1 de maio de 2013

Dignidade, Caridade e Justiça

Abria-se mais um serviço de uma instituição de solidariedade social. À margem, com suficiente aparato para se fazer notado, um grupo conotado politica e ideologicamente, gritava no coro orquestrado das manifestações: “Dignidade sim! Caridade não!”. Não sabemos o que eles entendiam por “dignidade” e por “caridade”. Nós temos consciência do que significam: a caridade é a forma suprema de respeito pelo outro, pela dignidade de cada pessoa. 
A pessoa é a “humanidade” do homem, o modo próprio de ser e de existir do indivíduo humano dotado de razão, consciente, capaz de pensar e querer, responsável pelas suas decisões e ações, que se afirma como um “eu”, como sujeito, e se relaciona com os outros indivíduos humanos como “tu” que são, por sua vez, sujeitos em relação a outros “eu”. A pessoa pertence a si, não é propriedade de ninguém, dispõe de si. A sua intimidade é inviolável. Sendo única a pessoa, não pode ser substituída por nenhuma outra; tendo uma intimidade e uma interioridade, não pode ser tratada como uma coisa; sendo livre, não pode ser usada como objeto, contra a sua vontade. Pela sua autonomia a pessoa é fim em si mesmo, nunca meio. Tem dignidade, merece respeito. Toda a pessoa é igual em dignidade e merece o mesmo respeito que qualquer outra pessoa, independentemente das suas condições e limites. A dignidade da pessoa é inalienável e irrenunciável. Não pode perdê-la nem recusá-la. A revelação cristã considera o homem, homem e mulher, “imagem de Deus”, “filho de Deus”. Jesus considera feito a si o que se faz ao mais pequenino dos seus. Estes seus são os mais pobres, os limitados, perseguidos ou desprezados.
A dignidade a que se refere o pensamento e a prática cristã é a dignidade da pessoa humana, a dignidade do homem, criatura de Deus orientado para um destino eterno. É inerente a todo o homem, não obstante a sua condição social, cultura, estatuto económico e convicções, opções ou modo de proceder. Nenhuma pessoa pode ser usada como instrumento nem avaliada exclusivamente por critérios de utilidade. Os direitos humanos são a expressão do respeito devido à pessoa, a toda a pessoa enquanto tal. 
A caridade é a suprema forma de respeito pela dignidade da pessoa. Pela caridade cada ser humano é respeitado por si próprio, como próximo, como irmão, como “imagem” de Deus é reconhecido na sua dignidade pessoal e sobrenatural. A caridade realiza-se em atos concretos, na relação com os outros. “O amor é paciente... não se alegra com a injustiça... Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (I Cor. 13, 4-7). Inclui o perdão, a reconciliação, a gratuidade total. É a fonte vital de amor que dá sentido e energia a qualquer ato humano. “Ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse amor [caridade], nada disso me adiantaria” (I Cor 13, 3). “O amor [caridade] é o laço da perfeição” (Col. 3, 14). A caridade é o amor na sua aceção oblativa e gratuita, o amor especificamente cristão. 
A caridade, expressão da relação filial com Deus e da relação fraterna com o semelhante é a base da justiça e da solidariedade humana. A Caridade ultrapassa as exigências da justiça, mas não pode prescindir dela como mínimo de respeito pelos direitos do outro, sem a qual não pode existir. A justiça cristã é a “virtude moral que nos leva a respeitar a pessoa do nosso irmão em Cristo, pelo menos em seus direitos, a fim de garantir o mínimo de relações necessárias para que possa existir entre eles e nós uma união de caridade” Quando a Igreja fala em caridade não significa que ignore ou despreze a justiça. Pelo contrário, a caridade reforça a justiça, supõe que as exigências da justiça devem ser cumpridas e, se necessário, transcendidas. A caridade está ao serviço da pessoa e como tal reconhece a justiça “entendida como “virtude” para a qual todos devem ser educados e como “força” moral que apoia o empenho em favorecer os direitos e os deveres de todos e cada um, na base da dignidade pessoal do ser humano” (João Paulo II, Christifideles Laici, nº 42). A promoção da justiça é uma exigência básica da caridade. Os cristãos devem estar na vanguarda da promoção da justiça sob pena de serem infiéis à verdade da caridade. Mas ninguém estranhe que a caridade deva ir mais alguém, porque ela atinge o domínio da relação gratuita, da doação sem retorno e do perdão que supera toda a justiça.  
A caridade é, na expressão de João Paulo II “a alma e sustentáculo da solidariedade”- A Igreja sempre ligou a partilha e a comunicação dos bens à celebração da Eucaristia e fomentou a solidariedade para com os mais desfavorecidos. Não só favoreceu a ação individual, criou  instituições que desenvolveram a sua ação em campos tão diversos como a proteção das crianças, idosos e deficientes, cuidado de jovens em risco, sua educação e valorização profissional, acolhimento e tratamento de doentes. O Estado moderno assumiu muitas dessas tarefas com recursos económicos, técnicos e humanos mais poderosos. No entanto, a caridade será sempre o suplemento de alma necessário para fomentar o encontro com o outro, as relações pessoais, para ajudar a reconhecer no outro o próximo, o irmão, Deus. Por respeitável que seja a crença dos que esperam o progresso ilimitado e o triunfo da igualdade e fraternidade jacobinas para suprir todas as injustiças e dispensar a caridade, continuarão sempre a desmenti-los as múltiplas formas de pobreza material e moral resultantes dos limites, fraquezas e falibilidade humana, as situações de sofrimento e solidão, a que apenas a compaixão, a misericórdia, a caridade, podem dar resposta.
A promoção dos direitos humanos e o da solidariedade internacional, através da intervenção nas estruturas e organizações sociais, é uma dimensão imprescindível da prática da caridade e campo aberto à participação dos cristãos na política. O respeito pela dignidade de cada pessoa, criatura de Deus e o serviço de Deus em cada homem constituem imperativos fundamentais e caminhos para a realização da Igreja. “Os direitos do homem são também direitos de Deus”  - lembra João Paulo II e acrescenta “A Igreja deve servir o homem se quer servir a Deus. Este é um elemento decisivo da sua fidelidade a Ele”.

por Octávio Gil Morgadinho



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