21 de agosto de 2014

A Coragem da Profecia

O Papa Francisco não pára de surpreender. Considera mesmo a surpresa o atributo específico da Igreja na sua primeira manifestação pública. Na homília e no Angelus da solenidade do Pentecostes fala da “surpresa” para caracterizar a acção do Espírito Santo sobre a comunidade primitiva dos discípulos. Não era um grupo de homens medrosos e derrotados o que foi ao encontro da multidão para anunciar desassombradamente a missão salvadora de Jesus, a sua morte e ressurreição. Houvera desânimo e desilusão. Revela-o a conversa no caminho de Emaús. Foram superados pela acção do Espírito Santo. Os que se tinham fechado “por medo dos judeus” saem, exprimem-se “com coragem e franqueza, com a liberdade do Espírito Santo” na nova linguagem do amor que todos entendem. 
A Igreja de hoje, herdeira da mensagem do Evangelho, continuadora da missão dos primeiros discípulos, deve sair ao encontro de todos os homens, nas diversas culturas e situações “para a anunciar integralmente, mesmo se essa mensagem perturba e inquieta as consciências”. Como eles “deve surpreender”, “causar admiração”, “não se resignar a ser inofensiva, elemento decorativo” tem de ter a coragem da profecia. “A profecia é feita com franqueza para mostrar abertamente as contradições e injustiças, mas sempre com mansidão e Justiça”. 
O Papa Francisco tem este carisma profético de conjugar a palavra oportuna, próxima e afectiva com gestos, atitudes e acções carregadas de sentido. Recordamos a sua primeira aparição na varanda de S. Pedro depois de eleito, na sua batina branca simples, a referir-se ao seu ministério e ao do seu predecessor com as palavras “Bispo”, “Povo” e “Igreja de Roma”. A espontaneidade nas palavras, a simplicidade dos gestos e a atitude de proximidade era indício da sua preocupação de ir ao encontro de todos, os de perto e os de longe, ultrapassando as convenções e contaminações do poder mundano que desde então não deixou de concretizar.
A sua recente Peregrinação à Terra Santa manifestou especialmente esse carisma em gestos simples e plenos de sentido e de intencionalidade que decorrem naturalmente da sua sensibilidade e experiência: a mão e a oração no muro de separação em Belém e no Muro das Lamentações em Jerusalém, o sinal da cruz, o beijo aos sobreviventes, em Yad Vashem, o memorial do holocausto, o beijo no Santo Sepulcro  dado conjunta e simultaneamente com Bartolomeu, o convite aos chefes de Estado de Israel e da Autoridade Palestiniana para o encontro de oração no Vaticano que veio a realizar-se no domingo de Pentecostes.
O encontro entre Francisco, Shimon Peres, Mahmoud Abbas e Bartolomeu foi todo ele uma mensagem de palavras e gestos proféticos para significar a eficácia da Palavra de Deus na transformação das relações entre os homens, quando se dispõem a acolher a força renovadora do Espírito. Valeu mais pelo que simbolizou e anunciou do que pela sua eficácia imediata. Não iludindo as profundas divergências que existem entre eles, partilharam o melhor que têm em comum, a herança da fé no Deus único e misericordioso, na mensagem de amor e paz proclamada pelos profetas e tornada sinal do “reino de Deus” anunciado por Jesus.
O Papa, ao convidar os seus interlocutores para um encontro de oração, desligou-o qualquer função instrumental de mediação política. A oração é um acto comum às religiões que concebem Deus como ser pessoal como relação. No Judaísmo, no Islamismo, no Cristianismo a oração é simultaneamente acto pessoal e expressão da consciência comunitária da relação das pessoas entre si e com Deus. É acto gratuito que não pode deixar de afectar a totalidade da vida pessoal e a relação com os outros. 
A fé nas três religiões converge na referência a Abraão, para todos modelo de fé no Deus Único, Todo-Poderoso e Compassivo, no Deus transcendente que falou pelos seus profetas e se torna acessível na oração pessoal e no culto público. A fé traduz-se em práticas cultuais, e normativas, em preceitos morais que implicam responsabilidade pelos actos pessoais e colectivos uns para com os outros e perante Deus.
O Papa colocou-se dentro deste pequeno grupo, reconhecendo que a responsabilidade de trabalhar pela paz é universal, que todos se devem comprometer na sua esfera a realizar gestos concretos para a construir e que os crentes, conscientes dos seus limites, a devem implorar a Deus pela oração. Também os cristãos como os “filhos de Abraão” estão desavindos, também eles precisam de “um caminho novo à procura do que une para superar aquilo que divide”, também eles precisam de enfrentar a sua responsabilidade perante Deus e a história. A presença do Patriarca Bartolomeu, manifestou a proximidade e também a necessidade do diálogo perseverante na procura da convergência e superação dos obstáculos à unidade, à paz entre as Igrejas cristãs. 
A reflexão de Shimon Peres a partir dos salmos, dos profetas e do livro dos Provérbios, alicerçou a sua “invocação pela paz entre as religiões, as nações, as comunidades, entre homens e mulheres”. A visão de Isaías “um povo não levantará mais a espada contra outro povo” anima a esperança que a paz é possível entre israelenses e palestinos. 
Mahmoud Abbas pôs especial ênfase na Terra da Palestina, nas duas cidades sagradas para as três religiões e hoje objecto das disputas territoriais: Jerusalém e Belém. A sua oração pode tomar-se como fórmula de uma oração comum: “Pedimos-te, Senhor, a paz na Terra Santa, Palestina, e Jerusalém junto com o seu povo. Nós te pedimos para tornar a Palestina e Jerusalém, em particular, uma terra segura para todos os fiéis, e um lugar de oração e culto para os seguidores das três religiões monoteístas, Hebraísmo, Cristianismo e Islã, e para todos aqueles que desejam visitá-la como estabelecido no Alcorão Sagrado. Ó Senhor, tu és a paz e a paz vem de ti. Que o Deus da glória e majestade conceda a todos nós segurança e salvação, e alivie o sofrimento do meu povo na pátria e na diáspora.”
Às organizações internacionais, aos representantes dos povos envolvidos, cumpre encontrar instâncias de mediação, diálogo e negociação para resolver com coragem os problemas concretos e encontrar com coragem os caminhos da paz. O Papa Francisco ousou com coragem a instância da profecia. Homem de fé, acredita que a fé transforma as relações entre as pessoas porque as atinge no mais profundo de si mesmas, a relação com Deus.

Por Octávio Morgadinho



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