26 de novembro de 2014

O Sínodo dos Bispos para a Família

Sua Santidade, o Papa Francisco, convocou bispos de todo o Mundo, para participarem na III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Família a ter lugar no Vaticano nos dias 5 a 19 de Outubro deste ano, subordinada ao tema "Desafios Pastorais da Família no Contexto da Evangelização", fazendo publicar, há poucos dias, um instrumento de trabalho, composto de três partes: uma sob a epígrafe “Comunicar a vida“, outra "A pastoral da família  face aos novos desafios" e o  terceiro capítulo intitulado “A abertura à vida e responsabilidade educativa”. 
O Sínodo reflecte a preocupação de sua Santidade, desde logo pela  família, a sua importância no tecido social, como construtora, sustentáculo e estabilidade do Estado e que tem sofrido, à escala planetária, profundo desgaste mercê de condições adversas que nela se repercutiram  nos últimos decénios  do séc. XX e com seguimento no actual. 
De facto, o homem, sobrevivente e conhecedor dos horrores que marcaram a 2.ª Grande guerra mundial, postergou o sentido do transcendente e do sacral da sua vida, para se assumir como dono e senhor da história, riscou o sentido do divino no quotidiano, desinteressou-se do  seu destino último, esbatendo-se nele o valor do compromisso individual e colectivo e da solidariedade, para cultuar o seu “ego“, enveredando pelo esquecimento do outro, sobretudo dos mais fracos, mulheres, idosos, crianças, doentes, pobres, abandonados da sorte, para idolatrar o valor do dinheiro, erigido, agora, em seu deus e ele um seu firme seguidor, minimizador da observância de regras de subsistência comunitária, de extensão universal, remontando aos alvores da civilização, exacerbando o valor  da liberdade até às últimas consequências, num globalismo arrasador.
 Tudo é  permitido se consentido; a família está doente, esmagada pela desagregação entre os seus membros, potenciada pelo divórcio, empurrada para a união de facto; o aborto, que é morte e o amor livre, práticas reiteradas, sem carga antiética, a experiência sexual pré-matrimonial como teste para a vida em comum, mas também manifestação de fuga à responsabilidade individual, tornou-se corrente, como a falta de respeito entre os futuros cônjuges, o consumo de drogas, do álcool, a instabilidade laboral, associada ao desemprego e a baixos salários, ao peso esmagador do consumismo e materialismo, em que a felicidade assenta na realização dos desejos humanos, a qualquer custo e por qualquer modo, do trabalho, quantas vezes excessivamente selectivo e de cumprimento difícil, obrigando ao afastamento dos cônjuges, levando à perda de repouso, sacrificando o diálogo entre si e os filhos, fomentando a violência doméstica, a doença, o desânimo e a depressão, já chamada a epidemia do séc. XXI. 
A Igreja é, contudo, Humanidade, afirmou Paulo VI; a alegria e a felicidade do homem está presente na mensagem da Igreja de hoje e sempre; “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância”; “Vinde a mim todos vós que estais  tristes e oprimidos, porque o meu jugo é suave…”, são palavras de Jesus. 
Os padres sinodais concluem no documento preparatório, que a forma esquemática como se apresenta não é impeditiva da abordagem de outras questões, mas esperam responder ao povo de Deus, às questões que lhe colocou em inquérito preliminar, com alegria, esperança, incentivos,  reconhecendo o sofrimento no seio daquele, porém  apoiados na sua  fé, em Deus Pai, revelado em seu Filho, à luz do Santo Espírito.
De todo o modo o propósito do Sínodo não é de resposta imediata  às questões relacionadas  com a família, pois esse momento só chegará com a Assembleia definitiva a concretizar em 2015, mas de abordagem da projecção do Evangelho na família, da pastoral familiar, da procriação e  da relação entre pais e filhos, concebendo a família como o mais profundo da solidariedade entre marido e mulher, pais e filhos, pobres e ricos (cfr. Ef. 5, 21-6, 9 ), espaço onde se aprende a viver em comum, na diferença e na pertença ao outro, “célula básica da sociedade“; o casamento é ali enquadrado como o único lugar possível da comunidade íntima entre dois seres de sexo diferente, pacto de vida e amor verdadeiro, não sendo imposição extrínseca, mero formal, muito longe da mortificação e do cercear da liberdade de cada. 
