17 de maio de 2013

A esperança em falta


Um quarto das dezenas de milhares de crianças que integram a população portuguesa caiu num estádio de pobreza e, por isso, tem fome. 

Mas as crianças porquê ?

Se não meteram ao bolso milhões para modernização de um país medieval vindos dessa Europa, agora tão decadente, que já parece o leão moribundo do livro da minha 3.ª classe, todos lhe dão pontapés, tamanha é a sua agonia. 

Se não abriram a boca para vomitar linguagem obscena, se não lançaram aos quatro ventos linguagem de apelo à degradação humana, enquanto negação de valores, aplaudida, adoptada e mesmo querida para uns quantos, para disso tirarem deliberado proveito.
Se nem sequer lhes ensinaram as muitas misérias e as poucas grandezas da nossa história e os seus actores dominantes, fazendo deles seres incompletos, vazios, incapazes de resistirem à frustração, às dificuldades do mundo, por isso reclamando o fácil, o imediato e o sem limite. 
Se arribados às escolas já proclamam alto e bom som, ensinados pelos pais, estes já nascidos num mundo libertino, em que cresceram, e geraram, necessariamente que por isso, produzindo fruto tocados pela podridão, que Deus não existe. 
Se o exemplo que os rodeia é de uma família em que hoje o pai é um, amanhã o companheiro da mãe é outro; se hoje a mãe é uma, mas amanhã a companheira do pai é outra; se hoje os irmãos são uns, amanhã são outros trazidos pelos companheiros a que acrescem, depois, mais uma leva pequena nascida das novas junções,  a que chamam eufemísticamente uniões, geradora de uma brutal confusão, angústia de identidade, revolta, insegurança e dor sem fim. 
Se não roubaram os cofres do Estado, para enriquecerem à custa do sangue e suor alheio.
Se não se dedicaram a todo o tipo de tropelias protegendo-se uns aos outros, como fez uma legião de adultos, estes passeando-se de cara lavada, quando deviam tingi-la de negro de fuligem de chaminé, ocupando postos de relevo, mas sem ética e nem moral, de que bem prescindem e vivem sem ela. 
Se lhes apresentaram um país que nunca teve uma história limpa, mas que eles não construíram, agora erguida à margem da verdade, da lisura, da transparência e de qualquer dignidade. 
Se lhes apresentaram uma terra que parece varrida por um temporal de maldade, repleta que foi de ilusões, agora de cabeça caída, só se esperando que não crie pedintes a cada esquina e ainda mais ladrões a cada canto. 
Se a oportunidade é toda para uns quantos, pouco para outros e nada para muitos. 
Se elas são vítimas da violência e abuso, quase parecendo que vivem num mundo de lobos. 
Se assim é, como é, porquê, pergunto-me, as crianças são, agora, vítimas da pobreza, se os seus estômagos não estão cheios nem para aí tendem? 
Como foi possível uma desgraça destas?
Tem que se acreditar na sua candura e na sua pureza, na sua capacidade de um dia  modificarem o mundo, em contrário dos adultos alguns deles responsáveis pelo grande sofrimento deste povo, que não prestam, tem que se acreditar que eles são capazes de limpar a sujeira desta terra, embora demore tempo. 
È preciso ter coragem para tudo mudar para que nada fique na mesma. O que muito nos falta hoje é esperança; o que abunda é medo desta terra e de muita da sua gente, ainda resfolgando a plenos pulmões. 
Falem, comecem já, às crianças do dever de verdade, do dever de proclamarem a justiça, da seriedade nas relações humanas, do respeito pelos mais fracos, pelos velhos, mulheres, crianças e doentes, de justa retribuição do trabalho, a que nunca se procedeu, da necessidade absoluta de um trabalho sério e eficaz em bem de todos, das poucas figuras ímpares da nossa história; incutam-lhes a esperança que, perigosamente, falta aos adultos. Por fim desconstruam a ideia proliferante de que tudo tem origem na matéria, à revelia de um Senhor da história. 
Não tenham vergonha; aqueles que retiraram as cruzes das salas de aula e hospitais também não estão felizes, embora pensassem que iam ficar. 

Armindo Monteiro

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