13 de maio de 2013

Reflexões no contexto da celebração do Ano da Fé #03


3. Proposição da fé

Como os nossos leitores devem estar lembrados, terminámos o artigo anterior como uma questão na qual nos interrogávamos sobre a situação daquelas pessoas que afirmam querer ter fé e, no entanto, dizem não ser capazes.
A pista mais fácil para lidar com esta questão seria assumir que essas pessoas, na realidade, não falam verdade, porque no fundo o que pode estar a acontecer é que não se empenham o suficientemente a fundo para poderem assumir a opção da fé. Como todo sabemos, a atitude crente implica a liberdade e a vontade e leva a compromissos e a mudanças, o que pode fazer com que haja pessoas que não estejam verdadeiramente interessadas em assumi-la.
Não nego que este raciocínio pode ser confirmado em situações da realidade, no entanto, continuo a pensar que ele não explica tudo e nem sequer vai ao fundo da questão.
E penso isto, em primeiro lugar, porque encontro neste tipo de pensamento um preconceito que acaba por fazer com que não ‘levemos a sério’ quem nos diz querer ter fé e não ser capaz. Se assim for, o diálogo fica comprometido, pois não posso exigir que o outro ‘me leve a sério’ se eu começo por mostrar que não ‘o levo a sério’ a ele. Julgo, pois, que devemos ir por outros caminhos.
Já afirmei que a fé é um dom de Deus, que requer a liberdade humana, dom que Deus dá a todos e a que todos são chamados a responder. Mas pode acontecer (e estou convencido que acontece) que existam pessoas que não sejam capazes de reconhecer esse dom.
Na verdade se olharmos para o nosso percurso de fé, todos nós seremos facilmente capazes de perceber que nesse itinerário não descobrimos a fé simplesmente por conquista própria, mas porque outros nos falaram nela e, sobretudo, no-la testemunharam com as suas vidas. Também seremos capazes de perceber que a nossa resposta foi facilita e fortalecida com o apoio dessas mesmas pessoas. Vendo as coisas a partir deste prisma talvez sejamos capazes de entender que esse dom de Deus dado a toda a pessoa, só se torna efectivamente real na vida de cada um, quando outros nos ajudam a conhecê-lo e a percebê-lo e a responder-lhe.
Já a partir desta afirmação podemos começar a entender que a fé não é simplesmente uma ‘coisa de cada um’. É verdade que cada um tem de dar a sua resposta pessoal, mas essa resposta só se torna possível e concretizável com a entrada em cena de outras pessoas.
Mas voltemos à nossa questão. Para termos fé não basta, pois, o dom de Deus. É necessário também que cada um  (re)conheça esse dom enquanto tal e, para isso, torna-se necessário que outros no-lo testemunhem, e proponham.
A proposição da fé surge, assim, como um elemento fundamental do próprio processo da fé. E trata-se de um elemento que precisa de momentos de explicitação.
Se pensarmos no caso da educação de uma criança talvez isto possa ser mais claro. Todos sabemos que se no seio da família a criança vai tendo acesso a essa maneira de viver que a fé possibilita e concretiza ela cresce a saber que essa é uma possibilidade real na sua vida. Mas mesmo nesta situação, os pais terão de ter momentos em que devem falar explicitamente dessa maneira de viver, dizendo que ela decorre da fé. A partir daqui, a criança não só percebe que essa maneira de viver é possível e real, mas também que ela se deve a um dom concreto, um dom oferecido por Deus, o dom da fé.
Propor a fé de uma maneira implícita (através da vida do dia a dia) e de uma maneira explícita (em momentos em que se lhe dá nome e se fala sobre ela) é, pois, um dos elementos indispensáveis para que as pessoas possam viver e assumir esse dom.
Em certo sentido, esta dimensão de proposta está já presente no próprio dom que Deus faz, pois, se por um lado ele o oferece a todos, por outro, essa oferta nunca é uma imposição, mas um convite, uma proposta, que, isso sim, deseja ardentemente que seja aceite. 

por Juan Ambrósio


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