15 de maio de 2013

Gente de Fé



Minha mãe faleceu muito jovem deixando órfãs duas filhas pequenitas: eu e a minha irmã mais velha, que andaria pelos cinco anos. De coração desfeito por não poder tomar conta das duas sobrinhas, Maria pegou na mais pequena e levou-a para sua casa. “A criança é pequenina, precisa de colo. Quando for maior volta para o pé do pai.” Tudo lhe parecia natural, desde que a intenção fosse a de ajudar alguém. Porém, passados poucos anos, a criança adoeceu gravemente e todos lhe diziam que se não morresse ia ficar incapacitada, que a responsabilidade era grande, que o melhor era ela levar imediatamente a criança ao pai. “Ele que a fez, ele que a cuide. Ele é que tem a obrigação de a tratar. Como podes tu cuidar da criança, se tens de ir trabalhar?” Mas Maria não desistiu. Não pensava em si. Pensava na criança, em como sofreria se de repente ficasse sem o seu apoio, sem o colo que tinha para lhe dar. Com enorme determinação, procurou médicos e remédios por todo o lado. Vendeu todo o seu pouco ouro, empenhou tudo para que nada faltasse à criança. “Vais ficar bem, não tenhas medo!” “Eu já venho. Não tenhas medo!”, eram sempre as suas palavras quando se despedia da menina. “Não tenhas medo! Não tenhas medo!” E sem lágrimas visíveis, com uma força incrível, ia vencendo os argumentos dos arautos das desgraças que apareciam por todo o lado. “ Escola? Pôr a criança na escola? Deixa-a mais é estar em casa, coitadinha!” “Não ligues. Tu consegues. Não tenhas medo. O médico disse que era bom se conseguisses ir. Se te sentires mal, venho logo buscar-te.” A sua Fé transmitia-se e a criança sabia que se algum mal lhe acontecesse era apenas temporário. Que tudo passava. “Já passa, já passa! Não tenhas medo! Tu consegues, tu consegues!”, repetia constantemente.
Maria rezava. Muitas vezes. Na igreja, mas a maior parte das vezes em casa, no silêncio da noite. Que rezava ela? Que pedia? Que prometia? Nunca ninguém soube. Tinha uma pequena lamparina à cabeceira, acesa noite e dia. “Sabes, esta luz é muito importante. Olha, estão aqui os pavios. Quando se apagar esta chama põe outra, para estar sempre acesa a luz, sim?” E lá estava aquela luzinha, noite e dia, a lembrar que … A lembrar o quê? Maria falava pouco de Deus. Como? Se ela sabia que as suas palavras eram pequenas para dizer da sua tão grande Fé. E para quê? Deus estava sempre com ela. Em cada gesto de cuidado, de ternura, na alegria pelas coisas mais pequeninas. “Já viste aquele passarinho?””Olha, a plantinha, pegou!” Punha cascas de ovos e borras de café nos vasos e as plantas cresciam viçosas e davam flores. Maria ria. “Com a graça de Deus! Tudo precisa de carinho, até as flores!” Maria cantava. Quando cantava todos se punham em silêncio, porque era linda a sua voz. E ela ficava feliz porque as pessoas ficavam felizes quando cantava. “ Maria, canta a do barco negro…Maria, canta só mais uma…” E ela cantava, cantava, como se dentro dela soassem hinos de louvor.
Maria não dizia mal de ninguém. Nem dos ladrões, nem das prostitutas, nem de quem pedia esmola por necessidade ou vício, de ninguém. “Que sabemos nós da vida deles, coitados? Sabemos lá como chegaram a isto? . Olha, se puderes, nunca negues ajuda a ninguém que precise. Todos somos filhos de Deus…”

A menina, por quem Maria tanto lutou, não se curou. Mas conseguiu fazer um percurso de vida quase normal. Estudou, empregou-se, casou, foi mãe, hoje é avó… Conseguiu tudo aquilo pelo qual Maria rezou.
Maria envelheceu e viveu até aos seus últimos dias sempre a pensar nos outros. Para ela tudo estava sempre bem, nunca precisava de nada. De seu, tinha duas preciosas “joias” que sempre a acompanhavam: um Terço e uma pequena pagela com Jesus ressuscitado. 
Sempre que nela pensamos, fica-nos uma doce gratidão, uma ternura infinita, uma Paz enorme, uma certeza absoluta: Deus existe. E Ele está no meio de nós, sempre que a Bondade se manifesta!

Fernanda Ruaz

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