25 de novembro de 2014

Família em crise

Vaclav Havel, notável escritor, filósofo e político, venerado, mais que muitos, Presidente da República Checa, recém desaparecido do mundo dos vivos, escreveu que “estamos a viver na primeira civilização global, e, também, “na primeira civilização ateia”, tendo perdido os contactos com o infinito e a eternidade. Infelizmente, escreve o editor do Boletim Salesiano, de Setembro de 2014, que se esvaziou a vida do seu conteúdo e a cultura da dimensão do transcendente, a vida corrente é despida de preocupações metafísicas e religiosas e, por isso, menos humana. 
O homem adula os deuses do poder, ambição e ganância. E são eles o seu norte, escapa-lhe o sentido do compromisso, e por isso, o divórcio em escala crescente, o abandono dos filhos a quem deixa de prestar alimentos, enxameando os locais de resolução de contendas, como se lhe fossem indiferentes e só o seu ponto de vista pontificando, a ambição arranca-lhe o coração e a ganância do dinheiro leva-o a olhar o seu semelhante de soslaio, de alto a baixo, sem caridade, respeito e consideração de ser digno, como a sua família, só ele contando e o dinheiro, tornando-o filho desse deus menor, e, assim, o mundo, aqui e em todo o lugar, vale  se e enquanto o gera mais e mais.
Onde o brilho do dinheiro espelhar mais que qualquer outro luzir aí está o homem e a sua máquina devoradora de homens, que valem enquanto dão muito, depois, quando o resultado da caminhada de lucro chegou ao fim, fecha a fábrica, o local de trabalho, tripudia como lhe aprouver, manipula os centros organizados de poder, na mira da descoberta de outros, sempre dominado pelo mesmo ideário. 
É o positivismo marcante e esmagador que intenta retirar a capacidade de pensar aos seus não seguidores, preocupando-se os seus cultores e pensadores em chegar às mentes, aniquilando-lhes o questionar, substituindo-se-lhes por uma cultura do aceitar sem reflectir, do facilitismo e prazenteiro, implantando-se como é seu propósito para se auto-imporem e colher rios de benesses pessoais, descurando os outros. 
A cultura que nos rege, suportada por essa acefalia provocada por tudo menos pela inocência, gerou, escreve o Padre e filósofo Octávio Morgadinho, in Educação e Família, 2014, pág. 21, atingiu, como era suposto, a família e aí a regra é excepção, o sentido de responsabilidade falha entre os seus membros, o egoísmo apoderou-se das consciências, a competição sem limites tornou-se um estandarte, a ganância um objectivo dos que são dele capazes, o prazer sem limites um manto que cobre a família, o consumo de tudo ao alcance e o bem estar à custa do que quer que seja um sumo objectivo. 
Sobre a família abateu-se quase um anátema. A família tornou-se num lugar sem coluna vertebral, que desencadeia forças centrífugas e centrípetas, anulando-se, já exangue, caminhando pelos becos da vida, sem rumo, meio estonteada. É que hoje tornou-se muito difícil imprimir um sentido comunitário aos micro-grupos, entre os quais a família, por força daquelas forças que lhe vem de fora para o seu interior, que a leva a expor-se aos ventos que a História não acompanhou em certas eras. 
  
E aquelas forças têm origem em várias fontes. 
Há uns dias um programa televisivo inquirindo o cidadão comum sobre o que pensava da prática de pornografia não foi tão repudiado quanto se esperava, aguardando alguns dos espectadores uma rejeição firme, o que não sucedeu. A consequência é o amolecimento da oposição à prática desse mal, esses cidadãos não são agentes e nem construtores do bem e já debilitaram quem é frágil, assim mais débil se tornando. 
Assim não nos admiremos se o abuso sexual prolifera em condições terríficas e em números verdadeiramente impensáveis muito abaixo do que alguns meios informam e das estatísticas.
Mas também é verdade que uma liberdade sem limites não é condenada, ou raramente, seja por palavras seja por acções; chegou-se ao ponto em que lesar a honra, o bom-nome e a consideração é indiferente ou não comporta sentido anti-ético. 
A obediência só é devida às autoridades porque imposta, no seio da família, é de bom-tom divergir, seja marido seja mulher, cada um mais cioso e convencido da sua argumentação, tornada inflexível. 
A sobrevivência em família é muito delicada e exige um trabalho esforçado, voltado para um objectivo, e esse objectivo interessa só se for norteado pelo espírito de amor ao próximo, e o próximo é, desde logo, ao elemento pessoal que a compõe, numa perspectiva recíproca e ambivalente, o sentido de justiça e respeito para com os outros, o espírito de ajuda fraterna, de solidariedade ante a aflição e o desgosto e a dificuldade material, a tolerância e a capacidade de perdão e a participação no desenvolvimento do modelo societário.  
Numa perigosa sociedade selectiva e que faz da selecção meio e fim da subsistência, a instigação frequente à superação a todo o custo, sem respeito pela condição do outro insensibiliza a estrutura familiar, faz correr o risco de formar gente de sentimentos doentios e  perigosamente indiferente a bens e valores morais, éticos e jurídicos. 
À família incumbe a formação humana, moral e a orientação inteligente e sadia dos seus membros, menos para a ganância do dinheiro do que para uma forma honrada, digna, fiel, e responsável de aquisição e equilibrada do seu gasto. 
A família tem que ser humanidade e, mais do que isso, a construção dela no exterior ou a comparticipação firme num mundo que a tenha por lema. 
É da família, recomposta do abalo sistémico que tem sofrido, sobretudo depois  da 2.ª grande Guerra, em que o homem perdeu o sentido de Deus, e com ele a família, e se deixou sucumbir ao materialismo, ao hedonismo, à exploração desenfreada do homem pelo homem, fenómenos proporcionados pelas doutrinas que os sustentam, com suporte humano, que só desagregaram - e continuam a desagregar - o mundo, que há-de refulgir, também, a luz de remissão das nações. Isto se se não quer tornar ela mesmo inimiga de si mesmo, como inconscientemente o é. E inconscientemente porque na complexidade dos meandros do mundo, que a arrasam, acaba por se demitir das suas funções, impotente, triste, reconhecendo-se já inútil e sem alento.  
Aos pais cabe esse papel nuclear, corajoso; à escola não se peça uma função substitutiva, de demissão da função que lhes cabe, embora, com os pais, deva concorrer, completando, para uma formação justa, completa e integral de quem esperançosamente lhe confia os seus educandos. 
Mas essa transmissão de valores, cabida aos pais, há-de repousar em valores cristãos, valores que a Igreja está pronta e amplamente empenhada em difundir porque está ao lado do homem, da sua dignidade, deseja a sua felicidade e não a angústia, o seu desespero aniquilador.  
Citando, da bela colectânea de textos da autoria do Padre Octávio Morgadinho, pág. 22 , “A Igreja é perita em Humanidade“, segundo Paulo VI, na comunicação à Assembleia Geral das Nações Unidas,  e os valores, acolhidos  do Evangelho, que prega,  fazem parte daquele repositório de todos os tempos e civilizações, logo incontornáveis.   

Por Armindo Monteiro


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