20 de novembro de 2012

Velhos são os trapos


Há poucos dias, ao passar junto de um idoso, fiquei comovido pelo modo como ele estava a ser acariciado, mimado e rodeado de extremoso carinho, pelos seus familiares, os quais regularmente o visitam.
De facto, na Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, verificamos amiudadamente, que há um grande número de idosos, que são amados, afagados e visitados com carinhoso amor, pelos seus entes queridos, que os adoram e amam acrisoladamente.
Como eles se sentem felizes, contentes e ainda válidos e úteis, para realizarem pequenas tarefas domésticas e de bricolage. A presença dos familiares, junto dos seus idosos, constitui um acto congregador e enriquecedor, exemplo vivo para os mais jovens e espelho fiel para as gerações mais novas. Reparem bem, como os idosos sabem apreciar, saborear e agradecer as visitas dos seus idolatrados familiares.
Podem crer que, no património duma FAMÍLIA, bem formadas, os mais idosos representam sempre, uma faceta deveras importante e valiosa do agregado familiar, especialmente, para as famílias onde ainda não se diluíram os autênticos valores da vida humana.
Madre Teresa de Calcutá, referia que, “a maior miséria humana, que grassava pelo mundo, residia, muitas vezes, no abandono, no desprezo e no desamparo a que eram votados os idosos”.
Também Simone de Beauvoir, a famosa feminista, que durante anos foi a fiel companheira do grande filósofo existencialista, Jean-Paul Sartre, asseverava, veementemente, que “uma sociedade que não ama, que não respeita e que não protege os mais idosos, é uma sociedade cruel, desumana, sem alma, sem coração e sem futuro”.
Embora a filosofia de vida de Simone de Beauvoir, se situe num hemisfério, diametralmente oposto ao meu, nomeadamente no campo da fé, neste seu pensamento estamos em perfeita sintonia, afinando pelo mesmo diapasão conceitual, pois perfilhamos da mesma opinião e dos mesmos princípios.
Com efeito, nada do que temos e do que somos, apareceu por geração espontânea. Do que desfrutamos hoje e perdura, foi-nos legado, já vem de longe, é fruto de muito trabalho dos nossos ascendentes, da dedicação dos nossos avós, do amor dos nossos pais, que tudo foram conseguindo á custa de muitos sacrifícios, de muitas privações, de muitas lutas.
Chegados a esta idade, saibamos saborear alegria de viver, embora com as limitações inerentes aos anos que não perdoam. Saibamos ser gratos e reconhecidos por ainda podermos ser úteis e prestáveis a quem precisa da nossa modesta colaboração. Mas, para tanto, é imprescindível sentirmo-nos rodeados por um clima de fraternidade, por um ambiente galvanizador, envolto numa atmosfera de apreço, gratidão e estima.
Na última etapa da vida terrena, já quase tudo se dispensa. Porém, sentirmo-nos acarinhados, amados e estimados, podem crer que é o maior e mais valioso presente que se pode oferecer a um idoso.
É uma verdadeira desolação, o que por vezes observamos por aí. Familiares e às vezes muito chegados, olvidam os seus progenitores, votando-os ao abandono, nos “lares da Terceira Idade”, como se fossem trastes velhos, já sem préstimo algum, como se fossem um pesado fardo de incomodativa presença. Vêm visitá-los, de longe em longe, com desculpas esfarrapadas e inconsistentes, que não convencem ninguém. Outros procuram os seus velhinhos, apenas com o firme propósito de, deploravelmente, lhe extorquirem, os poucos “cobres” que lhes restam, da mensalidade que tiveram que pagar à Santa Casa, pela sua estadia…
Muitos familiares parecem querer guardar para depois da morte dos seus ascendentes, os afectos, as exteriorizações de apreço, os sentimentos de gratidão e o carinho, os quais só têm lugar e sentido prático enquanto o idoso é vivo, enquanto os possa apreciar, saborear, agradecer a eterna afeição que acrisoladamente lhe dedicam.
É certo que a Assistência Social, tem-se desdobrado em plurifacetadas iniciativas, de apoio aos idosos mais carenciados, de acordo com o que se encontra preceituado nos Artigos 63º; 67º; 72º da Lei Fundamental do País. E isto porque a comunidade tem sempre uma grande “dívida” para com os idosos da Nação, não podendo, a dedicação que eles tiveram e o esforço que desenvolveram, em prol da comunidade, ser saldado de outra forma que não seja pelo amoroso afecto e carinho para com os seus ancião.
Os idosos, enquanto vivos, são autênticos relicários de experiência feita, perfeitos cadinhos e ciência viva, riqueza esta que não devia ser menosprezada, aviltada, pois pode ser útil e prestável para os vindouros.
Quão felizes são os povos, as famílias e as sociedades, que respeitam os velhinhos, que os amparam e tratam com simpatia, desvelo carinho e consideração, incentivando-os a serem úteis, rentáveis e frutuosos, para a comunidade em geral, onde se encontram integrados, de acordo com as suas aptidões, capacidades cognitivas, físicas e intelectuais.

“DIA INTERNACIONAL DO IDOSO” – 1-X-2012
Olhem, lá vai o velhinho

Caminha o bom velhinho
Apoiado ao seu cajado
Direitinho ao seu cantinho
A pensar no seu passado

Trabalhou a vida inteira
Para sustentar o lar
Sem pensar de que maneira
Ele havia de acabar…

Velhice sacrificada
Que tão desprezada és
E por vezes amesquinhada
Da cabeça até aos pés.

Teus, filhos, neste mundo
Sempre em ti estão pensando
Deus te dê um Sacramento
Te abençoe, afagando

Jesus que tudo prevê
Jamais despreza os velhinhos
Neste momento, que Ele te dê
Consolações e carinhos

Jesus que tudo pode
Olha sempre p’los velhinhos
E por isso lhes acode
E protege com miminhos

Alegra-te oh! Mocidade
Vive esta vida bendita
Bem sei que nesta idade
Raramente se medita

Olhem, lá vai o velhinho
Encostado ao seu bordão
Caminha devagarinho
C’os olhos postos no chão

por Fabião Baptista


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