3 de maio de 2013

Temos menos filhos


Em 2010, nasceram em Portugal 101.381 crianças, em 2011, 97.200. De acordo com uma notícia do Público do dia 5 de Novembro, entre Janeiro e Setembro deste ano foram feitos apenas 67 mil testes do pezinho, menos 6500 que em igual período de 2011. 
De acordo com a mesma notícia, “tal significa que 2012 ficará para a história como o ano em Portugal com menos bebés de que há registo”. Esta é a segunda vez que neste ano refiro este tema neste espaço e faço-o porque considero que é um dos factos mais preocupantes da nossa vida contemporânea que ameaça o futuro colectivo. 
Podemos constatar que este assunto por vezes é objecto de alguns discursos, faz manchete de alguns artigos, é abordado nalguns seminários técnico-cientificos. No entanto, nunca o vi ser abordado de forma sistemática e consistente no desenho de políticas públicas, nem tão pouco o vi ser debatido de forma aprofundada para além de recorrentes abordagens de caracter marcadamente estatístico. E é do nosso futuro que se trata! Quando procuramos identificar alguns dos factores que levam as pessoas a ter filhos verificamos que se trata de uma multiplicidade de variáveis que influenciam uma multiplicidade de decisões. 
Destacaria de entre aquelas que se apresentam como mais estáveis ao longo dos tempos, o instinto para a manutenção da espécie/ continuidade intergeracional e biológica ou o amor pelos filhos/ enriquecimento emocional e pessoal. Estas variáveis tendem no entanto a ter um peso surpreendentemente menor à medida que o estilo de vida instalado é predomoninantemente dominado pelo “ter” em detrimento do “ser”, isto é, o valor dos filhos é inversamente proporcional à ameaça que representam para o conforto dos seus pais. Trata-se de uma importante modificação comportamental de consequências catastróficas. A sua alteração requer atenção ao problema, intenção de alteração, vontade de actuação; requer visão estratégica, planeamento e acção consistente e continuada. Os países do Norte da Europa dão-nos boas pistas de como se pode fazer.

Maria do Rosário Carneiro
Investigadora do ISCSP



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