20 de maio de 2013

Reflexões no contexto da celebração do Ano da Fé #04


4. Transmissão da fé

Falávamos no último artigo sobre a proposição da fé, ou seja, sobre a proposta que quer explicitar o dom feito por Deus a todo o ser humano. Continuando nessa linha quero, agora, partilhar convosco algumas reflexões sobre a transmissão da fé.
Mas ao falarmos em transmissão da fé não estaremos a dizer o mesmo que proposição, ainda que utilizando outra palavras, poderão perguntar alguns dos nossos leitores. Claro que estas duas realidades estão relacionadas e em certo sentido implicam-se uma à outra, mas em rigor referem-se a dimensões diferentes.
Vimos como a fé é um dom que Deus oferece propondo. Vimos também que esse dom tem de ser consciencializado no viver concreto das pessoas e que aí entra necessariamente o testemunho e a relação com os outros, através dos quais o dom/proposta de Deus se torna visível. Pois bem, é também neste âmbito que podemos refletir sobre a necessidade da transmissão.
Vou fazer isso a partir de uma dupla perspetiva.
Todos sabemos como a fé se concretiza numa relação pessoal com Jesus Cristo, vivida por cada um no contexto da comunidade crente. Nesta relação, como em todas as relações, existem atitudes, comportamentos, linguagens (para só falar em algumas dimensões) que a podem facilitar, aprofundando-a e tornando-a mais intensa e viva,  ou que a podem dificultar e, mesmo,  impedir de crescer.
Ora bem, esses comportamentos, atitudes e linguagens têm de ser aprendidos, pois ninguém nasce automaticamente com eles. Aliás, todos somos capazes de perceber  o motivo pelo qual alguém, que não cresceu num ambiente onde se promoveu e aprendeu a relação de gratuidade e dom que é o amor, terá sempre muita dificuldade em compreender essa linguagem e mais ainda em viver dessa maneira. É que não lhe foram transmitidas 'as letras' com que se diz esse amor, nem 'os gestos' com que se vive.
Mas se á fé é essencialmente uma relação (e esta é a primeira perspetiva que queria destacar), ela concretiza-se, depois, em determinadas formulações e conteúdos, em maneiras precisas de celebrar, em  formas características de  organizar a comunidade, que precisam igualmente de ser transmitidas para poderem ser assumidas e vividas (e esta é a segunda perspetiva a que me queria referir).
A vivência da fé não é pois uma coisa automática nem mágica. Ela implica um longo e complexo processo que passa pelo dom, pela proposta e pela transmissão. O dom está sempre garantido por Deus, que a todos o concede de uma forma gratuita e amorosa. Mas esse dom é uma proposta que tem de ser acolhida em liberdade por cada um. Proposta que necessita do testemunho dos outros para poder ser reconhecida. Proposta que implica e exige certo tipo de transmissões para poder ser respondida.
Porque nem sempre temos cuidado com o necessário carinho e atenção todo este processo, deparamo-nos, hoje, com pessoas que não acolhem o dom porque não percebem a proposta, ou mesmo percebendo-a não lhe conseguem verdadeiramente responder, pois não lhe foram feitas as transmissões necessárias que facilitem essa resposta.
Para mim esta realidade ajudou-me a entender como a fé não passa automaticamente de pais para filhos, de marido para mulher, de irmão para irmão, ou de amigo para amigo. É muito importante viver e testemunhar (propor), mas não chega, pois é igualmente necessário transmitir as linguagens, os comportamentos e os conteúdos com que se concretiza a experiência da fé.
O tempo de natal, que estamos neste momento a celebrar, sublinha bem esta realidade. Deus quer que todos possam aceitar e viver o dom que ele mesmo é.  Para isso fez-se como um de nós, de modo a que a sua proposta pudesse ser mais facilmente acolhida. E não se contentou com isto, pois ele mesmo, à nossa maneira, mostrou qual o caminho a percorrer para poder acolher e viver esse dom. 
Este é verdadeiramente o mistério do natal. Um Deus que é dom, proposta e transmissão de si mesmo. Um Deus que assume a nossa 'maneira de ser', para que nós possamos assumir a dele. É isto que celebramos, por isso acredito sinceramente que é possível outro futuro e que podemos ousar trilhar novos caminhos neste ano de 2013 que estamos agora a começar.

por Juan Ambrósio

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