20 de maio de 2014

A família e a fé

(Excerto da entrevista feita pela revista Família Cristã à família Mendonça Tavares)

foto Ricardo Perna | Família Cristã

A fé é uma parte integrante da família Mendonça Tavares. Teresa diz-nos que para si, a fé é «fácil», como lhe é fácil «aceitar os dons de Deus». Reconhece que para João esta é uma questão mais difícil, mas sai em sua defesa («advogada de defesa» como lhe chama o marido) para dizer que ele procura. «O João estuda muito, estuda muito mais do que eu, lê muito mais do que eu. Ele procura encontrar-se na sua relação com Deus, mas sente muito que a relação dele é uma procura sem chegar. Mas ele caminha», afiança.

João diz, em jeito de brincadeira que «se eu tivesse que me classificar diria que sou uma espécie de católico ateu». O facto da sua experiência de fé poder não ser tão pacífica quanto a de Teresa, não o faz rejeitar o que dela retira, daí a expressão que usa para se definir. Pegando numa frase de São Paulo – «Se Cristo não ressuscitou é vã a vossa fé» - João diz que os ensinamentos da Igreja lhe são caros, com ou sem dúvidas. «Eu posso perceber que a fé seja vã, mas mesmo que Cristo não tenha ressuscitado, ele para mim sempre foi muito útil».

Se inicialmente a sua aproximação aos ensinamentos católicos se deveu a «estética, pela beleza da Palavra», gradualmente ganhou um sentido ético. «À medida que vais envelhecendo, que estás inserido no mercado de trabalho, que tens que tomar decisões sobre a vida das outras pessoas, tu percebes que a dimensão ética é mesmo muito importante.»

Para além disso, o exercício espiritual a que a religião obriga é gerador de "saúde". «O cristianismo, quando é bem feito, se tiveres um bom sítio onde ir à missa, boas pessoas com quem falar, se tiveres bons livros para leres, é como ires fazer exercício físico. Com isso fazes uma espécie de exercício espiritual para te manteres em forma e esse exercício espiritual e muito importante na tua vida», acredita.

Na opinião do jornalista, não há quem tenha conseguido substituir a religião por qualquer coisa semelhante. Referindo um dos autores da sua "procura", como referia Teresa, João acrescenta um exemplo muito prático desta falta de alternativa. «O Alan Pouton tem um livro sobre isso chamado Religião Para Ateus... Ainda há pouco aconteceu, por exemplo, ir a um funeral onde não há padre. Se tu tiras o padre ficas sem nada. É uma experiência, não sei...Tu pensas: aquilo não é nada! Não dá para arranjar um ritual laico para perceber que há uma vida que acabou? Que há pessoas que vão fazer luto? Tens isso trabalhado pelas religiões, mas quando não tens as religiões, não há nada para substituir aquilo, sendo que as tuas angústias continuam lá todas», conclui.

Com um sentimento de identificação com São Tomé, João Miguel Tavares considera, ainda assim, que os ensinamentos a retirar são tão importantes, que vale a pena o caminho. «De facto, eu precisava de ser como São Tomé, de enfiar lá o dedo para ver onde está o buraco dos cravos e Jesus ainda nunca teve a amabilidade de me aparecer. Portanto, terei sempre imensa dificuldade. Agora, tudo o que ali está à volta, tudo isso me interessa muito. E não só me interessa muito, como eu acho que é precioso partilhar e eu quero muito que os meus filhos aprendam aquilo, daí que eles estejam na catequese e tudo isso. Vale a pena, independentemente das tuas dúvidas, percebes?»

Com mais ou menos dúvidas, mais ou menos facilidade, a fé é vivida em família. Como nos explica a mãe Teresa, «tentamos ter um momento diário quando nos deitamos em que fazemos uma oração em família». Este é um momento de partilha entre todos, de agradecimento e de reflexão, porque embora os filhos ainda sejam pequenos, João e Teresa pretendem que eles pensem por si e trilhem o seu caminho. «Sobretudo não queremos incutir-lhes nada na cabeça. Nós achamos que para eles terem uma fé realizada, bem estruturada, têm que fazer o seu próprio caminho, observando obviamente os exemplos dos pais e das pessoas que os rodeiam na catequese», assegura a médica.

João e Teresa tentam viver a fé com «honestidade» e fazer o melhor que sabem. «Não somos uma família perfeita, mas somos uma família que procura colocar-se no mundo o melhor possível e para isso a fé é uma coisa essencial», acredita a mãe.

Este texto é parte da entrevista feita a João Miguel Tavares e a Teresa Mendonça por Rita Bruno


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