18 de novembro de 2012

Crer na Fé



Ainda bem que vamos iniciar dentro em breve um Ano da Fé. Há muito que precisávamos dele! E não estou a referir-me só aos de fora; sobretudo os de dentro – os que consagram, os que juram votos de pobreza, castidade e obediência, os leigos que servem a Igreja em diferentes ministérios e estruturas, ou os que regularmente participam na missa e até comungam – necessitam urgentemente de rever a sua relação afetiva com Deus. Reside aqui o busílis da questão. 
Precisamos de nos encher de fé para depois evangelizarmos com novo vigor e entusiasmo a sociedade dos homens e das mulheres, dos políticos e governantes, dos mercados financeiros e das bolsas, das sociedades secretas e anónimas, dos poderosos e donos do mundo.
Deixemo-nos de histórias – rituais, rotinas, discursos, pregações, reflexões e reuniões sem sentido –  e questionemos o essencial. Será que eu amo este Deus, amo este Cristo? Será que eu me sinto apaixonado, encantado, fascinado por Ele? Será que anseio o Seu colo e me deixo embalar pela Sua vontade? Será que eu me identifico com Ele? Será que eu acredito que Ele conta comigo para salvar a humanidade, isto é, para tornar mais felizes as pessoas que me rodeiam? Será que eu me reconheço fraco e pobre perante a Sua grandeza, levando-me a ser humilde, pobre, generoso? Será que eu acredito que Ele faz milagres na minha vida e nos outros através de mim? Será que tenho momentos de forte emoção quando rezo, quando interiorizo uma homilia, ou quando O vejo na hóstia consagrada, na cruz, numa gravura, numa pessoa doente, num desempregado, num mendigo, numa criança? Será que eu me sinto «sacramento»?
Disse há tempos D. António Couto – uma voz autorizada da nossa Igreja – a este respeito: «Mas se Cristo não fizer parte da minha vida, então não farei grande evangelização. Eu posso falar muito de Cristo, posso encher a boca de Cristo, mas se Ele não transborda da minha vida, se é apenas palavra, isso não tem qualquer influência, porque as pessoas veem isso. Hoje precisamos de cristãos convictos, não envergonhados, a começar pelos bispos e pelos padres, mas também pelos leigos» (Família Cristã, abril 2012, p. 62).
Se assim for (pelo menos se assim for mais ou menos…), tudo o resto tem (mais) sentido: a missa, mesmo quando o sacerdote, o coro e o ambiente não ajudam; a confissão, mesmo quando acho que não tenho grandes pecados e me posso confessar diretamente a Deus; as orações tradicionais, mesmo quando as recito mecanicamente; as ladainhas, mesmo quando não as entendo cabalmente; as leituras bíblicas (ou os textos do Magistério da Igreja), mesmo quando a linguagem não é a mais acessível; as procissões (e outros rituais), mesmo quando elas parecem deslocadas dos tempos modernos; o jejum e a abstinência (e outros preceitos) mesmo quando já poucos as cumprem; as doenças, os contratempos, o sofrimento mesmo quando acho que não os mereço; a morte de um ente querido, mesmo quando choro amargamente.
Se eu acreditar nesta fé em Jesus Cristo, eu transformo as dificuldades em preciosas oportunidades de mais me aproximar d’Ele, porque me sinto frágil, dependente, «pobre», ávido do seu conforto.
Se eu acreditar na fé, eu creio na «força mais potente do mundo» (Madre Teresa de Calcutá) e, sendo fraco, sentir-me-ei forte, sendo medroso, sentir-me-ei destemido. 
Se eu tiver fé, se eu cultivar e alimentar este amor sublime, este «enamoramento», então eu converto a minha vida, e sou acolhedor, e simpático, e humilde, e solidário, e conciliador. E tenho esperança, isto é, sou otimista, mesmo quando as dificuldades me invadem!
Temos que nos entusiasmar. Tenho que me «enTEOSiasmar», isto é “trazer Deus dentro de mim”. E quando O transporto dentro de mim, Ele transforma-me, Ele transfigura-me, Ele eclode em mim e projeta-se nos outros. E converte-nos. E humaniza esta sociedade em crise profunda, divinizando-a. Tudo isto parece “poesia”… mas quem não tiver esta convicção, pouco convencerá…
Anda por aí um cartaz publicitário de uma conhecida marca de automóveis que diz somente isto: «Conheça-o na intimidade». Que lindo mote para este Ano da Fé que se aproxima! Que extraordinário lema para conduzirmos, em segurança, os anos (de Fé) do resto das nossas vidas!

por Jorge Cotovio


0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More