17 de abril de 2014

Dois Papas, dois Santos dos nossos dias


DOIS PAPAS, DOIS SANTOS DOS NOSSOS DIAS: 
JOÃO XXIII, JOÃO PAULO II



A Igreja vai canonizar numa única celebração, a 27 de Abril, os Papas João XXIII e João Paulo II, dois homens da Igreja do nosso tempo. Muitos de nós vivemos a surpresa da sua eleição, seguimos suas decisões que mudaram a Igreja e o mundo, estivemos perto ou vimo-los pela televisão em momentos importantes. Ambos tiveram uma ação decisiva na atualização da doutrina e prática da Igreja na segunda metade do século XX para responder às mudanças e aos desafios do nosso tempo.
João XXIII foi o nome que Angelo Giuseppe Roncalli, nascido em 1881, na diocese de Bérgamo, Italia, escolheu após a sua eleição no conclave, em 28 de Outubro de 1958 por ser o nome do pai, do patrono da igreja do batismo e o mais comum da história dos Papas. Assumia o Pontificado depois de uma longa carreira diplomática em missões difíceis na Bulgária, Grécia, Turquia e França e 5 anos como Bispo de Veneza. Discreto e amável de trato, tinha uma reputação de atento, dialogante e conciliador. Ia concluir 77 anos. 
João XXIII conhecia o mundo e muitas das questões que a Igreja defrontava pela experiência directa , fora as muralhas do Vaticano. Sabia o que tinha fazer e que era breve o tempo para o pôr em prática. Estava decidido a promover o “aggiornamento” da Igreja e das suas estruturas. Revela um espírito aberto, próximo e acolhedor. No mundo moderno não vê apenas perigos, descobre oportunidades. A Igreja deve construir pontes. Mantendo-se fiel a si própria, deve ir ao encontro do mundo e enfrentar os desafios da modernidade. Três meses após a eleição, na festa da Conversão de S. Paulo (25 Janeiro 1959), perante o colégio dos cardeais, anunciou a intenção de convocar um Sínodo Diocesano para a cidade de Roma e um Concílio Ecuménico para a Igreja Universal com o objectivo de "promover o incremento da fé católica, uma saudável renovação dos costumes do povo cristão, adaptar a disciplina eclesiástica às condições do nosso tempo" e facilitar a aproximação das Igrejas cristãs. Começou logo a ser preparado sob a liderança das estruturas rígidas da Cúria.
O Concílio teve a sua sessão inaugural a 11 de Outubro de 1962. Estava presentes 2540 padres conciliares vindos de todo o mundo livre. A maioria era, pela primeira vez, de não europeus. A distribuição dos primeiros documentos preparatórios tinha despertado críticas e reservas e manifestado clivagens entre a Comissão preparatória, a Cúria e sectores influentes que não desejavam mudanças profundas e uma maioria adepta do rejuvenescimento da Igreja, duma teologia mais centrada na Bíblia, duma prática mais comunitária e participativa inspirada na função real sacerdotal e profética de todo o batizado, duma abertura da Igreja ao mundo
No discurso inaugural, Joâo XXIII indicou claramente que a finalidade principal do Concílio não era “a discussão de um ou outro tema da doutrina fundamental da Igreja”, mas “o progresso no aprofundamento doutrinal e na formação das consciências; é necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo”. O Papa não ignorava as fortes pressões daqueles que “nos tempos modernos não veem outra coisa que prevaricação e ruína” Com o Concílio a Igreja desejava mostrar a integridade da sua verdade duma forma positiva, evitando condenações. A sua posição era clara: “parece-nos necessário dizer que discordamos desses profetas de calamidades que estão sempre anunciando infaustos sucessos como se estivesse iminente o fim dos tempos.”
Os dados estavam lançados as primeiras sessões trouxeram para a aula conciliar, as tensões que provocaram a discussão e levaram ao aperfeiçoamento das regras, à participação mais alargada dos Padres, nas reformulações dos textos base e nas reformulações sucessivas até atingir os documentos aprovados por larga maioria que hoje conhecemos e são manancial da reflexão e prática da Igreja. João XXIII, com a sua bonomia, o seu espírito conciliador, a sua paixão pela verdade, a sua visão duma Igreja dialogante e incarnada no mundo actual pensou o Concílio e o pô-lo em movimento. A sua rota estava definida quando faleceu a 3 de Junho de 1963, com 81 anos. Seria concluído sem sobressaltos sob o pontificdo de Paulo VI.
O Magistério de Joao XXIII incluiu duas encíclicas que tiveram repercussão universal “Mater et Magistra” “sobre a evolução da questão social” e “Pacem in Terris”, sobre a “paz para todos os povos na base da verdade, justiça caridade e liberdade”.
A afabilidade, a bondade, a profunda espiritualidade que a publicação do seu Diário Íntimo confirmou grangearam-lhe o epíteto do “bom Papa João” e a fama popular de santidade. Foi beatificado, a 3 de Setembro de 2000, por João Paulo II, um dos Bispos presentes no Concílio que nunca o esqueceu.
Quando em 16 de Outubro de 1978, o Arcebispo de Cracóvia Karol Woityla, nascido em Wadovice na Polónia, a 18 de Maio de 1920, foi eleito Papa, na sequência do breve pontificado de João Paulo I, justificou na escolha da componente do nome João a “singular herança deixada à Igreja” por João XXIII. Estivera no Concílio. Cumpria-lhe agora, na sequência do Pontificado de Paulo VI, dar execução aos decretos conciliares e prosseguir a reforma da Igreja segundo o espírito do Concílio. Os próprios actos protocolares da tomada de posse foram simplificados, abolindo a coroação papal e pondo definitivamente de parte a tradicional tiara que Paulo VI deixar de usar.
