3 de junho de 2013

Reflexões no contexto da celebração do Ano da Fé #06


6. Que respostas?

A fé serve para vencer as dificuldades!?
Depois de ousar fazer a pergunta para que serve a fé e de refletir um pouco sobre o que julgo ser a sua importância, gostaria agora de começar a partilhar convosco algumas tentativas de resposta. Não sendo possível fazer referência a todas as respostas,  vou recolhendo aqui, a modo de exemplo, algumas, tentando perceber que implicações delas podem resultar.
Com frequência vamos ouvindo dizer que a fé nos ajuda a ultrapassar as dificuldades que vão surgindo ao longo do nosso viver. Se bem que perceba perfeitamente o significado desta afirmação e, de um modo geral, concorde com ele, penso, no entanto, que é muito importante precisar o seu sentido.
E digo isto, porque a fé não faz com que as dificuldades desapareçam, ou mesmo com que se tornem mais fáceis. O que acontece é que a dimensão da fé faz-me perceber que não estou sozinho perante as dificuldades e também que elas, por mais fortes que sejam, não têm a última palavra, pois essa pertence sempre, assim acredito, ao amor de Deus. Ou seja, porque me abre outros horizontes, a fé ajuda-me a não perder o significado profundo do viver, mesmo quando estou perante aquelas situações que parecem querer teimar em por tudo em questão. As dificuldades não desaparecem por magia, a dor não dói menos, não percebo tudo de uma maneira mais clara, mas sei que continuo a ser amado e que posso continuar a amar e isso pode fazer toda a diferença. 
Ao escrever estas palavras tenho bem presente o testemunho da minha mãe nos últimos momentos da sua vida. A dor, a dela, a minha,  a de todos os que vivemos este momento com ela era muito grande. Todos sabíamos que tinha chegado o fim daquela etapa, e não era por ter fé que ignorávamos essa realidade ou que ela se tornava mais leve. Mas a fé, que ela mesmo nos ensinou a dizer (a mim e ao meu irmão)  e sempre testemunhou a quem com ela viveu, fez-nos saber que esse momento, difícil sem dúvida, não era o último nem sequer o que tinha a última palavra, e, por isso, o pudemos viver de uma outra maneira e com uma outra certeza. Ou seja, nesse momento de dor e de morte pudemos perceber que não era na dor nem na morte que residia o sentido e, desse modo, pudemos vivê-lo centrados na vida e a partir da vida.
Mas, apesar da importância desta experiência, ouso dizer que se a resposta à pergunta formulada «para que serve a fé?» se ficar só por este nível, então se calhar ainda não percebemos bem este tesouro que nos é dado e transmitido. É que a fé não pode ficar reduzida a um simples ajudar-nos a ultrapassar as dificuldades. Isso seria pouco, mesmo muito pouco, por mais importante que possa parecer.
Se ficarmos só neste nível, corremos seriamente o risco de testemunharmos aos outros que a fé tem uma ligação privilegiada com a dor, com o sofrimento e com as dificuldades, o que de todo não me parece ser verdade. A relação da fé é com a vida, a totalidade da vida e não simplesmente com os momentos mais difíceis. A fé dá sentido à vida, a toda a vida, em todos os momentos e por isso também aos momentos mais difíceis, mas a sua relação, insisto, é com a totalidade da vida.
Sinceramente parece-me cada vez mais importante que nos itinerários de educação da fé esta realidade seja sublinhada e destacada. De certo modo, julgo que um dos motivos para uma certa situação de desconforto na educação da fé reside aqui mesmo. Uma proposta da fé 'amarrada' quase que exclusivamente a estes momentos, dá dela uma imagem de remedio, de conforto, de atenuação e não uma imagem mais positiva de plenitude de sentido.  
É por isso que julgo ser muito importante que as famílias testemunhem a fé como uma realidade que tem a ver com a totalidade do viver e não apenas com determinados momentos. Só deste modo as novas gerações poderão ir aprendendo que a fé não é como um 'medicamento' que utilizamos para remediar ou atenuar aqueles males que nos surgem, ficando guardada no armário em todas as outras situações, até que chegue o momento em que dela novamente precisemos.
O dom da Fé que Deus nos dá e que os pais, com outros, também ajudam a transmitir, é um precioso tesouro que pode ajudar a viver a vida, toda a vida, com mais intensidade e plenitude. Não está apenas reservada para alguns momentos, mas deve tocar em tudo, para que tudo possa ter um outro sabor.  

Juan Ambrósio


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