15 de abril de 2014

A Igreja dos nãos...

Não tenho qualquer dúvida de que a Igreja foi perdendo adeptos e impacto na sociedade pelo facto de (sobretudo) reagir, em vez de agir. Ao invés de um discurso afirmativo e proativo, pregou durante muito tempo a luta contra o “mundo” (sempre sinónimo de concupiscência…) e contra as “modernices”. E caiu na pedagogia do «não». A este propósito, quão significativas são estas palavras de D. Ilídio Leandro, membro da Comissão Episcopal do Laicado e Família: «O caminho que a Igreja tem feito, não por culpa da Igreja, mas da pedagogia que se tem vivido (…) é a de ser vista como a Igreja do Não. Diz que não a tudo, e apenas propõe algo que hoje se torna muito difícil ver nos próprios membros da Igreja» (Família Cristã, jan. 2014).
Com tanta pastoral de manutenção, e com tantos afazeres colaterais do clero, nem tempo houve para nos apercebermos daquilo que já S. Tomás de Aquino e Santo Agostinho no diziam há mais de sete séculos, e que o Papa Francisco há meses recordou: «Há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. São Tomás de Aquino sublinhava que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus «são pouquíssimos». E, citando Santo Agostinho, observava que os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja se devem exigir com moderação, ‘para não tornar pesada a vida aos fiéis’ nem transformar a nossa religião numa escravidão, quando ‘a misericórdia de Deus quis que fosse livre’. Esta advertência, feita há vários séculos, tem uma atualidade tremenda. Deveria ser um dos critérios a considerar, quando se pensa numa reforma da Igreja e da sua pregação que permita realmente chegar a todos» (EG, 43).
Inserem-se neste contexto imensas situações que só têm afastado da Igreja muito batizados, ou têm impedido mais pessoas de entrarem para a assembleia dos crentes: as relacionadas com o batismo (pouco acolhimento a cenários mais estranhos, como filhos de mães solteiras, de pais em situação irregular, ou de não praticantes, para não falar na questão dos padrinhos…); as relacionadas com o matrimónio (autorizações dos párocos, dificuldade em casar fora das paróquias dos noivos, horários de casamento, etc.); as relacionadas com a extrema-unção (para os casos de católicos não praticantes) ou as exéquias (em que pequeníssimos entraves são infinitamente ampliados devido à instabilidade emocional dos familiares). Isto, para não referir muitas outras situações formais que vamos ouvindo por aí e que revoltam as pessoas. É claro que, da parte institucional da Igreja há justificação para o «não»... Mas também havia suporte legislativo para a mulher adúltera ser apedrejada até à morte, e Cristo preferiu o arrependimento e o perdão (ou estarei a exagerar?).
Mais uma vez, bem razão tem o Papa Francisco quando diz que «[na Igreja], em muitas partes, predomina o aspeto administrativo sobre o pastoral, bem como uma sacramentalização sem outras formas de evangelização» (EG, 63)!
E se eu entrar no campo da moral sexual e do planeamento familiar, exemplos desta intransigência da Igreja não faltarão, como supõem…
E se eu falar do problema complexo e espinhoso dos divorciados em segunda união? O “não” absoluto do acesso aos sacramentos da Penitência e Comunhão, sem distinguir situações, sem atender às pessoas concretas, tem projetado para as periferias muitíssimos casais e famílias. Sendo uma questão “em aberto” há muitos anos (pelo menos desde João Paulo II), por que razão não se deram passos mais arrojados em busca de novas soluções? A resposta é só uma: por medo. Por medo e preguiça. Ou seja, para evitar abusos ou injustiças, para não se desvalorizar o sacramento, para “não dar trabalho” (as leis radicais descoloridas – do “sim” e do “não” – são tão cómodas, meu Deus!).
Mais uma vez, bem razão tem o nosso Papa quando diz (e mais do que uma vez) que prefere «ter uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças» (EG, 49).
A este(s) propósito(s), quão oportuna, sensata e ousada foi a recente intervenção de D. Walter Kasper na reunião extraordinária de cardeais, dedicada ao tema da família – intervenção esta considerada pelo Papa como um exemplo de teologia “profunda” e “serena”! Não a cinjamos unicamente ao «problema complexo e espinhoso» (e estou a citá-lo) dos divorciados em segunda união. Mas é, sem dúvida, o ponto que mereceu mais destaque no discurso. E como este assunto – porque fraturante, porque incómodo até para quem escreve – merece mais espaço, ficará para outra oportunidade…

Praticamente comecei com uma citação de D. Ilídio – uma voz autorizada da Igreja portuguesa. Termino com ele, com (mais) esta afirmação ousada, a que dou total assentimento: «É a Igreja que tem de se adaptar às pessoas e não o contrário».

por Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com


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