A escolha de Karol Woityla foi surpresa. Era o primeiro Papa não italiano desde Adriano VI, em 1522 e também o primeiro eslavo, polaco, e, de uma vez para sempre, o único Papa proveniente de um país sob regime comunista. O seu pontificado de quase 27 anos foi dos mais longos da história. A Polónia estava sob o domínio soviético. João Paulo II viria a desempenhar um papel fulcral na libertação da Polónia, na queda do regime comunista soviético e da Cortina de Ferro. 
A 2 de Junho de 1979, João Paulo iniciou a segunda das suas muitas viagens apostólicas fora de Itália, precisamente à sua terra natal. O pretexto era a comemoração do IX centenário do martírio de Santo Estanislau para satisfazer postumamente o desejo de Paulo VI estar nas comemorações do “Milénio do Baptismo da terra polaca”.
João Paulo assumiu na visita a matriz cristã como parte integrante da identidade nacional polaca. O regime comunista foi posto a prova como representante do povo polaco. Foi forçado a aceitar as concentrações dos católicos à volta dos seus bispos e as deslocações aos seus santuários para escutar o Papa que falava como polaco da história, mas sobretudo da actualidade. O governo viu enfraquecer a sua autoridade perante os movimentos de contestação cuja face visível eram os operários do sindicato Solidariedade. Ironicamente eram as organizações autónomas dos operários a atribuir ao Partido comunista polaco não a representação da classe operária, mas apenas de uma burocracia, apoiada no aparelho militar sustentada por uma potência estrangeira. João Paulo II não disse isso explicitamente. Disse-o sim o comportamento das multidões que o seguiram por toda a parte e mostraram que estavam com a Igreja apesar dos limites postos à sua liberdade. Daqui para a frente a resistência à ocupação soviética e da imposição da sua ideologia prosseguiu inexoravelmente até à queda simbólica do muro de Berlim em fins de 1989. O Papa João Paulo II fora um dos seus principais artífices. Nunca se esclareceu o papel que o atentado de que foi vítima em plena Praça de S. Pedro teve neste processo, mas ninguém consegui provar que lhe foi alheio. 
João Paulo II voltaria à Polónia, mais cinco vezes, a uma Polónia finalmente livre. Iria também ao último bastião do comunismo de matriz soviética, a Cuba e, se não provocou o seu derrube –nunca foi essa a sua função – conseguiu aí o respeito do regime e abrir aí um espaço de liberdade para a acção da Igreja.
João Paulo II percorreu 129 países dos mais diversos regimes políticos, ideologias e religiões, no desempenho da sua missão apostólica. Relativamente aos regimes políticos, sempre proclamou a independência da Igreja e o respeito pelos direitos humanos, pelo direito internacional, as instituições e convenções internacionais. Quanto a ideologias e religiões defendeu o respeito pela liberdade religiosa e de opinião, mesmo em situações em que sabia que ela não existia ou era fortemente coarctada. O seu contributo para o diálogo inter-religioso e ecuménico foi enorme, promovendo e estimulando pessoalmente iniciativas de aproximação e apoiando as instituições para isso criadas na sequência do Concílio Vaticano II.
João Paulo II tinha um porte atlético, uma reputação de prática desportiva, era comunicativo, expansivo, fizera teatro, falava 14 línguas, entre elas o português. Pôs toda a sua vitalidade, energia e entusiasmo ao serviço da Igreja Universal. Lançou as Jornadas Mundiais da Juventude e congregou em Paris, Denver, Manila, Buenos Aires, Toronto, e muitas cidades de todos os continentes assembleias que chegaram a reunir simultaneamente mais de um milhão de jovens .
O testemunho de João Paulo II envolveu todas as facetas da sua personalidade animada por uma fé profunda e uma “inquietação” paulina de evangelizar, de levar a mensagem transformadora de Jesus a todos os homens, por todos os meios, a todos os confins da terra. A sua fé manifestava-se tanto na forma vibrante como participava nas celebrações entusiásticas dos Encontros Mundiais da Juventude como nos momentos de silêncio contagiante em que se concentrava em oração. Em Fátima tivemos uma dessas experiências.
O seu testemunho abrangeu o martírio. O atentado de que foi vítima na Praça de S. Pedro levou-o a considerar a preservação da sua vida como milagre que agradeceu especialmente a Nossa Senhora de Fátima. Ele que viveu profundamente uma piedade mariana que o levou a promover os santuários marianos por todo o mundo, privilegiou Fátima pela coincidência da data ((13 de Maio de 1981) com o atentado.
Os seus últimos anos foram um testemunho vivo de aceitação das limitações da doença e de dedicação à Igreja até ao fim. Foi também um alerta para uma sociedade que despreza os idosos e os doentes, um exemplo vivo de comunhão na cruz de Jesus e na Sua obra de salvação.

por Octávio Gil Morgadinho










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