6 de maio de 2013

Reflexões no contexto da celebração do Ano da Fé #02


2. O dom e Deus.

Com bastante frequência, pelos sítios onde vou andando e no contexto de várias atividades, tenho escutado está interrogação, muitas vezes dirigida diretamente a mim: se a fé é um dom de Deus porque há pessoas que dizem não ter fé? 
Também já várias vezes escutei pessoas com bastante relevância na nossa sociedade afirmarem que não tinham sido agraciados com o dom da fé, o que, apesar de ser uma formulação diferente, acaba por nos remeter para a mesma questão inicialmente formulada.
Como é óbvio, a temática não se apresenta de fácil reflexão, mas em todo o caso atrevo-me a deixar aqui algumas pequenas pistas que não pretendem ser mais do que uma ajuda à reflexão que cada um é convidado a desenvolver.
Começo por afirmar algo que para mim é um pressuposto e base de toda a minha reflexão acerca deste assunto. A fé é um dom gratuito de Deus dado a todo o ser humano. A razão que me lava a fazer esta afirmação tão categórica é , no meu entender, muito simples. Se Deus está verdadeiramente comprometido com a felicidade e salvação do ser humano, não me parece que possa fazer sentido afirmar que só a alguns (ainda que certamente sejam muitos) ele conceda o dom da fé, pondo a possibilidade que não o conceda a outros (mesmo que possam ser poucos), pois desta maneira estaria, ele próprio, a dificultar a felicidade e salvação dessas mesmas pessoas.
O facto de existirem pessoas que não têm fé, não pode, pois, do meu ponto de vista, ser remetido a Deus, como se ele fosse o causador dessa situação. Deste modo, torna-se necessário ensaiar outros percursos e ousar outros olhares que nos permitam tentar  lidar com esta realidade.
Sugiro, então, mais uma pista. A fé sendo indubitavelmente um dom de Deus, pressupõe, igualmente, a resposta livre do ser humano. Ou seja, o dom é de Deus, a iniciativa é sua e trata-se de um gesto totalmente gratuito da sua parte. Deus concede-nos o dom da fé porque nos ama, porque quer a nossa felicidade, o nosso bem, a nossa salvação.
Mas esse dom, não é concedido sem nós e muito menos contra nós. Porque nos leva a sério, e outra atitude não se poderia esperar da parte de quem ama, Deus não impõe o seu desejo, antes o propõe, aguardando pacientemente que ele seja reconhecido, entendido e respondido. Claro que simultaneamente faz tudo o que está ao seu alcance (seja-me permitida esta maneira tão humana 
de falar de Deus) para que essa sua proposta possa ser aceite. Em todo o seu agir, contudo, jamais ousa ultrapassar a fronteira da liberdade de cada ser humano.
A questão que levantámos no início desta pequena reflexão, deve ser então equacionada e refletida a partir desta perspetiva. Tendo Deus concedido o dom da fé a todo o ser humano, nem todos o reconhecem, o entendem e nem todos lhe respondem.
Para o caso daqueles que livremente respondem não, a solução parece ser relativamente simples, se bem que nos deixe algumas perplexidades: Não têm fé porque não querem. Claro que isto levanta muitas questões, pois podemos interrogar-nos como é que uma pessoa, tendo percebido o dom que Deus lhe faz, não o aceita e não lhe responde positivamente. Apesar de tudo, estas dificuldades são certamente menores do que aquelas que resultariam de atribuir essa situação ao agir de Deus, estando diretamente relacionadas com a realidade da liberdade humana. 
A questão torna-se, no entanto, mais bem complicada, naqueles casos, e eu conheço alguns, tal como certamente os nossos leitores conhecem, em que as pessoas afirmam que querem ter fé, mas efetivamente não têm.  A ela tentaremos responder no próximo número do nosso Jornal.

por Juan Ambrósio


0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More