Observa-se que um dos males endereçados à família repousa no denegrir da lei natural, para passar a ser definida à maneira do homem, por influxo dos académicos, não há referenciais comuns, nem valores perenes e de feição universalista. 
A  família é atravessada por uma crise, por razões internas e externas, fazendo parte daquelas a violência física e moral entre cônjuges, culminando, quantas vezes, no uxoricídio, a pretensa supremacia de um sobre o outro, a difícil relação entre pais e filhos, acentuando a influência externa do modo de prestação do trabalho, o realce da cultura do individualismo, do efémero, do provisório e do “descarte“, do fenómeno da migração, do consumismo e  do individualismo. 
O Sínodo irá dedicar espaço à preparação para o casamento frisando a “convivência ad experimentum“, difundida na Europa, na América do Norte e na  América Latina, como meio de testar a eficácia do casamento, encobrindo a coragem para o enfrentar, apresentando-se mais fácil a falta de responsabilidade vinculada, em lugar da vivência da castidade prévia, da cultura do prazer, exacerbada nos meios de comunicação, tornada indústria poderosa, repassada à prática, como meio de ganho de lucros, numa nova forma de dependência e de escravatura. 
Entre as situações reconhecidamente difíceis de tratamento situam-se a situação canónica irregular em que  se posicionam os divorciados, os recasados e os unidos de facto, outrora casados catolicamente, bem assim como a proibição de acesso à Comunhão, ao sacramento da Reconciliação e  até ao Baptismo. 
E naquele domínio são  conhecidas posições diametralmente  opostas entre os padres sinodais, uns, assumindo uma postura clássica  à luz da tradição e do Evangelho, de proibição absoluta, outros de aceitação  e outros uma posição ecléctica, de meio termo, para quem, nem tudo é “preto e nem branco“, há que proceder a distinções, diz-se, os tempos são outros, importa proceder como  que a uma  interpretação actualista do Evangelho.
Dominante, no entanto, o pensamento de que como sacramento, como princípio, é indissolúvel só a morte podendo quebrar esse vínculo sagrado.  Alguns cristãos tendem a considerar o impedimento  do acesso aos sacramentos como uma incompreensível e desmedida  punição, mais severa quando confrontados com a prática de outros pecados; a Igreja propende a ponderar situações de corajosa fidelidade ao vínculo  em caso de  posterior não casamento por um ou ambos os ex-cônjuges,  prática cristã  assumida  e assunção da razão do falhanço da união.  
Algumas Conferências Episcopais, sobretudo as africanas, advogam um processo rápido, não hierarquizado desmedidamente, mais célere e menos oneroso, de declaração judicial de nulidade, de anulação do casamento católico, com maleabilização dos seus pressupostos e alteração do Codex Canonici, o que parece não agradar a quem contraiu matrimónio de forma consciente, propondo tratamento paciente, de misericórdia, clemência e indulgência.
A Igreja opõe-se, contudo, à redefinição do casamento, não aceitando que seja assim qualificada  a união de pessoas do mesmo sexo, embora os homossexuais lhe sejam dignos de respeito, de tratamento digno  e não discriminação. 
No documento do Sínodo transpira, ainda o apelo a maior abertura à vida,  respeitando quem aborta, solicitando ao Estado que adopte medidas de protecção às mães solteiras, como, aliás, para a família, enquanto a maior escola incontornável de valores morais e éticos, de formação integral do homem, sem esquecer a merecida atenção à dignidade dos seus membros, a protecção do trabalhador, assegurando  a saúde, a educação e a igualdade de oportunidade entre os membros da família, atenta a sua importância, como realidade  natural que lhe é anterior. 
O Sínodo já findou . Os padres sinodais e leigos chamados já estão de volta aos seus países. 
Fica no ar a ideia de que as questões colocadas são complexas; elas arrastam-se há longo tempo; foi-se deixando arrastar; alguns dos corações dos seus fiéis estão doridos e esperam misericórdia, uma solução que, sem atropelar a centralidade do Evangelho, os ponha em harmonia, dentro, não fora, da comunhão eclesial, católica, da Igreja, sempre iluminada pelo seu Santo Espírito, restando aguardar pelo ano de 2015, em que virão a lume as orientações a tomar, se forem de tomar. 

por Armindo Monteiro


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