitas de casas meio destruídas pensava como a vida teria sido difícil nessas circunstâncias. Por isso foram abandonadas. Isso não impede que se volte a elas com saudade e se recordem os melhores momentos vividos num passado difícil com ar puro, água cristalina mas com muito trabalho duro e muitas privações que forjou caracteres tenazes para mudarem a sua vida e a dos seus filhos. Muita da nossa ruralidade é idealização, nunca existiu como a imaginamos. Ela é apreciada sobretudo por aqueles que estão fora.

A minha “ruralidade” remete-me para os anos quarenta do século passado. Nasci no ano do começo da segunda Guerra Mundial, numa aldeia não muito isolada para o tempo. Iam chegando os recursos que iriam mudar o nosso acesso ao mundo e estilo de vida. Com poucos anos, assisti à ligação à rede eléctrica e telefónica. Em vida de meus avós, nunca entrou em sua casa a iluminação eléctrica nem qualquer dos aparelhos que nos parecem hoje imprescindíveis. Comia-se, conversava-se, trabalhava-se e rezava-se, nos longos serões de inverno, à volta da lareira, à luz da candeia de azeite e depois do candeeiro de petróleo. 

Quando nasci já existia a estrada e com ela, o transporte público, a carreira de “camioneta” que ligava a aldeia à sede de concelho, ao comboio, a Lisboa, ao mundo, duas vezes por dia, de manhã e à tarde. De manhã, chegava a mala do correio, os abastecimentos, o peixe conservado em gelo metido no comboio na véspera, em Lisboa; à noite, o jornal com as notícias do país e do estrangeiro. De manhã, partiam os que iam tentar a sua sorte no mundo. De véspera, tinham vindo confessar-se. Os lamentos e o choro na madrugada eram a participação pública de que mais um partira. 
Aprendi a ler, seguindo as notícias que chegavam da Guerra ou das suas consequências no jornal “O Século” que vinha da primeira República. Resistiu à censura do Estado Novo, não às lutas ideológicas pelo seu domínio e ao caos económico da sua gestão, no processo revolucionário que seguiu a “revolução dos cravos”. 

Hoje a aldeia é “vila”. Não tem qualquer transporte público que a ligue directamente ao comboio ou qualquer possibilidade de remessa directa, rápida e barata de bagagem para Lisboa ou o resto do país. O correio para chegar no dia seguinte tem de ser “azul”.
A população da aldeia próxima do Zêzere vivia do cultivo do milho nas terras de aluvião das margens e das oliveiras dispersas nos pequenos vales dos requebros dos montes, em regime de pequena propriedade desigualmente distribuída. Os “ricos” tinham as maiores e melhores terras arrendadas sazonalmente. Os “pobres” dispunham da força de trabalho de uma larga família e da exploração de alguma pequena leira que apoiasse a sua manutenção. A exploração agrícola de subsistência assegurava a esperança de “casa farta”. O escoamento dos pequenos excedentes agrícolas nunca esteve organizado e foi sempre limitado pela ignorância e isolamento dos produtores e o oportunismo dos intermediários. Hoje a actividade agrícola é residual, tarefa de idosos apegados às terras que herdaram e emparelharam, quando a posse da terra era dote apetecido de casamento.

O uso de máquina, restrito, não alterou o sistema de cultivo. Utiliza-se hoje o tractor como outrora o burro e a junta de bois: para lavrar a terra e para não ir a pé e levar as coisas às costas ou à cabeça. O “gasóleo agrícola” foi consumido nos grandes tractores na extracção da areia do rio ou da madeira dos pinhais. Os processos de estímulo à produção e o controle da circulação dos produtos demasiado burocratizados e pouco transparentes não são adequados à eficiência da produção, à comercialização dos produtos, nem ao tipo de produtores. “Acabámos por deixar a azeitona nas oliveiras. Até aqui íamos vendendo uns litros de azeite que sobravam... Agora é preciso estar colectados. Apanhamos só o que é necessário para nós e os filhos. O resto fica nas oliveiras”; “Vês além aquela mancha verde clara é uma plantação de cerejeiras. Ninguém irá colher as suas cerejas. O dono ganhou o subsídio a fundo perdido, o autor do projecto e o que o aprovou recebeu a sua parte. Cada um já tem o seu, “limpinho”...” - são apreciações – verificações da realidade? - que vou escutando.

A minha ruralidade não favorece muitos sonhos. Tampouco é a de uma realidade dinâmica a visar o futuro. É a de uma população envelhecida com muitas casas e pouca gente. As casas são mais vistosas e cómodas do que as tradicionais de xisto, mas os proprietários estão ausentes. O grande melhoramento da terra foi a construção da residência para idosos. Deve ter sido também a maior fonte de emprego recente. Os campos estão por cultivar, cobertos de silvas. O rio tem água e peixe; poucos acreditam na sua salubridade. Pouco proveito tiram dum e doutro. Existe um “parque industrial” para futuros investidores, esperança de novos empregos, de atracção e enraizamento da juventude local. Na situação de endividamento do município, tenho receio que o espaço ultrapasse o estado de inacabamento e abandono que actualmente apresenta. 

Por Octávio Morgadinho



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