26 de junho de 2014

Amor em tempo de crise


Não é ficção mas um evento com tradução real, acontecido neste mundo, como estrela da manhã a iluminar a aurora, mesmo quando ela nasce cinzenta, pardacenta e jamais o dia, que se lhe segue, copia a cor da aurora. 
O amplo jardim estava seco, a relva murchara e as flores, de pétalas caídas, completavam um cenário de abandono e de tristeza. O sol embatia poderosamente nas janelas, mas morria fora por estarem fechadas e de cortinas cerradas. 
A resposta sobre o abandono foi curta e veio rápida. A Teresa foi levada pela morte e o marido ainda chorava a sua partida, semi-absorto, de costas voltadas para o mundo, interrogando-se sobre a crueldade da vida, que lhe arrebatara, tão jovem, a mulher do seu coração, que nem um esforço de aceitação era capaz de fazer para entender.
Por isso não recebia o minicortejo em visita pascal à aldeia; preferia manter o cérebro embotado, fechado, e fechada a casa que foi dos dois, enquadrada no meio de pinhais e eucaliptais, um conjunto belo, a tender para o sumptuoso, banhado todo o dia de luz, claridade, em antagonismo com a tristeza que lhe inundava a alma.  A Teresa sonhara constituir família; casar-se era o seu sonho. E de tanto gostar, como tantas vezes sucede, a incerteza da vida encarregou-se de a contrariar. 
Chegada à idade de o seu coração começar a bater mais célere e os seus olhos não se cruzarem a não ser com o jovem eleito para formar vida e dar vida, começaram projectos comuns à medida que os corpos se aproximavam, mas sempre dominando impulsos infrenes, em excessos, que a entrega total chegaria a seu tempo, antes abençoada e prometida. 
Sem contar, as dores de cabeça vieram amiúde; as imagens apareciam distorcidas, o diagnóstico foi fácil, mas ela acreditava numa remissão; bem podia acontecer a cura; que não desanimasse, isto e aquilo, diziam-lhe e a Teresa deixou-se embalar num grito de esperança para combater a revolta nascente. 
Não abdicou do seu sonho de sempre, de ser mulher e mãe, de acolher nos braços o fruto do seu grande amor, de sentir o seu corpo pequenino, a vida a nascer, que talvez se pudesse comunicar à que, às vezes, parecia esvair-se-lhe por entre a fieira do sonho. 
Não encontrou resistência na concretização no jovem que escolhera para seu companheiro para sempre, à luz das leis natural, humana e divina. 
Ambos partilhavam um raio de esperança na vida por muitos anos, por entre coisas doces e amargas, como sucede entre qualquer casal formado por uma mulher e um homem. 
E chegou o dia de grande alegria. O seu sonho concretizou-se, por entre juramentos recíprocos de fidelidade, auxílio, assistência e geração de vida. A esperança inundava-lhes a alma. E assim partiram à descoberta dela, por entre desejos de que aquele dia jamais tivesse termo. 
De novo as dores e o agravamento de doença que não perdoa. E a morte chegou rápida, nem sequer dando oportunidade de experimentar o calor do corpo pequenino de uma nova vida. 
A Teresa foi a descansar, rumo à eternidade; antes de partir, jurou uma vez mais àquele que escolhera para marido continuar a amá-lo nesse outro mundo que ia acolher onde não há choro e nem ranger de dentes. 
Nem um nem outro, nesse amplexo de fim de meta final se lamentaram por cada um perder a companhia do outro. A felicidade tinha-os arrebatado. Nada havia que lastimar. 
Ambos quando se uniram sabiam que o desfecho era imprevisível e podia ser o pior,  como sucedeu, mas o amor triunfou. 
Não houve hesitações, não desfizeram a correr e sem olhar para trás os compromissos de tempos sem contratempos. Ambos se queriam fazer felizes e partiram para o incerto, o desconhecido, de mãos dadas, porque a felicidade, ainda que por pouco tempo, valia mais que a morte. 
Um grande amor vivido em tempos de crise, numa altura em que o egoísmo se apoderou dos nossos corações, em que domina a satisfação do nosso “ego” e o sacrifício não compensa, em que os valores de uma sã subsistência não importam, em que o respeito pela palavra até escrita se põe em causa, em que o outro não é levado a sério, vale enquanto vale, tornado descartável como objecto que se lança ao lixo, seja velho seja novo.  
A catequese que nos impôs quem influencia não é a do bem, do belo e do compromisso. A Teresa deu um corajoso exemplo, tão infrequente no nosso tempo e era uma jovem só de 23 anos …

por Armindo Monteiro


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