21 de junho de 2014

«Non abbiate paura»

Na foto Pe. Luís Miranda em Chapadinha, Brasil
Por estes dias Roma tornou-se um mosaico de gerações, novos e velhos, adultos e crianças, jovens, casais e muitos consagrados, percorriam com uma serena alegria as ruas da cidade. A cidade de Pedro e de Paulo foi-se tornando, a pouco e pouco, ‘uma igreja a céu aberto’. Cada praça e cada rua respiravam uma vida e uma alegria que fazia lembrar o ano 2000. Sim, também eu estava por cá na JMJ e recordo-me a emoção, e a comoção, com que viemos até junto de Pedro para confirmar a nossa fé, para renovar o nosso entusiasmo, para fortalecer a nossa esperança. Recordo-me daquela ‘noite inquietamente serena’ em vigília no campo de Tor vergata… Passaram 14 anos desde essa ‘peregrinação jubilar’ e Roma volta a encher-se com o ‘perfume’ dos ‘corações jovens’. Caminhando pelas ruas percebe-se o mesmo entusiasmo e comoção, mas também uma ‘gratidão redobrada’ àquele que foi pai, mestre e amigo dos jovens, João Paulo II.
Permanece viva no coração de tantos e tantas com quem me cruzo nestes dias, e a quem descaradamente pergunto: “porque vieram a Roma?”, a memória de um Papa que soube escutar a juventude, que os desafiou a serem ‘os santos do novo milénio’, as ‘sentinelas da manhã’. À provocação do ‘porque vieram’ respondem-me habitualmente: ‘porque ele me ajudou a (re)encontrar-me com Cristo’. É esse portanto o ambiente que se respira: a graça do reencontro. Com Cristo e com S. João Paulo II, rosto de Cristo para tantas gerações de homens e mulheres que viviam com um coração sedento e inquieto.
Confesso que desde há muito que aguardava com alguma ‘ansiedade’ este dia. A figura de João Paulo II atravessou intensamente a minha vida e marcou profundamente algumas das minhas escolhas, concretamente a minha opção vocacional. Com ele aprendi a liberdade que traz o dizer ‘sim’ a Deus. Com ele habituei-me a passar pelo coração de Maria cada opção, gesto ou decisão. Com ele aprendi o entusiasmo por servir, amar e desafiar os jovens a serem ‘rosto e presença’ do Evangelho, missionários no quotidiano e do quotidiano. Por isso, com um ‘coração jubilar’ também eu, na noite de 26 de abril, me fiz peregrino desta ‘gratidão do coração’ por entre a multidão, peregrino com os jovens do Projecto missionário da Diocese de Coimbra, conhecido como Grupo Missionário João Paulo II (www.facebook.com/missaojp2), a quem tenho a graça de acompanhar desde 2007. 
No meio de uma tão grande multidão, ora serena ora agitada na busca de um lugar para ver, agradecer e celebrar, fui desfiando o meu rosário. Nele havia muitos rostos, momentos e experiências. E, no silêncio da noite que dá lugar ao dia, fui repassando pelo coração uma história de amor e de salvação que Deus me foi ensinando a escrever com a força e o entusiasmo desse grande santo que veio de longe e que, desde o início, nos desafiou a “escancarar as nossas portas a Cristo”.
Depois de mais de 11 horas em pé, inicia a celebração. No coração um misto de nostalgia e de uma alegria indizível. Eu tinha conhecido aquele santo, tinha-o visto, tinha-lhe tocado. Tinha-me deixado interpelar por ele, ou melhor, por Deus que me falou por ele. Era seu contemporâneo e tinha aprendido com ele a ‘ser discípulo’ do Redentor da humanidade. Queria dizer-lhe ‘obrigado’. Queria agradecer-lhe pelo seu jeito ‘pro-vocador’ que sempre fez com que a minha geração fosse capaz de olhar para além do óbvio. E foi assim que com este ‘sussurrar do coração’ ouvi o Papa Francisco declarar: “declaramos e definimos santos os Beatos João XXIII e João Paulo II e estabelecemos que em toda a Igreja sejam devotamente honrados entre os santos…”. Por entre as lágrimas de comoção que me escorriam pelo rosto, percebi que era uma ‘primavera Pascal’ o que estava a acontecer. 
E foi assim que o mundo se fez peregrino até Roma. Vindos de todos os continentes estávamos, uma vez mais, com ele aqui tal como naquele agosto quente do ano 2000. Não só os mesmos que lhe ouvimos dizer nas suas viagens pelo mundo, nas JMJ’s e em toda a sua vida: “Não tenhais medo. Abri, antes, escancarai as portas a Cristo”, mas também as famílias que entretanto se geraram, os muitos outros jovens a quem contagiámos, as novas comunidades que se multiplicaram e aqueles de nós que, sentindo o apelo de construir e anunciar o Reino de Deus, nos consagrámos. 
Viemos porque o amor só sabe dar-se e agradecer! E se com amor o escutámos e aprendemos com Ele a seguir a Cristo, com o mesmo amor regressámos a casa. Entusiasmados. Com um coração cheio de Páscoa e percebendo que, ontem como hoje ele, continuará a ir à nossa frente, e a fazer ressoar dentro de nós o desafio que sempre nos fez: “Não tenhais medo de ser os santos do novo milénio…Olhando para vós, para os vossos rostos jovens, para o vosso entusiasmo sincero, quero dizer, do fundo do coração, um obrigado a Deus pelo dom da juventude, que, graças a vós, perdura na Igreja e no mundo. (…) Tenho a certeza que vós, queridos amigos, estareis à altura de quantos vos precederam. Vós levareis o anúncio de Cristo ao novo milénio. Voltando a casa, não vos isoleis. Confirmai e aprofundai a vossa adesão à comunidade cristã a que pertenceis. Daqui de Roma, da Cidade de Pedro e Paulo, o Papa acompanha-vos com afecto e, parafraseando uma afirmação de Santa Catarina de Sena, diz-vos: «Se fordes aquilo que deveis ser, pegareis fogo ao mundo inteiro!»” (Eucaristia de encerramento da JMJ, 20 Agosto de 2000).

por Pe. Luís Miranda


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