1 de maio de 2013

Ao que nós chegamos


Decididamente, o Povo tinha razão, quando no pretérito dia 15 de Setembro, saiu à rua, para protestar, veementemente, contra esta desastrosa política estatal, que nos está sufocando, isto é, apertando o garrote da austeridade, ao redor do nosso pescoço, até sermos completamente esganados.
Não há dúvida que o Povo não se enganou (o povo nunca se engana), quando premunizou o que vinha aí. Foi um movimento avassalador, uníssono, espontâneo, patriota, majestoso, sem ser acicatado por sindicatos, ideológicos políticos ou grupos de pressão. 
Ali estavam, ombro-a-ombro, absorvidos pelas mesmas convicções, impulsionados pelos mesmos sentimentos, galvanizados pela mesma emulação, indiferentes a partidos, cromatologias ideológicas, a fazerem-se ouvir, na maior, mais sincera e mais convincente manifestação pública de que há memória. Era o Povo anónimo a vibrar de indignação. Eram famílias inteiras, a fazer ouvir a sua incontida revolta, contra quem nos está a atrofiar economicamente. E o Governo, impávido e sereno, indiferente a tudo e a todos, embora vá dizendo que somos o melhor e mais activo povo do mundo, fecha os ouvidos e prossegue na sua desastrosa política de afrontamento ao Zé povinho.
Será que não há, em Portugal, quem seja capaz de corrigir os desmandos cometidos há vários anos, de outra maneira que não seja a de sugar os ordenados, pensões e reformas de quem trabalha ou então já trabalhou e adquiriu o inalienável direito à sua pensão? Não haverá ninguém que seja capaz de desatar este imbróglio? Em lugar de se sugar os vencimentos e reformas, único sustento de milhares de famílias, porque razão não se corta nas despesas, nas “gorduras” do Estado? Porque não se suprimem tantas e desnecessárias e esbanjadoras Fundações, Institutos, Empresas Municipais, lesivas Parcerias Público Privadas  subvenções e partidos políticos e sindicatos? Porque não se acaba com as escandalosas remunerações compensatórias, concedidas aos políticos que deixam de exercer a sua actividade, na política? Porque não se reduzem os deputados, na Assembleia da República para 180, como prevê o art. 151 da Constituição da República, como até já foi proposto, assisadamente e com nítido sentido de Estado, pelo líder do PS?, António José Seguro? Porque não se reduz a frota automóvel dos políticos (ministros, secretários de Estado e deputados) e porque não se faz um espaçamento maior, na renovação dos semoventes do Estado? Porque se mantêm três presidentes da República (Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio), a receberem ordenados e todas as mordomias e proventos, tal como se estivessem no activo das suas funções (automóvel, secretária, motorista, gasolina, gabinete, etc. Mas nisto não se pode tocar, não há coragem para mexer…
´É um monstro devorador, criado por políticos e para políticos. Quem gerou e vai alimentando, anos a fio, este monstro, não tem capacidade para o liquidar. Desde o PS, ao PSD, desde o CDS ao PCP, desde o Bloco esquerda aos Verdes, todos conhecem bem. Todos sabem das suas vorazes investidas, mas fingem ignorá-lo. Todos afinam pelo mesmo diapasão, todos executam as mesmas coreografias políticas, estejam eles no Poder ou na oposição, mesmo quando tudo parece ruir ao seu redor. Esta a razão porque quando, no transacto 15 de Setembro, a deputada do Bloco de Esquerda , Catarina Martins, em frente ao Palácio de Belém, misturada na multidão, protestava energicamente, contra o Governo, foi de imediato vilipendiada, assolada pelo Povo anónimo, com invectivas deste género: “esteja calada que vocês são todos iguais, são todos uns gatunos, uns mentirosos, uns canalhas”. Perante estes “mimos”, que eram gritados com raiva e fervor, Catarina Martins, bateu em retirada, esgueirou-se sorrateiramente e o mais rápido possível. Este episódio foi decerto bem significativo e emblemático, do conceito que os políticos são tidos, pelo Povo português.
Embora seja contrário a este tipo de linguagem, o certo é que não posso deixar de reconhecer uma certa veracidade, naquelas exaltadas palavras. Portugal está a afundar-se, cada dia que passa. As FAMÍLIAS estão a ficar cada vez mais depauperadas e o pior é que não se vislumbra, pelo menos por agora, quem seja capaz de tomar medidas que nos conduzam a uma profunda modificação, salvando-nos da ruína.
É um conflito de interesses que grassa por aí. De complexos ideológicos, de tráfego de influências partidárias, de guerrilha contra a esfinge criada e só destruída por Édipo. E isto porque muitos dos que agora se queixam, contra o monstro, são os mesmos que o criaram e o têm alimentado, durante largas décadas, colocando o País na miséria, na situação caótica em que ele se encontra neste momento. E agora, quem tem de pagar a crise, é o Zé Povinho, o qual nada contribuiu para este “tatu quo”.
Neste momento, o que o Povo queria é que houvesse dignidade, processos honestos, pureza de ideais, novas atitudes alternativas credíveis, indo-se buscar o dinheiro, onde ele é esbanjado e não ao bolso de quem trabalha ou recebe as suas míseras reformas, verdadeiras cobaias de laboratório, submetidas a ensaios financeiros e sociais.
Para tanto era imperioso que surgisse alguém, desprendido do Poder, revestido de equanimidade política e com sentido de Estado. Mas isso será deveras difícil, mais difícil ainda do que encontrar uma mulher virgem, num lupanar de prostituição…

Fabião Baptista


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