4 de junho de 2014

"Vale a pena pensar nisto - Apontamentos sobre o quotidiano e a eternidade"

A editora Oficina do Livro apresenta esta quinta-feira, em Lisboa, o livro Vale a pena pensar nisto - Apontamentos sobre o quotidiano e a eternidade", assinado por Isabel Figueiredo, Conceição Sousa, Paulo Vale e João Delicado.

O volume, que inclui algumas das meditações que todos os dias são oferecidas aos ouvintes de rádios do grupo Renascença (Renascença, RFM e Sim), será apresentado pelo padre Vítor Gonçalves, às 18h30, na Livraria Bucholz (Rua Duque de Palmela, 4), naquela que será uma oportunidade para conhecer e conversar com os autores.

Os textos «mostram como Deus se insinua na normalidade dos quotidianos», sublinha o padre José Tolentino Mendonça: «Parece que estamos a falar da vida que corre e da digestão, mais ofegante ou mais lassa, que fazemos do tempo. E eles ajudam-nos a perceber como Deus chega de mansinho e de surpresa, pela estrada principal e por vias indiretas e secundárias».

O livro, prossegue o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, «ilumina a natureza» da relação do ser humano com Deus, porque «no fundo» do que na pessoa «é ser e linguagem está uma experiência fundamental» que «afasta absolutamente da solidão ou da autossuficiência», porque ninguém «é origem de si».

«Não somos obra nossa, nem no começo, nem agora, nem naquilo que virá. Provimos de um horizonte e de circunstâncias que nos transcendem. É verdade que temos sempre a possibilidade de plasmar singularmente o que recebemos do Outro, mas a nossa interioridade, a nossa própria intimidade, a nossa travessia organiza-se sempre num criativo e necessário encontro com o "Tu"», acrescenta.

Por fim, o «precioso contributo» oferecido pelo livro «talvez esteja deliberadamente mais em silêncio, mas é o princípio vital de tudo»: «A lembrança de que só somos capazes de desejar Deus porque Deus toma a iniciativa de nos buscar e de se inclinar benevolamente ao nosso encontro».



Meditações
Isabel Figueiredo

A fidelidade é surpreendente. Quando pensamos que já não faz parte do nosso tempo, aparece numa conversa entre amigos, numa vida que se conta. E aparece completa e intensa; não se quer frágil e discreta. Afinal, vale a pena repetir esta palavra, sentir a sua força, perceber que ainda são muitos os que procuram a fidelidade como forma de estar na vida. Procuram a fidelidade aos valores que foram transmitidos e que se querem continuados, a fidelidade aos compromissos assumidos.

A alma de uma cidade está na capacidade de mudar as vidas de quem passa por ela. Uma afirmação que nos questiona. A minha cidade tem alma? A minha cidade consegue tocar a vida de quem passa por ela? Há beleza nas ruas da minha cidade? Há atenção ao próximo, cuidado com o bem comum, partilha?

Passados muitos anos, ainda se recordava daquela noite. O seu amigo não tinha conseguido vencer a doença e morreu, deixando mulher e filhos. Mas na pequena capela, ouviam -se cânticos acompanhados por violas, a família estava vestida de branco e havia uma quase alegria no ar que a deixou de boca aberta. Como era possível? «A tristeza da perda ultrapassa -se pela certeza da fé.» – Foi a resposta que ouviu naquela noite. Até hoje não esqueceu.

«Avó, posso ir para tua casa?» – a pergunta feita com ansiedade escondia um medo real do pai que lhe batia, da mãe que nada conseguia evitar. Quantas crianças continuam a fazer perguntas destas, todos os dias? E quantas vezes iremos continuar a ignorar o que se passa à nossa volta?

Casaram para sempre, numa festa alegre. Tinham namorado com fidelidade, à séria, como diziam os amigos. Estavam conscientes da montanha imensa que os esperava, cheia de caminhos, de escarpas, de momentos luminosos e outros negros… mas queriam arriscar juntos e dar tudo por tudo. É desta radicalidade que se constrói uma vida a dois, capaz de surpreender o nosso tempo, em que nada parece ser para sempre.

As tarefas estavam divididas. O passeio da manhã era da responsabilidade da mãe; à tarde era a filha mais velha que tinha de o fazer; e, à noite, quando o frio era mais duro e só apetecia ficar no aconchego do sofá, era o pai que tinha a obrigação de sair com o cão. Ouvi a explicação, com o aceno de cabeça de quem conhece bem este tipo de situação. Mas não consegui deixar de pensar – quantos idosos não conseguem ter este tipo de cuidado, este tempo de dedicação… é duro, mas bem sabemos que é verdade.

A amizade é um tesouro, bem o sabemos. Mas, quantas vezes andamos distraídos e não paramos para o reconhecer. Se o fizéssemos, os dias seriam melhores, as dores mais suaves, a vida mais rica. Cuidar das nossas amizades é também proteger as nossas vidas.

Precisamos de beleza nas nossas vidas. Flores, céu, sorrisos, mar… ouvir uma música, olhar uma pintura, admirar uma escultura. A beleza permanece à nossa volta e precisamos de a olhar, de a sentir, de a partilhar.

Ninguém questiona o valor da vida. Antes pelo contrário. Quem a sente fugir, diz que passa a saborear cada momento de cada dia – o calor do sol, a beleza das estrelas, o sabor de uma simples torrada… o cheiro do mar, o valor de um abraço ou de um beijo. Que dizer do milagre de uma vida que nasce ou da riqueza de uma vida longa?

A leitura de um soneto. A beleza do traço de um pintor. Um fado cantado. O impacto de um ator no palco. Camões, Amália, Vieira da Silva, Ruy de Carvalho. A cultura é palavra, música, teatro, pintura, arquitetura, artesanato… a cultura são pessoas concretas. Ontem, hoje e amanhã. A defesa da cultura não pode ser a última das preocupações, em tempos de crise.

Quando percebemos que a coerência de toda uma vida se reflete na forma como se morre, ficamos a pensar. Quando nos dizem que, perante aquela doença, não se pediu a cura mas antes a aceitação tranquila do sofrimento, somos obrigados a pensar. E percebemos que, por vezes, até a morte consegue iluminar a vida, as nossas vidas.

Ler um bom livro, ouvir música, visitar um museu e apreciar a beleza de um quadro. Passear por um jardim e reconhecer cheiros, saborear sombras, caminhar de olhos postos na paisagem. Podemos fazê-lo durante todo o ano, mas nas férias é quase obrigatório. Precisamos de pausas de beleza nas nossas vidas…

Era um pequeno grupo, encostado à parede da capela. A mãe recebia os amigos que iam chegando, trazendo palavras de consolo. Ficar viúva, tão nova, com filhos pequenos era uma tristeza, difícil de aceitar. Na verdade, faltam as palavras quando a vida nos surpreende com a ausência, com a dor daqueles que amamos. Nestes momentos, só resta estar presente. O que seria do mundo sem este estreitar de laços, quando a tristeza aperta?


In Vale a pena pensar nisto, ed. Oficina do Livro
SNPC 03.06.14


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